domingo, 31 de março de 2013

BEIJA-FLOR

Tela de Marie Guillemine Benoist - 1768/1826
Pintora Francesa.

Um colibri mais que esquisito, porém

Nem por isso menos bonito que outros tantos
Cada manhã bem cedinho
Com o sol ainda de braços cruzados
Vem aqui se embebedar
 Nos cálices das flores vermelhas que plantei

Sem intenção sob as janelas da sala de jantar.

À tarde também, quase sempre
Surge voando em carrosséis
No ar morno que exala
O perfume da terra florida.

Observo do meu canto, distante
A avezinha, gentil até no nome
Que das asas espalha delicadezas
Toda suavidade e ternura
Com a flor fazendo amor.

Mestre dos homens deveria
O colibri ser por Deus diplomado
Para ensinar seu voo-dança
Arte de sedução
Flerte em encantador volteio
Com a flor, em anseios tonta
Esperando ser beijada.

Tela de Sir Edward John Poynter - 1836/1919
Pintor Inglês.


Terê Oliva.

sexta-feira, 29 de março de 2013

SEXTA-FEIRA SANTA

Tela de Henrik Semiradsky - 1841/1902
Pintor Ucraniano.


Sexta Feira Santa 

Senhor crucificado.
Cruz de madeira, sina
Árvore para este fim nascida

Martírio santo.
O destino se consumou
Como o meu que ora escapa
Ante minha face, sem controle.
Por isso, o roxo nas vestes exibo
De luto, de dor, de pedidos
De perdão.
Perdão nos olhos rogado
Arrependida por tanto
Ao Cristo irmão
A mim por Deus assim doado
- Juramento em sangue cumprido -
Batiza-me com um nome novo 
Em límpido regato
Para me lavar desse pântano de mágoas
Pois sem Ti não sei me salvar.
Eu, solidão, tremo e temo
Esse vazio calado que se alimenta
Mais e mais de si mesmo.
Ajuda-me, Cristo em Jesus humanizado
A encontrar o grão de mim
Entre as dores dessa vida desperdiçada.
Revela-me em que conta do rosário te escondeste
Para que eu o possa rolar numa cantilena de louvores
Emplastros para essa alma
Que quase sempre, nem acredita.

Tela de Mellozo da Fiori - 1438/1494
Pintor Italiano

Terê Oliva







sexta-feira, 22 de março de 2013

ASAS PARTIDAS

Tela de Carlos Schwabe - 1866/1926
Pintor Alemão.

Meu coração não é mais do que
Uma ave triste
Com as asas partidas
Solitária
Que repousa nas mãos da poesia
Para não desistir de vez.

Teresinha Machado de Oliveira

quarta-feira, 20 de março de 2013

ROGO

No dia em que eu morrer
Não quero ninguém por lá
Testemunhas oculares do meu corpo frio.
Hipócritas.
Com muitos cruzei por aqui
Nessa dimensão duvidosa
Capazes de no palco, em pranto incontido
Encenar grega tragédia
Diante da cômica farsa que foi minha vida.

Não quero ninguém por lá.
Nem um, nem centena
A mirar a face branca e lívida
Já tão clara pele viva.
Desejo o escudo da tampa
Bem amada penumbra, esconderijo
Selado esquife, minha casa perene
De onde lacro portas e janelas.

Deixem-me quieta
Sem flor nenhuma
Mínima rosa, margaridas
Que sempre me foram negadas.
Não pela terra companheira
Por minhas mãos canteiras agradecida
Mas pelo homem que amei
Das flores e lágrimas inimigo.

Nem um toco de vela aceso
Pois a luz que anseio é maior
Em todo o Universo luzindo.
Orem por mim se quiserem
Agradecida ficarei.
Não sou tola para orações renegar
Logo eu, tão precisada de bençãos e perdão.

Não quero pranto
Nem beijos azedos de adeus
Já que minha boca vermelha e úmida
Há muito murchou.
Os lábios sem sangue
Só desejam calar na morte
A dor.

Tela de Carl von Neff Timoleon - 1804/1877
Pintor Russo.

