quinta-feira, 31 de março de 2011

POR AÍ...

Subi serras, desci morro
Pisei areia, asfalto, lama
Andei na beira d'água
Entrei em buraco fundo.
Caverna vasculhei, subi árvore
Transgredi planaltos e planícies.
Mergulhei em plissadas ondas
De rio, mar e piscina, e nelas só não me afoguei
Porque viver na borda sempre foi destino.
Me banhei em cachoeira fria
No chuveiro lavei dos pés o pó.
Corri, pouco, confesso agora
Que correr não é meu chão.
Descansei em rede, em cama.
Grama não, porque formiga morde
E coceira logo não desgruda.
Passei perfume que disso gosto.
Pintei unha, mas quase nunca
Tenho preguiça e gasta tempo
Tempo que não tenho já que em livro uso
Dá mais prazer e extensão.
Penteei cabelos muito curtos
Desde menina cortados, quase menino
Tentei ficar bonita o mais que pude.
Usei carro, ônibus, avião
Avião sacoleja o medo, mas vai rápido.
Em selva jamais entrei
Que cobra assusta qualquer alma
E veneno, não só dói, mata
E morrer não está nos planos.
Não de tanto buscar um amor novo
Que pelo jeito, parvo, bem se escondeu..
.
Tela de Tamara de Lempicka - (1898/1980) - Pintora Polonesa.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

terça-feira, 29 de março de 2011

DOCE FESTA.

Algodão cor-de-rosa
Jujubas em arco-íris
Bombom de licor e avelã
Maçã do amor com gosto de beijo
Picolé escorregando nos dedos.
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Caramelo grudando nos dentes
Maria mole molenga
Pé de moleque explodindo
Nas estrelas de amendoim
Cocadas brancas, pretas, cafusas do coco nativo.
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Brigadeiro no céu da boca
Pão de mel com chocolate coberto
Quindim, cerejas, morangos
 Afogados no creme de leite.
Bolo, pudim, rocambole, manjares.

Cama, champanhe,você...
Quermesse de açúcar
Para me lambuzar
.
Tela de George Crisp - Pintor inglês - (1875/1916)

Teresinha Oliveira.

sexta-feira, 25 de março de 2011

PARA RIR VIII.

"Hipocondríaco é uma pessoa que só se sente bem quando está mal."
De Aftenposten.

"O fígado faz muito mal à bebida." Anônimo.

"Ele descobriu que estava ficando velho quando ladrões arrombaram seu carro para roubar o toca-fitas, mas deixaram as fitas." - S.Brown

"Meia idade é quando se começa a trocar emoções por sintomas."

Irvin S. Cobb -(1876/1944)

"Você percebe que está envelhecendo quando as velas começam a custar mais que o bolo."

Bob Hope

Ilustração- Denis Zilber.

O AMOR É MESMO ASSIM.

"Como você se torna uma esposa melhor? Não tentando fazer dele um marido melhor."
Gurumayi Chidvilasananda.
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"Não importa com quem te casares, na manhã seguinte constatarás que te casastes com uma pessoa bem diferente."
Samuel Rogers.
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"O pessimista acha que todas as mulheres são frívolas, o otimista espera que seja mesmo assim."
Chauncey Depew
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"O amor é um oceano de emoções inteiramente rodeado de despesas."
Sir Thomas Dewar

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Ilustrações - Sara Jane Szikora.

LÁPIS E PAPEL.

"Se quiseres enriquecer escrevendo, escreve o tipo de livros lido por pessoas que movem os lábios quando lêem para si mesmas."
Don Marquis.
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"Aqueles que escrevem de modo claro tem leitores; aqueles que escrevem de modo obscuro tem comentaristas."
Albert Camus. (1913-1960)
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"Muitas vezes uma biografia não passa de uma operação plástica praticada num morto.
Virginia Wolf. (1882/1941)
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"Até o pior dos livros tem uma página boa: a última."
John James Osborne. (1929/1994)
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"Basta ler meia página do livro de certos escritores para perceber que estão despontando para o anonimato."
Stanislaw Ponte Preta. (1923/1968)
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Ilustração- Denis Zilber.

