segunda-feira, 14 de maio de 2012

O LAGO.


Eu tenho tanto para te contar...
Mistérios do silêncio sem fundo
No lago em que morri
Das lágrimas de amor formado
Por todo o tempo longe de ti.


Telas de Anders Zorn - (1860/1920)
Pintor Sueco.

Terê Oliva - 1996

domingo, 13 de maio de 2012

O BARCO DO WILLIAM

Já contei sobre um tempo de sol, quando água do mar me corria nas veias e  eu nele mergulhava meus sonhos e risos.
Porém, na 'Pedra de Itapuca' me faltou espaço e talento para tanta história. Temi que os textos se embolassem nas areias de Icaraí, e lá perdessem o sabor, como bifes à milanesa sem sal; também a graça particular se permanecessem juntos, na mesma página dessa contadora de histórias sem maiores dons.
Então para quem já leu 'Itapuca', emendo agora uma segunda parte. Para quem não leu, que entre agora nesse barco, porque para quem de nada sabe ainda pouca diferença fará.
Fomos chegando na praia cedinho, um a um nos tornando muitos. A turma que nas férias diariamente ali se reunia não desejava nada além do que estar junto. Conversar, arriscar os primeiros olhares de amor, com sorte ganhar um beijo na boca, reclamar do pai que não deixava namorar, marcar o cinema para o dia seguinte, contar um segredo para o melhor amigo... 

Tanto e nada ali nos mantinha.
Entretanto, aquele sábado de verão logo se tornaria inesquecível para muitos de nós. 
William, um americano alto e bonito, sucesso entre as garotas apesar do seu jeito bobão, já nos esperava no ponto de encontro ao lado de um barco. Barco que seu pai, ante os suplicantes pedidos do filho, resolvera nos emprestar. Isso nos contou ele com um olhar vaidoso de rico proprietário, que favorece aos humildes quando com eles divide seu mais precioso bem. 
Barco é eufemismo para descrever o bote velho, outrora branco, com seus dois remos rachados.
Mas qual! Para nós, um bando de jovenzinhos eufóricos que o empurraram a duras penas para a água, era o mais lindo veleiro do mundo. Nossa única dúvida era escolher quem ficaria de fora do passeio marítimo, pois era claro que não havia espaço para todos. Um dos remos seria do William, merecedor da honra por ser filho do dono do mesmo. O outro, decidiu-se em meio a muita confusão, caberia aos braços fortes do Pardal, o mais velho do grupo.
Eu, aproveitando-me do quem vai quem fica, subi no barco, sentei no fundo e por lá fiquei, com a máscara dos inocentes. Logo lotou. Mal havia espaço para tantas pernas e gargalhadas.
Lá fomos nós, levados pela correnteza e pelos remos que tentavam  nos direcionar à Praia da Flexas. -Com X mesmo!- Continuamos indo, e indo, e indo... Cada vez mais longe da praia, sem outra direção a não ser o longe.
Nossos fortes remadores mostraram total incompetência para a função, e mais apavorados ficaram quando o bote, pesado de tanta gente, começou a fazer água. 
- E agora? Eu falei que tinha gente demais. Esse barco é uma porcaria. Não fala assim do meu barco. Não é seu, é do seu pai. Bem que eu não queria vir. Se não queria, por que veio? Agora só falta chover. Não fala isso que dá azar. Falar azar é que dá azar. Calma, gente! Tubarão! Quem foi o idiota que falou em tubarão? Em Icaraí não tem tubarão, só tatuí, e na areia. Gritar não adianta, ninguém vai escutar, chorar também não... -
Tal cenário pode parecer exagerado, mas tal qual se deu, ou um pouco menos ou um pouco mais.
Um pensou ser menos arriscado voltar a nado para a praia do que permanecer no barco naufragante e pulou na água. Outro o seguiu. Um casalzinho de namorados voltou nadando lado a lado. Eu medi a distância e o medo, e também mergulhei. Logo formávamos um grande grupo nadando de volta à segurança da areia.
Tá certo que todos nós éramos ótimos nadadores, criados ali à beira d'água, no mar que era nossa casa. Jovens saudáveis com pernas e braços fortes, mas assim mesmo, hoje imagino se a distância  era mesmo tamanha quanto a que me recordo, tal qual o casarão de infância, que visitado na maturidade parece muito menor.
Os meninos, sem o excessivo peso, conseguiram trazer o barquinho de volta, mesmo com os remos rachados e o fundo com um palmo de mar.
William é que desapareceu. Nunca mais foi visto por ali.
Deve estar de castigo até hoje por ter roubado o barco do pai.




Telas de Fred Calleri - (1964)
Pintor e Ilustrador Americano.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br




sexta-feira, 11 de maio de 2012

POEMA FLUORESCENTE


Tela de John LaGatta - (1894/1977)
Pintor e Ilustrador Ítalo-Americano.


