terça-feira, 27 de março de 2012

GOLPE OBLÍQUO.

Não sou além do que a gota que se esgota.
Vento que em farrapos desmonta a imagem
Na nuvem mal definida e seca de presságios que tapa o sol
Que cria a sombra, que extermina o ser atrás dela caminhante.

 Não sou estrela vésper de pastor errante
Que urde fios de céu no amor, através das veredas em que se perde.
  Nem ao menos arbustos de flor pretendida prendo aos canteiros pelas raízes

E as pistas de pão, que a cada passo da minha espera na terra marco
Passarinho come, tal qual na história infantil.


No fio de um golpe oblíquo do desejo sobrevivo
Carregando meu cântaro com outras águas.




Tela de Valeriy Belenikin  - (1961)
Pintor Russo Contemporâneo.


Teresinha Oliveira.



SEM TEXTO E CONTEXTO.

Meu amor é sem texto e sem contexto.
Enganou-se sempre no próximo passo
Ao despencar de barrancos e pisar em falso.
Torceu pé, fraturou calcanhar

Quase explodiu o miocárdio mas aguentou firme a mazela
De chorar escondidinho e fingir que nada aconteceu
Ou que pouca importância tem coração destroçado.
Porém doer, doeu.
Mas dor de amor, apesar de quase física
Dói menor que se supõe ou se aparenta.
Emagrece o sofrido, o que lá é muito bom
E torna vaidoso o pobre infeliz que se vê livre
Disponível para novas fraturas e erros toscos.
Cupido cego flecha a ermo e não dá para escapar
Nem possível é se esconder atrás de janela fechada
De não que no fundo é sim
De unha quebrada, de olhar enviesado, de decisão irrevogável

Repetida vezes sem conta aos próprios botões
Promessa infantil de nunca, jamais, a ninguém amar novamente.


Qual o mais tolo nessa história bamba?
Aquele que se esconde atrás do escudo de papel seda
Ou o angelical missionário, míope sem lentes?


Tela de John Spencer Rodam Stanhope - (1829/1908)
Pintor Inglês.



Teresinha Oliveira.

terça-feira, 20 de março de 2012

TIPOIA.

Sem inspiração, sem palavra, sem vontade...
Hoje, arrasto a emoção pelo chão sujo
Carrego minha vida numa tipoia.

Tela de Charles Zacharie Landelle - (1812/1909)
Pintor Francês.

Teresinha Oliveira.

sexta-feira, 16 de março de 2012

SEXO CORROSIVO.

O desencontro se deu no olhar sem retorno
Castanha íris, fragmento de árvore seca.
Aviltado desejo morreu sozinho na cama fria
Sem gerar lágima, por há muito ser menor
No todo das marés dos dias 
Onde a nau na hora correta naufragou.

A dobra do lençol revela mais um tanto
Se bom ou mau somente um frenesi confessará
Ao corpo na realidade crua do agora.
Relativo se mostra porém, gozar alhures
Se o amor no porta retrato, ladino espia 
Sobre a cômoda empoeirada que se esqueceu de limpar.

O repulsivo odor das insônias
Traz o toque do sexo corrosivo
Entre tijolos e pedras desmoronadas
Na sala larga, onde se gozou um dia.


Tela de Leonora Carrington - (1917/2011)
Pintora Inglesa.

Teresinha Oliveira - (1996)





quinta-feira, 15 de março de 2012

BROTO POÉTICO.

A poesia se fecunda uma e nasce outra.
Segue crescendo tal qual peônia
Que se mostra simples flor e como tal logo morre.
 O mesmo pedaço de chão copula um inesperado fruto
Que cedo apodrece se não a tempo colhido.


Ao ficar pronta, ou assim quase 
Porque poesia, finda nunca está
Se vê a pobre ainda tonta, à mercê
Dos melindres de palavras loucas
Que não se sabe de onde brotaram.


Tela de Thomas Heaphy - (1775/1835)
Pintor Inglês.


Teresinha Oliveira.



terça-feira, 13 de março de 2012

PULSEIRAS COLORIDAS.

As meninas seguem lindas a caminho da escola. 
Braços cheios de pulseirinhas coloridas para trocar com as amigas.
A ideia, não se sabe de quem, esquentou devagar até se tornar febre. 
Os camelôs, aproveitaram a deixa e logo criaram alternativas para mais vender. Agora, além das coloridas, existem as bi-colores, as cintilantes, as que brilham no escuro, as perfumadas e sabe-se lá mais o quê.
As mães, até as mais pobrezinhas, compram sorridentes ao descobrir o preço irrisório. "Mãe, quero dois saquinhos." - "Não, um só tá bom. Vai trocando com as colegas."
Outras, desfilam muitos saquinhos nos braços coloridos do punho ao cotovelo, espalhando bons augúrios para quem quiser trocar, ou for merecedor de ganhar: sorte, amizade, sucesso, saúde, felicidade, paz... Tem até pulseirinha poliglota que declara 'I love you.'
Lindas meninas a caminho da escola...
Espalhando alegria por onde quer que passem.


Tela de Albert Samuel Anker - (1831/1910)
Pintor Suíço.

