quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O PÓ DE DOMINGO


Como o pó há dias espalha-se incólume por onde quer que olhe, muni-me de panos e paciência para livrar-me dele e do incômodo que tal me dá.
Limpa aqui, limpa acolá...
Quase espirro mas persevero.
Nessa sofreguidão sem sentido abro gavetas esquecidas, aquelas que quase nunca se abre, por não haver nada útil dentro na rotina dos usos.
Logo assim encontro o Tarô de Marseille que mal lembrava possuir, e ler, durante uma fase pseudoesotérica em que mergulhei, por motivos tantos que não cabe aqui contar.
Minha cabeça analítica, até mesmo fálica ao observar as coisas todas, endoideceu ao cheirar incensos, ao viajar nas luzes dos cristais.
Como loucura muitas vezes é como dor de dente, dá e passa, assim também comigo se deu.
Porém o Tarô, cada arcano uma obra de arte a se admitar e pensar, guardei.
Guardei num saco preto como foi-me ensinado a fazer.
No escuro ele permanece por anos, e cabe a mim decidir agora trazê-lo à luz ou não.
Como ele conversa comigo e bem entendo o recado que sussurra aos meus ouvidos, talvez me poupe de abri-lo.
Não temo a Morte, mas o Enforcado.
Não temo a Lua, mas a Papisa.
Sem muito oscilar, entre o pó e meu destino, escolho o pó
Que é mais fácil de limpar.


Tela de Elin Danielson Gambogi - 1861/1919 - Finlândia.
Terê Oliva

 · 



BRINCO DE PRINCESA



Como sempre deixo para depois de amanhã o que poderia fazer hoje, desisti de pegar panos e vassouras e limpar a casa. A firme decisão de fazê-lo que há dias me acorda cedo, amoleceu à visão do jardim.
Ele enlouqueceu. Mais do que eu às vezes me permito entre imaginação e ideias. Ele não, surtou no real, em verde sem controle. Pouco posso reclamar dessa explosão de vida já que a culpa é minha e dessas mãos de seiva que fazem qualquer raiz brotar. 
Caroço de fruta infalivelmente vira pomar, galho arbusto.
Plantei árvores por onde passei e elas permanecem imensas, muitas vezes floridas a me despertar orgulho de mãe.
Bicho não me atrai, a não ser os dogs alemães, gigantes bobalhões que me cercam. Um, dois, três... Chegam e ficam até a hora de partir para 'o céu dos cachorrinhos', eufemismo que atenua a tristeza das crianças da casa.
A botânica, desde a escola me encantou com sua corte de belíssimos nobres. Se jamais entendi direito como se dá a fotossíntese, essa coisa de comer carbono, beber luz e espirrar oxigênio, não procurei saber. Nem como floriram hortênsias rosas e azuis no mesmo solo, ou como um pé de maracujá apareceu a me dar frutos sem convite.
Naturalmente, das plantas me cerquei vida afora, e planejar jardins e deles cuidar foi tão instintivo quanto criar os filhos. 
Mas depois das chuvas de primavera, o jardim, território de muitas, declarou guerra contra mim, pobre jardineira sem força para controlar as delicadas icsórias, que num piscar de olhos tornaram-se arbustos com  grossos troncos.
Os antúrios brancos, que trouxe há mais de uma década dos canteiros de minha mãe, lembrança, espalham-se à vontade como se a terra fosse somente deles.
O brinco de princesa, florzinha que permanece miúda
por toda existência, ganhou ares de rainha ao fincar pés no chão maior. Agora, sem escrúpulos invade o telhado, os muros, até a casa do vizinho que felizmente não reclama, talvez pela beleza das flores.
Os camarões, que sempre cultivo por amor aos beija-flores, irresistível atração, crescem como num recanto de floresta. Livres, ilógicos.
A enorme suculenta que tantos confundem com uma bromélia, desavergonhada como ela só, começou a parir filhos e mais filhos sem pai. No início replantei os pequeninos, mesmo porque só quem joga recém-nascido no lixo  é mãe humana.
Porém a prole está sem controle, gerações e mais gerações, cada vez maiores. Depois de tataravó vem o que? Nem os orientais conseguiriam acompanhar essa ascen-descendência.
É nisso que dá fazer da minhoca seu bicho mais querido.
Luvas? Claro que não. Com elas a terra não sente seu calor, seu tato, identidade. Terra é coisa viva, embora eu saiba que não.
Eu aqui a escrever e o jardim aproveitando-se da minha distração para esbanjar raízes por todo lado.
É hora. Já que mandei a casa às favas, necessário se faz justificar tanta maluquice. 
Vestirei uma roupa velha, a mais velha para depois jogar fora, e munida de pá e facão irei ao encontro do meu dom, aquele que faz viver o que nas mãos de outro morre.