PARA RIR V.

"Desgosto não se discute."
Flávio Moreira da Costa.
...
"Burguês: Animal humano perfeitamente domesticado."
Aldous Huxley - Inglês - (1894/1963)
...
"Criminoso: O homem que é descoberto" - CELT (?)
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Ilustração-Vladimir Gvozdarik.

PARA RIR IV

"Um megalômano é um homem que pensa que, se não tivesse nascido, o mundo inteiro procuraria saber porquê."
                                                  Dan Post.


                                       Ilustração- Denis Zilber

O DONO MANDA...

" Perguntei a um árabe por que as mulheres, após andarem durante séculos atrás de seus maridos, agora caminhavam na frente deles.
Respondeu que a guerra havia deixado muitas minas escondidas."
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Robert Muller.
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Ilustração - Denis Zilbert

BEIJO DE JUDAS.

"Beijo: O de Judas valeu-lhe apenas trinta dinheiros.
O das mulheres, às vezes, abre uma renda vitalícia."
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Bernard Shaw - Escritor e Dramaturgo Irlandês - (1856/1950)
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Ilustração - Alexander Daniloff.

quinta-feira, 24 de março de 2011

JOGO.

              "A primeira regra do jogo de pocker: um Smith e Wesson derruba quatro ases."
                                                                    Al Capone.
  
Ilustração - Denis Zilber.

PARA RIR...

"Muitos homens apaixonados por umas covinhas cometeram o erro de casar-se com a moça inteira."
                              Stephen Leacook                       
                                                                    .
"Um arqueólogo é o melhor amigo que uma mulher pode ter: quanto mais velha ela fica, mais   ele se interessa por ela."                                         
                                                      
                            Agatha Cristie         

               Ilustração- Mariarita Brunazzi.                              .



                                   

quarta-feira, 23 de março de 2011

CHARLIE CHAPLIN.

" O tempo é o melhor autor. Sempre encontra um final perfeito."
 " Há uma coisa tão inevitável quanto a morte: a vida."
" Nada é permanente nesse mundo cruel. Nem mesmo os nossos problemas."
" Não creio em nada e de nada descreio. O que concebe a imaginação aproxima-nos tanto da verdade quanto o que pode provar a matemática."
" O som aniquila a grande beleza do silêncio."
" Nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado, nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade."
" Creio que não se pode fazer nada de grande na vida se não se fizer representar o personagem que existe dentro de cada um de nós."


Charles Chaplin.

Ilustração de Vladymyr Lukash.

SIGMUND FREUD.


" A ciência não é uma ilusão, mas seria uma ilusão acreditar que poderemos encontrar noutro lugar o que ela não nos pode dar."

'O Futuro de uma ilusão'

" É quase impossível conciliar as exigências do instinto sexual com as da civilização."

" Nenhum ser humano é capaz de esconder um segredo. Se a boca se cala, falam as pontas dos dedos."
  
"Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro."
" O pensamento é o ensaio da ação."

Sigmund Freud - (1856/1939)
Gravura de Vladymyr Lukash.

ALFRED HITCHCOCK.

" Existe algo mais importante que a lógica: é a imaginação."
" Estilo é plagiar a si mesmo."
" Suspense é como uma linda mulher: quanto mais espaço ela deixa para a imaginação, maior é a expectativa e a ansiedade que ela cria."
......................................................................
Alfred Hitchcock.
Ilustração de Vladymyr Lukash.

♫ CANÇÃO BRINCADEIRA.

