sexta-feira, 23 de setembro de 2011

FESTA JUNINA & BINGO.

Ninguém consegue escapar de Festa Junina. Nem que seja umazinha apenas: na rua onde se mora, no colégio de filho, na audiência carinhosa para aplaudir neto dançando errado e chorando por não querer dançar, e em tantas outras opções que fica difícil fugir do convite. 
Por não desejar passar imagem de chato e melindrar os festeiros, você coloca o bom-senso no bolso, um chapéu de palha na cabeça e vai, já sabendo em primeiro lugar que vai passar fome, por não gostar desses pratos típicos da roça.
Bolo de fubá, paçoca, batata doce e mais outros tantos cobrem as mesas, e a D. Mariazinha que fez os quitutes com maior apuro não aceita que você não experimente. -"O doce de abóbora tá uma delícia, moça". Acontece que você detesta abóbora, mas ela não aceita o argumento e insiste.
Depois, mas não menos importante, vem a música.  Alguém aguenta ouvir as mesmas músicas que se repetem por décadas, no volume mais alto que a caixa de som alcança sem explodir, a noite inteira? 
Rezo para que falte energia elétrica, que desabe um temporal, que a madrugada logo chegue, mas qual! Tudo se dá na mais perfeita ordem.
Mas o pior, verdadeira tortura, é o bingo. Não sei quem inventou que em Festa Junina que se preze tem que ter bingo. Jogo não é contra a lei? Não lemos nos jornais diariamente que a polícia fecha as casas de bingo e até prende os apostadores?
Pois é...Não prenderam a loura de voz estridente, que quase rachava meus tímpanos ao começar o dito já dando bronca em todo mundo. "Cadê as canetas? Eu avisei que era para trazer caneta!"
E distribui cartela, e paga, e pega troco, e se pede caneta emprestada, e alguém dá ideia de marcar com caroço de milho- "Quem tem? Quem tem?" - E a criança berra com a mãe porque também que jogar, "mas você ainda não aprendeu os números." -"Mas eu quero, eu quero, eu quero." E abre a bocarra, e dá soco na mesa espalhando milho p'rá todo lado.
Crianças modernas são assim, só conjugam verbo no Imperativo.
Para meu maior suplício, arranjam um micronone sem fio para a loura. Aí sim, ela incorpora o Faustão. Até a lua se arrepia quando ela berra avisando o início do sorteio das pedras.
Uma boa ideia, 51! Quem disse que beber cachaça é uma boa ideia? Só o gênio publicitário que criou esse slogan. Deveriam contratá-lo para fazer uma campanha contra o alcoolismo e o jogo.
33, a idade de Cristo! Até Jesus empedraram.
22, dois patinhos na lagoa! Esses patos já devem estar velhos decrépitos, mas parecem ter encontrado a fonte da eterna juventude. Estão sempre ali, dentro do saco; e enchendo o nosso.
69, uma noite de amor! Ops, essa é nova. Será que escutei direito? Pornografia em Festa Junina? Cheia de criancinhas? As espertas que conheço prontamente perguntariam- "porque?" - Pobres pais. Isso não dá para explicar.
A banda numérica seguiu por suas avenidas monótonas até que um cara de pastel, felicíssimo, levantou-se exibindo a cartela como troféu e correu em busca do seu prêmio. Um conjunto com três cabides. Bem-feito!
Os prêmios, se perfilavam solenes como soldados bem treinados sob a revista do capitão, em prateleiras de madeira, esperando os vencedores.
O Bingo continuou, interminável.-"Já saiu o 35?"- Sei lá.  Estou aqui num esforço de cortesia, com fome, dor de cabeça e mau-humor.-"Acho que comi môsca". Tomara, penso eu. Tá melhor do que eu, que desisti do caldo verde salgado como o cão, da sopa de ervilha aguada e dos primorosos quitutes da Dona Mariazinha, para quem ninguém contou, apesar da propaganda e auto promoção, ser ela péssima cozinheira.
O último e melhor prêmio foi ovacionado pelos participantes. Um liquidificador.
Começou tudo de novo. Os patinhos, a cachaça, os amantes afoitos, o sujeito comendo a môsca, a caneta que não escreve, um sobrinho marcando a cartela  que paguei mas não quis jogar, a loura já rouca se esgoelando no microfone sem fio, 05, 86, 92...
Ganhei o liquidificador.


Tela de Papa Stéfanos - (1948)
Pintor Grego radicado no Brasil

Teresinha Oliveira.





  

GUIA.