Vou escrever um poema fluorescente
Somente com palavras rosas e azuis

Um poema que flutue nas águas dos rios em seu percurso
Tão leve que inseto carregue na transparência das asas
Tão simples que passarinho qualquer 
Assobie no primeiro pio da manhã
Para os namorados distantes.

Vou esconder esse poema
Com cheiro de grama récem cortada
Atrás dos penhascos do tempo.
Lá guardar os mistérios de amor
Do corpo de um e outro, em dedos contados
Nas noites renascidas a cada crepúsculo
Orvalho de sêmen e suor.

Quem sabe ainda esse poeta se redima
Dos versos de angústia que criou outrora
Com suas tristes metáforas 
Com seu grafite sem ponta de esperança
Quem sabe até mesmo, num rasgo de sorte
Um assombroso amor goteje em nova poesia
Dispa suas roupas e lhe ensine verbos novos.

Tela de Nicoletta Tomas - (1963)
Pintora Espanhola Contemporânea.

Terê Oliva




quarta-feira, 9 de maio de 2012

IMAGENS DE UM AMOR PERDIDO.

Não cabe em meu dedo
Por ser mentira em ouro lavrada.
Não se ajeita entre as pernas
Por não valer a promessa.
Não distrai a noite em folguedos
Por roncar no leito o cego carniceiro.
Não causa tremor
Por ser rotina o furacão casto.
Não enche os bolsos de ouro
Por inábil talento ou sorte selada.
Não abranda o fardo
Por pesar nas costas as soluções sem rima.
Não brota no fundo a semente de sol
Por secar no sêmen extinto .
Não cria poesia
Por soluçar no papel uma dor indizível.
Não mira o futuro
Por morrer a visão na frieza das pupilas.

De que vale, enfim, tal amor se perdido?
...............

Tela de John Everett Millais - (1829/1896)
Pintor Inglês.

Terê Oliva / 1996

segunda-feira, 7 de maio de 2012

PINHEIRO BRONZEADO.

Há muitos anos no meu jardim plantei um pinheiro, miúdo e falante, que comigo conversava nas manhãs em que eu, sem outra tarefa além de revirar terra e mudar minhoca de casa para adubar vasos e cantos, por ali sujava as mãos de terra e observava em detalhes a vida desse mundo à parte do mundo real.
Agora doentinho, passou a me preocupar. Acho que vou chamar um jardineiro especialista, de pinheiros curandeiro, que tenha dedos verdes e fale a língua das plantas para curar o meu amigo que no verão se machucou.
Vejam vocês minha preocupação: responsável por um pinheirinho sem juízo
viciado em sol!
Para ele sempre se estende com cismas de se bronzear. Seus galhos longos e bonitos, nesse caprichoso destino, perderam cor. Tão quebradiços estão que até passarinho tem medo de neles pousar.
Tomara que o sol, cansado de esquentar os dias, cochile logo na sombra do outono e meu pinheiro, que de adulto só tem tamanho, consiga
enfim esverdear. 
Telas de Huang Youwei - (1965)
Pintor Chinês Contemporâneo.

Terê Oliva.

domingo, 6 de maio de 2012

O VIOLINO

Tela de Claude Buck - (1890/1974)
Pintor Americano.

O violino com suas unhas quebradas
 Arranha as paredes da sala.
As ondas levam os cavalos empinados
Do arco sem rumo 
À ausência surda dos que se foram
Para longe, mais além.

A doce menina afaga com beliscões 
No rico instrumento herdado
O rouxinol que da gaiola do seu sonho
Ali nunca pousou.

Se lá de sempre vem o desejo
De vestir com veludo as estridentes notas
Não há quem a verdade lhe conte
Por amor ou compaixão.

Seus braços sem fôlego tropeçam nas cordas
Que ressoam como gritos de fantasmas loucos.
Arrepia a nuca e torce o coração
Do escolhido, a quem coube revelar à menina
Dona do violino e do rouxinol sem pio
A colheita perdida de sua música. 
Tela de Arthur Hughes -(1832/1915)
Pintor Inglês.


Terê Oliva.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

NEGROS OLHOS.

Não era a noite, aquela escuridão funda
Nem o negro assustador do alto mar sem ilha.

Não era o ônix das unhas de Vênus que Cupido cortou
Nem a ausência de luz nas pupilas cegas.

Era o preto dos teus felinos olhos
Que na sorte do meu destino cruzou.
...................

Tela de Tamara De Lempicka - (1898/1980)
Pintora Polonesa.

Têre Oliva.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

PROMESSA

Não! 
Não cumpriste a promessa
De fazer da vida festa...
Do amor o reino meu.

Então rasguei tua camisa amarela
Usei um decote sem freio 
No bar pedi outra dose, outra dose...
Beijei o primeiro bigode que vi.
....................

Tela de Louis J. Marchetti - (1920/1992)
Pintor Italiano.

Terê Oliva

quarta-feira, 2 de maio de 2012

PEDRA DE ITAPUCA

Tela de  Guy Rose -  (1867/1925)
Pintor Americano.



