sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

ÓPERA-BUFA.

Releio-me. Ao me reler, enrubesço.
Já escrevi muito além do que deveria ousar.

Revelo segredos e desvendo enigmas 
 Que lá no fundo deveriam repousar sem romper a linha censora

Que o velho sábio de barba, sagaz chaveiro
Do seu divã esticou.
   
Talvez por isso esse oco solene em minha alma que já tudo desvendou
Mas se revelou incapaz de seguir ordens.

A vida não passou de uma ópera-bufa 
Com risadas sarcásticas aclamada.

Logo a cortina de veludo vermelho caiu
E a luz se apagou.


Tela de Giovanni Paolo Pannini - (1691/1765)
Pintor e Arquiteto Italiano.

Teresinha Oliveira.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

MAGO NOEL.

Nadar nua entre peixes
Nua de véus, nua da  vida
Meio índia, meio fada
Silente princesa das águas.
Moléculas e células mutantes
Ora terra, ora vento, ora ser que não há.

Andar nua por aí
Qualquer aí ou acolá.
Mágica nudez entrelaçada
Nos quarenta graus de dezembro
Era tudo o que eu queria
De presente de Natal.


Tela de  James C. Christensen - (1942)
Pintor Americano.

Teresinha Oliveira.

CARTAS.

Tela de William Maw Egley - (1826/1916)
Pintor Britânico.


Todas as cartas que não escrevi
E as que escrevi e rasguei
E as que não enviei apesar de escritas
E outras que joguei fora sem pestanejar
Por preguiça de caminhar aos Correios
Por inexistência de pombos
Ou por terem se esgotado no tempo...

Todas elas
Guardo comigo.
Se não na memória
Na emoção.

Tela de Georgios Iakovidis - (1853/1932)
Pintor Grego.

Teresinha Oliveira.

CADÊ MEUS ÓCULOS ?

Existem coisas irritantes nessa vida.
Pessoas, manias, barulhos, cheiros, bichos, densidades e proporções. 
Pequenas e grandes iras das quais não se escapa por mais que delas fujamos. Estranhamos dentro de nós mesmos o ímpeto de assassinar a vizinha que coloca um rock metálico para tocar às 7 da manhã, e se crendo a personificação tropical da Madona, ainda esgarniça a voz ao cantá-lo com suas cordas granuladas.
Das pessoas que falam cuspindo é fácil se livrar, basta conservar segura distância, desde que a cuspideira não una à sua nuvem de saliva o jeito de falar pertinho, mais pertinho... Você se afastando, mais pertinho...
Tem gente que cutuca, que está sempre doendo, que conta mentiras deslavadas, que é megalomaníaca, que dá conselhos que você nunca pediu ou vai seguir, que fala alto ou baixo demais, que conversa com os olhos fechados, que come com a boca aberta, que conta segredos alheios, que fala da novela como se fosse notícia da primeira página de jornal, que revela o final do livro que você está lendo ou do filme que pretendia assistir no dia seguinte, que tem chulé, mau hálito e caspa, que fala mal de Deus e do mundo, que vive infeliz, que nunca ri da sua piada, que usa perfume da Avon. Tanto mais...
Porém nós, numa autoanálise nua e crua devemos confessar nossas mazelas, porque afinal ninguém nessa vida é perfeito, e com certeza incomodamos os outros na mesma proporção em que nos atazanam o juízo. Damos esse troco não por vingança, mas para que a convivência social seja harmoniosa e possível.
Sei que meu despertar cantante, e psicanaliticamente analisável pelo tamanho do bom-humor, agride àqueles que acordam sob o mesmo teto já atrasados e com a cabeça cheia de tarefas e preocupações.
Para quem não fuma, a fumaça dos meus cigarros deve ser um fator de irritação quase incontrolável, mas mantenho os cinzeiros limpos e as janelas abertas como a pedir desculpas.
Acredito que o pior e o mais enervante, até porque o é para mim mesma, seja a caça aos óculos. Só não pegunto à cachorra se não os viu por aí.
Já tentei de tudo para solucionar o problema, até numa ótica popular com preços inacreditavelmente baixos, creiam, comprei cinco iguais. Com minha metódica personalidade defini os cantos para cada um. Mas qual... Continuam desaparecendo como par de meia e brinco.
Alguém viu meu óculos? Alguém viu? Alguém viu?
Vi sim, estão na sua cabeça.


