segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O TORPOR DE MORFEU.

Tela de Alfred Émile Stevens - (1823/1906)
Pintor Belga.


Um despertar indeciso no céu gris
Traz o torpor onde os pensamentos perambulam.
 Como pombos de asas quebradas 
  Voam ilógicos nos ventos da rosa sem norte.

Sem o filtro da razão para as coar
As loucuras de Morfeu, só aqui sob os lençóis admitidas
Entre os grãos de areia da ampulheta se chocam
No dia novo que ainda não se decidiu viver.

Nublada mente, atordoada memória
Se encostam no sonho que se deseja lembrar
E que escapou entre as filigranas do sol de domingo
Nessas horas rasas que deveriam ainda ser fundas.
A dádiva do esquecimento não mais se desfruta
Porque a carne saciada expulsa o cérebro dos porões escuros.
O espírito, sem domínio, vagueia no interlúdio dos sonos
Enquanto os galos não cantam.
Tela de Frederick Leighton - (1830/1896)
Pintor Inglês.


Terê Oliva.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

GUMES DE SEXO.

Tela de Leon Jean Basile Perrault - (1832-1908)
'La Baigneuse' 
Quero a carne crua dos amantes 
Com gumes de sexo afiados.
O sangue fervente dos homens apátridas
Párias, hereges, asseclas, lascivos
Para servir à cama de noites úmidas
Quando a água da concha transborda
 Sem taças para conte-la.

Tela de Frield Pal - ( 1893/1976)
Pintor Húngaro.


Terê Oliva.

domingo, 19 de agosto de 2012

ESCULTOR DE JARDIM.


O jardineiro quebrou as costas cortando grama ao rés do chão
Sangrou dedo nos espinhos da roseira que
 Apesar da beleza não queria admirador por perto.
Aturou xingamento da mulher que o dizia sujo de terra
Nas unhas e nas roupas em que enrugava mão p'rá lavar.
Ganhava pouco e suava muito.
Um dia cansou.
Vestiu asas na poesia que dentro dele sempre morara
Fez da tesoura cinzel e virou escultor de jardim.

Terê Oliva.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

CANTEIRO DE MINÚCIAS.

Tela de John William Waterhouse (1849/1917)
Pintor Inglês.

A jovem com vestido de retalhos, pedaços de amor perdidos
Plantou rosas e tulipas em seu canteiro de minúcias
Para montar o buquê de casamento pelo qual há muito bocejava.

O tempo secou flor, o vento trouxe praga
A jovem, nem mais tanto, quase em farrapos desistiu.
Voltou para casa e foi ler um soneto sem rimas.

Tela de Dante Gabriel Rossetti - (1828/1882)
Pintor Inglês.

Terê Oliva.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O CARTEIRO.

Walter Dendy Sadler - (1854/1923)
Pintor Britânico.
 O carteiro caminhou por léguas.
Ruas velhas, ruas novas, ruas sem abscissas.
Por serem tantas que há pouco não havia 
Se perdeu nos graus sem medida
Do mundo quase caiu.

A carta fervia em suas mãos. 
Sua imaginação no perfume 
Na letra em fio de nanquim bordada  
Com finíssimas retas e curvas também fervia.

-Flor de Lis-

O vapor do sol pintou a imagem da moça bonita
De seios redondos com passarinho nos bicos 
Azul no olho e romã no hálito.

Um coração de poeta nasceu assim no peito do carteiro.
Quedou-se ele de amores pela flor desconhecida
Que apesar de tanto espanto jamais encontrou.

 Carl Spitzweg - (1818/1885)
Pintor Alemão.


Terê Oliva. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A OLHAR NAVIOS...

Tela de Frank Weston Benson - (1862/1951)
Pintor Americano.


Para o além olhava, e no além do mais além sonhava
Com seus cabelos ao léu dos ventos 
Trazidos pelas correntes do mar sem navios
Não havia mais a esperar, e ela o sabia.