Muitos se amedrontam com o mar. Criam um mundo de terror onde os pés não mais alcançam chão. Tubarão branco, água-viva, peixe com boca e fome grande, mais outros bichos igualmente cruéis. Até tatuí assusta quem tem o pavor grudado na imaginação, e a ela dá papel e lápis para traçar seus demônios.  
Sem falar no fluxo das marés, nas correntezas, nos afogados conhecidos e os de ouvir dizer.
Talvez por ter crescido dele pertinho, a ponto de ir descalça para a praia - isso lá era possível há poucas décadas- nunca o temi. Era na água que vivia minhas grandes aventuras.
Chegava cedinho na praia para encontrar os amigos. Vez em quando havia gente nova: um primo da Helena de São Paulo, alguém que chegou de mudança do Rio, o William... Americano louro, bonito e medroso como ele só, que logo foi aceito ao revelar, todo vaidoso, que seu pai tinha um barco. Barquinho bobo, um bote de madeira quase podre com dois remos rachados,  que nos agitou em planos de viagens para ilhotas perto. 
Essa é outra história, onde o perigo realmente nos rondou, mas para não alongar demais o texto, conto depois.
Da Praia de Icaraí, seguíamos à beira d'água, rindo e brincando para a Praia das Flexas - com X mesmo! - no bairro do Ingá.
Ficávamos por ali, reclamando da areia grossa cheia de pedrinhas, comparando as duas praias, Icaraí bem melhor. 
Então por que ir para lá? Porque de lá voltávamos a nado para Icaraí, na hora certa da maré cheia, atravessando o mar que batia furiosamente contra a Pedra de Itapuca.
Nadar no sentido inverso, Icaraí para Flexas, não dava certo. Tentamos algumas vezes, mas o mar parecia outro, e com suas perigosas ondas nos fazia desistir.
Antes da maré nos expulsar, crescendo rápido, ficávamos na Itapuca sentados, a conversar sobre tudo aquilo que os jovenzinhos conversam. Muitos namoricos começaram ali, nos primeiros beijos, e nos carinhos exagerados com os cortes e arranhões do ser amado.
 Nossa atração por Itapuca, "pedra-furada" em tupi-guarani, ficou ainda maior quando alguém, não lembro quem, contou a lenda de amor e ódio que a cercava.
   Uma linda índia, Jurema, apaixonou-se perdidamente por Caubi, um branco que por ela também se apaixonou. Diante da revolta da tribo que não aceitava tal união, os dois decidiram partir para longe. Lugar distante onde pele não tivesse cor e o amor fosse simples. 
  No dia da fuga porém, foram atacados pelos índios que vieram resgatar Jurema, e Caubi acovardado fugiu.
   Ela que passava as tardes cantando, alegre como passarinho solto, nunca mais cantou. Seus dias corriam silenciosos, com saudade do pálido amado.
Após seis luas, seu casamento é marcado pelos líderes de seu povo com um dos chefes da tribo, que sempre a amara na surdina da desesperança.
Na véspera de seu destino, ela vai à praia e canta. 
Caubi surge nas névoas do luar e corre para tomá-la nos braços e pedir perdão. Nesse exato momento se tornam vítimas da fúria dos guerreiros tupis.
Tupã, o deus maior, a pedido de Jaci, a Lua, abençoa os dois amantes e os conduz para o interior da Pedra de Itapuca, onde eles viverão para sempre o amor proibido pelos homens mas abençoado pelos deuses..
   Nós que à época mal sabíamos das dores de amor, a não ser nos livros que a professora de português nos obrigava a ler, só pensávamos em nos divertir rente às praias. Nas manhãs de ressaca, quando as ondas não respeitava nem a Pedra de Jussara e Caubi,  nós voltávamos para a nossa praia caminhando pelo calçadão, frustrados pelas emoções perdidas. Emoções que não sabíamos naqueles jovens dias, tão marcantes.
A menina, de braços e pernas fortes, que amava o mar e sua Pedra, logo partiu para longe e nunca mais voltou. Perdeu, mas não esqueceu os amigos, nem as aventuras salgadas, muito menos o primeiro beijo abençoado por aquelas águas.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com

Tela de Benito Rebolledo Correa -  (1880/1964)
Pintor Chileno.

terça-feira, 1 de maio de 2012

TINTAS NAS VEIAS.

Tela de James N. Lee.


Se eu nascesse com tintas nas veias
Cerdas ao invés de pelos 
Não pintaria naturezas mortas nem vivas
Nem bichos, nem ruas, nem sóis ou luas.

Tela de Alexandre Adolphe Dillen.


Gastaria meus óleos e vernizes
Ao transbordar das telas
O brilho do olhar dos amantes
Para sempre ali confessados.

Tela de Edgar Melville Ward - (1839/1915)
Pintor Americano.


Depois sentaria, calma, ante a obra 
Presa no abraço das pinceladas viris.
Talvez buscando na tela
A eternidade dos diamantes
Oculta na nódoa que o tempo
 Em carvão teu olhar transformou.
....................


Terê Oliva.