Tela de Paul Albert Guillaume - (1873/1942)
Pintor Francês.

Terê Oliva      


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

É MUITO BOM SER FEIA

Lanço agora, na frente do espelho do quarto e com o álbum de fotografias sobre a cama, uma nova e estranha filosofia: é muito bom ser feia.
As bonitas assim o nascem, em tez, cabelos e olhos. Disso estão certas desde que a consciência desperta. Crescem tendo a confirmação do fato. Nos encontros familiares sempre escutam, desde o doloroso apertão nas bochechas até a entrega do diploma final: - "Nossa! Cada vez mais bonita". Outra tia velha arremata: - "Desde pequenininha foi muito bonita."
Os pais e avós, caso tenham sobrevivido ao amadurecimento da belezura, agradecem aos elogios, como se fossem seus gens os diretamente responsáveis pelo fato.
O tempo, cruel servidor da natureza, corre mais rápido que as passadas da beleza, e ela lá atrás vai ficando. 
Em alguns momentos mágicos quase o alcança, e revive seu carisma num brilho de olhar, num longo vestido de festa, numa alegria que a todos cerca e contagia.
Porém o ilusório não sustenta o real. O reflexo no espelho conta a verdade, embora dentro da sua cabeça sempre seja a outra que existe. Ninguém envelhece dentro de si mesma, ou tem rugas ou dor nas juntas ou dentes fora do prumo ou cabelos sem viço...
A tristeza é que quando tão bonitas e jovens, não acreditam que o são, e desperdiçam esse momento, ou dele não usufruem como bem poderiam.
As feias são as engraçadinhas da família. Todos mantêm a esperança de que, a cada aniversário ela enfeite a si mesma. Mas qual...
Existem algumas para quem, nem mesmo as mais piedosas almas conseguem mentir. Se eram engraçadinhas, agora são bonitinhas.
Como a vida é mestre em ironias, as feiosa, muitas e muitas vezes, são as mais felizes dentre tantas.
Casam-se com sujeitos bonitões que flagrantemente as amam, ficam ricas, constroem carreiras de sucesso, viajam mundo afora, dirigem carros importados e, nas festas de reencontro da escola, exibem os filhos lindos, educados, sem aparelho nos dentes e que nem de psicóloga precisam.
Tenho ímpetos de matar novamente o Vinícius, ao recordar o poetinha dizendo: "Beleza é Fundamental".
Para quê, pergunto eu.


Desenho de Evgenia Sarkisian Saré - (1959)
Pintora e Desenhista Armena 
"Ballerine"

Terê Oliva
   
  

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

QUEM JÁ LEU GANHA UM DOCE...

"Um jovem casal, Jesse e Madeleine, parecem destinados à felicidade na aristocrática mansão em que vão morar na Quinta Avenida.
Mas durante as décadas mais tumultuadas deste século, o casamento dos Slayter sofre um abalo irreversível."

"O Anel que tu me deste" - Leona Blair - Editora Record.
Título Original- "With this Ring" - (1984) 

