domingo, 30 de dezembro de 2012

MEU AMIGO JOÃO.

Tela de Fernand Toussaint - (1873/1956)
Pintor Belga.

Hoje perdi um amigo.
Seu coração generoso não suportou o ritmo da vida e parou. Parou sem alarde, embora há muito mandasse recados que assim o faria.
João foi para longe morrer.
Amanhã, em Lisboa, seu corpo será devolvido à terra, mãe de todos nós, e  enfim se libertará das mazelas humanas. Seu espírito, já tão leve em vida, com certeza alçará à altura dos anjos e com eles seguirá por novos caminhos. Caminhos que intrigavam a nós dois e que ele, viajante sempre de malas prontas, desvendará primeiro.
Meu amigo João. Tão querido que de mim não esqueceu nas horas mais tristes. Deixou meu nome e telefone na sua lista de pessoas a serem avisadas de sua partida. 

Seu namorado cumpriu o desejo.
Hoje perdi um amigo, mas ganhei sua mais doce lembrança.

Tela de Edmund Hodgson - (1873/1942)
Pintor Inglês.

Rio de Janeiro, 30 de dezembro de 2012.
Teresinha Oliveira.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

ARMADILHA


Tela de Mstilav Pavlov - (Nasc. 1967)
Pintor Russo Contemporâneo.


Bem disfarçada foi 
Com flores entrelaçadas aos gumes de aço
Fio de navalha, ponta de faca
Nem sagaz mulher perceberia.

Assim a armadilha enredou
O pé que nela se feriu em viva carne
Sem chance de escape, soltura
Calcanhar rachado no tranco da mola.

Nela não se conteve.
Porém, da exposta fratura 
Os ossos ninguém mais curou.
Em laços permanece aberta 
E o passo, ao redor oscila.

O amor, de cicatriz recortado
Sem pé nem cabeça, sem juízo
No motim dos desejos vagueia
Atrás de nova armadilha 
Pelos equívocos armada 
Irresistível prisão. 



Tela de Harold Matheus Brett - (1880/1955)
Pintor Americano.

Teresinha Machado de Oliveira.






terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O CASTELO DE UM SONHO EQUIVOCADO.


John Jude  Palencar - (Nasc.1957)
Ilustrador Americano.

Poetas capengas, sem fibra, sem fogo no rabo
Entopem páginas e minha paciência, sem mais benevolência para com tantos.
Seus amores, de luas, quereres doces
Enjoam a quem de amor já explodiu, somente com o cheiro do quase
Sangrou lábios no beijo, sujou o lençol onde tudo acontece.
Amor que não se estende na cama pouco tem a contar
Evapora do mel antes de se lambuzar no sêmen
Assim, seco e desnutrido agoniza ante a antropofagia da carne.

Rima pobre de amor com flor não convence ninguém
Gastou-se no tempo dos hippies ingênuos que tiveram seus dedos em V quebrados
Pelos Imperadores modernos, pelos dominicanos de terno e farda.
Borboletas saltitando no estômago é sinal de gastrite 
Morreram com a tuberculose dos românticos 
Que com o pé na cova mal tiveram tempo para descobrir
Que amor não é rosa, é planta carnívora
Não é passarinho, é ave de rapina.

Amor é bicho bravo, que ameaça com chifres, garras
Fere, enleva, maltrata. Arranca pedaço e outro repõe mais bonito
Quando não, deixa espaço para novo que porventura venha.
Amor molenga, com diminutivos e eternidade no lombo
Se encontra e se perde em cada canto mas não gruda
Não ilumina o olhar do opaco ser, vazio dele até então.
Tantas vezes, engana o pobre sujeito que por Ele tanto anseia  
Com as artimanhas da sua ampulheta de desejos
Que promete a graça mas nega o mérito.

Teresinha Machado de Oliveira.






sábado, 1 de dezembro de 2012

POEMA ESGOTADO.

Tela de Daniel Hernandez Morillo - (1856/1932)
Pintor Peruano.

O poema é pássaro
Que voa torto para alhures e muitas vezes sem pouso morre.
Voz que afina a música das noites insones sem par.

Numa pauta de lírios compõe a estática das primaveras perdidas
Onde a carne se distrai e o espírito dança manso, sem desejo de passo.

Espirais de incenso perfumam o sangue daquele que na poesia busca
Um instrumento para desenhar as margens do céu
Imaginar os caminhos do sol.
Tela de Alfred Émile Leopold Stevens - (1823/1906)
Pintor Belga.