Não te deixo
Me perder de ti
Nem que de mim
Desistas por ti mesmo.

Porque se não por mim
Por ti eu luto
E desbravo matagais.
Sustento a dor
Embora só
No fio de aço
De ser tua guia
Opaca estrela
Até encontrares
O exato instante
De trilhares teu rumo
Desencontrado do meu.


Tela de Theodore Blake Wirgman - (1848/1925)
Pintor Inglês.

Teresinha Oliveira.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

FRONTEIRAS.

Quando a noite chega, teu corpo afasta
No tálamo, lado a lado.
Te esquivas no canto, retângulo
Retos ângulos, de pele, de dor.

O escuro expõe em plena luz
As lágrimas de mim que não choro
Para fora, no perímetro da espuma
Inchada pelo pranto engolido.

Não domino a tábua sólida.
Compacta como o ser
Que deitado nela, amaina.

Nem mais anseio por ele
Que me gasta e empareda
Com pedras desse amor doentio.


Tela de Pierre Bonnard - (1867/1947)
Pintor Francês

Teresinha Oliveira


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

CHAMAS.

A inesgotável energia do sonhar
Mesmo debaixo da ponte
Cerzindo o coração partido
Me consome
Me acrescenta
E vale a chama.


Óleo em tela de Gerard Di Maccio.
Pintor Contemporâneo Francês.

Teresinha Oliveira.

VERBO QUERER.

Querido.
Querido do verbo querer.
Não sei se de ligação
Porque há muito, menina travessa
Da escola pulei muros
Para na esquina escondido namorar.

Gosto do querer
Mais do que outro qualquer
Nessa Língua com tantos
Até pelos defectivos atrapalhada.
É mais sensível o querer
Do que o próprio amar
Porque nem tudo que se ama
Se quer de verdade.
- Confusões do amor-
Às vezes nem se quer
Ou se quer deixar de querer
Apesar de se amar.
Na certeza do amar
A incerteza do querer.
Tênue linha
Que as conjugações enreda
E os sentimentos mal definem
Para passos seguros
Nas trilhas de delirante confusão.


Tela de Alexander Max Koester - (1864/1932)
Pintor Alemão.

Teresinha Oliveira.


LEMBRANÇA.

Penso em você
Na noite bronzeada de luar.
Amor tão longínquo
Onde mais brilha a luz da lua
Que tanto azul me traz.

Tela de Daniel Merriam 
Pintor Americano Contemperâneo.

Terê Oliva

domingo, 18 de setembro de 2011

DIA DE DOMINGO.

Tela de James C. Christensen.
Vou pegar um barco e sair sem destino escolhido, por mar ou rio. Não precisa ser grande meu barco, em muitos pés medidos; alguns dedos me bastam pois não vou para mar aberto ou rio que em cachoeira cai.
Baleias, tubarões, piranhas e outros dentes ferozes me assustam. Protagonistas de pesadelo. Baleia tem dente? Acho que não e nem peixe é, mas engole do mesmo jeito, pelo menos é o que nos conta há séculos a Bíblia. Pobre Jonas!
No barquinho vou remando em passeio de domingo. Vou levar um casaco grosso para frio inesperado, comidinhas que sozinhas se conservem, água... Levar água cercada de tanta? Mas beber salgada dá alucinação, e não preciso de mais além das que já tenho sem bebê-la, e a de rio pode ser contaminada com a sujeira dos homens.
Vou descendo ou subindo, disso ninguém sabe, porque maré de sal sempre sobe e desce, ou enche e esvazia se preferirem. E rio, onde começa ou acaba é mistério, que só gente que mora à beira dos grandes desse meu país tem conhecimento.
Nasce na foz ou é lá que termina?
Bússola não tenho e nem preciso. Meu norte já desapareceu na rosa dos ventos que pela vida burlei.
Vou para um rio, só nesse momento decidi. Mar é velho amigo, não me guarda novidades. Perto dele nasci e passei infância. O doce, meu paladar mais aprecia e suas correntezas me trazem mistério.
Mergulho remo e sigo. Faço curva sem curiosidade do que vou encontrar, porque curva é assim mesmo, esconde o depois p'rá fazer surpresa, se boa ou má só desdobrando.
Quem pode jurar de pé junto e dedo cruzado que na ribeira, sentado a pescar, não esteja o pescador que no sal sempre procurei ?
Tela de Dmitry Yakovin.

Teresinha Oliveira.

sábado, 17 de setembro de 2011

RENASCIMENTO.

