domingo, 24 de fevereiro de 2013

MÃO QUEBRADA.

Tela de Moritz von Schwind - 1804/1871.
Pintor Austríaco.

Rachei o mármore, perdi a pedra
A face da escultura
Antes de viver, morreu.
Cortei-me nas lascas e o sangue desperdiçado
Pelo chão correu em fio
Entre a névoa maçante do verão.
Davi atravessa os séculos
Inclina a cabeça e me abre os braços.
-Amor de consolação-

Sento-me ao lado de Leonardo
De Modigliani, dos russos que amo
De Tissot, de Dalí.
Nem eles, em uníssona caridade, traçam em mim
A pincelada segura.
A luz se perde nas pétalas brancas
Da flor desistida.

Gentil ganso solta uma pena.
Tinta logo aparece
Geração espontânea em um lugar de tantas.
O verbo desliza pelo meu ombro, as palavras
Revelam com o ar da respiração funda que gira
Num redemoinho de espinhos, lembranças...
A música da carne nas veias do tempo.

Vãos e véus esvoaçam no céu inútil
Perdem-se em equatoriais linhas tortas
Que mal escrevem uma história.

"Drawing lesson in a ancient Rome"
Tela de Leon Fortunski - 1859/1895.
Pintor Eslovaco.

Terê Oliva.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A DANÇA DOS PRESSÁGIOS.

Tela de Jaroslaw Kukowski - Nasc.1972
Pintor Polonês Contemporâneo.


Amor é alquimia
Praga que na espuma da alma dissemina
Demências
Epifanias
Sedas como cachos de uva
Nos olhos do outro amado.

A sorte
Em sua dança de presságios
Lança o ser ao chão ou aos céus
Sem piedade.
Esculpe no cálice de marfim 
A graça de cada um.

O pobre que em palpitações vagueia
Nascente, poente
Tolhido de vontade, já cativa
Mal sabe o que fazer
Com a antropofagia da carne
Que lhe dilacera o espírito.

Tela de Wilhelm Trübner - 1851/1917
Pintor Realista Alemão.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

PAR PERFEITO § POETA SEM INSPIRAÇÃO

Tela de Vincent van Gogh - 1853/1890.
Pintor Holandês.

Não há como discutir ou negar.
Se não no gênero humano
Se não Maria e José, se não Teresa e João
O par perfeito se forma
Pelos dias afora que a vida nos dá.

1- Rosas vermelhas e paixão.
2- Uísque e solidão.
3- Fome e pão.
4- Medo e assombração.
5-Topada e palavrão.
6- Loteria e ilusão.
7- Domingo e macarrão.
8- Política e corrupção.
9- Férias e diversão.
10- Pênis e ereção.
11- Divórcio e pensão.
12- Emprego e patrão.
13- Preguiça e colchão.
14- Bunda e nação.
15- Beijo na boca e tezão.
16- Vodca e limão.
17- Dança e sedução.
18- Carnaval e multidão.
19- Briga e empurrão.
20- Dinheiro e subtração.
21- Tombo e humilhação.
22- Fortuna e imaginação.
23- Doença e injeção.
24- Mudança e caminhão.
25- Santo e oração.
26- Noite e escuridão.
27- Paranoia e perseguição.
28- Herança e decepção.
29- Gato preto e superstição.
30- Banana e escorregão.
31- Mosquito e comichão.
32- Água e sabão.
33-Sol e verão.
34- Arroz e feijão.
35- Criança e confusão.
36-Problema e indecisão.
37- Casa velha e porão.
38- Compras e liquidação.
39- Cigarro e doença de pulmão.
40- Fotografia e recordação.
41- Sogra e maldição.
42- Amizade e irmão.
43- Ditadura e revolução.
44- Neto e emoção.

45- Meia furada e dedão.
46- Buraco e tropeção.
47- Faxina e esfregão.
48- Unha quebrada e irritação.
49- Filho e preocupação.
50- Churrasco e carvão.

Acabou-se a brincadeira por me faltar inspiração.
Quem quiser continuar
Assim o pode fazer sem melindres de me apoquentar.
Quem chegar ao 100 primeiro
Ganha um doce de limão.

Terê Oliva



 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

RUIVA.

Pintou os cabelos de vermelho
Ruiva
Olho verde bem aberto
Leoa de estrelas e tez.
Fios de juba ao vento
Nas planícies da África que seu sangue não coa
Mas ferveu 

Seduzido pelo Rei.
Recolhe ossos e cacos
Pelo chão da floresta coagulado de tempo.

Na toca os guarda, tesouro de seus apreços.

Sobre a pedra se ergue
Selvagem no mineral há muito abandonado.

Ruge
Ante o silêncio da vastidão sem eco.
Espanta os bichos e faz as águas tremerem
Com as ondas que longe vão e rápido viajam.
Mas o trono está vazio.  
O som se esvai
Entre suas patas que para além caminham.

Telas de Anthony Frederick A. Sandys - (1829/1904)
Pintor Inglês.


Terê Oliva.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

FILOSOFIA.