"A July Morning" - Daniel Rigway  Knight - 1839/1924 - USA
Terê Oliva 



sábado, 6 de outubro de 2018

GRATIDÃO


Há um mistério na gratidão que vai além de si mesma
Se é comum a todos e cada qual o decifra à sua maneira é impossível saber.
Um sentimento raro, que corre ligeiro e atrás da primeira árvore se esconde
Antes mesmo de se contar até 10
Na celeridade da vida mal tem tempo de respirar.
Sem o viço da alegria, os batimentos cardíacos dos romances
A gratidão em sua quietude, muitas vezes, atravessa os espíritos despercebida.

Em mim provoca uma emoção delicada, um bem-querer sem alardes
Àqueles que me amaram sem o meu consentimento
Amor espontâneo, e por tal, mais precioso que outros tantos
Que se foram aos ventos sem deixar marca.

Um sorriso involuntário, que só percebo quando o desfaço
Sempre surge ante a lembrança das pessoas que através de suas dádivas
Suavizaram meus passos
Se não agradeço, nem lhes conto dos meus carinhos, não julguem por esquecimento
É apenas meu sem jeito ao lidar com esse tanto
Timidez que lá dentro de mim carrego sem que ninguém lhe saiba o peso.

'Flower Makers' (1896) - Samuel Melton Fisher - 1859/1939
Pintor Britânico.
Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br





quarta-feira, 12 de setembro de 2018

TRISTE ENCONTRO

 
Quem tem mania de escrever não precisa de motivo, sai escrevendo onde possível for, para ninguém ler Alguém precisa fazê-lo? O prazer da leitura ao réles escrevinhador retorna e a si mesmo basta.
O único mistério que se revela insondável desses rompantes é o encontro com velhos papéis, quando a sua letra corre por linhas e mais linhas e a dúvida surge. Eu escrevi ? Copiei? De quem? Está tão bonito... Essa angústia tem jeito do Pessoa, essa leveza do Quintana, essa quase prece da Adélia Prado.
Esse texto deve ser meu. Está bom demais, não deve ser. Mas você não deixaria no papel sem autor. Logo você? Duvido. Mesmo que fosse um anônimo. Por que não? Achou bonito, sem dono, copiou e guardou. Feliz ou infelizmente reencontrou.
Danou-se... Se for meu, perdi.
Porém há queridas descobertas, apesar de tristes, muito tristes, como a escrita a lápis na primeira página arrancada de um livro que só agora, após tantos anos dentro de um caderno encontrei.
* Comprado em um jornaleiro da Praça Saens Pena pelo preço de um real - 4 pães ou meio maço de cigarros - num dia de plantão no Hospital Gaffree Guinle, onde meu pai está morrendo. (Dez/2004).

Edmund Blair Leighton (1853-1922)
Terê Oliva

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

PAI

PAI

Meu pai era leve feito passarinho, como tal, voou para longe sem deixar rastro de tristeza, só girou a cabeça, escolheu novo jardim e foi-se. 
Tento, muitas vezes, capturá-lo entre as linhas de grafite dos seus desenhos, no eco de suas gargalhadas, nas paredes do seu bom-humor de sol a sol, na lembrança de suas mãos grandes e desajeitadas ao limpar camarões para o almoço de domingo. 
Tudo vão, tudo inútil. Não é aí que ele está. Não totalmente.
Como também não está nos filmes que assisto e desejo compartilhar com ele, amante do cinema desde molecote, Olivia de Havilland sua musa. Olivia e minha mãe, sua Linda. 