Renascer.
Renascer sem passado
Sem lembranças
Sem nódoas
Sem dívidas ou créditos.

Zero inteligente e absoluto.


Tela de Dmitry Yakovin - (1969)
Pintor Russo Contemporâneo.

Teresinha Oliveira.

ASAS DO PERDÃO.

Curar as feridas, cerzir os cortes
Supurar as chagas
Beber cachaça...
Se fazem urgentes as medidas
Para a sanidade restaurar
No coração enlouquecido
Que só por vingança ainda teima
Pulsar o sangue, venoso sempre.
As células, de ira enrijecidas
Cada uma, agente na espreita
De brecha para revanche
Real causa de vivas continuarem
Compondo o corpo todo.

Nem que sejam necessários séculos
Reencarnações
Um dia...
Depois da devastação que varreu
Uma alma crédula e serena
Enfim nascerá claro e limpo
E o mal em perdão será lavado.
Não perdão comum, a esmo oferecido
Em troco de réles ofensa.
Mas o perdão fecundo
Que atenua o imperdoável
Ante a dor que arrancou pedaço
Hospício, assassinato, suicídio.

Perdão que purifica
E traz nas asas nova chance.


Tela de Gustave Adolphe Mossa -(1883/1971)
Pintor Francês

Teresinha Oliveira - 1996

O CLUBE DAS MULHERES


Já dissera a mim mesma que não iria.
Durante a semana, o repetira incansavelmente às várias amigas que me telefonaram com argumentos, cascas de banana, que abalam as mais firmes decisões: "Vamos lá! Vai ser ótimo! Você precisa sair de casa, se divertir!"
   Elas não entendiam que eu tinha meu próprio lazer, um bom sofá, livros, filmes, um banheiro a dez passos, uma garrafa térmica cheia de café e cigarros aos maços, podendo fumá-los onde e quando quisesse, entupindo a casa com fumaça maligna sem provocar fungadas furiosas em tantos.
     Mas na Hora H vacilei. Afinal, era aniversário da minha irmã e nossas amigas, as jovens senhoras -eufemismo tolo para quarentonas, cinquentonas e mais além- que tanta saliva gastaram para se livrar dos maridos e filhos por uma noite, mereciam minha adesão nesse frenesi de infantil lascívia. 
Estavam todas enlouquecidas com a perspectiva de ir ao 'Clube das Mulheres'.
Ó Deus...  
     Afinal, chamei um taxi e parti para o Éden possível a tantas Evas deserdadas.
     Nossas mesas eram bem próximas do palco, pois as garotas não queriam perder nenhum detalhe, como se isso possível fosse, do luxuriante show.
     Quando um oficial da marinha entrou em cena, iniciando o espetáculo, uma gritaria ensurdecedora o saudou, e um perfume de feromônio empestou o ar que já faltava a muitas. Nos calores da menopausa se abanavam com os cardápios de preços caríssimos para qualquer tira-gosto ou água mineral. 
Contra tudo que o bom senso aconselha, os copos esvaziavam na mesma proporção em que a euforia crescia. 
   O danado do marinheiro dançava e se remexia, contorcendo pernas e braços em movimentos supostamente sedutores... A mulherada gritava.
     Um cigano fez sucesso maior , talvez por trazer uma rosa entre os dentes e ameaçar entregá-la, boca a boca, a alguma privilegiada na platéia.
A mulherada gritava mais alto...
Os copos de chopp vazios reapareciam cheios como num passe de mágica, margaritas e caipivodkas vieram lhes fazer companhia. Não havia como metabolizar tanto álcool...
Muitos tipos ali se revezavam, recrudescendo a cada nova aparição a histeria coletiva.
  O bombeiro com seu bumbum maravilhoso, se realmente um bombeiro fosse, teria trabalho em resfriar os das minhas companheiras de noitada, meio descontroladas e bêbadas.
Algumas ali estavam por curiosidade, outras em busca de diversão, mas havia quem desejasse numa única noite soltar os freios da sua pseudo sexualidade reprimida casamento afora.
Marieta, desde o primeiro momento declarara seu desejo de vingança contra o consorte, um sujeito chato e barrigudo de quem sentia um ciúme exasperado e que sempre imaginava a traí-la. Eu nunca pensei em quem poderia desejá-lo, mas amor é mesmo coisa inexplicável. Era ela a primeira a levantar e, sem nenhum rubor
agarrar o personagem do momento, fosse ele um árabe, um cowboy ou um bandido.  
Eu, com o meu refrigerante de sempre, já que meu saboroso uísque há muito me é proibido pelo médico, não contava nem com seus vapores para me animar.
Fiquei por ali, sorrindo, fingindo apreciar aquele infrutífero besteirol. Se ainda fosse possível levar um deles para casa... Um show particular ...
Talvez me divertisse de verdade, se algum vampiro de longos cabelos e caninos à mostra aparecesse, para com sua capa negra me envolver numa mordida real.

