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terça-feira, 12 de março de 2013

MULHERES CARIOCAS ♀ MARIA JOSÉ


      A mãe gastou as mãos e suou todas as bicas que tinha no corpo ao lavar e passar roupa de madame. O pai, as mãos não tinha melhores, mas gastava de outro jeito, nos tijolos e cimento que as paredes não devolviam em sustento.    Apesar de tanta lida nesse destino estropiado, alegria não faltou quando, das páginas do Evangelho onde oravam a cada sábado sem faltar a nem unzinho, caiu depois de tanto ano esperado, uma menina com olhos d'água de rio, rio de águas verdes que nenhum dos dois sabia onde corria.
Tal milagre aconteceu num dia especial p'rá toda gente, um Dia de Natal.
Diante de tamanha graça, pensaram logo, mãe e família palpiteira, em dar-lhe o nome de Natalina. Já houvera uma, parente do interior que ninguém mais sabia paradeiro, se viva ou morta.
Tal distância e desprezo apagou a ideia mas fez outra brotar - Maria José! Disse o pai, com arrogância de chefe do clã que agora fundava. -Presépio também é Natal, muito mais que Papai Noel, que árvore, que neve... Quem aqui já viu neve? Quem?
Assim batizou-se a menina tão querida e esperada, a que tinha olhos d'água de rio e caíra do Evangelho num Dia de Natal.
Roupas eram lavadas e passadas, paredes se erguiam e os Natais, permaneciam magros. Somente Zezinha florescia forte e bonita, em meio a toda necessidade.   
 Cresceu sozinha porque irmão nunca chegara, cercada de miséria e sonho de grandeza. Cheia de primores, merecia outro destino. Pelo menos, nisso acreditava em seu coraçãozinho jovem e pé-rapado. 
Contra conselho de pai e mãe, andava pelas ruas bicando os paralelepípedos com salto alto de sandália nua, cabelos dançando ao gingado de seus quadris mulatos, boca com batom de puro sangue e unhas azuis que combinavam com a roupa justa de gosto duvidoso.
     -Cismou de ser moderna essa menina. Reclamava a mãe nas conversas com as amigas de tanque e igreja. 
-Nem ao pai, tão bom, obedece mais.- 
       Quer ser rica! Como, ainda não sabe. Desejo recém descoberto depois que tantos outros morreram sem chance ao menos de brotar. O jaleco
   branco, uniforme da escola, com nome no bolso bordado pela avó carinhosa, virou saia curta e salto de partir tornozelo em qualquer pedrinha de mau jeito pisada. Agora,sacolejante, mais parece borboleta sem ter onde pousar.
     Pega ônibus, quase todo fim de tarde, e ruma para o calçadão da praia em busca de estrangeiro que por ela se apaixone e, com aliança no dedo e passaporte carimbado, a leve para longe.
    Tudo isso sonha ao desfilar com Quinzinho, seu amigo de infância, por ela desde lá apaixonado. O diminutivo bem lhe cabe, pois mal lhe chega ao nariz. É ele companhia constante nos bailes e onde mais for, pagando as contas sem penar no bolso ou no coração.
     Maria José é algo mais, muito mais do que Quinzinho julga possível. Até no vestir lhe espanta para maior bem querer. Suas pernas expõe, mas proíbe o toque, para seu desespero que não se contenta com o prazer do olho.
 -Como serão seus mamilos?- Dorme ele toda noite a pensar... Prefere os seios pequenos, com pérolas rosadas a cintilar no cume, mas se os de Maria José forem fartos e enfeitados com castanhas do Natal que lhe inspirou o nome, nenhuma diferença faria. 
Passa horas filosofando sobre o amor, na quantidade do tanto que o enlouquecia. Assim apalermado, vive das graças que ela espalha, do brilho que dela vem.
     Quando ela sai a dançar, girando sorridente, seu peito dói torcido, dor de verdade, dessas que só os grandes amantes e poetas no sofrer conhecem. Como deusa a venera, como mulher a deseja. O sagrado e o profano dentro dele se completam e minguam sua língua de beijo negado numa  oração diária.
  Ela, sem nada disso saber de tão profundo, com Quinzinho a tiracolo, nas larguezas do calçadão do mar caminha à espera do destino que a cubra de ouro e outras sortes.
Como maré e lua, o tempo também enche e esvazia em seu inexorável correr; só Quinzinho não corre, porque amor de verdade não tem pressa e nas esquinas dos seus anseios vê o futuro que ninguém mais vê. Sentado, para de esperança não cansar, espera.
Espera o dia de radioso nascer em que a moça dos seus quereres crie juízo, escape das areias movediças, e pródiga volte ao lar em seus abraços para gastar as mãos nas águas enquanto ele ergue paredes no real.