Teresinha Oliveira.
  

domingo, 11 de março de 2012

NA GARUPA DE UM LIVRO-2

Escorregando pelos devaneios o livro cai ao chão, como para avisar que está vivo. Porém, mais vivaz encontra-se a viajante que ele mesmo muniu de malas para imaginar o tempo restante.
Uma década é boa sobra para se viver. Dá para fazer muita coisa, ou o quase nada que se quer ainda. O que desejo de verdade só chegará depois mesmo, se é que um dia vai chegar.
Uma linda jovem arrancando com seu carro, o veloz que não possuí apesar de tanto querer, dando adeus com os lindos cabelos ao vento e sua gargalhada irresistível. Melhor adeus não há.
Outra, com os cachos morenos domados pelo amor em longos véus, no átrio da igreja que resplandece ante seus olhos quase verdes. Noiva rica e branca.

Ela com certeza vai casar; está no sangue esse brinde de amor eterno que leva ao altar.
Muitos mais, maduros como fruta boa, bonitos, felizes todos e cada um no seu jeito de felicidade. Talvez não o meu, cuja receita padrão a eles não seduz.
Eu, encarquilhada e lenta, talvez chore. Tomara! Preciso gastar as lágrimas que não gastei, nem em enterro ou em filme triste que a todos debulha. Mas a essa miragem não tocarei concreta, nem eu nem a miragem. Oitenta, em mim,  é ano demais e muita velhice; não tenho nervos para tanto. Setenta vívidos já é sorte nessa matemática suposta.
O torpor se esvai e o sol traz um cheiro de café que desperta o livro com tanto ainda a contar, história luzindo como pérola que logo deixo para depois.
     Vou sacudir o meu dia e vivê-lo no meu estilo real.  Melhor assim, apesar de não o ser, ou talvez até sendo.



Tela de Federico Faruffini  - (1833-1869)
Pintor Italiano.



Teresinha Oliveira.   

sábado, 10 de março de 2012

NA GARUPA DE UM LIVRO-1

     Livro é varinha de condão que com seu ruído ao riscar o espaço desperta uma bruxa escrevinhadora, que ao meu lado sempre senta para ler junto.
     Mal o sol desperta a palavra vem, amalucada de sono, com muito dizendo aos borbotões da ilógica mente pura. Apesar do censor ainda na luz distante, com o tanto revelado se assusta, apesar de sabê-lo inócuo; massa com que não se faz pão.
     Os olhos fecham na sintomática fuga, mas a palavra insiste, encaixando-se na frase que o pensamento, sem outro jeito vai pensando. Pensamento bom, pensamento ruim, pensamento tão chulo que dá vergonha de falar, quiça escrever com letra escorrida do acordar.
     Surge festa, surge gente, surge maldade, surge serra e temporal que matou a gente pensada antes, surge o ontem que não se foi e de tão velho creio que não irá. Surge futuro também, mas não o longínquo, o dos anos que não verei. Meço a vida provável. Trinta anos é esperança vã, que saiu correndo de bicicleta atrás das visões que sentada em nuvem espiarei, se deixarem e se eu existir, fantasma para tal.

     Vinte anos é demais, mas com sorte, ou talvez muito azar viverei. Será que com boa cabeça para saber lá estar? Cabeça eu garanto; ou garantiria antes do remédio supimpa que cura dor e estica nervo, para que o malvado em outros do rosto não se encoste. Doença esquisita, logo essa me grudou.
     Agora não sei mais da razão. Genética às vezes não funciona. Se tem herança de centenário, também tem herança de coração partido, não de amor, porque histórias de grandes paixões nunca contaram, mas partido de explosão na veia que estoura e nos fiapos que entopem. Doces e cigarros. Pagamos o preço em tempo corrido.
     Dez para mim está bom. Primeiro porque 2022 está longe e depois porque é número bonito, pendurado de dois, par, casal. - 2+0+2+2=6 - Meia- dúzia. Rosas assim são vendidas, bananas e ovos idem. Perfume e alimento. Minha vida não é feira de esquina, é braço forte que monta a barraca e se bronzeia ao sol. Músculos que vem resistindo, de solidão e desejos vendados sem saber onde ir, mas mesmo sem o saber, esticam a lona e atam os nós. 
     Um só 6 é a terceira parte de 666, o número da Besta. Acho que meu caminho além está à vista; a fração promete. É pequena e me torna bem-vinda nos portões do céu.


Tela de Gustave Claude Etienne Courtois - (1851/1923)
Pintor Francês
                                  

                                          Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 7 de março de 2012

TANTO FAZ...

 Cupido, jovem sem juízo que pelos antigos amores zelava.
Eros, o mesmo tolo, rebatizado em outras águas.
Braços frouxos e igual romanesca função
Dois que eram um, ou um que eram dois.


Com setas de divina imperícia erravam o alvo
Ao mirá-lo cegos.
Pobres de nós, mortais nessa nuvem de moscas
Incensando a esses deuses clássicos por um amor certeiro.

Girolamo Francesco Mazzola - (1503/1540)
Pintor Italiano.