Pinturas de Beryl Cook - (1926/2008)
Pintora e Ilustradora Inglesa.

Terê Oliva

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

NÓS.

Pergunto-me...
Sempre pergunto-me
Em que dia
Em que mês
Em que ano
Perdi-me de mim mesma.
Em que exato momento
Desisti de ser eu para ser nós?

Dói perceber que o nós só eu sou.
Não envolve o tu
Que sozinho vaga
E preserva o eu.


Tela Andrey Remnyov - (1962)
Pintor Russo Contemporâneo.


Teresinha Oliveira.

DOR DE POETA.

O poeta não tenta
De Deus entender a obra
Nos raros vislumbres
Que a emoção intui.
Porém não cria do nada.
Inserido no mundo
Gera do fino que sente
A sua expressão de dor
Até da dor que não sente.

Não produz, pois produção 
É medida pensada.
Poesia não se mede
Em régua ou balança
Ouro ou areia
Mas do espírito todo grama.


Tela de Frank Weston Benson - (1862-1951)
Pintor Americano

Teresinha Oliveira.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

LINDA VARRIDA.

Essa linda louca varrida mulher
Anda nua pela casa
A espantar vizinhos, a gente comum.
Dança alucinada
Bêbada e feliz
Ao som de qualquer música
Dos cantores da noite
De sinfonias, canções.

Essa louca linda mulher varrida
Se perde na escada
E da porta o quarto nunca encontra.
Vê borboletas onde vermes habitam
Flores brotarem de ervas daninhas
Fontes jorrarem de árido chão.
Lança aos céus gritos calados
Da boca lacrada pelo amor engolido.

Essa varrida linda louca mulher
Abraça a pegajosa madrugada
Com sua insône alegria
Em busca do que não sabe
Não quer e nem intui
Pelos cômodos rompendo
Esquinas e becos, doida sem bússola
A se perder em si. 


Tela de Jack Vettriano - (1951)
Pintor Inglês Contemporâneo.

Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

BLOG REMINISCENTIA - GUIMARÃES ROSA.

Cada vez que leio qualquer texto do Guimarães Rosa me reapaixono por ele.
Muito ....  o parágrafo dele que você colocou no seu Blog.
Não achei palavra para defini-lo, por isso os pontinhos. É bonito, claro que é. Mas bonito não o adjetiva, como interessante ou triste da mesma forma não.
Pode-se dizer que é muito Guimarães Rosa. Ele, na sua originalidade e talento para trançar nossa Língua se fez único.
Falar de saudade é difícil. Tantos tentaram e falharam! Alguns com o belo dom da tristeza fizeram poemas e contos em que a choram, e nos emocionaram com a sua dor de ausência.
Mas descrevê-la, simples e claramente como "um pensamento com cansaço", somente Guimarães Rosa se atreveria.


Tela de Bertha Wegmann - (1847/1926)
Pintora Suíça.

Teresinha Oliveira.

http://cecmoura.blogspot.com/

QUERÊNCIAS.

Quero um amor que condense a paz de todos os pássaros
A alegria de um moleque que rouba fruta no quintal do vizinho
É o rei do pião, e faz pipas de toda cor só para enfeitar o céu.
...
Quero um amor sem dia, sem noite, sem momento escolhido
Com tempo a toa para espreguiçar nas horas
Gastando seus olhos no olhar que me devassa e recompõe.
...
Quero um amor que brinque suas mãos aladas, leves
Em meu corpo sem obstáculos. E descubra veredas outras
Que até então, o prazer me segredava.
...
Quero um amor sutil, encantado de sapos e beijos
Como nem nas histórias de fadas jamais existiu.
Encabulado no jeito sem jeito, tentando conter a emoção
O rubor que na face se espalha por tanto sentir.
...
Quero um amor que caminhe descalço em pedras, rios
Pontes, trilhas, campos, tundras, por todo lugar.
E arco-íris desenhe para de mãos dadas nos irisados feixes
Passear comigo sem eco de qualquer pensamento.
...
Quero um amor viajando ao meu lado no apito de um trem 
Numa onda de mar, no cheiro de um pão quente, nas asas da ave que migra.
Gigante com força serena que espane das nuvens a solidão e o tédio
E brisa criança, minhas saias levante para me descobrir os segredos.
...
Quero um amor com gosto de licor de hortelã bebido à tardinha
Entre risos e gestos contidos, com receios da ternura espantar.
Que não fale nada de importante, nada explique
Simplesmente por não ter nada a explicar.
...
Quero um amor risonho, bem humorado
Que ancore nos confins de um oceano distante a lágrima possível.
E me leve a provar o sabor que a boca da noite conserva entre lençóis
Por seu hálito impregnados na suavidade do cetim.
...
Quero um amor para gastar devagarinho
Em cada minuto roubado do tempo de não amar.
Vadio sentimento, fresco como água de rio
Que encostado numa árvore, a me esperar não se importe
Mesmo se eu nunca o encontrar.