Tela de Sarah Bishop - Acrílico em tela.
Pintora Australiana Contemporânea.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br


domingo, 22 de abril de 2012

DIA DO BEIJO II

James Jabusa Shannon - (1862/1923)
Pintor Americano.
O Beijo se comemora. 
O dia da festa, sem que ninguém ansiasse ou nele pensasse, chegou.

Miklos Barabas - (1810/1898)
Pintor Húngaro.


O Beijo ganhou um círculo vermelho no calendário sem se saber o porquê. 
Dia esdrúxulo, que um sujeito sem mais de útil a fazer, escolheu
No céu da boca
De mulher amante ou moça namorada. 

Edward Frederick Brewtnall - (1846/1902)
Pintor Britânico.


O Beijo decisivo
Do poeta, ou do político, ou do carinhoso compulsivo 
Escolheu um dia inteiro só para si. 
Daqui a pouco vira até feriado...
Entretanto ninguém viu, ao menos prestou atenção, na assinatura ilegível sob a romântica invencionice.

Francesco Hayez - (1791/1882)
Pintor Italiano.



O Beijo é caminho, logo depois da esquina do olhar.
Degustação de um amor que poderá vir a ser. 
Muitos lábios se perdem, ao passearem lépidos sem rumo 
Seguindo setas de emoções rasas.

Pietro Antonio Rotari - (1706/1762)
Pintor Italiano.


O beijo dos dóceis sonhadores, na deserção do desejo se oculta.
Na timidez se guarda, apesar de sedento.


Não os furtem daqueles que os anseiam e deles são dignos.
Daqueles que passam noites no claro da lua a imaginar 
O sabor da saliva e a textura dos lábios desse amor fugidio.


Walter Dendy Sadler - (1854/1923)
Pintor Inglês.


O beijo rejeitado calcifica. 
Torna-se sal de desdém que por anos azeda a boca 
Com o gosto do beijo sem uso.

O outro, que dele se esquivou, por já sabê-lo sem gozo ou motivo
Não encontra argumento que destrua a lógica louca do beijo insistente. 
Não ser amado é incompreensível, não ser beijado grave injúria.
John Everett Millais - (1829/1896)
Pintor Inglês.



O Beijo veste sua roupagem de gala nos grandes momentos.
Permanece inesquecível no cetim, no laço de fita que o prende
 Mesmo quando não passa de um frescor no quase.


Georgy Kurasov - (1958)
Pintor Russo Contemporâneo.


O Beijo pode ser traiçoeiro.
Serpentes e tesouras
 Armaram alçapões através dos séculos da humanidade.
Marias e Josés exibem sua marca na face
Sem aprender a lição.

Pio Ricci - (1850/1919)
Pintor Italiano.



O Beijo guardado a sete chaves
No amor que se esconde em areias movediças
Sofre as penas no seu gueto, sem tentar.


Nada se conclui ante o pânico da rejeição.
 Os beijos desperdiçados
 Com suas pegadas de arrependimento frio
Perseguirão o covarde pelas bocas fáceis
Com a memória da outra.

Michael Parkes - (1944)
Pintor Americano nascido na Espanha.
Contemporâneo.