Difícil encontrar essas nuances de amor na rotina dos destinos, amor que mais dá que exige, que mais cresce que míngua ao passar do tempo.
Assim também se deu comigo. Se ensinou-me os algarismos romanos, a ver as horas num grande relógio de papelão que criou com ponteiros em art deco, a decorar a tabuada, 
 as capitais do mundo e coletivos de bichos diversos, a andar de bicicleta, a pescar... não é ainda aí que ele está.
Só o encontro muito depois, sentado à mesa da cozinha, esperando-me para rirmos da vida. Nada de política, de jornais sangrentos, de fome mundo afora. A realidade guardávamos para outra gente.
Ali era o nosso botequim, café ou cerveja, cigarros, só meus já que ele abdicara dos seus cinco maços diários há muito, tira-gostos que ele sempre descobria em latas de data quase vencida nos armários da cozinha. Quando nada dava certo fritávamos batatas ou cozíamos ovos.
Se ríamos muito e provocávamos ciúmes em minha mãe que não entendia o porquê de tanta alegria, paciência...
É nesse cenário que encontro e reencontro meu pai.
É aí, para mim, que ele sempre está.


Terê Oliva

domingo, 17 de junho de 2018

NEM SEMPRE É JOÃO E MARIA



O amor, ave sem rumo marcado
Gaivota que atravessa o ar sobre o mar dos destinos
Voa livre em busca de pouso, areia ou pedra
Barco de pescador, vela de caravela
Leito de espuma.
Com sorte desse território se apodera
Nele é bem-vindo.

Na alma do outro repousa 
Abraça e dela não arreda pé
Porque pés amor de verdade não precisa
Basta olho no silêncio do encontro
Sem face, sem gênero, sem cor.
Se a muitos estranheza causa
A outros tantos mais amor suscita.

Nem sempre é João e Maria
Nem sempre é Maria e José
Às vezes é José e João
Às vezes é Maria e Maria.

Minúcias que no todo amoroso se perde
Dissolvem-se como gotas de chuva ligeira
Entre as tiras de um arco-íris
Para que o amor seja realmente o que parece ser 
E não haja nada a compreender.

Tela de Ramón Gutiérrez (1966) - Pintor espanhol contemporâneo.
Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

quinta-feira, 3 de maio de 2018

NOS MOSTEIROS DO FUTURO


Imagino, nesse voar por aí que me dá, sempre ao virar a última página de um livro e fechá-lo com essa sensação de adeus numa estação de trem, se daqui a vinte anos alguém o comprará em um sebo no centro da cidade.
Não há onde, ou como, ou quem guardar tantos livros meus nos modernos poucos metros quadrados do lar doce lar de cada um. Às vezes nem eu.
Quando me for sem volta, meus livros surrados sairão do caminho da minha gente. Creio que serão encaixotados com carinho para o destino futuro, mas mesmo assim terão que partir. Talvez sejam doados para uma biblioteca pública, distribuídos para quem os quiser ler.
Não sei bem explicar minhas visões, mas sempre os imagino através da poeira  num sebo das históricas ruas da cidade. Loja de pai para filho para neto, com piso de azulejos rachados, estantes de madeira empenada, cheiros, fungos, espirros, sem água onde lavar as mãos imundas de pega esse, lê um trecho daquele, esse não porque tem dedicatória do escritor e deve ser caro, poesia ou ficção?
O avesso das modernas livrarias com direito a poltrona, ar condicionado e cafezinho. Conforto sem romantismo ou prazer de garimpo.
Nisso tudo penso ao olhar a capa do "Um Cântico para Leibowitz" - Walter Miller Jr. Coloco-o numa pilha de ofertas do meu sebo ilusório. Leve três pague dois.
Livro velho, bem baratinho, cultura de tostão.
Sabedoria de autor pensativo que se angustia e questiona o caminho da humanidade que se perdeu de si mesma, e sem ter mais para onde ir, escondeu-se na biblioteca de um mosteiro dos séculos futuros.
Bom livro. Pode comprar pois vale a pena ser lido. Aliás, ler sempre é uma boa decisão. Até as tolices, se nada ensinam, distraem, e se por nada disso, servem para discordar do escritor, se arrepender de tê-lo comprado, odiar o final, reclamar do preço e do tempo gasto.
Que mais direi a esse amigo desconhecido que correrá os olhos e as ideias pelas páginas que já percorri? 
É tarde, noite quase madrugada no calor de outono. Estou cansada.
Compra o livro que conto o resto amanhã.