    Vou guardar aqui num de meus cadernos, lugar seguro apesar de difícil lembrança, essa irrespirável canção que se torna uma grande brincadeira para me divertir com a Lyli.
   Não posso me esquecer daqui a alguns anos, talvez dois ou três, de convidar a Nunu para brincar conosco. E nós, com certeza, vamos rir a valer. E não há som mais gostoso que gargalhada de criança, como confirma Victor Hugo: "Nada chega ao fundo da risada de uma criança".
   Só desejo, agora que esses dois amores fazem parte de mim, que elas se lembrem da avó sem aranhas ou moscas no cérebro,  que  inventa brincadeiras,  traz alegria e faz gargalhar.
                                              ♫ VELHA A FIAR ♫.
   Estava a velha a fiar. Veio a mosca lhe incomodar. A mosca na velha e a velha a fiar.
   Estava a mosca em seu lugar. Veio a aranha lhe incomodar. A aranha na mosca, a mosca na velha. E a velha a fiar.
   Estava a aranha em seu lugar. Veio o rato lhe incomodar. E blá...blá...blá...
              AGORA A ÚLTIMA ESTROFE...VAMOS LÁ, SEM RESPIRAR :•)
   Estava o homem em seu lugar. Veio a velha lhe xingar. A velha no homem, o homem no boi, o boi na água, a água no fogo, o fogo no pau, o pau no cão, o cão no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar...
   Que bobagem! Mas espero que todos tenham se divertido


                      
                   ♫ Música do Cancioneiro Popular.
Tela de Johann Georg Meyer Von Bremen - (1813/1886)
                              Pintor Alemão

ALBERT EINSTEIN.

"A coisa mais bonita que podemos experimentar é o mistério. Ele é a verdadeira fonte de toda arte e ciência."
 
"A ciência sem religião é falha; a religião sem ciência é cega."

"Não sei como será a Terceira Guerra Mundial, mas a Quarta será a paus e pedras."

"Agora que os matemáticos se apossaram da Teoria da Relatividade, eu mesmo já não consigo entendê-la."

"A mente intuitiva é uma dádiva sagrada e a mente racional sua serva. Criamos uma sociedade que honra a serva e esquece a dádiva."

Albert Einstein → Físico alemão naturalizado norte-americano.

Ilustração de Vladymyr Lukash.

terça-feira, 22 de março de 2011

O ENCONTRO....

"Subitamente na esquina do poema,
duas rimas olham-se atônitas, comovidas,
como duas irmãs desconhecidas..."
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 Mário Quintana - 'O encontro'
.
 Tela: Constatin Hansen - Dinamarca (1804/1880)

HARMONIA SECRETA.

"A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz.
Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas aéreas piruetas - escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio."
Clarice Lispector - (1920/1977) - 'Água Viva'

   Angustiante essa desarmonia que esconde as palavras numa caverna de onde a harmonia fugiu. O dito já foi dito, mas preciso dela para um novo dizer. 
   Também minhas desequilibradas são as palavras, mas não as quero falar, por assim sabê-las.
    O silêncio me angustia, mas no escrever, grito.

Tela de Frederico Zandomeneghi - (1841/1917)
                   Pintor Italiano

                 Teresinha Oliveira.

                                   

segunda-feira, 21 de março de 2011

SORRISO DE PASSARINHO.

Um passarinho hoje me sorriu.
Coisa estranha sorriso de passarinho
Que sorri com seu jeito de olhar.
............
Teresinha Oliveira.
Tela de Rafal Olbinski.

BICHO NOTURNO.

Essa saudade, do que não sei e sei, dói sensata
Sem ferir grande, por ser dor medida.
Se aquieta quando as portas tranco com sete chaves
Carregadas em fio no pescoço sem revelar
Os delírios que no ontem existiram
Mas hoje não se repetem mais, nem jamais.

  Essa saudade é bicho noturno, que de sede não morre.
Acha fonte no redor e de carcaça se alimenta.
Esperta como coruja, voa morcego que até a mim assusta
Ou nas árvores de perto finca garras como onça pintada.
Nela monto e fujo p'rá longe de mim
Cada vez mais sempre, deixando lá trás imagens de renda e cetim.