Teresinha Oliveira.

segunda-feira, 5 de março de 2012

NA PINCELADA SUAVE...


Algo de fortemente familiar 
Na mulher do quadro em cores claras.
Enternece minha memória que voga
Através dos mares que não naveguei.

Talvez tia, prima de grau perdido
No século em que era eu vaga poeira de estrela
Sem brilho, sem o dom da vida
Descarnada promessa de ser, ainda um dia.


Olhos verdes com inexpressivo cuidado das emoções ocultas
Nem mesmo tristeza que se intui, mas jurar não se pode.
Ovalada face, bonita, que o artista na pincelada branda
Retocou delicada como cheiro de hortelã.


Minha prima, minha irmã, minha amiga
Revela nome e morada para receber uma carta, contando que
O pássaro do tempo, ao desvendar tintas e mistérios
Trouxe a mim teu retrato. 




Tela de George Lawrence Bulleid - (1858/1933)
Pintor Britânico.


Teresinha Oliveira.

domingo, 4 de março de 2012

SÚPLICA & DÁDIVA.

Ó Deus... Que carrego no bolso para cima e para baixo
 A Quem toda hora clamo com meus desejos anárquicos,  maçãs de um espírito fora de prumo
Sem temer o inferno, cruel ameaça de fogo por usar seu santo nome em vão.


Ó Deus... Meu pajem e verdugo, que sorri ante a algazarra dos meus pensamentos, e turva com seu dedo de tinta o lago das minhas emoções translúcidas

Rogo, sem saber a quem melhor pedir, que a esta criatura que despencou de incompreensível constelação 
Ínfimo grânulo da mais quântica luz, seja ofertada a graça no tempo que ainda não gastou 
De caminhar seus dias sobre duas pernas firmes.


Tela de Hubert Salentin - (1822/1910)

Pintor Alemão.


Teresinha Oliveira. 

quinta-feira, 1 de março de 2012

FALTA D'ÁGUA.

Obra de Giuseppe Armani - (1935/2006)
Artesão Italiano.



Nem uma gota d'água. Nem uma miserável gotícula pendura-se na torneira 
para dar o ar de sua graça.
O sol ferve, e nós, seres de mares e rios, desmanchamos nossa estrutura e perdemos o humor quando assim tão secos.
Pagou-se a conta? Logo alguém perguntou. Mas é claro! Logo outro alguém respondeu, sarcástico com a possibilidade do calote.
Pobre sempre paga suas dívidas no dia certinho, para não acrescê-las de multas e manter o nome limpo, porque como dizem por aí, nome é a única coisa que pobre tem, e mantê-lo limpo é questão de honra pessoal.
Mas nem o nome fica imune à sujeira sob a cascata de suor, poeira e ira.
Um filho, o mais socializado da família grande, começa seu discurso fastioso contra os políticos, e os deduz se banhando em piscinas olímpicas ou nos mares do Caribe. Como paredes não respondem e muito menos votam, joga ao ar a originalíssima solução: os baldes.
Contudo, falta matéria-prima para justificar o uso dos mesmos.
O caçula ri e xinga o irmão de idiota. Este retruca com o óbvio-é você... -é você que nem namorada consegue... - melhor sozinho do que desfilar com aquele estrupício por aí... O jogo ofensivo só termina, sem decisão de quem é Idiota Mor, com o grito do pai que se despede e sai para o trabalho, onde com certeza tem água e sossego.
Tela de Pierre de Mougins - (1966)
Pintor Francês Contemporâneo.


A filha, que até então não dera palpites, lembra a todos que D. Maria tem piscina, e que D. Ricarda, há muitos anos se vangloria da previdência do marido que lhe deixou antes de morrer a cisterna, de não sabia quantos mil litros, pronta. Que Deus o tenha num bom lugar!
Pedir água emprestada? Não gosto de pedir nada emprestado na casa de ninguém. Depois a vizinhança fica falando...
Sem graça e sem outro jeito, carrega ela e os meninos, baldes cheios numa via crucis  sedenta. Com água medida faz o almoço, lava louça, limpa casa e banheiro. Guarda até um pouco para necessidade vindoura.
O sol sem dar trégua, corrói o esqueleto e parece brotar em calor de dentro para fora nos corpos suarentos. Não há sombra que o amenize nem água gelada que o aplaque.
Banho! É dia quente para muitos banhos: banho ao acordar, banho antes do almoço e do jantar, banho ao dormir.
A água já chegou? Não! Tem certeza? Não esqueça a torneira aberta...
Com dinheiro contado para as compras do mercado e padaria, decide a mãe, que a ele espicha com talento e competência, que é melhor comer ovo a semana inteira limpa do que dormir suja.
Telefona e pede um carro-pipa; sem pestanejar troca o valor da carne e dos supérfluos  por uma refrescante chuveirada.



Tela de Alfred Stevens - (1823/1906)
Pintor Belga.


Algum tempo depois, talvez uma hora ou duas, escuta o gorgolejar dos canos.
A água chegou com força e volume.


Jules Scalbert - (1851/1928)
Pintor Francês.


Teresinha Oliveira.