sábado, 10 de março de 2012

NA GARUPA DE UM LIVRO-1

     Livro é varinha de condão que com seu ruído ao riscar o espaço desperta uma bruxa escrevinhadora, que ao meu lado sempre senta para ler junto.
     Mal o sol desperta a palavra vem, amalucada de sono, com muito dizendo aos borbotões da ilógica mente pura. Apesar do censor ainda na luz distante, com o tanto revelado se assusta, apesar de sabê-lo inócuo; massa com que não se faz pão.
     Os olhos fecham na sintomática fuga, mas a palavra insiste, encaixando-se na frase que o pensamento, sem outro jeito vai pensando. Pensamento bom, pensamento ruim, pensamento tão chulo que dá vergonha de falar, quiça escrever com letra escorrida do acordar.
     Surge festa, surge gente, surge maldade, surge serra e temporal que matou a gente pensada antes, surge o ontem que não se foi e de tão velho creio que não irá. Surge futuro também, mas não o longínquo, o dos anos que não verei. Meço a vida provável. Trinta anos é esperança vã, que saiu correndo de bicicleta atrás das visões que sentada em nuvem espiarei, se deixarem e se eu existir, fantasma para tal.

     Vinte anos é demais, mas com sorte, ou talvez muito azar viverei. Será que com boa cabeça para saber lá estar? Cabeça eu garanto; ou garantiria antes do remédio supimpa que cura dor e estica nervo, para que o malvado em outros do rosto não se encoste. Doença esquisita, logo essa me grudou.
     Agora não sei mais da razão. Genética às vezes não funciona. Se tem herança de centenário, também tem herança de coração partido, não de amor, porque histórias de grandes paixões nunca contaram, mas partido de explosão na veia que estoura e nos fiapos que entopem. Doces e cigarros. Pagamos o preço em tempo corrido.
     Dez para mim está bom. Primeiro porque 2022 está longe e depois porque é número bonito, pendurado de dois, par, casal. - 2+0+2+2=6 - Meia- dúzia. Rosas assim são vendidas, bananas e ovos idem. Perfume e alimento. Minha vida não é feira de esquina, é braço forte que monta a barraca e se bronzeia ao sol. Músculos que vem resistindo, de solidão e desejos vendados sem saber onde ir, mas mesmo sem o saber, esticam a lona e atam os nós. 
     Um só 6 é a terceira parte de 666, o número da Besta. Acho que meu caminho além está à vista; a fração promete. É pequena e me torna bem-vinda nos portões do céu.


Tela de Gustave Claude Etienne Courtois - (1851/1923)
Pintor Francês
                                  

                                          Teresinha Oliveira.

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