Tela de Pal von Szinyei-Merse (1845/1920)
Pintor Húngaro.

Teresinha Oliveira.














terça-feira, 13 de setembro de 2011

DISTÂNCIA.

Deixe-me ir !
Tenho pressas em ir.
De você quero apenas
Distância oceânica
Milhas em ligeiros nós navegadas.

De você apartada.
Por mar de séculos
Esquecida.


Tela de William Bradford - (1590/1657)
Pintor Inglês.

Teresinha Oliveira.

PALCO


Sob as luzes do palco
Lapidas a seda branca
Que mais te despe que oculta.
.
Iluminas, flor de música
Com luz difusa
A face dos que te aplaudem.
.
O brilho de ti vem lá de dentro
Da garganta
Úmido espamo de uma canção
No fundo do mais fundo
Sem onde se esconder.


Tela de Steve Underwood
'Cool Blues'

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br




OS MENINOS DE MOREAU.









Os encantadores meninos de:
Paul Charles Chocarne Moreau - ( 1855/1931)
Pintor Francês.

"Quando eu crescer, quero ser um garotinho."
Joseph Heller.

Teresinha Oliveira.


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

SEM MOTIVO.

Não há motivo para pendurar a tela nessas minhas paredes.
Defender animais não faz parte do meu histórico, apesar de encarar como sádicos e aprendizes de assassinos àqueles que os maltratam.
Não entendo como essa idiotice de caçar raposas começou e se tornou lazer de gente rica, que fantasiada sobre seus cavalos atiçam os cães, provavelmente para tal fim treinados, contra o pobre ser até encurralá-lo.
O que depois se dá, desconheço.
Eles a matam? Comer com certeza não comem, porque mesmo sabendo que muito bicho esquisito já virou prato principal: tatu, cobra, gambá... Até tamanduá mulher lá do norte já me confidenciou ter provado; de raposa não tenho notícia.
Porém sempre existe um glutão, com apetite voraz, que talvez em busca de paladares exóticos a tenha saboreado.
Mas nada disso vim aqui escrever.
Quero contar do meu encantamento pela pintura do Sr. Arthur-John. Um inglês que muito amava os animais, e que desde garotinho os desenhava, ao passear durante horas pelo Jardim Zoológico de Londres.
Assim desenvolveu talento e começou carreira de pintor.
Com suas pinceladas suaves nos deixou esses frades bonachões, que transformaram a cena de provável angústia numa correria leve e divertida.
Com certeza eles salvam a pobre raposa das mandíbulas dos cães, frustrando os pedantes caçadores e nos deixando a dar risadas.


Tela de Arthur-John Elsley - (1860/1952)
Pintor Inglês.

Teresinha Oliveira.   

domingo, 11 de setembro de 2011

OS GUARDIÕES

Trancafiamos os anjos e libertamos os demônios que vagam diante de nossos olhos.
Rasgamos os mapas que nos conduziriam a benfazejos caminhos, e deles nos desviamos.
Em nossa ignorância, adulamos gente hipócrita, que com sua tez de verniz nos arrebata
E nos imobiliza em camisas de força das quais  não conseguimos escapar.
Com chitata nos fere, e nos corteja com uma coroa quando tentamos o impossível, já assim sabido no início da ação.
.
Entretanto, todos temos um guardião às costas. Um guerreiro, uma criança, um velho sábio, um anjo manco. 
Cada um escolhe o seu e o lisonjeia.
Não vencem nossas lutas porém nos inspiram, armeiros de nossos desejos, centuriões de nossa vontade
Diluem seu hálito silencioso nos sucos de nossa consciência e aguardam
Ferozes como dragões nos defendem e o fogo magnífico que expiram à nossa volta cresta o solo.
 O calor à terra fecunda para brotar novo gérmen.
Nos devolvem a chave de um passado morto e insepulto.
Nos conduzem à porta que enfim o lacrará atrás das nuvens que já se dissiparam.
Em seus pergaminhos a sabedoria ensina a não assumir riscos incontroláveis, pois somente a própria força leva a uma luta justa
Contra àqueles de quem não podemos cortar as gargantas ou quebrar os ovos dentro das gônadas
Contra àqueles que nos enlouquecem e nos alçam aos píncaros de perversos desvarios.
.
Mas deles afinal, num momento imperceptível, nos libertaremos sólidos
Cada um, solitária unidade na lâmina da própria vida 
Se reencontrará livre, e talvez feliz.
.

