terça-feira, 12 de junho de 2012

LIVROS DESPERDIÇADOS.

Tela de Edouard John Mentha - (1858/1911)
Pintor Suíço.


Há nos canteiros dos amigos desconhecidos

-Livros guardados sem leitura- 
Flores desperdiçadas.
Jamais colhidas na invisibilidade do tempo
Que os acompanha durante anos a fio sem laço. 

Nem ao menos um espirro de poeira acumulada
Os resgata do esquecimento.
Permanecem eles contidos em suas capas

Com suas histórias estéreis
Esperando, na calma de cada parágrafo 
A reconciliação com o leitor displicente.


 Tela de Bernard Louis Borione ( 1865 - ? )
Pintor Francês.


Terê Oliva.



domingo, 10 de junho de 2012

RECADO DE PASSARINHO

Tela de Sir Edward John Poynter - (1836/1919)
Pintor Inglês.


Levantei o lençol d'água
Do mar sem paciência que em ira espumava
Na boca fechada.


Atravessei rio e perguntei às suas pedras.
Tangi rebanhos de insetos rastejantes na busca.
Subi colinas, transpirei nos muitos passos de planície.


Abri asas de borboletas, pobres borboletas
Com cores empoeiradas sem nada a dizer.
Translúcidas libélulas, se o sabiam, a mim ocultaram.


Sob árvore descansei. Dormi e chorei.
Me abrandou o frio a secular senhora
Tecendo um cobertor com folhas e maleáveis galhos
Porém se fez de muda, e me segredou que árvore não fala.


Catei pedaços do meu amor, as poesias incompletas
Teu vestido preferido, o vinho, teu retrato.
No átrio da desistência, de mala pronta e pés calçados
Recebo afinal o recado, no pio de um passarinho
Que cantou onde te encontrar.
Tela de Conrad Kiesel - (1846/1921)
Pintor Alemão.
Terê Oliva.

sábado, 9 de junho de 2012

BRUXA FALIDA.

Empurrar a bruxa
Para fora, fora, fora...
Através dos dedos e da carne mole.


Vai-te, insensata criatura
Que para nada serve e nada prediz
Além de quereres loucos com consistência de pudim.

Parta, sem meus cabelos, meus olhos, minhas memórias
Minha consciência que tem pés de marfim 
Meus desejos cozidos sem sal na inútil fervura.

Larga minha mão que perdeu a maciez da crença
Que talhou o caldo com excessivo tempero
Nesse caldeirão de amor não consumido.


Obra de Christina Beller
Ilustradora e Pintora Americana.

Terê Oliva.

OLHOS DE CIO


 Tela de Tamara de Lempicka - (1898/1980)
Pintora Polonesa.

O desejo é uma incógnita
Entre as frestas de pesadas portas 
Nobres árvores abatidas para melhor o esconder.

Insistente mulher o espreita com seus olhos de cio
Sem suspeitar, pobre dela, que suas equivocadas chaves
Não abrirão no decurso dessa vida
Os lábios do gozo lacrado pela seiva da libido morta.

Tela de Valeriy Skrypka
Pintor Ucraniano.


Terê Oliva

quinta-feira, 7 de junho de 2012

MENINAS & BONECAS



As meninas ainda brincam com bonecas.
Não mais as bonecas inertes, que nos cantos
Ou sobre a cama jaziam com seus membros espalhados
Sem nem piscar olho.

Hoje elas dançam, riem, dormem e se mexem nos sonhos
 Falam. O quanto, depende. O vocabulário equivale ao preço na caixa.
Declamam versinhos centenários que até bisavó relembra. 
Ficam doentes e esquentam de febre
Tomam injeção, choram na lagriminha que por pouco não cai
Logo ficam boas e prontas para outra. 
Comem, bebem, fazem xixi e a outra coisita mais.
Quando crescem, magrelas e lindas
Modelitos de filmes e canções
Passam logo a namorar, rapazes igualmente magrelos e lindos.
Assim, além de casa, comida e roupa lavada
Há necessidade de carros, mobílias, quinquilharias e mil tralhas
Que se espalham como vírus pelo chão e ninguém cata. 

Com bolso doído e coração molenga
A avó, pobre de marré, marré, marré
Passa ao largo das lojas de brinquedos e tenta
Outros cenários.
Chama as meninas para a roda, ciranda
Numa tentativa vã de escapar da numerosa prole. 
Porém, as pequenas mães se agarram às bonecas
Desejando companhia para a brincadeira que
Desde criancinha, ela sempre rejeitou.




Telas de Émile Munier - (1840/1895)
Pintor Francês.

Terê Oliva

O SAL DA IMAGINAÇÃO

Mistérios crescem com o sal da imaginação
Atrás da porta do número 242
Na rua sem nome
De um lugar que caiu do mapa

Onde o destino nunca me levou.

Foto - 'Wanderlust'

Terê Oliva

quarta-feira, 6 de junho de 2012

CABELO DE FLOR.

As flores, na pressa de viver
Esqueceram de cortar os cabelos.
Assim longos, úmidos de perfume e néctar
Valsaram ao sabor das abelhas e do Senhor do Vento
Que logo desejou os trançar.



Foto - "Bellezze della Natura".


Terê Oliva.

terça-feira, 5 de junho de 2012

FOLGUEDO DE PALAVRAS.

Tela de Ferdinand Heilbuth - (1826/1889)
Pintor Alemão.


Palavras são ótimas amigas
Para se brincar a qualquer hora.
Nunca têm sede ou fome
Não arranham os joelhos
Nem mãe que chama para dormir.


Vestidas a rigor ou mesmo quase nuas
Numa revoada surgem do nada
Para cair entre os dedos de qualquer poeta 
Que desse folguedo talvez pouco entenda
Porém insiste, por querer também brincar.

Tela de George Goodwin Kilbourne - (1839/1924)
Pintor Britânico.


Terê Oliva.

domingo, 3 de junho de 2012

PESADELO ERÓTICO

Do teto jorrava uma luz compacta
Nos fragmentos do teu olho azul metálico, lá mirante
Esgueiravam-te atrás da cortina, sob a cama
Pelos guetos sonolentos do meu corpo nu.

Tal horda de sensações úmidas

Decifravam os enigmas do meu tesouro enterrado
Paixão perdida  na dobra do tempo
Nos passos acidentais de um passado longínquo.

Segredando mais o desejo que o motivo
Um frisson de lógica reveste o sonho
De realidade assim julgado.

Porém, se te roem meus dentes de leite
Te mordo na permanência da lembrança inequívoca
Que não sacia a carne, mas povoa a cama.



Tela de Boris Mikhailovitch Kustodiev - (1878/1927)
Pintor Russo.

Terê Oliva

http://tereoliva.blogspot.com

sexta-feira, 1 de junho de 2012

FLAMENGO OOOOOOOL !

Hoje o dia não levantou com o canto do galo.
Pulou da cama com um grito de gol.
Não um, não dois, não três...
Quatro vezes o grito ecooulllll.

Também a manhã abandonou seus azuis.
Fez-se negra e vermelha de paixão
Nas camisas do Flamengo a colorir as ruas
Trens, ônibus, cada pedaço de uma cidade feliz.

Velhos amigos de repente todos
Companheiros sem motivo outro
Além da passageira alegria de ser
Cada um, campeão.


Terê Oliva.