O Beijo é pássaro de asas longas
 Que dá rasantes  no alvo para conhecer seu destino. 
Algumas vezes faz ninho.
Outras, se vai e nunca mais volta
Para o cio de plumas com o qual não comungou.
Alada fuga sem rastro, azeda saliva.


Nathan Brutsky - (1963)
Pintor Ucraniano Contemporâneo.



O beijo pedinte e maltrapilho 
Que sobe no carrossel das ofertas vazias
Por pouco não vira bocejo
Nas bocas contempladas. 


Ferdinand Waldmüller - (1793/1865)
Pintor Austríaco.


O beijo, talvez o definitivo, o que rende flor e fruto 
É aquele que se promete 
O que se guarda atrás de um sorriso de dúvida. 
Quando se dá, não satisfaz
Não um, nem dois, nem mil.
Por ter sabor agridoce de futuro
É melhor do que jamais se imaginou.

Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

MISTÉRIOS DA BIBLIOTECA

Os mistérios velados das bibliotecas
Vagam frente a olhos de muitas vigílias.

Olhos que gastam graus e buscam no silêncio rígido
Só interrompido pelo rascante som de uma página virada
Cochichos e tosses mínimas
As almas dos que ali vivem.
Escritores e personagens, encerrados através dos séculos no papel.

Deles sugar, leitor sem maiores dons
O arcabouço da sabedoria.
..............................

Tela de Carl Spitzweg - (1808/1885)
Pintor e Poeta Alemão.

Terê Oliva

segunda-feira, 16 de abril de 2012

SOLO DE SAXOFONE ♫

O solo do saxofone é um navio sem rota
Sem bússola que indique o norte
Na música de paixões primitivas.
Gentis notas dançam uma poesia negra
Que sem outro motivo a não ser o gume agudo
Seria doce ouvir.

Aquietam-se as horas escuras na casamata
Com cheiro de erva-doce e grama cortada
Da sala grande e vazia.
No abrir de asas de um bocejo largo
O copo de conhaque cai ao chão e rompe
O fecho do camafeu com rubis que sangram
No peito da mulher ávida
Que não chora em lágrimas, mas dissolve em som.
............................

Tela de Nathan Brutsky - (1963)
Pintor Ucraniano Contemporâneo.

Teresinha Oliveira.


domingo, 15 de abril de 2012

INDECIFRÁVEL ENIGMA.


Se um sábio, do tecido do amor
Um fiapo desfiou e entendeu
Dele não soube contar
Nem em versos
ou
Complexa filosofia.

Tela de Georgy Kurasov - (1958)
Pintor Russo Contemporâneo.

Teresinha Oliveira.

terça-feira, 10 de abril de 2012

CHAVES SOB O CAPACHO.

Desligo as luzes.
Giro a chave e escondo sob o capacho
Bem-Vindo pelos pés sujos quase extinto.
Quem sabe um dia volto...
Quem sabe não.

Com pressa, agitada pelo futuro das horas
Ao buscar ou fugir.
Correndo para mim, esquivando-me de ti
Desço ladeiras, queimo ruas e esquinas
Não vejo o que olho nem sinto o que rasga.

Inflo os pulmões negros, verifico a carga:
Livros, cigarros, o casaco de couro ante o frio que me persegue.
Louca maratona de uma louca mulher já sem flama
Sem outros pés a não ser estes.
Céleres passos para um onde possível, com cama e pão.



Nos riscos tortos da minha mão trêmula
-Pó de grafite que borra mas não liberta-
Procuro alguma saída do labirinto que tracei

Com amor e razão vesga.
Quem sabe um dia escapo... Quem sabe não.



Tela de Sergei Potiha - (1966)
Pintor Ucraniano Contemporâneo.



Teresinha Oliveira.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

IMPOSSÍVEL PAIXÃO

o amor que se desfez antes de chegar à cama.
Lembrança forte como ressaca de mar sem barreira
Nossas vagas se chocavam nas rochas e as lambiam
Sem espargir sal ou fazer ruído com medos
Do observador indiscreto que pudesse, num instante fortuito
Perceber nosso inevitável movimento.