Tela de Siegfried Zademack - Nasc.1952
Pintor Alemão Contemporâneo.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br  



 

sábado, 10 de setembro de 2011

OUSADIA.

Talvez minha maior ousadia seja me admitir.
Como sou e como mais desejaria.

Tela de Carl Larsson - (1853/1919)
Pintor Realista Sueco.

Teresinha Oliveira.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

CORÇA.

Sigo, ser não consumado
Imperfeito e improvável
Emoções de rebelde, inexaurível paixão
Furor que com a própria cicatriz se concilia.
Lasso destino sem plural.

Sigo, tropeçando nos ciscalhos do tempo
Corça ligeira, disparando manca ao menor som
De murmúrio de rio, oculto na curva do caminho
Do uivar dos ventos que atravessam os penhascos
Impossíveis ao galope.

Sigo, apesar do clima, dos seres, do pão
No encalço da verdade primal 
Que revele a essência que me anima
 E através dos anos desapercebidos
Entre ardis, ao longe quase perdi.


Tela de Kevin Daniel.

Teresinha Oliveira.



                                     

TERRA NOVA.

Um cosmo nos céus dessas minhas andanças soturnas procuro
Terras novas, onde viva gente louca.
Que fale a língua dos bichos e das plantas leia os recados 
Nas folhas amarelas ou na explosão da flor.

Que coma o fruto na árvore
Ou arrancado do chão, sujo
Na roupa velha polido antes de ir à boca
Irmão da minhoca, por isso tão gordo.

Que leia os livros que ninguém lê
Pois morto o escritor, sem ninguém saber quem foi
Morre também sua história
Tão linda, que jamais se contou.

Que se emocione com poesias que não entenda
Sentimentos esmaltados nas palavras em versos
 Do confuso poeta que nela se entregou. 
Só sentiu, não pensou.

Que ame as crianças com o arrebatado amor
Da alvorada pelo dia e do crepúsculo pela noite
E descubra em seus olhos a razão do mundo
Pois só ali ela se encontra.

Que desafinado cante canções antigas sem pudor
Ao dançar com passos frouxos 
No desencontrado ritmo de violões e flautas
E sozinho se divirta nas artimanhas de uma alegria vã.

Com essa gente meio doida, meio sã, que pouco quer
Pouco tem e muito sabe, povoaria meus dias
 Que frente ao futuro se extinguem, sem nessa gente esbarrar. 


Tela de Jonathan Day.

Teresinha Oliveira.








quinta-feira, 8 de setembro de 2011

LÁPIS, CANETA, BATOM...

O lápis acabou-se
De tanta ponta fininha em mais fininha com que o depuro.
A caneta sem tinta foi para algum canto de nunca mais.
Desisti de outra procurar
Madrugada não é hora para certos encalços.

Tinteiros e penas há séculos não mais se usa.
Tempos modernos não mancham as mãos dos poetas.
Nanquim já pensei para bordar letra bonita
Mesmo que nada diga, só em beleza se estampe
Magra, com curvas e retas perfeitas como a geometria ordena.

Busco cores em lápis que desapareceram
Pelas mãos das crianças que aqui nos domingos passeiam.
Óleos, guaches, pastéis, há muito secaram em seus vidros e tubos
Pincéis também não há. Só me resta o batom, mas a isso me recuso
Escrever em espelho lembra filme de diretor sem talento.

Abandono a página à própria sorte
Incólume, branca como a manhã que chega.
Espanto a poesia e vou dormir.


Tela de Cayetano Arquer Buigas
Pintor Contemperâneo Espanhol.

Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

BOI CIUMENTO.