Pela introdução pode-se perceber o tipo de literatura que o livro promete.
Isso me faz pensar muito, inclusive no que vou classificar de 'Memórias Literárias'.
Pretensão minha, bem sei. Mas se não sou uma leitora tão voraz quanto o famoso lavrador que saiu nos jornais, por viver numa cidadezinha sem luz elétrica e já ter lido quatro mil livros à luz de velas, minhas leituras me dão, pelo menos, experiência para analisar os livros que carrego na memória.
"O Anel que tu me deste"- (♫ Era vidro  e se quebrou ♪) pertence a uma enorme gama de livros descartáveis.
Após dois anos você jamais lembrar-se-á de tê-lo lido, e mesmo olhando sua capa e relendo sua orelha nada lhe piscará na memória.
Culpava e condenava sem piedade a pequenez do meu cérebro de formiga por esquecer de tantos, mas agora concluí que o problema não é meu, é deles.
O valor de cada livro se mede na mesma proporção em que se mescla ao espírito do leitor.
Se com meio século de vida sou capaz de recordar-me dos livros que li aos 14, 15 anos, citando inclusive nomes de personagens e suas respectivas sagas, como explicar o esquecimento de outros em apenas setecentos dias?
Simplesmente porque nada restou das páginas lidas.
A sensação emocional e memorial é a mesma daqueles que assistem novelas na televisão. Desafio qualquer um a citar , em sequência, as últimas cinco que foram transmitidas. Não há o que se guardar na cachola ou na alma. Fiapos de palha que o vento leva.
"O Anel", propriamente, até faria juz a um relâmpago de lembrança devido ao ridículo do título, mas nem isso... Só após uma folheada no mesmo e a releitura de alguns parágrafos esparsos foi possível reconhecê-lo, e assim mesmo, lá nos cantos da memória.
Mas devo confessar que, se não há densidade como nos grandes romances, ou valor literário como  nos competentes escritores, sempre resta o prazer de ler.
Este "Anel", apesar de vidro rachado, é ótima distração para um dia de chuva ou noite insône.
Há um contraponto nesse raciocínio, o reverso da medalha, muitas das grandes obras não são prazerosas. Como "Os Trabalhadores do Mar" do Victor Hugo, ou "O Vermelho e o Negro" do Stendhal.
Porém, cada página de Victor Hugo, apesar do dicionário sempre à mão, é uma lição da arte de escrever. Seu mar uma pintura, e o amor rouba a força das vagas para dominar a longa história.
Stendhal com a complexidade psicológica de seus personagens nos envolve, indefesos, em sua trama magnífica.
Porém, ler "Quo Vadis" é o mesmo que ter aula de filosofia com uma professora em plena crise de TPM. Não há paixão que resista.
Logo, concluo com meus botões, cada obra tem valor em si mesma. Algumas nos despertam um prazer leve de ler, vontade de se jogar na cama com seu companheiro de seiscentas páginas e saboreá-lo como um doce.
Outras, em estilo diverso nos agradam. Nos roubam o doce da boca, mas agitam nossas ideias e nos deliciam a pensar.
Raro é aquele que, sem constrangimento ou rubor, se dá as costas para nunca mais.


Tela de Edmund Charles Tarbell - (1862/1938)
Pintor Americano.
Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.






JORNAL VELHO

Domingo! Sento-me sozinha à mesa da cozinha e tomo meu café. Forte, queimando a língua  para acordar de verdade e começar o dia, que nem tem por onde começar porque domingo é dia mole, sem objetivo de ser além do que realmente é: um dia de domingo.
Pego uma folha de jornal perdida e a princípio nem olho a data, pois nada quero além da companhia para o pão com manteiga.
Essa mania de ficar atualizada com as coisas do mundo há muito me abandonou. Já sei mais do que devo e quero, através dos retalhos de notícias que ouço aqui e ali, nos comentários com os amigos, no diz-que-diz das ruas.
Crimes então nem se fala... Ou se fala, e muito. Todos advogam, condenam e inocentam como se juízes fossem. A tragédia alheia nos seduz, e tamanha morbidez age como antídoto contra o medo dela nos pegar na próxima esquina.
Começo a ler o jornal no mesmo ritmo em que mordo o pão. Sem pressas.
Jornal é palavra escrita e palavra escrita é coisa séria, que gruda e vai para dentro da nossa cabeça. O cérebro,ansioso, a agarra com suas mãos e guarda para analisar depois.
O jornal é de sábado, dia 6, agosto. Dane-se! Ainda resta metade do pão para ser comido. Muitos dias não farão diferença nas poucas mordidas que restam.
O frio vai continuar. Efeito estufa e mais blá-blá-blá. Nada disso me interessa pois quero mesmo é sol. Cadê o sol? Já se viu carioca preocupado com efeito estufa? Protetor solar e óculos escuros acredita imunizar. Não vale é chover...
Meu pensamento vai além do papel para outros caminhos. Me calçou, vestiu e arrumou malas para seguir. Se não tiver trava e eu determinação, sigo com ele, imaginando o que não leio. Mas quero ficar por aqui, com meu derradeiro naco de pão e o café, já frio.
Na página 41 as mulheres chinesas choram. Nas montanhas de Longhui os bebes desaparecem depois que são levados por funcionários do governo. Especula-se que são vendidos para adoção por casais estrangeiros.
Atravessando fronteiras e águas de cafeína, que agora economizo para até o final do jornal durar, vou para a Somália onde criancinhas não desaparecem no ar, mas nos últimos três meses, segundo a Unicef, 29 mil delas morreram desnutridas.
Em Badbaado, lugar que só agora, num sábado velho soube existir, soldados do governo roubam os alimentos e atiram nos refugiados que tentam escapar da pior seca dos últimos sessenta anos. E da guerra civil, sei lá de onde isso fica no mapa-mundi, que se arrasta desde 1991.
Eu me pergunto: guerrear pelo quê? Que herança maldita ainda seduz esses seres irracionais?
Bebo o derradeiro gole de café e acendo um cigarro.
Jogo o jornal no lixo para me livrar das suas mazelas, sem ainda perceber que as palavras escritas grudaram umas nas outras e foram para dentro de mim.
É tarde demais para passar incólume por este domingo.