As memórias se refizeram e cada detalhe nosso
Abriam cortinas há muito cerradas pelas cordas da impossibilidade
Do nosso querer proibido pelas leis dos homens e dos céus.
Velhos papiros, onde sua promessa permanecia firme
Assinatura legível sob o aval de Deus.

Apesar do veto meu amor não se conteve.
Se não escolheu o vestido e calçou saltos altos
Para sair bailando pelo salão repleto para seus braços
Não foi por raquítica vontade ou dor nos tendões.

O furacão no horizonte esvaiu meu amor incorreto
Como a razão paralisou seus braços antes de me enlaçarem a cintura.
Conscientes amantes de um desejo impossível.

Tudo aquilo que não era, sempre havia sido
Escondido atrás do beijo que rompeu nossos diques
Mas manteve ao longe nosso desatino.

Obra de Andreas Preis 
Ilustrador Alemão.


Teresinha Oliveira




quarta-feira, 4 de abril de 2012

BACALHAU & SIRI & CAMARÃO.

Kunz Meyer Waldeck - (1859/1953)
Pintor Alemão.


Já muito perguntei. Tantos explicaram mas não me convenceram.
Por que não se pode saborear um suculento bife de picanha na Semana Santa? Por que vejo-me obrigada a servir o mar em minha mesa?
Camarão pode? -'Pode'. Bacalhau pode? -'Ora, claro que pode, sua apedeuta. Bacalhau é peixe'. É mesmo... E siri? -'Acho que pode, é carne branca'. Se a questão é cor, então frango também pode. 'Aí já não sei'...
Entretanto, comer frango anêmico no feriado, com a família toda reunida, vai além da paciência de qualquer cristão. Frango é refeição de todo dia, de segunda à sexta se bobear, porque é barato, rápido e fácil de cozinhar e o povaréu aprecia.
Não eu, que logo imagino uma galinha de asas abertas correndo do facão pelo quintal.
Vaca não é assim. É bicho bobo que vive comendo grama verdinha e te olha com o olhar amoroso de quem sabe seu destino e dele não reclama.
Peixe nem mostra sentimento. Morre rápido e vai para a frigideira sem culpas  do cozinheiro. 
Siri é outra história. Dá mesmo pena jogar os bichos vivos na água fervente e vê-los se debatendo no caldeirão. Porém, como nada sei do sistema nervoso dos siris, peixes e mexilhões, prefiro pensar que eles não sentem dor para assim comê-los com a consciência tranquila.
Mas a questão do texto não é essa, é outra e mais séria, embora não escape da cozinha.
Nenhuma filosofia mais lógica existe, capaz de ordenar essa humanidade capenga, cega e louca que criamos, do que o Cristianismo. 
Tradições não o fortalecerão, muito menos a obediência a elas revelará a fé daqueles que as cumprem.
Tela de Charles Spencelayh  - (1865/1958)
Pintor Inglês.



Teresinha Oliveira.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

DESEJO GASTO

Rouba um beijo, ó desconhecido passante
Que com seus músculos me eleva
Às escarpas de um desejo gasto
Se não de todo, pelo menos assim quase.

Tela de Andrius Kovelinas
Pintor Lituano Contemporâneo.

Terê Oliva

OLHAR AÇUCARADO.

Um desejo escondido a ninguém conto
Por temer o julgamento mambembe daqueles que não conhecem nem sabem
Do pó de grafite que borraram as horas dissipadas.

Quisera ter o escrever leve, como manhã prometida de um deus Sol que agoniado a espera.
Dona do frágil vento que carrega na garupa pétalas de flor miúda
Para encantar o rapaz que sentado na pedra do rio pensa
No seu amor primeiro.

Suave assim.
Assim amena.
Assim de silêncios composta.