Fim de semana esticado, com feriado caído do céu, sempre animava Ester e sua família, que prontamente escolhiam um lugar para viajar; mesmo que tal lugar fosse, e disso já sabiam de antemão, uma cidade no meio do mato sem confortos ou uma praia de mar violento, onde mal se conseguia molhar o dedão do pé e cujo sol pinicava na pele clara, que logo em vermelho- camarão ardia, sem pomada que desse jeito. 
Para lá partiam, fugindo do pequeno apartamento onde viviam se esbarrando nos poucos metros que a cada um cabia.
O carro era velho, mas sempre levava e trazia do destino escolhido.
Malas, lanches, gasolina, pneus cheios, água caso a sede apertasse, documentos e mais todas as tralhas necessárias para a viagem ser divertida e tranquila.
Numa estradinha de terra, perto de Deus nos Acuda, algumas vacas decidiram bloquear o caminho dessa gente animada. Os meninos gritaram, e nada. O marido motorista buzinou, e nada. As vacas olharam com aquele olhar de desprezo com que toda vaca olha para os seres humanos e permaneceram imóveis no lugar.
Ester, num momento de inspiração, usou sua voz de cantora da noite, poderosa contralto, e emitiu um Muuuu...que agitou as vacas e as fez sair da estrada.
Todos riram e prosseguiram.
Outra vez, outra viagem e o Muuuu... de Ester infalível se revelava. Já era patrimônio da família.
Porém, como 'Tudo na vida tem seu fim' ou 'Não há bem que sempre dure',
numa dessas viagens para algum Casca Prego qualquer, lá estavam outras vacas em outra estradinha de terra, que dessa feita exigia mais vagar pelos profundos buracos que a chuva cavara no chão.
Sem pestanejar, Ester abaixou seu vidro e cantou o já rotineiro Muuu... E as vacas, como sempre, saíram do caminho. Mas ela deve ter mugido com a nota errada, talvez um convite para o cio bovino;  porque um touro que, felizmente distante pastava, afiou os cascos no chão e partiu enciumado na direção deles.
Tão célere corria e bufava que no carro ninguém riu. Saíram o mais rápido que puderam das vistas do bicho bravo, que até espumava em sua ira. 
Mas pagaram por isso, porque o carro de tanto cair em buraco fundo e sacolejar, foi parar numa oficina mambembe na cidadezinha de fim de mundo.
Sem nada a fazer no vilarejo onde se viram presos, passeavam a pé, e durante muito tempo gastaram sapato e opinião discutindo sobre o que dera errado naquele Muuuu... fatídico.


Tela de John Lopez.

Teresinha Oliveira.
Baseado em uma História Real !


domingo, 4 de setembro de 2011

QUASE UM CONTO DE FADAS.

Talvez alguma feiticeira cansada da antiga receita
No pergaminho escrita, com olhos de cabra e pés de rã 
Tenha colhido algumas palavras encantadas 
-As mais bonitas ante seus olhos negros- 
Num arco-íris com cores das seis além
E colocado todas num caldeirão de prata
Para cozer em fogo brando e tempo contido 
Até perder a consistência e virar vapor d'água.

Cada uma
Formosa, com floreiras nas sílabas esfumaçadas
No cabelo do poeta pousou, gota de pássaro
Tangará, rouxinol, colibri
E lá cantou cantigas de amor.

As palavras enredaram com seu dom místico
O homem que à beira do regato no bosque dormia
E que nos sonhos as viu e escutou.
Apaixonado, bebeu-as
Nos cílios da jovem que a seu lado também dormia
E com elas sonhava, sem ainda saber
Que o amor, seu acordar esperava
Com uma cesta cheia de vida nova
Que o poeta passarinho e a feiticeira quase fada
Para os dois cozera num velho caldeirão de prata.


Tela de Anne Bachelier - (1949)
' Fleur-Songes'
Pintora Francesa.

Teresinha Oliveira.



sábado, 3 de setembro de 2011

JAMES C. CHRISTENSEN.

As mágicas e fascinantes pinturas de
James C. Christensen.
A música não é a ideal, mas é inseparável do vídeo que melhor exibe suas obras.
Telas riquíssimas em detalhes e significados.

Teresinha Oliveira.


O QUE OU QUEM ?

Não sei o que ou quem
Ou se há qualquer coisa que rompa
-Nesse mundo de Deus grande
Tão grande que nele vivo perdida-
Essa esfera que me cercou
E dentro dela amarra esse ser que não sou.

O que ou quem
Me devolverá o riso fácil que sempre foi meu
As esmeraldas do meu olhar, o paladar da noite
O orgasmo cósmico do viver?