Terê Oliva.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

OS BIGODES DO GATO.

Tela de Pierre Carrier Belleuse  - (1851/1932)
Pintor Francês.


Acordei com a preguiça dos obtusos, e a danada grudada em mim não abria suas garras, apesar de pouco atrasar os compromissos que eu não tinha.
Nem sol, nem cuco, nem bocejos enfileirados espantou a coreografia dos membros que se recusavam a agir além do retângulo da cama.
O calor chegou do leste com promessas de um dia quente, mas eu me abraçava aos travesseiros com uma lascívia incomum aos que acreditam que o sono é irmão da morte. Dormir é gastar vida, e eu que tenho cobiça pelo tempo que ante meus olhos se esfarela, há muito abandonei esse hábito que o desperdiça.
Nesse chove não molha sinto em meus pés um estranho toque. 
O cérebro, mais rápido que a luz, ergue-me a tempo de ver o gato preto com as duas patas dianteiras apoiadas na minha cama. 
Seus imensos olhos verdes parecem trazer-me um recado do Oráculo que, pobre de mim, não desvendo.
Meu salto da cama só não foi mais rápido que o dele ao atravessar a janela
do quarto.

Tela de Jean Gabriel Domergue - (1889/1962)
Pintor Francês.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

NEURÓTICO DE GUERRA.

Tela de Corneliu Baba (1906/1997)
Pintor Romeno.

ZZZZZZ...... O sono dos justos.
Embora sem pretensões de sê-lo eu o dormia, aconchegada nos braços do marido com quem dividia o leito e a vida de então. O amor resistia há muito, e um sabor de bonança atravessava nossos dias onde o destino com tanto mais para fazer, esquecera de espalhar pedras pelo nosso caminho.
Elas surgiriam depois, muito depois, e talvez por tanto demorarem, só delas nos apercebemos quando rochedos de granito.
Um susto acorda a madrugada.
" Miserável! Canalha! Pensa que me engana? Você não presta e mais blá, blá, blá..." 
Evitei escrever os palavrões porque deles não gosto. Palavrão escrito tem peso maior que falado, e assim sendo empobrecem meu texto e história; mas eles lá estavam, nos gritos alucinados do vizinho velho que todos diagnosticavam como neurótico de guerra.
Os minutos passam e viram hora. Ele xinga a tudo e a todos às três da manhã com um poder na garganta que desmente a idade.
Eu, já acordada para o dia mal nascido digo adeus a Morfeu e, meio assustada meio zonza vou atrás dos berros dementes que me conduzem à área de serviço, onde vejo a silhueta corcunda do velho iluminado pela luz de sua cozinha, andando de um lado para o outro na área em frente à minha. Somente o vão do edifício e uma cortina de plástico, grades de sua loucura, nos separam.
Uma luz acende-se lá no alto do prédio e uma voz masculina ressoa poderosa na acústica do tubo de concreto. -"Cala a boca velho, vai dormir!"
Álvaro acorda irritado e logo me propõe mudança para casa nova. 
Porém, fofoca é um gérmen que contamina e nos deixa sequiosos para saber dos outros, tudo aquilo que não nos diz respeito. Logo, quando o velhote em urros revelou traições e indiscrições da vizinhança, fui fazer um café para melhor saborearmos as tragédias alheias.
No meio de tamanha confusão, Álvaro com um olhar malicioso sai em busca de uma colher de pau. Na volta, empunhando-a como uma arma me pede: "Grita!" 
O que!? Você ficou doido igual ao velho? 
"Vai, Terê, grita! Me xinga, chora..." 
Imediatamente começa a dar fortes pancadas na lateral do fogão.
"Eu já descobri tudo! Pensa que sou idiota?" 
As batidas no fogão ressoam tão alto que logo outras luzes se acendem prédio afora.
-Para Álvaro! Você está me machucando! 
"Mentirosa, você não vale nada! Está me enganando com meu melhor amigo." 
-Para, para! 
O velho calou-se. 
Nós, em gargalhadas acalmamos a raiva. Sentamos no chão da área e bebendo café fresquinho, aplaudimos nossa própria encenação.
Mas qual, logo o velho doido recomeça, ofendendo suas recentes vítimas - Nós!
"Esses dois pensam que enganam alguém? De dia é meu amor para cá, meu amor para lá, de noite é tapa p'rá todo lado!"
Álvaro olhou-me e, vencido foi procurar os classificados do jornal.