Na poesia de dedos magros, compridos de pianista clássico
Cantar as belezas que o olhar açucarado pinça
Entre as nódoas que a dúvida espalha.

Forjar tal agudeza de pacífico e bom
Vai além do que meu espírito professa.
Heterodoxo sentir que transgride, mas mesmo rejeitado e assustadiço
Mantém o eu que outro não seria.


Tela de Herman Behmer  Fenner - (1866/1913)

Pintor Alemão.


Teresinha Oliveira.

terça-feira, 27 de março de 2012

GOLPE OBLÍQUO.

Não sou além do que a gota que se esgota.
Vento que em farrapos desmonta a imagem
Na nuvem mal definida e seca de presságios que tapa o sol
Que cria a sombra, que extermina o ser atrás dela caminhante.

 Não sou estrela vésper de pastor errante
Que urde fios de céu no amor, através das veredas em que se perde.
  Nem ao menos arbustos de flor pretendida prendo aos canteiros pelas raízes

E as pistas de pão, que a cada passo da minha espera na terra marco
Passarinho come, tal qual na história infantil.


No fio de um golpe oblíquo do desejo sobrevivo
Carregando meu cântaro com outras águas.




Tela de Valeriy Belenikin  - (1961)
Pintor Russo Contemporâneo.


Teresinha Oliveira.



SEM TEXTO E CONTEXTO

Meu amor é sem texto e sem contexto.
Enganou-se sempre no próximo passo
Ao despencar de barrancos e pisar em falso.
Torceu pé, rachou unha

Quase explodiu o miocárdio, mas aguentou firme a mazela
De chorar escondidinho e fingir que nada aconteceu
Ou que pouca importância tem uma alma rejeitada
Porém doer, doeu.


Mas dor de amor, apesar de quase física

Insônia, olho vermelho, jejum, comprimido
Dói menor que se supõe ou se aparenta.
Emagrece o sofrido, o que lá é muito bom
Torna vaidoso o pobre infeliz ao se ver livre
Disponível para novas aventuras e erros toscos.


Cupido cego flecha a esmo e não dá para escapar
Nem possível é se ocultar atrás da janela fechada
De um não que no fundo é sim.
Espantoso seria calar na boca e no espírito

A decisão que mais parece de Ano Novo
Repetida vezes sem conta aos próprios botões
Promessa já na origem quebrada de nunca, jamais 
Em tempo algum a ninguém amar de novo.


Qual o mais frágil nessa história toda
Aquele que se esconde atrás do escudo de papel 
Ou o crédulo amante, míope sem lentes?


Tela de John Spencer Rodam Stanhope - (1829/1908)
Pintor Inglês.



Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

terça-feira, 20 de março de 2012

TIPOIA.

Sem inspiração, sem palavra, sem vontade...
Hoje, arrasto a emoção pelo chão sujo
Carrego meu cérebro numa tipoia.

Tela de Charles Zacharie Landelle - (1812/1909)
Pintor Francês.

Teresinha Oliveira.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.

sexta-feira, 16 de março de 2012

SEXO CORROSIVO

O desencontro se deu no olho vesgo
Castanha íris, fragmento de fruto seco.
Humilhado desejo morreu ainda a caminho da cama 
Sem gerar lágimas, por há muito sê-las menor cisco
No todo da maré dos dias 
Onde a nau em hora incerta naufragou

As dobras do lençol revelam mais um tanto
Se bom ou mau somente um frenesi do espírito confessará
Ao corpo na realidade crua do agora.
Relativo se mostra porém, gozar alhures
Se o amor no porta-retrato, ladino espia 
Sobre a cômoda empoeirada que se esqueceu de limpar.

O repulsivo odor das insônias
Traz um  toque de lembrança do sexo corrosivo
Entre tijolos e pedras desmoronadas
Do quarto largo onde se gozou um dia.


Tela de Leonora Carrington - (1917/2011)
Pintora Inglesa.