 Nem lembrança se aclara, que lembrança machuca.
Faz bolha que não fura, e queima como fogo na mata
Que rápido não se extingue
Bebe água que em baldes não tenho.
Quando o bicho venenoso, escorpião
Que em toca funda se esconde, na poeira alhures aparece
Com ira lhe esmago a cabeça sem perdão.
A saudade, que na escuridão se camufla
Logo foge em desatinos e me abandona.
Tola! Precisão de fuga não há...
Eu tão pouco bom tenho p'rá guardar.


Tela de Edgar Mendoza Mancillas
Pintor Mexicano
Nasc: 1967

Teresinha Oliveira. 

domingo, 20 de março de 2011

LIVRO DO DESASSOSSEGO - À BEIRA DO MAR.

 " Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos (...)
E o que as almas foram e ninguém disse e o que os amantes estranharam um no outro, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que teve forma só num sorriso, ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que nos falta. (...)
Somos quem não somos. Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram.
Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção! Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se queria, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amávamos e perdemos, e depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que não o havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos, o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo ..."
        Bernardo Soares-Fernando Pessoa
             'O Livro do Desassossego'.
.
   É assustador como certos autores e sentimentos rimam conosco; como alguns dos nossos velhos fantasmas que há muito são ossos e pó e só existam em tinta e papel, (ou aí realmente vivam), possam comungar nesse frenesi com as emoções alheias.
  Também durei horas incógnitas, na beira do mar e longe dele, muito longe às vezes, em alto de serras; e minha alma insensata teve o que queria e se satisfez no erro, erro crasso que paguei caro ao perder, não por ter perdido, mas por ter querido em princípio, antes por não saber.
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Tela de Henry Edward Detmold - (1854/1924)
                   Pintor Britânico.

                 Teresinha Oliveira.

CONSTRUINDO CASTELOS .

" O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito.
Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?"
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Fernando Pessoa - 'O Livro do Desassossego'.
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Ora, pois, pois, meu queridíssimo Fernando, ou Bernardo, ou Álvaro...Ou seja lá quem for no momento, qualquer um mas sempre um, único embora não uno.
O palácio continua sonhado e construído etéreo na alma do pobre palaciano, sem mãos e posses para a obra; e mesmo inexistindo existe, e tem telhado de vidro molhado com gotas de sangue da impossibilidade.
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                            Tela de Bernardo Bellotto - (1720/1780).
                                           Pintor Italiano

                                        Teresinha Oliveira.

LITERATURA↔DICKINSON.

" Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes."
  
Emily Dickinson - (1830/1886)
Poetisa Americana 

Tela de Herman Herzog - (1832/1932)
Pintor Alemão.

POESIA ↔ PAVESE.

     " Fazer poesia é como fazer amor: nunca se saberá se a própria alegria é compartilhada."

 Cesare Pavese - (1908/1950) - Escritor Italiano em 'Il Mestiere di Vivere'.

Tela de Maurice Denis - (1870/1943)
Pintor Francês.

LITERATURA↔BAUDELAIRE

"A gramática, a mesma árida gramática, transforma-se em algo parecido a uma feitiçaria evocatória; as palavras ressuscitam revestidas de carne e osso, o substantivo em sua majestade substancial, o adjetivo, roupa transparente que o veste e dá cor como um verniz, e o verbo, anjo do movimento que dá impulso à frase."
 Charles Pierre Baudelaire - (1821/1867)

sábado, 19 de março de 2011

AO LÉU.


Se alguém lesse tudo
Tudo que escrevo por aí
Espalhado em papéis diversos
Guardanapos
Livros antigos e novos.

Se alguém me lesse nua
Como ouso
Ao me saber  jogar fora
Talvez conhecesse
Um pouco de mim.

Tela de Theodore Robinson - (1852/1896)

Teresinha Oliveira
.....

quinta-feira, 17 de março de 2011

PORÇÃO DE QUINQUILHARIAS.


