sábado, 17 de setembro de 2011

O CLUBE DAS MULHERES


Já dissera a mim mesma que não iria.
Durante a semana, o repetira incansavelmente às várias amigas que me telefonaram com argumentos, cascas de banana, que abalam as mais firmes decisões: "Vamos lá! Vai ser ótimo! Você precisa sair de casa, se divertir!"
   Elas não entendiam que eu tinha meu próprio lazer, um bom sofá, livros, filmes, um banheiro a dez passos, uma garrafa térmica cheia de café e cigarros aos maços, podendo fumá-los onde e quando quisesse, entupindo a casa com fumaça maligna sem provocar fungadas furiosas em tantos.
     Mas na Hora H vacilei. Afinal, era aniversário da minha irmã e nossas amigas, as jovens senhoras -eufemismo tolo para quarentonas, cinquentonas e mais além- que tanta saliva gastaram para se livrar dos maridos e filhos por uma noite, mereciam minha adesão nesse frenesi de infantil lascívia. 
Estavam todas enlouquecidas com a perspectiva de ir ao 'Clube das Mulheres'.
Ó Deus...  
     Afinal, chamei um taxi e parti para o Éden possível a tantas Evas deserdadas.
     Nossas mesas eram bem próximas do palco, pois as garotas não queriam perder nenhum detalhe, como se isso possível fosse, do luxuriante show.
     Quando um oficial da marinha entrou em cena, iniciando o espetáculo, uma gritaria ensurdecedora o saudou, e um perfume de feromônio empestou o ar que já faltava a muitas. Nos calores da menopausa se abanavam com os cardápios de preços caríssimos para qualquer tira-gosto ou água mineral. 
Contra tudo que o bom senso aconselha, os copos esvaziavam na mesma proporção em que a euforia crescia. 
   O danado do marinheiro dançava e se remexia, contorcendo pernas e braços em movimentos supostamente sedutores... A mulherada gritava.
     Um cigano fez sucesso maior , talvez por trazer uma rosa entre os dentes e ameaçar entregá-la, boca a boca, a alguma privilegiada na platéia.
A mulherada gritava mais alto...
Os copos de chopp vazios reapareciam cheios como num passe de mágica, margaritas e caipivodkas vieram lhes fazer companhia. Não havia como metabolizar tanto álcool...
Muitos tipos ali se revezavam, recrudescendo a cada nova aparição a histeria coletiva.
  O bombeiro com seu bumbum maravilhoso, se realmente um bombeiro fosse, teria trabalho em resfriar os das minhas companheiras de noitada, meio descontroladas e bêbadas.
Algumas ali estavam por curiosidade, outras em busca de diversão, mas havia quem desejasse numa única noite soltar os freios da sua pseudo sexualidade reprimida casamento afora.
Marieta, desde o primeiro momento declarara seu desejo de vingança contra o consorte, um sujeito chato e barrigudo de quem sentia um ciúme exasperado e que sempre imaginava a traí-la. Eu nunca pensei em quem poderia desejá-lo, mas amor é mesmo coisa inexplicável. Era ela a primeira a levantar e, sem nenhum rubor
agarrar o personagem do momento, fosse ele um árabe, um cowboy ou um bandido.  
Eu, com o meu refrigerante de sempre, já que meu saboroso uísque há muito me é proibido pelo médico, não contava nem com seus vapores para me animar.
Fiquei por ali, sorrindo, fingindo apreciar aquele infrutífero besteirol. Se ainda fosse possível levar um deles para casa... Um show particular ...
Talvez me divertisse de verdade, se algum vampiro de longos cabelos e caninos à mostra aparecesse, para com sua capa negra me envolver numa mordida real.

Pinturas de Beryl Cook - (1926/2008)
Pintora e Ilustradora Inglesa.

Terê Oliva

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