Tela de Caspar David Friedrich - 1774/1840 - Pintor Alemão
"Mosteiro Ruína Eldena" - Óleo sobre tela.
Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com



quarta-feira, 18 de abril de 2018

FRIDA & VINCENT & LYLI


Todo amante, seja qual for o objeto de seu amor, tem no fundo o desejo de justificar sua escolha. 
Por isso muitas vezes, ouço com paciência de Jó algum amigo discursar por horas sobre os filmes do Bergman, e omito que assisti 'Gritos e Sussurros' quatro vezes por teimosia, e saí do cinema sem descobrir o porquê de tanto. Também não confesso, rubra de vergonha, que até a pouco tempo imaginava Truffaut como um doce francês.
Picasso é outra história. É difícil se indispor com uma unanimidade mundial,  mas para mim não tem fase rosa, azul, cubos, quadrados, trapézios...Nada. Nenhuma geometria vale tanto ufanismo. Além do mais, era inimigo do Modigliani e o ridicularizava sempre que possível. Se é inimigo do Modigliani é inimigo meu.
Comecei tudo isso para contar como a sensibilidade da Lyli, uma menininha que gosta de arte e suas histórias, facilmente resolve tais questões.
Se já chorou muito com a morte dos peixinhos que a Clarice Lispector esqueceu de alimentar em um de seus contos para crianças, imaginem a tristeza ao ler os livros ilustrados com a biografia da Frida e do Van Gogh.
Pois é, mãe que deseja cercar a educação por todos os lados faz dessas tolices.  Não poderia ser um pintor bem sucedido, feliz no amor e fora dele? Alto, rico, bonito, inteligente, bem humorado...
Logo a Frida Kahlo e o Van Gogh ? Não há como ficar incólume ante às aflições de ambos .
O estranhamento começou logo nas primeiras páginas.
- "Mas ela nunca mais ficou boa? Sentia muita dor?" 
As telas da Frida não comportam nossos padrões de alívio para as dores infantis, 'vou dar um beijinho que passa'. O sofrimento está estampado em cada pincelada.
Van Gogh foi um drama ainda maior. -"Não vendeu nem um quadro? Nem unzinho? Cortou a orelha?"
Inconformada com tudo isso e após muito pensar, surgiu uma bela manhã quando ninguém mais lembrava da sua tristeza, com a solução mágica. 
"Mãe, podemos mudar o final?"
"Claro, você pode imaginar o que quiser. Que final você gostaria que eles tivessem?"
"Em primeiro lugar o Van Gogh. Ele pintou muitos quadros,  vendeu todos eles e ficou rico. Nunca cortou a orelha nem foi parar no hospício."
"Ok, e a Frida?"
"Ela foi para o hospital e fez uma operação, usou muletas por um tempo e  depois ficou boa."
"Está esquecendo dos peixinhos que morreram de fome?"
"Não, mãe. Mas eles não morreram de fome..."
-"Não?"
"Não. Morreram porque comeram demais..."
Com uma gargalhada encerrou a conversa e saiu a correr pela casa.

"Frida & Vincent" - Art Print by Jermaine Rogers
Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com 



