terça-feira, 1 de maio de 2012

TINTAS NAS VEIAS.

Tela de James N. Lee.


Se eu nascesse com tintas nas veias
Cerdas ao invés de pelos 
Não pintaria naturezas mortas nem vivas
Nem bichos, nem ruas, nem sóis ou luas.

Tela de Alexandre Adolphe Dillen.


Gastaria meus óleos e vernizes
Ao transbordar das telas
O brilho do olhar dos amantes
Para sempre ali confessados.

Tela de Edgar Melville Ward - (1839/1915)
Pintor Americano.


Depois sentaria, calma, ante a obra 
Presa no abraço das pinceladas viris.
Talvez buscando na tela
A eternidade dos diamantes
Oculta na nódoa que o tempo
 Em carvão teu olhar transformou.
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Terê Oliva.

domingo, 29 de abril de 2012

TRAMAS

Tela de Charles Webster Hawthorne - (1872/1930)
Pintor Americano.

A dolência no peito que não passa
Não dói à toa
Como não é à toa que o amor
Desmancha a trama.

Puxa o fio seu fantasma herético
Argonauta dos mares da solidão
Sem desejos, pois não mais ardem

Por cansaço do ato gasto.

O sangue no chão da alma exposta
As noites de espera, soprada a chama
Pelo olhar de escárnio na face de sal.

Os nós se desfizeram em fiapos
Fiapos sem mãos que de novo teçam

O amor em minúcias puído.

Franz Xaver Simm - (1853/1918)
Pintor Austríaco.
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Teresinha Oliveira.

MELHORES♥AMIGOS

Meus amigos melhores
Nos quais arrisco prazer
 Um beija-flor e uma borboleta amarela
Toda manhã aparecem na hora marcada
-Natureza a contar minutos-
Para mim que os espero
Respondendo bom-dia
Antes do dia real começar.
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Tela de Cândido Portinari - (1903/1962)
Pintor Brasileiro.

Teresinha Oliveira.


sábado, 28 de abril de 2012

AMORES DESPETALADOS.

Oscar amava Helena que amava Fernando que amava Simão.

Simão amava Lia que amava Mário que amava Yolanda.

Yolanda amava Francisco que amava Ana que amava Felício.

Felício amava Maria que amava José que amava Rosa

Rosa amava Carlos que amava Elisa que amava  Antonio

Antonio amava Irene que amava Marcos que amava Teresa.

Teresa amava Paulo que amava Rita que amava Bento.

Bento amava Regina que amava Gabriel que amava Nadir.

Nadir também amava o mesmo Paulo que Teresa, que não amava nem uma nem outra.

Teresa, flor miúda e sem perfume, mas esperta como ela só
Ao se ver nesse jardim de confusão
Deu os braços para Zenóbio que até então não era amor de ninguém

E saiu a passear por aí.

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Letras Floridas de Catherine Klein - (1861/1929)
Pintora Prussiana.

Teresinha Oliveira.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

CISCOS DE CRISTAL.

Que ser mais sem sentido sou eu, hesitante criaturinha
Perdida nas luzes da própria sina que traço sem talento.
Que tanto, vez em quando, penso ser; e nada sou
De concreto nesta vida tão curta que se esgota
Mais rápido do que consigo, de mim mesma
Fazer algo que valha por aqui ser recordado,

Mais rápido do que seca minha lágrima vã.

Tanto tenho cá por dentro... Isso sei.
Poucos sabem e para ninguém conto, dona de aziagas cismas.
Ou isso só julgo e imagino porque faz bem
Para a alma capenga que dispensa muletas por atrapalhar o passo
E retardar o voo pelos veludos do sonho.
Porém, na crua realidade, não a que suponho existir no erro de viver
Não sou, nem ultrapasso o além do humano blefe de Deus.

Mulher comum, prepotente que ao mirar os ciscos de cristal
Por ser nada, ou pouco mais apenas, ali me vejo nua e fosca.
A imagem não acalma, entretanto, a arritmia do destino em fogo
Que me consome sem que o possa explicar.

A vida transborda em dádivas, em dogmas e neuroses quase loucas
Em ânsias de mais viver, em sexo devastador, em sofismas de amor
Em gargalhada final diante do embuste do espelho.
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Tela de William N. Montague Orpen - (1878/1931)

Pintor Irlandês.


Teresinha Oliveira.

terça-feira, 24 de abril de 2012

ÚLTIMO VERÃO

O sol girou sobre si mesmo e enredou-se em um nó cego
Um nó que nem a própria luz desatou.
Ao perder a hora da partida ali ficou
Incólume à noite.

Aqueceu a resina das árvores que adoçou o ar
Atraiu insetos e pássaros, abriu flor em hora errada
Trouxe barulho d'água solta para perto
Recriou o bosque numa onírica lembrança.

Os raios desse sol sem órbita 

Sombrearam labirintos no teu rosto amado.
Teu rosto, meu último verão.
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Stanislav Sugintas - (1969)
Pintor Lituano Contemporâneo.

Terê Oliva


GELEIRAS

O salto de geleira a geleira, uma perto outra além, amolece os joelhos
Dói nas articulações e entedia a mulher 
Entre as sombras do seu frio mormaço
 Na queda ao rés do chão.
Filha rejeitada das estrelas dos leões e dragões
 Que nelas vive, e nelas, é ela mesma e quase feliz
Num paradoxal arquétipo de feroz mansidão.

As bordas da vida chamuscam sua pele
Ferem seus desejos de utopia pichados 
Por todos em seus céus cercania.