Gosto da coisa sem função, sem objetivo claro ou obscuro
Que para nada serve, e sem motivo permanece guardada
Por anos sem memória, a desafiar o lixeiro
Com seu jeito coquete de mulher fácil, que todo homem espana
E nenhum casa, tampouco dela abdica.
.
Como o livro velho que nunca lerei pois já um novo li.
A alergia aos fungos o mantém aos meus pulmões fechado
E guardado num lugar seguro, distante do nariz, mas posse minha
Egoísta, que em flertes o acarinha e imagina
Mãos e olhos que íntimos dele se tornaram
Ao gastar suas páginas e ler, sentir e pensar o bocado que fiz
No mesmo outro, sem igual idade e cheiro.
.
Há também o anjo com meia asa quebrada
Que aqui reside desde um ano de já esquecido número
Como esquecida permanece a causa da exposta fratura.
Anjinho de vestes plissadas que chegou nas mãos
De clara criança com olhos azuis, tal qual querubim
Gêmeo dos que vivem nos quadros da Média Idade.
Ele agradece aos anjos maiores a asa e meia herdada
E sem rubores ousa rasantes pelo meu quarto num zoom de mosquito.
Mas mesmo torto, pendendo para a esquerda da asa boa
Minhas orações carrega aos céus.
.
A escultura de pedra abstrata que desvendar não consigo
Passeia pisando duro pelos cômodos sem achar lugar.
Parece me desafiar com seus cortes.
Granítico mistério de abscissas loucas
Criando um pássaro do paraíso.
Numa ponta aguda uma perna de mulher.
Às vezes, em estremecimento erótico
Transformo a rocha toda
No falo ereto de um deus fauno que sangra
No meio do bosque as virgens ninfas que dele fogem.
.
Não existe sensibilidade no útil
Nele a imaginação fenece.
Inútil conclusão que a lugar nenhum conduz
Nem minha casa esvazia.
.

Tela de John Watkins Chapman - (1832/1903)
'Old Curiousity'
Pintor Inglês 
.
Teresinha Oliveira. (2000)

MENDIGO EM PRETO E BRANCO.

    Meu estômago doeu com o impacto do soco inesperado.
Gastou tempo a dor para serenar no comum dos dias.
Pior que toda dor que quando dormida passa, essa não passou
  Devido à crueza do fato ou à atônita incompreensão
Ante o empavonado senhor da cena.
Dote da tosca beleza a me sensibilizar em paradoxos.

Beleza na fotografia em preto e branco do velho mendigo
Com sua caneca para tostões, de paletó roto e largo 
Em pose de lorde sentado nas escadas de alguma igreja da cidade.
Se não fosse ele mistura bendita dos gens desse nosso povo
Que desdenha a tez em horas de amor desejado
Crioulo, louro, mameluco, caboclo ou mulato
Juraria ser ele um lord inglês decadente, caído de um zepelim mágico
Que contaminado pelas misérias de nossas ruas sorri no papel.
Não o sorriso aguado da pobreza nos lábios abstratos
Mas um sorriso doce, quase infantil, de quem chupa bala de caramelo.

O fidalgo desconjuntado, com suas tralhas e troços a compor o cenário
Se exibe para o fotógrafo que com sensibilidade nos olhos e na pele
Foca com lente medida o momento, ângulo e personagem.
Registra, sem cores para dar alívio
A devastadora imagem desse ser abandondado na geleira urbana
Que empareda os desvalidos nas ruas do por aí.

Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 16 de março de 2011

MINHOCA ♥ Para Lyli e Nunu

Bicho encantador essa minhoca.  
Tão gorda e saudável que me assusta, quase cobra. 
Esquiva se arrasta, a fugir de qualquer luz. 
Tento, em vão, apresentar-me. 
Afinal , sou a dona do jardim 
Da terra cuidada, das flores e grama 
De toda pedrinha também. 
Mas ela, orgulhosa 
Mergulha no solo sem me dar atenção. 
Dona Minhoca metida 
Dê marcha ré, mesmo na contramão. 
Vem cá, eu peço. 
Quero lhe apresentar um minhoco 
Garboso e esperto.Bonito até, asseguro 
Morador de um vaso de antúrios, dentro da terra profunda. 
Parece a todo momento dançar a dança do ventre 
Já tem fama de bom bailarino. 
Vem cá, sua bobona !
 Bons partidos assim não são fáceis de encontrar. 
Quem sabe... 
No futuro, talvez 
Ele até peça sua mão.