Teresinha Machado de Oliveira.

terça-feira, 12 de março de 2013

MULHERES CARIOCAS ♀ MARIA JOSÉ


      A mãe gastou as mãos e suou todas as bicas que tinha no corpo ao lavar e passar roupa de madame. O pai, as mãos não tinha melhores, mas gastava de outro jeito, nos tijolos e cimento que as paredes não devolviam em sustento.    Apesar de tanta lida nesse destino estropiado, alegria não faltou quando, das páginas do Evangelho onde oravam a cada sábado sem faltar a nem unzinho, caiu depois de tanto ano esperado, uma menina com olhos d'água de rio, rio de águas verdes que nenhum dos dois sabia onde corria.
Tal milagre aconteceu num dia especial p'rá toda gente, um Dia de Natal.
Diante de tamanha graça, pensaram logo, mãe e família palpiteira, em dar-lhe o nome de Natalina. Já houvera uma, parente do interior que ninguém mais sabia paradeiro, se viva ou morta.
Tal distância e desprezo apagou a ideia mas fez outra brotar - Maria José! Disse o pai, com arrogância de chefe do clã que agora fundava. -Presépio também é Natal, muito mais que Papai Noel, que árvore, que neve... Quem aqui já viu neve? Quem?
Assim batizou-se a menina tão querida e esperada, a que tinha olhos d'água de rio e caíra do Evangelho num Dia de Natal.
Roupas eram lavadas e passadas, paredes se erguiam e os Natais, permaneciam magros. Somente Zezinha florescia forte e bonita, em meio a toda necessidade.   
 Cresceu sozinha porque irmão nunca chegara, cercada de miséria e sonho de grandeza. Cheia de primores, merecia outro destino. Pelo menos, nisso acreditava em seu coraçãozinho jovem e pé-rapado. 
Contra conselho de pai e mãe, andava pelas ruas bicando os paralelepípedos com salto alto de sandália nua, cabelos dançando ao gingado de seus quadris mulatos, boca com batom de puro sangue e unhas azuis que combinavam com a roupa justa de gosto duvidoso.
     -Cismou de ser moderna essa menina. Reclamava a mãe nas conversas com as amigas de tanque e igreja. 
-Nem ao pai, tão bom, obedece mais.- 
       Quer ser rica! Como, ainda não sabe. Desejo recém descoberto depois que tantos outros morreram sem chance ao menos de brotar. O jaleco
   branco, uniforme da escola, com nome no bolso bordado pela avó carinhosa, virou saia curta e salto de partir tornozelo em qualquer pedrinha de mau jeito pisada. Agora,sacolejante, mais parece borboleta sem ter onde pousar.
     Pega ônibus, quase todo fim de tarde, e ruma para o calçadão da praia em busca de estrangeiro que por ela se apaixone e, com aliança no dedo e passaporte carimbado, a leve para longe.
    Tudo isso sonha ao desfilar com Quinzinho, seu amigo de infância, por ela desde lá apaixonado. O diminutivo bem lhe cabe, pois mal lhe chega ao nariz. É ele companhia constante nos bailes e onde mais for, pagando as contas sem penar no bolso ou no coração.
     Maria José é algo mais, muito mais do que Quinzinho julga possível. Até no vestir lhe espanta para maior bem querer. Suas pernas expõe, mas proíbe o toque, para seu desespero que não se contenta com o prazer do olho.
 -Como serão seus mamilos?- Dorme ele toda noite a pensar... Prefere os seios pequenos, com pérolas rosadas a cintilar no cume, mas se os de Maria José forem fartos e enfeitados com castanhas do Natal que lhe inspirou o nome, nenhuma diferença faria. 
Passa horas filosofando sobre o amor, na quantidade do tanto que o enlouquecia. Assim apalermado, vive das graças que ela espalha, do brilho que dela vem.
     Quando ela sai a dançar, girando sorridente, seu peito dói de bem-querer, dor de verdade, dessas que só os grandes amantes e poetas no sofrer conhecem. Como deusa a venera, como mulher a deseja. O sagrado e o profano dentro dele se completam e torcem sua língua de beijo negado numa  oração diária.
  Ela, sem nada disso saber de tão profundo, com Quinzinho a tiracolo, nas larguezas do calçadão do mar caminha à espera do destino que a cubra de ouro e outras sortes.
Como maré e lua, o tempo também enche e esvazia em seu inexorável correr; só Quinzinho não corre, porque amor de verdade não tem pressa e nas esquinas dos seus anseios vê o futuro que ninguém mais vê. Sentado, para de esperança não cansar, espera.
Espera o dia de radioso nascer em que a moça dos seus quereres crie juízo, escape das areias movediças e pródiga, volte ao lar em seus abraços para gastar as mãos nas águas enquanto ele ergue paredes no real.

