terça-feira, 10 de dezembro de 2013

FANTASIA



Harpias pousam ao redor sobre troncos de árvores caídas, pedras grandes se acercam do rio e no rastro de lama do seu caminhar brotam flores que ele jamais houvera visto.
Está nu.
Não ousa perguntar ao ar que lhe arrepia os pelos onde está ou como lá chegou. Recorda-se apenas, num fiapo de nuvem da memória, o som da voz feminina que o guiou; tênue demais para ser ouvida acima do som da água em movimento, ou do cair das folhas no outono vermelho que o tinge.
Cristaliza-se no desconhecido, e por temer os demônios da noite segue o rio que se alarga formando um lago luminoso, onde sentada à beira d'água, uma mulher nua canta.
Ele não entende uma palavra da canção entoada, mas o som suave e doce cria uma atração irresistível, como se uma mão de prata tocasse seu peito e o arrastasse pelo coração para perto dela.

Imagina sonhar, porém ela é o além dos sonhos, a ousadia de um desejo que nem mesmo ele, músico e poeta, impregnado com os segredos da arte, jamais vislumbrara sequer em reflexos. 
Sua pele branca sob o céu noturno é como uma promessa de fogo numa noite fria. Ela se curva e mergulha a mão na água do lago, tão graciosa quanto um pássaro que alça voo, e expõe nesse movimento sem intenção a curva dos seios.
Seus longos cabelos a envolvem como uma sombra e, de alguma maneira que ele não entende, é a rede onde ela o prenderá sem piedade ou retorno.
Mesmo distante pode ver seus olhos curiosos. Um sorriso perigoso atingiu-lhe o coração como uma seta flamejante segundos antes que ela dispare pela floresta como uma corça. Ele salta no seu encalço com uma vaga percepção de terra, espinhos, galhos de árvores a lhe arranhar o rosto, desconhecidos perfumes e texturas.
Ela brilha vegetação adentro, esconde-se, dança, gira e promete. Tal qual criança, espera que ele quase a toque para fugir novamente. No momento escolhido  deixa-se prender. Ele a abraça pela cintura e sente os bicos de seus seios endurecerem ao roçar seu peito. O cheiro dela, o aroma de mistério e frutas maduras, dissipam qualquer hesitação.
As mãos há tanto ansiosas, sem saber se estão despertas ou adormecidas, prendem-se em seus cabelos e deslizam pelas planícies do seu corpo. Demoram-se ao percorrer a extensão macia de suas coxas e flancos, descobrem grutas e rios, e sem mais controle, deitam-na no chão de folhas e restos de floresta.
Ela se amolda e se contorce lânguida sob o peso dele que, vibrante, a encontra. Na luxúria da carne, nos gemidos e gritos, faz-se música.
Os suspiros dela mais o excitam e seu coração galopa por todos os músculos e nervos. Seu frenesi acalma-se, e ele, agarra-a pelos quadris num contraponto delirante. Os corpos atingem o ritmo de uma canção no silêncio do mundo e tudo se aquieta, nenhum movimento ou som é percebido. Cada célula nele arqueja e ele enrijece como uma corda de violino. Trêmulo, sólido, lascivo.
A frequência atinge o agudo das estrelas e ele explode.

"The Nymph Salmacis and Hermaphroditus"
François-Joseph Navez - 1829/1869 - Pintor Belga.


Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

IMAGINAÇÃO

Malabarismos na cabeça
Ousados, sem medo, precisos.
Todavia os olhos
Permanecem agarrados ao chão
Fitando os pés que mal saem do lugar.


Terê Oliva
Tela de Paolo Giordano