Teresinha Oliveira.

Para ♥ Lyli e Nunu ♥
Minhas mais ricas rimas.
Amor que aduba meu chão.

terça-feira, 15 de março de 2011

AZUL MANHÃ DE ABRIL.

 Me perdoe por hora a dor
Por deixá-la assim pequenina
Cá dentro de mim guardada, tão leve
Que qualquer passarinho nas asas carrega.
.
Mas a vida brotou azul
Feliz, de luz bordada
 Riso e alegria insaciável
Ao sol, nessa manhã de abril.
.

Tela de Lowell Herrero
Pintor e Ilustrador Americano Contemporâneo.

Teresinha Oliveira.

URGÊNCIA.


Com urgência
Caso de vida ou morte.
Eu preciso em minha vida
Aprender a desistir.
A bastar.
A beber o definitivo gole.
A transbordar a última gota.
A quebrar o pote
E lavar o chão.

Tela de Juarez Machado -(1941).
Pintor Brasileiro - Joinville - SC
Teresinha Oliveira.

segunda-feira, 14 de março de 2011

REVERSO (ou MASCULINO)↔CONVERSANDO com SÁ CARNEIRO

Eu queria ser homem para cultivar cerrada barba
Fumar cachimbo num canto de bar
Sem necessária companhia, no anonimato do canto
Com liberdade para a todas observar.

Eu queria ser homem para não ter horários
Na noite que nunca cresce
E sorvê-la em mulheres diversas
Com cabelos e perfumes sempre renovados.
 
Eu queria ser homem para prescindir do dom
 Do perdão, da delicadeza que enfraquece o ato
Sem perceber cada detalhe que na amante se revela
Oculto pelo gesto, pelo desvio de olhar.

Eu queria ser homem para não gerar lágrimas
No meu âmago, seco em ternuras
Onde o amor é mero apêndice
Para outros percursos desviado.


Eu queria ser homem para me gastar à vontade.
Eu queria ser homem para ser amado. ................................................................................
Trocando ideias com Mário de Sá Carneiro (1890-1916)
Poesia: "Feminina".

Tela de Rafal Olbinski

Teresinha Oliveira.

domingo, 13 de março de 2011

MULHERES CARIOCAS ♀ MARIA DAS DORES.



