sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

AS ASAS DE UM ANJO.

Tela de Abbott Handerson Thayer - (1849/1921).
Pintor Americano.

O murmúrio das asas de um anjo
Tocou a minha face.
Ficou mais fácil respirar e virar de lado.

Sua sombra polvilhou com noite a insone dor 
Que cochilou entre as etéreas mãos
E me deixou, enfim dormir.

Teresinha Oliveira.


MITOLOGIA DOS HOMENS ERRANTES.

"Love" - Tela de Anthony Frederick Sandys (1829/1904)
Pintor Inglês.

O amor parece magia que transborda de um pote de mel. Deixa todo mundo macio e bobo, tal qual doce de fruta em calda, que o açúcar para muito conserva no tempo.
Tal qual a fruta, amor também azeda e acaba, quando não se ferve e não se repõe os pedaços comidos do todo no pote.
Aí fica o sujeito desamado, desquerido, numa tristeza funda, com cara de coitado que a gente já conhece, por ter visto no espelho e nos outros com quem se convive ao largo e ao estreito.
Pior do que bicho, que quando apanha aprende, segue o ser de coração partido, desenrolando seu carretel de mágoas para quem quer ouvir ou não.
Mulher então pior fica. Se desespera na solidão de andar sem braço dado, cama vazia.
Quando se apaixona é um Deus nos acuda. Nada mais há de serventia nessa vida colorida por esse amor que pensa eterno. Ninguém lhe contou que eterno nem o viver é.
A vida acaba sem aviso, na veia que arrebenta, no caminhão sem freio, no mar sem pé. Ninguém consegue nem mais um reles minuto para a palavra final.
Tanto amor sem senso enjoa a quem por perto circula e testemunha.
É amor desmedido que por outra seta poderia ser lançado. 
Nem só Cupido é deus na mitologia dos homens errantes.

"Mulher Sentada" 
Tela de Hermenegildo Anglada Camarasa - (1871/1959)
Pintor Espanhol.

Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O CÂNTICO DOS OSSOS.

Tela de Raimundo de Madrazo Y Garreta - (1841/1925)
Pintor Espanhol.


Nessas noites solitárias
Os ventos trazem o sussurro das almas
Dos ancestrais que escapam do álbum de retratos.
Despem suas roupas, e nus, passeiam sobre as areias
Do passado que brilha na névoa das imagens mortas.

Seus ossos exalam os cânticos que revelam os segredos
Mais bonitos e mais sórdidos.
Na penumbra do quarto que a luz do abajur lilás ameniza
Egos multifacetados analiso sem piedade 
Porque a mim não cabe a  absolvição.

 Tela de Alexei Harlamoff - (1840/1925)
Pintor Russo.


Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

CADEIRA DE SEAGRASS.

Há tempos namoro na loja da esquina uma cadeira de Seagrass, fibra da longínqua China que olhos oblíquos trançam e retrançam, gerando tudo aquilo que possa ser trançado. 
Grama do mar, já me disseram os entendidos desses segredos de capim que ninguém por cá conhece. 
Tem ela suaves encantos, e desperta uma sensação de beleza que beira à arte.
Original e magra, por pouco esquálida, como dita a moda atual. 
Palha e madeira quase criam a imagem de uma ave exótica,dessas pernaltas que todos admiram a elegância mas ninguém sabe o nome. 
Como é próprio das aves voarem assustadas ao menor sinal de perigo, a cadeira parece olhar para os lados, ameaçando desabar sob qualquer corpo cansado que inadvertidamente se jogue sobre ela sem apuros, sem observações estéticas, como todo corpo cansado sempre o faz no buscar alívio de suas lidas.
Ah, frágil epifania, apesar de tão linda com suas plumas de caule, não me serves, apesar de cativar.
Preciso de solidez para repousar as noites da minha pesada alma.

Tela de Thomas Pollock Anshutz (1851/1912)
Pintor Americano.

Teresinha Oliveira.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

JANEIRO.

Tela de William Oliver (1695/1764)
Pintor Inglês.


É tempo de jogar as sementes ao solo.

Quem sabe ao final do ano
Seja possível salvar parte da colheita.

Como vivo sem cuidados
Descalça sem para onde
Facilmente me perco entre ratos e passarinhos.

Assim, após tanto desperdiçada 
Prometi cara a cara com o espelho
Zelar melhor por meus grãos.

Tela de Zinaida Serebriakova
Pintora Russa Contemporânea.


Teresinha Oliveira.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

ANO NOVO.


Que preguiça me dá
Começar o ano.

Se de mim a vida esquecesse
 Ficaria nesse interlúdio festeiro
Por mais alguns sóis e chuvas...

Tela de Ernesto Soler Delas Casas - (1864/1935)
Pintor Espanhol.

Teresinha Oliveira.