Terê Oliva - (1996)
http://tereoliva.blogspot.com.br





quinta-feira, 15 de março de 2012

BROTO POÉTICO.

A poesia se fecunda uma e nasce outra.
Segue crescendo tal qual peônia
Que se mostra simples flor e como tal logo morre.
 O mesmo pedaço de chão copula um inesperado fruto
Que cedo apodrece se não a tempo colhido.


Ao ficar pronta, ou assim quase 
Porque poesia, finda nunca está
Se vê a pobre ainda tonta, à mercê
Dos melindres de palavras loucas
Que não se sabe de onde brotaram.


Tela de Thomas Heaphy - (1775/1835)
Pintor Inglês.


Teresinha Oliveira.



terça-feira, 13 de março de 2012

PULSEIRAS COLORIDAS.

As meninas seguem lindas a caminho da escola. 
Braços cheios de pulseirinhas coloridas para trocar com as amigas.
A ideia, não se sabe de quem, esquentou devagar até se tornar febre. 
Os camelôs, aproveitaram a deixa e logo criaram alternativas para mais vender. Agora, além das coloridas, existem as bi-colores, as cintilantes, as que brilham no escuro, as perfumadas e sabe-se lá mais o quê.
As mães, até as mais pobrezinhas, compram sorridentes ao descobrir o preço irrisório. "Mãe, quero dois saquinhos." - "Não, um só tá bom. Vai trocando com as colegas."
Outras, desfilam muitos saquinhos nos braços coloridos do punho ao cotovelo, espalhando bons augúrios para quem quiser trocar, ou for merecedor de ganhar: sorte, amizade, sucesso, saúde, felicidade, paz... Tem até pulseirinha poliglota que declara 'I love you.'
Lindas meninas a caminho da escola...
Espalhando alegria por onde quer que passem.


Tela de Albert Samuel Anker - (1831/1910)
Pintor Suíço.

Teresinha Oliveira.
  

domingo, 11 de março de 2012

NA GARUPA DE UM LIVRO-2

Escorregando pelos devaneios o livro cai ao chão, como para avisar que está vivo. Porém, mais vivaz encontra-se a viajante que ele mesmo muniu de malas para imaginar o tempo restante.
Uma década é boa sobra para se viver. Dá para fazer muita coisa, ou o quase nada que se quer ainda. O que desejo de verdade só chegará depois mesmo, se é que um dia vai chegar.
Uma linda jovem arrancando com seu carro, o veloz que não possuí apesar de tanto querer, dando adeus com os lindos cabelos ao vento e sua gargalhada irresistível. Melhor adeus não há.
Outra, com os cachos morenos domados pelo amor em longos véus, no átrio da igreja que resplandece ante seus olhos quase verdes. Noiva rica e branca.

Ela com certeza vai casar; está no sangue esse brinde de amor eterno que leva ao altar.
Muitos mais, maduros como fruta boa, bonitos, felizes todos e cada um no seu jeito de felicidade. Talvez não o meu, cuja receita padrão a eles não seduz.
Eu, encarquilhada e lenta, talvez chore. Tomara! Preciso gastar as lágrimas que não gastei, nem em enterro ou em filme triste que a todos debulha. Mas a essa miragem não tocarei concreta, nem eu nem a miragem. Oitenta, em mim,  é ano demais e muita velhice; não tenho nervos para tanto. Setenta vívidos já é sorte nessa matemática suposta.
O torpor se esvai e o sol traz um cheiro de café que desperta o livro com tanto ainda a contar, história luzindo como pérola que logo deixo para depois.
     Vou sacudir o meu dia e vivê-lo no meu estilo real.  Melhor assim, apesar de não o ser, ou talvez até sendo.



Tela de Federico Faruffini  - (1833-1869)
Pintor Italiano.