  Saiu Maria das Dores com mais dores no corpo que no nome bem cedinho de casa, de um longínquo subúrbio da Central. Nenhum galo ainda cantara. Devia ser madrugada, mas desde que Joca havia estilhaçado o relógio na parede com raivas dela a reclamar salário, não mais tivera certeza das horas. Só controlava o horário pelas novelas da televisão.
  Quase desistiu ao passar na frente da casa de D.Deolinda, portuguesa prestativa que sempre cheirava a talco e carregava um sorriso solidário. Nesse momento de dor atravessada, que começava na perna e corria cruel pela barriga até o peito e retornava pelo mesmo caminho, ela não lhe negaria um comprimido. Mas ficou sem graça de chamar ou bater palmas. Birosca, o vira-lata com três patas que dormia na varandinha tímida, olhou-a de soslaio e indiferente, voltou para seus sonhos .
  Seguiu seu caminho sem comprimido mesmo, e sem luz. Daqui a pouquinho o dia clareia, pensou ao capengar pelas vielas nas quais correra lépida quando menina.
  Pegou o trem e partiu sacolejante no seu ritmo. Apalpou mais uma vez o bolso da blusa e conferiu o volume das moedas que lá guardara para o retorno. Ainda bem que nessas horas os lugares vagos eram muitos, e desfrutando o luxo de sentar-se à janela, aproveitou a paisagem.
  Ao chegar no centro da cidade o sol já nascera com suas quenturas, verão carioca com graus às dezenas. 
Sem tempo ou passos a perder, dirigiu-se logo ao hospital costumeiro; nem perto nem longe, tanto que logo chegou. Porém, estancou antes mesmo das grandes portas, pois uma aglomeração fora do comum denunciava encrenca.
  Filas de toda gente, crianças choronas com nariz escorrendo e vermelhidão de febre, velhos estrompados, pernas e braços engessados. Uma mulher gorda  demonstrava sua ira com palavrões cabeludos, enquanto a magrela que a acompanhava pedia calma e citava as Escrituras. Deus é fiel e ampara os pobres!
  Faixas corriam das portas às árvores na frente do velho prédio, onde garranchos vulgares pareciam explicar o caos, mas pouco explicavam à Das Dores, que além de escrever seu nome, nada conhecia dessas coisas de letras e palavras.
  Esperta, foi logo perguntar a quem parecia de tudo saber, o segurança que barrava a passagem de qualquer um, com seu jeito prepotente de autoridade na calçada entupida de brasileiros sem sorte e governo.  
Ele, com um quê de desprezo na voz, quase gritava para não deixar dúvidas: - Greve! Não vão atender ninguém! Só emergência.
  -Mas Seu Guarda, arriscou Das Dores, que nessa hora derretia sob o calor e sentia as travessias das dores recrudescerem: - Eu vim de tão longe, não tenho nem o dinheiro da passagem pra voltar outro dia. Estou com muita dor que passa da per......e relataria suas mazelas ao sujeito, se não fosse por ele bruscamente interrompida.
  -Sinto muito dona, mas só atendemos, (e aí ele se incorporou ao quadro clínico), emergências.
  Desanimada, Das Dores anteviu todo o sofrimento que a aguardava. A volta para casa, a falta do diagnóstico -embora ela nem soubesse disso como isso-   o sol, as moedas, o trem ,o comprimido da D.Deolinda...
  Afastou-se do ajuntamento em passos titubeantes, e com a justificativa dos desesperados, estrebuchou dramaticamente até cair desfalecida em braços milimetricamente escolhidos.
  Virou caso de urgência!

                        Tela de Mischa Askenazy - (1888/1961)

                                         Teresinha Oliveira.

RÓSEA ROSE.

 Rose.
Rosa carmim
 Vermelha de fibra.
 Rubra nas guerras do tanto querer
 Vestindo suave escarlate
 Na fragilidade do caule
Com espinhos, degraus.

Rosa Rose.
 Com os cabelos floridos
Espalhados de brisa
 A buscar em seus dias
 Toda verdade capaz
 De adubar sua terra.
E fazer abrir botão
Flor de orvalho molhada
A exibir nua
Beleza que o nome já diz.

 Rose Rosa.
Que de pálida nada tem
Mas ostenta na face, convencida
O êxtase de saber
Da certeira felicidade além
Dos limites de pedras
Que a cercam jardim.

Rósea Rose Cor-de-Rosa
De viço enfeitada espera
Jardineiro ou florista
Que de qualquer flor entenda
A chegar de manhãzinha
Com ferramentas armado
De amor enluvado
Para enfim a colher.

♥ Para Rose, e seu lindo jardineiro que de tão longe veio.

Tela de George Elgar Hicks - (1824/1914)
Pintor Inglês.

Teresinha Oliveira.

sexta-feira, 11 de março de 2011

SUA VAIDADE É SUJA→ BLOG REMINISCENTIA.