Tudo o que restara, do afinal pouco havido
Só existia dentro do cântaro de sua memória
Que esgotava suas águas ao lembrar
 Um amor há muito perdido.

Nos porões do barco naufragado jazia o cadáver do navegante
 Que nas escaramuças de uma luxúria infausta
Morreu sem remos, sem bússola. Sem o sal da lágrima da mulher
Que prendeu os cabelos e no dialeto do mar cantou um adeus. 

Tela de Charles Courtney Curran - (1861/1942)
Pintor Americano.


Terê Oliva.

INÉRCIA

Tela de Anne Bachelier (nasc. 1949)
Pintora e Ilustradora Francesa.

Se a dor é avassaladora e cobra inércia, que assim o seja. Amém.
Constrangedor muitas vezes, é assumir o papel dessa mulher estranha, que desde sempre agitada por uma alegria inata, se vê observando a valsa da vida sem seus sapatos de dança. 
Porém, não há como escapar do revés das marés. Se por obra do destino, falta de sorte ou simplesmente doença da carne pouco importa. A dor existe e deve ser imobilizada.
Aos antigos amigos, que a recordam nas horas da gargalhada, do salto alto, da jovialidade e da pressa, ela explica através das drogas e dos choques, o humor sereno que com ela não combina, mas essencial se torna ante o pânico dolorido. 
Aos novos, que só assim a reconhecem, ela jura de pés juntos que em tal calmaria nem sempre viveu.
Houve um tempo de sexo e rock.
Tela de Nicolaj Alekseevich Kasatkin - (1859/1930)
Pintor Russo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

SEDUÇÃO.

Tela de Artemisia Gentileschi - (1593/1653)
Pintora Italiana.


Há mulheres que não perdem tempo com olhares e sorrisos. 
Acreditam que  sedução é coisa antiga e desgastante. Uma palavra direta é mais eficiente do que a flecha do pobre Cupido, que atualmente anda meio vesgo e nunca acerta o alvo, só o dedão do próprio pé. Ou pior, um dos muitos sapos que lotam os brejos da existência feminina.
Como cada uma sabe de si e Deus de quase todas, aquela que não concordar  que permaneça no seu canto, gastando batom.

Tela de Cayetano Arquer Buigas - ( 1898/1979)
Pintor Espanhol.

Terê Oliva.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

CRISTAIS.

Tela de Louis Emile Adan - (1839/1937)
Pintor Francês.

A avó gosta de pedras. Desde sempre gostou.
Fez coleção de cristais com mandingas e poderes de luz, quartzos coloridos,  cada cor solução para as travas da vida. Verde para saúde, rosa para amor, negro para afastar mau olhado e inimigo oculto. Roxo para girar a roda dos dias e, nesse giro tudo reverter. O que é mau fica bom, a penúria se vai e a prosperidade chega, o triste se alegra e o feio fica bonito.
Fez ninho para seus ovos de cristal numa cesta de palha e deixou à mão.
Vez ou outra escolhia um e nele mergulhava, tentando desvendar em seus veios e segredos, os milhares de anos ali contidos. 
A paixão de tão mineral e luminosa, calcificou nos olhos da neta e não mais os soltou. Logo, pedra virou água na lágrima que corria pela face da menina que de tanto querer, os ganhou.
Como paixão é fumaça e pedra não pega fogo, perdeu-os um a um, por cantos do não sei onde está.

Tela de Georgios Iakovidis - (1853/1932)
Pintor Grego.

Terê Oliva.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O RELÓGIO.

Max Slevogt - (1868/1932)
Pintor Alemão.



Esperar o tempo passar é tediosa ambição.
Os olhos se gastam a encarar os ponteiros que parecem
Imóveis ante aos desejos do depois.
É a ânsia que os prende 
Os agarra com as mãos vazias ao menor balanço.


Quanto mais olho espichado
Mais se petrifica no mesmo minuto.
Tela de Alfred Émile Leopold Stevens - (1823-1906)
Pintor Belga.


Terê oliva.