Teresinha Oliveira.   

sábado, 10 de março de 2012

NA GARUPA DE UM LIVRO-1

     Livro é presente de Mago, que com seu ruído ao folhear páginas desperta uma bruxa escrevinhadora, que ao meu lado sempre senta para ler junto.
     Mal o sol desperta a palavra vem, amalucada de sono, com muito dizendo aos borbotões da ilógica mente pura. Apesar do censor ainda na luz distante, com o tanto revelado se assusta, apesar de sabê-lo inócuo; massa com que não se faz pão.
     Os olhos fecham na sintomática fuga, mas a palavra insiste, encaixando-se na frase que o pensamento, sem outro jeito vai pensando. Pensamento bom, pensamento ruim, pensamento tão chulo que dá vergonha de falar, quiça escrever com letra escorrida do acordar.
     Surge festa, surge gente, surge maldade, surge serra e temporal que matou a gente pensada antes, surge o ontem que não se foi e de tão velho creio que não irá. Surge futuro também, mas não o longínquo, o dos anos que não verei. Meço a vida provável. Trinta anos é esperança vã, que saiu correndo de bicicleta atrás das visões que sentada em nuvem espiarei, se deixarem e se eu existir, fantasma para tal.

     Vinte anos é demais, mas com sorte, ou talvez muito azar viverei. Será que com boa cabeça para saber lá estar? Cabeça eu garanto; ou garantiria antes do remédio supimpa que cura dor e estica nervo, para que o malvado em outros do rosto não se encoste. Doença esquisita, logo essa me grudou.
     Agora não sei mais da razão. Genética às vezes não funciona. Se tem herança de centenário, também tem herança de coração partido, não de amor, porque histórias de grandes paixões nunca contaram, mas partido de explosão na veia que estoura e nos fiapos que entopem. Doces e cigarros. Pagamos o preço em tempo corrido.
     Dez para mim está bom. Primeiro porque 2022 está longe e depois porque é número bonito, pendurado de dois, par, casal. - 2+0+2+2=6 - Meia- dúzia. Rosas assim são vendidas, bananas e ovos idem. Perfume e alimento. Minha vida não é feira de esquina, é braço forte que monta a barraca e se bronzeia ao sol. Músculos que vem resistindo, de solidão e desejos vendados sem saber onde ir, mas mesmo sem o saber, esticam a lona e atam os nós. 
     Um só 6 é a terceira parte de 666, o número da Besta. Acho que meu caminho além está à vista; a fração promete. É pequena e me torna bem-vinda nos portões do céu.


Tela de Gustave Claude Etienne Courtois - (1851/1923)
Pintor Francês
                                  

                                          Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 7 de março de 2012

TANTO FAZ...

 Cupido, jovem sem juízo que pelos antigos amores zelava.
Eros, o mesmo tolo, rebatizado em outras águas.
Braços frouxos e igual romanesca função
Dois que eram um, ou um que eram dois.


Com setas de divina imperícia erravam o alvo
Ao mirá-lo cegos.
Pobres de nós, mortais nessa nuvem de moscas
Incensando a esses deuses clássicos por um amor certeiro.

Girolamo Francesco Mazzola - (1503/1540)
Pintor Italiano.


Teresinha Oliveira.

segunda-feira, 5 de março de 2012

NA PINCELADA SUAVE...


Algo de fortemente familiar 
Na mulher do quadro em cores claras.
Enternece minha memória que voga
Através dos mares que não naveguei.

Talvez tia, prima de grau perdido
No século em que era eu vaga poeira de estrela
Sem brilho, sem o dom da vida
Descarnada promessa de ser, ainda um dia.


Olhos verdes com inexpressivo cuidado das emoções ocultas
Nem mesmo tristeza que se intui, mas jurar não se pode.
Ovalada face, bonita, que o artista na pincelada branda
Retocou delicada como cheiro de hortelã.


Minha prima, minha irmã, minha amiga
Revela nome e morada para receber uma carta, contando que
O pássaro do tempo, ao desvendar tintas e mistérios
Trouxe a mim teu retrato. 




Tela de George Lawrence Bulleid - (1858/1933)
Pintor Britânico.


Teresinha Oliveira.