segunda-feira, 2 de abril de 2012

OLHAR AÇUCARADO.

Um desejo escondido a ninguém conto
Por temer o julgamento mambembe daqueles que não conhecem nem sabem
Do pó de grafite que borraram as horas dissipadas.

Quisera ter o escrever leve, como manhã prometida de um deus Sol que agoniado a espera.
Dona do frágil vento que carrega na garupa pétalas de flor miúda
Para encantar o rapaz que sentado na pedra do rio pensa
No seu amor primeiro.

Suave assim.
Assim amena.
Assim de silêncios composta.

Na poesia de dedos magros, compridos de pianista clássico
Cantar as belezas que o olhar açucarado pinça
Entre as nódoas que a dúvida espalha.

Forjar tal agudeza de pacífico e bom
Vai além do que meu espírito professa.
Heterodoxo sentir que transgride, mas mesmo rejeitado e assustadiço
Mantém o eu que outro não seria.


Tela de Herman Behmer  Fenner - (1866/1913)

Pintor Alemão.


Teresinha Oliveira.

terça-feira, 27 de março de 2012

GOLPE OBLÍQUO.

Não sou além do que a gota que se esgota.
Vento que em farrapos desmonta a imagem
Na nuvem mal definida e seca de presságios que tapa o sol
Que cria a sombra, que extermina o ser atrás dela caminhante.

 Não sou estrela vésper de pastor errante
Que urde fios de céu no amor, através das veredas em que se perde.
  Nem ao menos arbustos de flor pretendida prendo aos canteiros pelas raízes

E as pistas de pão, que a cada passo da minha espera na terra marco
Passarinho come, tal qual na história infantil.


No fio de um golpe oblíquo do desejo sobrevivo
Carregando meu cântaro com outras águas.




Tela de Valeriy Belenikin  - (1961)
Pintor Russo Contemporâneo.


Teresinha Oliveira.



SEM TEXTO E CONTEXTO

Meu amor é sem texto e sem contexto.
Enganou-se sempre no próximo passo
Ao despencar de barrancos e pisar em falso.
Torceu pé, rachou unha

Quase explodiu o miocárdio, mas aguentou firme a mazela
De chorar escondidinho e fingir que nada aconteceu
Ou que pouca importância tem uma alma rejeitada
Porém doer, doeu.


Mas dor de amor, apesar de quase física

Insônia, olho vermelho, jejum, comprimido
Dói menor que se supõe ou se aparenta.
Emagrece o sofrido, o que lá é muito bom
Torna vaidoso o pobre infeliz ao se ver livre
Disponível para novas aventuras e erros toscos.


Cupido cego flecha a esmo e não dá para escapar
Nem possível é se ocultar atrás da janela fechada
De um não que no fundo é sim.
Espantoso seria calar na boca e no espírito

A decisão que mais parece de Ano Novo
Repetida vezes sem conta aos próprios botões
Promessa já na origem quebrada de nunca, jamais 
Em tempo algum a ninguém amar de novo.


Qual o mais frágil nessa história toda
Aquele que se esconde atrás do escudo de papel 
Ou o crédulo amante, míope sem lentes?


Tela de John Spencer Rodam Stanhope - (1829/1908)
Pintor Inglês.



Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

terça-feira, 20 de março de 2012

TIPOIA.

Sem inspiração, sem palavra, sem vontade...
Hoje, arrasto a emoção pelo chão sujo
Carrego meu cérebro numa tipoia.

Tela de Charles Zacharie Landelle - (1812/1909)
Pintor Francês.

Teresinha Oliveira.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.

sexta-feira, 16 de março de 2012

SEXO CORROSIVO

O desencontro se deu no olho vesgo
Castanha íris, fragmento de fruto seco.
Humilhado desejo morreu ainda a caminho da cama 
Sem gerar lágimas, por há muito sê-las menor cisco
No todo da maré dos dias 
Onde a nau em hora incerta naufragou

As dobras do lençol revelam mais um tanto
Se bom ou mau somente um frenesi do espírito confessará
Ao corpo na realidade crua do agora.
Relativo se mostra porém, gozar alhures
Se o amor no porta-retrato, ladino espia 
Sobre a cômoda empoeirada que se esqueceu de limpar.

O repulsivo odor das insônias
Traz um  toque de lembrança do sexo corrosivo
Entre tijolos e pedras desmoronadas
Do quarto largo onde se gozou um dia.


Tela de Leonora Carrington - (1917/2011)
Pintora Inglesa.

Terê Oliva - (1996)
http://tereoliva.blogspot.com.br





quinta-feira, 15 de março de 2012

BROTO POÉTICO.

A poesia se fecunda uma e nasce outra.
Segue crescendo tal qual peônia
Que se mostra simples flor e como tal logo morre.
 O mesmo pedaço de chão copula um inesperado fruto
Que cedo apodrece se não a tempo colhido.


Ao ficar pronta, ou assim quase 
Porque poesia, finda nunca está
Se vê a pobre ainda tonta, à mercê
Dos melindres de palavras loucas
Que não se sabe de onde brotaram.


Tela de Thomas Heaphy - (1775/1835)
Pintor Inglês.


Teresinha Oliveira.



terça-feira, 13 de março de 2012

PULSEIRAS COLORIDAS.