Tela de Sarah Bishop - Acrílico em tela.
Pintora Australiana Contemporânea.

Terê Oliva


A INSANIDADE DO TEMPO

"Wild Blossoms"
Tela de Edward John Poynter - 1836/1919

Pintor inglês.

Ando com bolso vazio e alma cheia

Por onde pisei e por onde nunca estive
Muita lembrança de noturnos invernos
Salpicos de flores por ali, por acolá.
Agora tudo se mistura numa massa mole
Nem mais se sabe o que valeu ou o que se desperdiçou.
Seguir o mundo pendurado na ponta do nariz
Não é garantia de caminho certo
Mais das vezes é seta quebrada.
Em versos e revessos procuro o perigeu
Nos céus do que poderia ser se não já tivesse sido.
Agora é tarde.
A insanidade do tempo trouxe escondida entre suas pregas
A dormência da carne.
Tela de Edward Charles Barnes - 1856/1882
Pintor Britânico.

Terê Oliva.

segunda-feira, 11 de março de 2013

VOAR NA POESIA.

Tela de Konstantin Egorovich Makovsky - (1839/1915)
Pintor Russo.


Quase nua caminha a mulher pela praia 
Com seus trapos de areia e brincos de concha
Na brusca manhã de sol vermelho.
Dormira um sono leve e breve, cercada por seres mágicos
 Que logo evaporaram na realidade do sonho esquecido.
Esgotada de sal, de si mesma sempre sozinha
Abre com mãos de mar o horizonte fora de prumo.

Recolhe o pouco de um velho amor que restou e a linha atravessa
Deixando pegadas no percurso do destino que a conduzem 
Para um reino novo
Onde, num redemoinho de imaginação pinta
Com a tinta que de seus olhos escorrem
-Aquarela de lágrimas-
Uma floresta no tempo esquecida.

Muralha de árvores pacíficas e águas de rio lustral a ocultam
Dos olhares daqueles que nos delírios não creem.
Cata pelo chão galhos e pedras, pedaços de ossos, pelos de quatro patas
Penas de pássaro grande e cor de passarinho.
Com tudo monta, feiticeira quase fada
O ser ao lado do qual se deita, amante.
Assim frouxa, sob a égide da fantasia consumada
Pode enfim se livrar dos grilhões que no exílio a mantém.

Voar na poesia para além do devaneio e pisar no real
É questão de tempo.

Teresinha Oliveira. 

Tela de Émile Auguste Pinchart - (1842/1924)
Pintor Francês.

Teresinha Oliveira.

domingo, 10 de março de 2013

DOMINGO COM MACARRÃO.



Domingo é dia de macarrão
Comprado em pacote no mercado.
Não mais o gostoso, preparado fio a fio por muitas mãos femininas.
Casa de avó italiana, muitas tias que desse assunto entendiam
As meninas, também os meninos, primos  de perder a conta
Queriam meter a mão na massa, esticar fininho, cortar
Pendurar para secar enquanto a água não fervia.
Nuvens de farinha, cabelos, braços, roupas, chão...
Divertido branco.
Gargalhadas, bronca da tia irritada
Com tantos pedaços quebrados, inúteis, desperdício de comida.
O barbante, varal do macarrão ainda úmido arrebenta
Macarrão p'rá todo lado.
Segura o Barão! 
Barão, cachorro esperto, abdica do seu título de nobreza
Come no chão mesmo, sem dar importância
Aos espantos e passa-foras.
Faz mais massa, pega farinha, ainda tem ovos?
Amassa, estica, corta fininho, pendura para secar
Brincadeira perde a graça e ainda demora comer.
O avô mexe o doce em calda na panela de ferro
Com panos enrolados até o cotovelo
Para se livrar dos respingos ferventes.
Todo mundo ocupado.
Seca a massa, descasca tomate, soca alho
Pica cebola bem miudinha se não o pirralho não come.
Mexe a fruta que já desmanchou no açúcar
Cuidado! Não quero criança na cozinha.
A garotada que mora longe um do outro, e por tal quase não se vê
Mas se gosta, logo arranja o que fazer.
Quem fuma, rouba cigarro dos mais velhos
Vai para a vila fumar.
Quem é de conversa, coloca os assuntos em dia
Quem é endiabrado, arranja cúmplice e vai fazer o que não deve:
Pular em cama, fuçar armário, beber vinho escondido
Desarrumar a casa inteira.
Quando a barriga está prestes a roncar um grito se ouve.
A mesa está pronta! Vamos almoçar!