O que ou quem
Me abrirá os portais dos dias novos
Com mãos cheias de sol e lua a agitar os lencóis
Para me despertar outra?

O que ou quem
Me reconciliará com a fé, com os santos
Com a esperança para esperar, o gosto do espelho
O prazer de desejar?

O que ou quem
Me fará, no revés de mim, me encontrar?


Tela de  Wladislaw Theodor Benda - (1873/1948)
Pintor Polonês.

Teresinha Oliveira / 1996


ROTINA QUE NAS ASAS DO TEMPO VOOU.

Eu sou melhor quando:
Sem nada mais a fazer
Bordo um poema
E vivo levemente
Como quase sem viver.

E sou melhor quando:

Brinco com as crianças.
São tantas...
Eu mais uma.

Olho para a minha gata lá da Pérsia
Que com seu jeito felino de não amar
Acaricia minhas mãos.

Devolvo o bom-dia aos vizinho
Que passam na manhãzinha nascida
Indo comprar pão.

Leio um de meus livros massudos.
Seiscentas páginas
Tão bom que economizo o final.

Vejo filme velho na tv.
Aconchego, família, travesseiros, cobertor.
Todos deitados no chão.

E sou melhor quando:

Como pizza sábado à noite.
Queijo, orégano, variados sabores e risos
Apetite voraz, disputando mais gordos pedaços.

Passeio olhando vitrines
Sem dinheiro
Também sem vontade de nada comprar.

Rego minhas bromélias em flor
Sedentas, prenhas de gêmeos
Com os cálices pela gulodice do sol esvaziados.

Abro o tarô para alguma amiga.
Incenso de almíscar, cristais
Sorte no amor chegando depressa.

Durmo sem sono.
Preguiça grudenta, imóvel
No lençol limpo, trocado no dia.

E sou melhor quando:

Corto os cabelos curtinho.
Fio de navalha, igual quinze anos
Rosto de menina guardado na memória.

Recordo um passado azul.
Outra cidade, colégio de freiras, irmãos
Gargalhadas compartilhadas.

Dirijo bem devagar, vinte por hora
Na direita
Saboreando nas ruas o verão.

Ouço enquanto preparo o almoço
Os contos dos filhos, acrescidos de pontos
Sobre os amigos, colegas de escola.

Varro a calçada cedinho.
Safra abundante de amêndoas
Trabalho poeirento de todo dia.

E sou melhor quando:

Seco a água da boca em canecas de chopp
E mexilhões com molho de mostarda picante
No fim de tarde, lá no Leblon.

Sorrio para algum desconhecido simpático
Velho hábito
E o sorriso retribuído é largo.

Bebo café com cheiro
Vapor de imediato preparo
Que ao redor se espalha.

Acordo os meninos para as aulas
Clareando manhã de luz e frio.
Coração de amor a doer.

Desmarco a hora do dentista.
Convincente desculpa, branca mentira
Adiando a dor para a semana seguinte.

E sou melhor quando:

Choro e rio na sessão das duas, cinema vazio.
Melhor programa, drama romântico
Sozinha, comendo sucrilhos da caixa inteira.

Ganho presente inesperado, sem motivo
Inutilidade em lindo papel
Só beleza para lembrar do carinho anos a fio.

Mato o mosquito que zune no ouvido
Tapa certeiro, felicidade fugaz.
Menos um entre milhões.

Almoço domingo na casa da mãe.
Berinjela e macarrão com direito à histórias
Antepassados de outras fronteiras.

Sinto frio, pés gelados, muito frio.
Inverno perverso
E calço meias tricotadas por mãos, em lã.

E sou melhor quando:

Escrevo boa poesia ao acaso, inspiração.
Sem suor, no primeiro papel ao alcance
Completa, desnecessários retoques.

Podo minhas árvores
Pela seiva enlouquecidas.
Galhos narcotizados para o lado errado.

Brigo sem disfarçar a ternura
Com minha cadela alemã, cabisbaixa
Por ter rasgado o jornal.

Mergulho as mão nuas na terra fértil
Sem nojos, minhocas, baratinhas
Vida entre meus dedos pulsando.

Recebo carta de alguém amigo.
Saudade com boas notícias
Caídas do céu de muito longe.

E sou melhor...
Um ser humano muito melhor quando:
Sem nada mais a fazer
Bordo tão longo poema
- E muitos versos omiti -
Somente para contar
 Que é bom viver levemente
Como quase sem viver.


Tela de James C. Christensen - (1942)
Pintor Americano.

Teresinha Oliveira / 1999