As meninas seguem lindas a caminho da escola. 
Braços cheios de pulseirinhas coloridas para trocar com as amigas.
A ideia, não se sabe de quem, esquentou devagar até se tornar febre. 
Os camelôs, aproveitaram a deixa e logo criaram alternativas para mais vender. Agora, além das coloridas, existem as bi-colores, as cintilantes, as que brilham no escuro, as perfumadas e sabe-se lá mais o quê.
As mães, até as mais pobrezinhas, compram sorridentes ao descobrir o preço irrisório. "Mãe, quero dois saquinhos." - "Não, um só tá bom. Vai trocando com as colegas."
Outras, desfilam muitos saquinhos nos braços coloridos do punho ao cotovelo, espalhando bons augúrios para quem quiser trocar, ou for merecedor de ganhar: sorte, amizade, sucesso, saúde, felicidade, paz... Tem até pulseirinha poliglota que declara 'I love you.'
Lindas meninas a caminho da escola...
Espalhando alegria por onde quer que passem.


Tela de Albert Samuel Anker - (1831/1910)
Pintor Suíço.

Teresinha Oliveira.
  

domingo, 11 de março de 2012

NA GARUPA DE UM LIVRO-2

Escorregando pelos devaneios o livro cai ao chão, como para avisar que está vivo. Porém, mais vivaz encontra-se a viajante que ele mesmo muniu de malas para imaginar o tempo restante.
Uma década é boa sobra para se viver. Dá para fazer muita coisa, ou o quase nada que se quer ainda. O que desejo de verdade só chegará depois mesmo, se é que um dia vai chegar.
Uma linda jovem arrancando com seu carro, o veloz que não possuí apesar de tanto querer, dando adeus com os lindos cabelos ao vento e sua gargalhada irresistível. Melhor adeus não há.
Outra, com os cachos morenos domados pelo amor em longos véus, no átrio da igreja que resplandece ante seus olhos quase verdes. Noiva rica e branca.

Ela com certeza vai casar; está no sangue esse brinde de amor eterno que leva ao altar.
Muitos mais, maduros como fruta boa, bonitos, felizes todos e cada um no seu jeito de felicidade. Talvez não o meu, cuja receita padrão a eles não seduz.
Eu, encarquilhada e lenta, talvez chore. Tomara! Preciso gastar as lágrimas que não gastei, nem em enterro ou em filme triste que a todos debulha. Mas a essa miragem não tocarei concreta, nem eu nem a miragem. Oitenta, em mim,  é ano demais e muita velhice; não tenho nervos para tanto. Setenta vívidos já é sorte nessa matemática suposta.
O torpor se esvai e o sol traz um cheiro de café que desperta o livro com tanto ainda a contar, história luzindo como pérola que logo deixo para depois.
     Vou sacudir o meu dia e vivê-lo no meu estilo real.  Melhor assim, apesar de não o ser, ou talvez até sendo.



Tela de Federico Faruffini  - (1833-1869)
Pintor Italiano.



Teresinha Oliveira.   

sábado, 10 de março de 2012

NA GARUPA DE UM LIVRO-1

     Livro é presente de Mago, que com seu ruído ao folhear páginas desperta uma bruxa escrevinhadora, que ao meu lado sempre senta para ler junto.
     Mal o sol desperta a palavra vem, amalucada de sono, com muito dizendo aos borbotões da ilógica mente pura. Apesar do censor ainda na luz distante, com o tanto revelado se assusta, apesar de sabê-lo inócuo; massa com que não se faz pão.
     Os olhos fecham na sintomática fuga, mas a palavra insiste, encaixando-se na frase que o pensamento, sem outro jeito vai pensando. Pensamento bom, pensamento ruim, pensamento tão chulo que dá vergonha de falar, quiça escrever com letra escorrida do acordar.
     Surge festa, surge gente, surge maldade, surge serra e temporal que matou a gente pensada antes, surge o ontem que não se foi e de tão velho creio que não irá. Surge futuro também, mas não o longínquo, o dos anos que não verei. Meço a vida provável. Trinta anos é esperança vã, que saiu correndo de bicicleta atrás das visões que sentada em nuvem espiarei, se deixarem e se eu existir, fantasma para tal.

     Vinte anos é demais, mas com sorte, ou talvez muito azar viverei. Será que com boa cabeça para saber lá estar? Cabeça eu garanto; ou garantiria antes do remédio supimpa que cura dor e estica nervo, para que o malvado em outros do rosto não se encoste. Doença esquisita, logo essa me grudou.
     Agora não sei mais da razão. Genética às vezes não funciona. Se tem herança de centenário, também tem herança de coração partido, não de amor, porque histórias de grandes paixões nunca contaram, mas partido de explosão na veia que estoura e nos fiapos que entopem. Doces e cigarros. Pagamos o preço em tempo corrido.
     Dez para mim está bom. Primeiro porque 2022 está longe e depois porque é número bonito, pendurado de dois, par, casal. - 2+0+2+2=6 - Meia- dúzia. Rosas assim são vendidas, bananas e ovos idem. Perfume e alimento. Minha vida não é feira de esquina, é braço forte que monta a barraca e se bronzeia ao sol. Músculos que vem resistindo, de solidão e desejos vendados sem saber onde ir, mas mesmo sem o saber, esticam a lona e atam os nós. 
     Um só 6 é a terceira parte de 666, o número da Besta. Acho que meu caminho além está à vista; a fração promete. É pequena e me torna bem-vinda nos portões do céu.


Tela de Gustave Claude Etienne Courtois - (1851/1923)
Pintor Francês
                                  

                                          Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 7 de março de 2012

TANTO FAZ...

 Cupido, jovem sem juízo que pelos antigos amores zelava.
Eros, o mesmo tolo, rebatizado em outras águas.
Braços frouxos e igual romanesca função
Dois que eram um, ou um que eram dois.


Com setas de divina imperícia erravam o alvo
Ao mirá-lo cegos.
Pobres de nós, mortais nessa nuvem de moscas
Incensando a esses deuses clássicos por um amor certeiro.

Girolamo Francesco Mazzola - (1503/1540)
Pintor Italiano.


Teresinha Oliveira.