  Passei por lá e comecei a ler, a ler e ler. E me vejo colhendo frutas, cada qual mais doce,e mesmo dos textos ácidos escorre-me um sumo prazerozo pelo canto da boca. Ou então pego flores, quando os escritores suavizam e me deixam respirar melhor. 
    Sempre volto com minha cesta transbordando.
  Escolhi essa mocinha acima para enfeitar o recado, porque o Kundera revolveu terrenos movediços, e a alegria sempre é uma corda confiável para se escapar deles.
  Pobre bruxinha sem espelho! Ela quase crê no que o Senhor Mago, de mente estropiada, lhe conta das coisas do reino e cercanias; mas sábia, graças à convivência com alguns filósofos que por lá filosofaram, encontra uma passagem secreta nesse castelo em ruínas e se esconde.
  Ele,seguro do poder da miséria e da infelicidade que o sustentam, e que espalha em rosa dos ventos por seus domínios para garantir o cetro e o trono de pés quebrados, prossegue irredutível nesse território de espinhos.
  Quem escapa rindo dessa história é o Bobo da Corte, que tudo vê e compreende, e sai saltitando pelos quartos por não restar nada mais a fazer.

                        Teresinha Oliveira.

MULHERES APAIXONADAS.


Tantas mulheres...
Todas as do mundo
Nada são além de uma, igual e única.
Sempre apaixonada e pronta a derreter o coração
Gordo como desenho de criança.
Gota a gota exauri-lo em vivo sangue
Das veias corredeiras, pelo homem escolhido.
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Pobres mulheres amantes
Que de paixão são forjadas
Na forja armadilha
Pelos deuses homens dissimulada
Através dos caminhos e camas.
.
No abismo do caos
Mergulham se abandonadas
Como se o amor, mesmo quebrado e roto
Capengando de pé doído
Para validar a vida bastasse.
.
A lassidão ante tal destino herdado
Alquebrada herança vil
Que séculos e gens caiaram em virgem cal
Não saram com o tempo as chagas abertas
Por tanto tempo perdido.
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Tela de Andrey Remnev (1962)
Pintor Contemporâneo Russo.

Teresinha Oliveira.

quinta-feira, 10 de março de 2011

HOSANAS.


Me deixe acordada a noite inteira.
Não descanse de mim
Nem ouça-me ao dizer não.
Adoce minha boca com beijos rasantes
Em meu corpo exposto, todo percorrido.
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Balbucie segredos indecentes, obscenos
A quem mais ninguém confias.
Afague meus olhos com teu olhar transparente
Sem nada a dizer por ser vão
Mas em brilho e peso tudo dito.
.
Atice meus pelos de emoção e frio de língua.
Arrepie-me cada centímetro de pele alva e nua.
Quebre os relógios, enlouqueça os ponteiros
Todas as ampulhetas do mundo destrua
Para que o tempo de mim te seja eterno.
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Tranque portas.
Em cortinas de veludo azul
Cerre do espaço qualquer pedaço de luz atrevida
Que não seja a que emana de nossos corpos
Pacíficos, suados no gozo.
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Plenitude domada
Na morte do desejo
Luto bendito
Em hosanas comemorado
Nos braços um do outro.

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Tela de Gustav Klimt - (1862/1918)
Pintor Austríaco
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Teresinha Oliveira.

ANIVERSÁRIO.


Hoje é meu aniversário.
Faço tantos anos quantos tento esconder de mim.
Sento na pedra que o Drummond colocou no meio do caminho
E penso na ré entrância que foi minha vida.
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Tela de Berndt Lindhholm - (1851/1901)
Pintor Sueco.
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Teresinha Oliveira

sábado, 5 de março de 2011

Oh...CÉUS.

Se eu tivesse o poder
Para mover céus e terras
Do seu eixo
Agitaria a imutável mecânica
Ciranda
Poria mãos à massa
E faria outro tanto.
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Tela de Vladimir Kush
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Teresinha Oliveira.

terça-feira, 1 de março de 2011

CALMA.


Agora nada escrevo...
Nada me vem à mente
Ou me dói
Ou me alegra.
Nulidade.
Vazio.
Calma.
Por que meu ser
Nada produz no silêncio das dores?
.
Tão comum no nada a fazer.
Oca de espírito no sossego.
.
Sem o sangue a ferver
Sem o empurrão das ânsias
Sou quase normal.
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Tela de Giovanni Boldini (1842-1931)



Teresinha Oliveira