Tela de George Underwood - (Nasc.1947)
Pintor Inglês Contemporâneo.

Tomar decisão 
Implica sobriedade e escolha
Tudo que não mais quero.
Errei em quase todas , acertei algumas
Poucas... Mesmo para meu gosto miúdo.

Agora engordei, pelos brancos, bolsos e baú sem peso
Virei bicho de caverna funda
Com água e comida à mão.
Nada mais de raciocínios, pressupostos
Premissas, conclusões.

Filosofar sobre a vida cansei.
Não sou grega nem alemã
Sabedoria não me faz parte
Apesar de ler livro grosso
Poesia, e das artes todas gostar.

Mas tal não me dá olho
Para no mapa espichar meu espírito sestro
Que a si mesmo desapontou.
Tela de François Hubert Drouais - (1717/1775)
Pintor Francês.

Teresinha Oliveira.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

NA MANHÃ DA NOITE.

Tela de Julius Leblanc Stewart - (1855/1919).
Pintor Francês.

Eu vejo as crianças correndo através do sorriso das horas, na manhã da noite.
Um anjo caminha escondido, na sombra que cada uma projeta.
Eu vejo o sereno da noite nas pistas de dança lá no além do céu.
Eu vejo pintos, galinhas, gansos, cantando nos ninhos, no chão de lama de beira de rio.
Ovos alimento, futuro, quebrados.
Eu vejo piolhos nos pentes escuros, nos dentes, nos fios finos da aurora prorrogada.
Eu vejo que não vejo a verdade escarrada do mais puro cristão.
Eu penso na tristeza que me corrompe ante tudo que não pensei direito e não compreendo
No meu estupor, ao sair pelas ruas atrás de mim mesma e não me alcançar.


Eu penso nas pistas de batons de corrida que só desastres prometem.
Eu penso na peste chegando, no buraco negro, fim.
No mundo, planeta entupido de estúpidos, gente sem fé além da vendida em gotas e tostões.
Eu penso no ronco dos poderosos, na vergonha do meu país que me encabula mas não posso negar.
Eu penso que em tanto não deveria pensar.


Eu sinto, apesar, a paz de procurar escadas no teto que desaba sobre nós.
Eu sinto que lavo a alma com pó de grafite e a estendo, sem o pudor devido
   Nas cercas baixas da vizinhança.


Por sorte, a poesia é uma deusa encabulada e seu pulsar
Muitas vezes se oculta atrás do que palavra dita.

O enigma, o que não foi dito apenas soprado, guarda sua beleza.
Cabe ao outro, passante distraído, a emoção de sorvê-la

Se a encontrar.

Tela de Robert James Gordon - (1845/1932)
Pintor Inglês.

Teresinha Oliveira.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

LUXÚRIA DE SOMBRAS.

Obra de Eve Ventrue
Artista Alemã Contemporânea.

Eis-me na madrugada-noite, noite-madrugada.
Não sei para onde pendem os ponteiros nessa cor clara que se alarga
Seduzida pelos acordes da música triste 
Enquanto fumo mais um cigarro, jurado de morte adiada
Sempre adiada para o dia seguinte.

A desperdiçada ternura, sem comparsa, esgota em si mesma
A filosofia que pinça nos fios nervosos dessa mulher esticada
Seu ego em sombras, anjos e satãs vazios de sexo, de caminho.
Assustadora percepção arrasta minha memória numa avalanche
-Eu fragmentada-

Incapaz senhora de, nessa luxúria de passado
Recompor sua virtude de asas, e com as penas metálicas da Phoenix
Que repousa em pó no alabastro da cômoda
Alçar aos céus no voo em chamas
Uma mulher despudorada.
Tela de John Jude Palencar - (Nasc.1957)
Pintor e Ilustrador Americano.


Teresinha Oliveira.

RIMAS DE AR.




Sairei pelas páginas rimando amor com flor.
Usarei somente verbos da primeira conjugação. 

Para quem não sabe, os que terminam em AR.
Ar com ar fica mais fácil rimar e não dá angústia no sentir e pensar.
Lerei livro de auto-ajuda para a alma afiar, poesia para o corpo brilhar.
Amarei um amor desembestado, que me levará aos píncaros do para sempre, onde é impossível se equilibrar.
Mirarei estrela, conversarei com a lua, olharei céu até quase cegar.
Beijarei um beijo tão doce que vai dar enjoo até nos estômagos incapazes de enjoar.

Medirei saudade com fita métrica, lonjura pelo batom ainda a gastar.
Segredarei indiscrições, fetiches, pecados, que a ninguém além do verso vou revelar.
Esticarei lençóis de linho, talvez de cetim onde é mais prazeroso copular.
Beberei champanhe num copo de leite. A flor... Fica mais bonito, apesar do risco de engasgar.
Encontrarei minha veia piegas e a deixarei sangrar.
Publicarei um livro de poesias e o venderei aos milhares, até enricar.

Ilustração de Robert G. Harris (1911/2007) - EUA.

Teresinha Oliveira.