Ninguém ainda sabia, mas desmanchando na boca
O macarrão se tornou lembrança.

Terê Oliva.


sábado, 9 de março de 2013

PERDIDA NA LIVRARIA.


Eu menina, na livraria da Rua Gavião Peixoto em Niterói.

Perdida entre tantos títulos e autores.
Seguindo apenas minha intuição e as capas mais bonitas.
Pouco dinheiro, quase nenhum, mas com olho bom de dar inveja à águia.
Bons tempos...
Bons livros que sobreviveram sem fungo, sem amarelo
Dentro de mim.

Terê Oliva.

quarta-feira, 6 de março de 2013

THIAGO.

 Um menino morreu.
Morreu igual a passarinho quando cai de árvore
No susto do inesperado.
Há muito o conhecia, desde moleque
Desde antes de pintar as unhas de preto
E achar isso bonito.

Cresceram juntos os meninos do bairro
Nos campinhos de terra da pelada - 16x2 / 14x5
Nas festinhas das primeiras namoradas
Nos churrascos com carne dura e cheia de pelanca
Que somente os dentes jovens conseguiam mastigar.
Mas era o que dava para comprar
Com o cata-cata de moedas e sobras da mesada.

Um menino morreu.
Um menino com alma de artista
Que gostava de música, de grafittes, de tatuagens
De brincos, de roupas estranhas...
Careta.
 Não fumava, não bebia, não tomava drogas
Extraía sua alegria e, generoso, a espalhava por onde passasse
Da própria vida que amava.

Peço a Deus, ou ao anjo que disso cuida
Que o receba com carinho e especial atenção.
Ele, nessa dimensão que ninguém compreende
O fez por merecer.

Um menino morreu
E eu, que nunca choro
Chorei.
                                                                                                                                                                                                                                 
Tela de Kalman Aron - Nasc. 1924.
Pintor Americano.


Terê Oliva.

segunda-feira, 4 de março de 2013

FARRAPOS DE UM POEMA INÚTIL.

Tela de Jack Vettriano - Nasc. 1951.
Pintor Escocês Contemporâneo.

Um jovem poeta riscou na areia versos para sua namorada.
Contou de seu amor sem fim até perto do sal
Exaltou seu perfume de rosa
Seu hálito de andorinha
Seus olhos turquesas que o engoliam ao mais leve piscar.
Rimou amor com flor, coração com paixão

Gastou palavra demais, sentimento de menos
Perdeu o ritmo onde a verdadeira poesia canta. 

Era tão fútil o poema
Tão pobre, esfarrapado de dor

Tão enjoativo em sua pieguice de emoção rasa
Que ela o abandonou sem dó 

Chorando sozinho as lágrimas do seu poema vazio
Que as ondas do mar sem pestanejar, levaram.


 Tela de John William Waterhouse - 1848/1917.
Pintor Inglês.

Terê Oliva.

domingo, 3 de março de 2013

A CERNE DAS UVAS

Tela de Charles Louis Muller - 1815/1892.
Pintor Francês.


O vinho tinto me ferve na face, acorda os dragões

 Através da vida acorrentados na pedra da calma.
Talvez seja esse seu maior atributo
A cerne das uvas vermelhas
Presente de Baco, deus antigo
Que revelou seu fermento
Aos homens sóbrios de quem se apiedou.


Revive a alma dura
No cristal lapidado à mão.
A cor sanguínea alaga os porões
Nuvens fervilham
Grãos bailam e agitam os desejos
Velhos desejos que estarrecem
A face no vidro da taça refletida.


A juventude que se foi
Não carregou com ela a vontade de boca e carne
Umidade que lubrifica todos os lábios.

Gotejante tempo que se esvai em rios
Seiva bendita das horas loucas.


Mas a taça está vazia
E ele ronca...

Tela de Juarez Machado - Nasc.1941
Pintor Brasileiro.

Terê Oliva.

sábado, 2 de março de 2013

URSO DE RETALHOS.

Tela de Ian Barabash.

O dia hoje amanheceu com jeito de criança.
Chocolate quente na caneca do urso de retalhos
Louça branca, grosseira, que ele colorido enfeita.
Bolinho de chuva saído da frigideira
Na poeira do açúcar com canela.
Friozinho, flanela, preguiças de começar.

Vou chamar as meninas para brincar no jardim.
Quem sabe o caroço de manga que plantamos
Finalmente brotou.

Terê Oliva.