Repousa assim, na fria névoa que dissipa o tempo
O ser feminino que no adágio de um sábio
Será resgatado por quem ousar e tiver pernas para alturas.
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Tela de Witold Pruszkowski - (1846/1896)
Pintor Polonês.

Teresinha Oliveira.



domingo, 22 de abril de 2012

DIA DO BEIJO II

James Jabusa Shannon - (1862/1923)
Pintor Americano.
O Beijo se comemora. 
O dia da festa, sem que ninguém ansiasse ou nele pensasse, chegou.

Miklos Barabas - (1810/1898)
Pintor Húngaro.


O Beijo ganhou um círculo vermelho no calendário sem se saber o porquê. 
Dia esdrúxulo, que um sujeito sem mais de útil a fazer, escolheu
No céu da boca
De mulher amante ou moça namorada. 

Edward Frederick Brewtnall - (1846/1902)
Pintor Britânico.


O Beijo decisivo
Do poeta, ou do político, ou do carinhoso compulsivo 
Escolheu um dia inteiro só para si. 
Daqui a pouco vira até feriado...
Entretanto ninguém viu, ao menos prestou atenção, na assinatura ilegível sob a romântica invencionice.

Francesco Hayez - (1791/1882)
Pintor Italiano.



O Beijo é caminho, logo depois da esquina do olhar.
Degustação de um amor que poderá vir a ser. 
Muitos lábios se perdem, ao passearem lépidos sem rumo 
Seguindo setas de emoções rasas.

Pietro Antonio Rotari - (1706/1762)
Pintor Italiano.


O beijo dos dóceis sonhadores, na deserção do desejo se oculta.
Na timidez se guarda, apesar de sedento.


Não os furtem daqueles que os anseiam e deles são dignos.
Daqueles que passam noites no claro da lua a imaginar 
O sabor da saliva e a textura dos lábios desse amor fugidio.


Walter Dendy Sadler - (1854/1923)
Pintor Inglês.


O beijo rejeitado calcifica. 
Torna-se sal de desdém que por anos azeda a boca 
Com o gosto do beijo sem uso.

O outro, que dele se esquivou, por já sabê-lo sem gozo ou motivo
Não encontra argumento que destrua a lógica louca do beijo insistente. 
Não ser amado é incompreensível, não ser beijado grave injúria.
John Everett Millais - (1829/1896)
Pintor Inglês.



O Beijo veste sua roupagem de gala nos grandes momentos.
Permanece inesquecível no cetim, no laço de fita que o prende
 Mesmo quando não passa de um frescor no quase.


Georgy Kurasov - (1958)
Pintor Russo Contemporâneo.


O Beijo pode ser traiçoeiro.
Serpentes e tesouras
 Armaram alçapões através dos séculos da humanidade.
Marias e Josés exibem sua marca na face
Sem aprender a lição.

Pio Ricci - (1850/1919)
Pintor Italiano.



O Beijo guardado a sete chaves
No amor que se esconde em areias movediças
Sofre as penas no seu gueto, sem tentar.


Nada se conclui ante o pânico da rejeição.
 Os beijos desperdiçados
 Com suas pegadas de arrependimento frio
Perseguirão o covarde pelas bocas fáceis
Com a memória da outra.

Michael Parkes - (1944)
Pintor Americano nascido na Espanha.
Contemporâneo.


O Beijo é pássaro de asas longas
 Que dá rasantes  no alvo para conhecer seu destino. 
Algumas vezes faz ninho.
Outras, se vai e nunca mais volta
Para o cio de plumas com o qual não comungou.
Alada fuga sem rastro, azeda saliva.


Nathan Brutsky - (1963)
Pintor Ucraniano Contemporâneo.



O beijo pedinte e maltrapilho 
Que sobe no carrossel das ofertas vazias
Por pouco não vira bocejo
Nas bocas contempladas. 


Ferdinand Waldmüller - (1793/1865)
Pintor Austríaco.


O beijo, talvez o definitivo, o que rende flor e fruto 
É aquele que se promete 
O que se guarda atrás de um sorriso de dúvida. 
Quando se dá, não satisfaz
Não um, nem dois, nem mil.
Por ter sabor agridoce de futuro
É melhor do que jamais se imaginou.

Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

MISTÉRIOS DA BIBLIOTECA

Os mistérios velados das bibliotecas
Vagam frente a olhos de muitas vigílias.

Olhos que gastam graus e buscam no silêncio rígido
Só interrompido pelo rascante som de uma página virada
Cochichos e tosses mínimas
As almas dos que ali vivem.
Escritores e personagens, encerrados através dos séculos no papel.

Deles sugar, leitor sem maiores dons
O arcabouço da sabedoria.
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Tela de Carl Spitzweg - (1808/1885)
Pintor e Poeta Alemão.

Terê Oliva

segunda-feira, 16 de abril de 2012

SOLO DE SAXOFONE ♫

O solo do saxofone é um navio sem rota
Sem bússola que indique o norte
Na música de paixões primitivas.
Gentis notas dançam uma poesia negra
Que sem outro motivo a não ser o gume agudo
Seria doce ouvir.

Aquietam-se as horas escuras na casamata
Com cheiro de erva-doce e grama cortada
Da sala grande e vazia.
No abrir de asas de um bocejo largo
O copo de conhaque cai ao chão e rompe
O fecho do camafeu com rubis que sangram
No peito da mulher ávida
Que não chora em lágrimas, mas dissolve em som.
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Tela de Nathan Brutsky - (1963)
Pintor Ucraniano Contemporâneo.

Teresinha Oliveira.