terça-feira, 17 de abril de 2018

O ÚLTIMO COMPRIMIDO



Eleições chegando e os filhos de uma amiga, rapagões que nada mais fazem na vida além de quase estudar, decidem engrossar a mesada com alguns trocados. Nada mais justo e louvável.
Logo o pai, que com assuntos políticos sempre esteve envolvido, conectou um colega de trabalho que buscava jovens para distribuir seus 'santinhos'. 
O sonho de ser vereador não lhe poupava despesas. No retângulo de papel  figurava seu rosto, nome e número. A sigla do partido permanecia oculta, isso evitava perguntas constrangedoras.
Convencer os eleitores, milhões de cariocas depauperados, que era o mais indicado para ocupar o cargo não era difícil, bastava prometer com dedos cruzados, saúde, educação e segurança. Sua boa aparência e baba demagógica fariam o resto. Se houvesse sobra da verba de campanha, pensava em transformá-la em feijão dos pobres do morro vizinho à casa da sogra, talvez até em alguns brinquedos da Rua da Alfândega para as criancinhas. Um novo papai noel do subúrbio. 
Quando o colega ligou perguntando se havia vaga para os filhos não petanejou. 
Contratou os guris a preço de banana e indicou o local da propaganda enganosa. Os irmãos, felizes com o dinheiro extra por um trabalho tão fácil, saíram de manhãzinha com a pressa do entusiasmo e o café mal tomado.
Saíram e não voltaram. Três horas, quatro, cinco... Cadê esses moleques?
O pai, responsável sentindo-se pelo que pudesse ter acontecido, ligava sem parar. Como jovem não atende celular quando não interessa, mais preocupado ficava a cada minuto de silêncio. Será que haviam sido assaltados e perdido os mesmos?
Nesse estado de angústia pegou o carro e partiu para Vila Isabel atrás da dupla. A mãe, não menos confusa, de carona foi junto. 
Lá chegando, cisca daqui, cisca dali, entrou numa comunidade por engano. Quando tentou voltar aos caminhos conhecidos, teve o carro interceptado por um bandido armado com fuzil que se postou bem no meio da rua impedindo a passagem. 
Olhando de forma intimidadora para o pai, que tremia mais que vara verde, ordenou : 'Dá ré' ! 
O pai: - 'Calma, vou explicar para o Senhor' ...
- 'Dá ré' !!! Repete o dono do fuzil mais alto e irritadiço.
O Senhor bandido não quis conversa.
Sem opção outra a não ser obedecer, o pai engata marcha à ré e novamente entra na comunidade. A mãe ante os acontecimentos, sabe-se lá por que razão imagina o fim, queimada num 'forno microondas' no alto do morro, e só não deságua em lágrimas por medo de mais aborrecer o marginal.
Nesse estado de coisas o pai começa a decisiva negociação, questão de vida ou morte- "O Senhor me desculpe, entrei na rua errada." - "Vim buscar meus filhos, blá-blá-blá..."
Após alguns minutos onde o casal viu a própria vida pipocar em flashes de trás para frente, de frente para trás, receberam nova ordem - "Vãobora" !
Ao chegarem na avenida principal do bairro logo encontraram os garotos, tomando sorvete tranquilamente numa lanchonete de esquina. Os panfletos ainda transbordavam das mochilas. Não tiveram forças nem para brigar.
O pai, corado e respirando com dificuldade, vira-se para a mulher e pede :- "Dê-me um dos seus comprimidos para pressão, acho que a minha subiu."
- "Meu querido, acabei de tomar o último." 

Tela de Candido Portinari - 1903/1962 - Pintor Brasileiro (São Paulo)

Terê Oliva
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quarta-feira, 4 de abril de 2018

QUANDO O IMPOSSÍVEL NÃO ACONTECE

O impossível caminha à frente, deixando sulcos no lamaçal de enganos
Da mulher que repousa à beira d'água onde pé não alcança fundo
Agora sem outro percurso além do próprio desatino
Que pouco traz mas nada exige.

Ilha em si mesma, rabisca na areia perguntas engasgadas no tempo
E espera, em fio de nervo e aço. 
 Vez ou outra, entre as pedras da inutilidade surgem respostas que nem explicam nem convencem.

O possível que antes satisfazia, ri com escárnio ao desfiar seu novelo de equívocos
Enquanto mira com olhos rasos a patética criatura.

Febrilmente, ideias de lupa, intenta o sentido oculto das coisas
Das metáforas misteriosas que em poesia rimem sua busca.
Anseia diante da indiferença cósmica, refugiar-se na lucidez da própria síntese.

Porém, antes tarde do que nunca
Esbarra nos limites da paixão sem discernir causa e efeito.
Lógica, faz do indefinido seu remanso.

Assim fendida, assim íntegra, sendo sem ao menos ser
Teoria perfeita de si mesma
Recolhe as unhas de suas dúvidas nessa mandala de enigmas que é o amor.

Na penumbra de um sorriso íntimo
Que se espalha na face ao perceber sua fragmentada filosofia
Deita nas águas e deixa-se levar.

Tela de Anders Zom - 1860/1920 - Suécia.
Teresinha Oliveira
Terê Oliva
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