Tela de Helen M. Turner - (1858/1958)
Pintora Americana.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com
  
 



sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O SOL DAS DÚVIDAS

Acordo passeando por ruelas medievais, como algumas que ainda hoje sobrevivem
Em terras que nunca pisei.
Sem bandeiras e com as línguas trocando consoantes, aventuro-me entre elas. 
No relógio de onde escoam algarismos romanos, passado e futuro ardem.
Nesse caos de percepção me perco de mim, e porque mim não conjuga verbo, preciso ser eu para mover a ação devida.
Mesmo sem rastro, caminho  entre os vãos dessa jornada
Com um pensador desconhecido que me faz companhia. 
Sinto na carne o sol das dúvidas e na alma o espanto.
Como sempre me foi fecunda a imaginação, num fiapo de realidade
Toco na face do filósofo louco que se embriagou com perguntas sem resposta 
Abandonou ele suas porções de tentativas para se agarrar nos menores grãos da vida
Tal pequenez, tão tamanha que ninguém compreende
Afirma em suas espirais que o tempo e o espaço não existem.
Somente o homem o mede e o pisa sob as estrelas que dele riem.
Ao se ver nesses giros enlaçado, o pensador renasceu como um mago de sua própria ilogicidade. 
Não menos louco ou menos sábio, porém descabelado com sua lupa cega
Criou hipóteses, mas sem desvendar do universo tal enigma.
Eu que prossigo minha andança, em tudo penso e analiso.
Perco-me nos séculos dentro do meu próprio cérebro
 Já nem sei o que é verdade, ou se a verdade de verdade existe.
Sento-me na cama como despertando de um sonho... 
Prendo os cabelos e sacudo o pó de minhas conclusões irrelevantes.
Nessa nuvem de poeira, beijo na boca o profeta dos axiomas impossíveis
Que dentro de um velho livro sem capa encontrei. 


Tela de Alfred Augustus Glendening - (1861/1907)
Pintor Britânico.

Teresinha Oliveira
Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

MOINHOS DE VENTO

Felicidade é uma deusa velha e irônica que
Em suas vestes a utopia esconde
Entre seus véus dança
Frente àqueles que com esperança para ela sorriem.

Moinhos cria com luzes e sombras
Sela cavalos e afia lanças
Faz da terra brotar cavaleiros e donzelas
Ouro, palácios e sonhos
Beijos de amor verdadeiro.
O possível de uma fonte faz jorrar
Como água fresca do regato oculto
Na rocha por espinhal cercada.

Sua mão dissimulada assina
O autorretrato de todos.
Com tintas de aquarela os tinge
Antes de amassá-los e esquecê-los
No fundo da gaveta dos dias.

No afã da normalidade
Dela os seres se acercam
E oferendas colocam a seus pés.
Frágil anseio de suportar a vida
Sem se estilhaçar nas pás do moinho.


Tela de Alberto Godoy - (1960)
Pintor Cubano Contemporâneo

Terê Oliva



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PECADOS CAPITAIS.

Já quis ser freira
Já quis ser puta
 Já quis ser santa
Já quis ser bandida.

Já pensei cometer os pecados
Todos os sete
Mas alguns me escapam.

Já pensei deles me livrar
Todos os sete
Mas alguns me agarram.

Um deles sempre fica e ronda
Rondando cria carne e sal.

O sal traz o barco
Pesado de contradições
Sem cais onde aportar.


Tela de Enrico Coleman - (1846/1911)
Pintor Italiano.

Terê Oliva