Terê Oliva.
Baseado em um caso real :) 



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

CRUA RETINA.

Tela de Igor Samsonov - (Nasc.1963)
Pintor Russo Contemporâneo.

Se o amor anda mesmo por aí, espalhando seus dons em cada esquina e canto, comigo nunca esbarrou.
Ou desviei do seu caminho ou ele do meu se esquivou, pela diagonal do meu olho cru.
O desejo de viver líquida na íris de outrem, solidificou e escapuliu-me sem que jamais seu gosto provasse na língua.
Não me tremeram as mãos, nem um passo deteu-se, nem o coração jorrou sangue para a face pasma que nada viu além do óbvio rotineiro.
Se a dádiva foi-me negada, o porquê desconheço.
Se tal não passar afinal de ilusão, pouparam os deuses meu espírito de tais afãs doridos e vãos. 

Tela de Irina Vitalievna Karkabi - (Nasc.1960)
Pintora Ucraniana Contemporânea.

Terê Oliva.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A RAINHA DAS CARAMBOLAS.

Tela Hans Heyerdahl - (1857/1913)
Pintor Norueguês.


Uma abelha me cercou na sala onde eu, distraída da vida além do livro que  leio, de nada mais dou conta. 
Com seus volteios e zunidos despertou a ira da viajante que ao pular de um veleiro em festa nos mares ingleses, nadou até a margem da realidade e, com um remo de pano de prato desfere golpes inócuos pelo ar.
O estrupício pousa na carambola de vidro que encima a fruteira de outras tantas cheia, como se delas fosse rainha, e ali descansa e coça as patas e espreguiça as asas. 
Porque cargas d'água não sei, e essas coisas ninguém explica, nem mesmo Freud que queimou as pestanas ao tentar, vejo-me  comendo as carambolas que pegava nos galhos baixos das casas pelo caminho do Grupo Escolar.
A abelha voa e o tempo, meio século real, se ajusta na sua trilha de fuga e na minha perseguição de ira insana.
Depois de muito, ela sai pela janela com a graça de um passarinho, e me deixa com cara de tonta a olhar a carambola estilhaçada no chão.

 Tela de Stuart G. Davis - (1893/1904)
Pintor Britânico.

Terê Oliva.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

VENTO. VENTANIA. VENDAVAL....

     Josefine ama o vento. Desde sempre.
Amor antigo, de todos estranhado, principalmente por sua aparência delgada que seduz o amante a levá-la em seus braços de ar ao alto das nuvens.
Vento é malvado. Quando se encrespa de raiva destrói tudo à frente, espalha fogo, arranca árvore e vira barco no mar.
Mas paixão não se explica, nem mesmo para o próprio umbigo, quiçá para gente intrometida que na vida dos outros se mete e pede explicação de assunto inexplicável.
Dele criança ela aceita travessuras, não ralha nem fica de mal quando brinca de roda em seus cabelos ou lhe levanta as saias só para contar a todos a cor que a guarda entre as coxas.
Namorado briga, fica com ciúme, maldiz a natureza que expõe suas pernas bonitas e a cor íntima que só a ele pertence saber. Ela sorri e perdoa, ao vento e ao namorado.
O amor inteiro dessa moça fina explode no galope da tormenta, que arranha seu coração no furor e na pressa de caminho. Sem medo ela encara o perigo em campo aberto, e só não arranca as roupas e fica nua para saborear seus beijos porque lugar para luxuriante entrega não há no seu cercado de vida.
Para muitos é difícil compreender a agudeza de cio que a corrompe ante o vento invisível, porém Josefine o olha nos olhos e o deixa abraçá-la, sentindo o viril senhor, deus de alguma mitologia antiga, que por não existir,   seu corpo sacia.

Tela de Sheree Valentine Daine - 1956
Pintora Britânica Contemporânea.

Terê Oliva.

TECENDO O TEMPO.

Tela de Heinrich Maria Von Hess (1798/1863)
Pintor Alemão.
 Nunca mais fiz tricô -ou teci- como dizem as verdadeiras tricoteiras
Que amam mais que tudo essa arte, miríade de nós 
Em que cada ponto é um passo para o todo
 No balanço dos fios e das cores.

Dei as lãs e joguei fora as agulhas.
Meu tempo é curto e minhas asas estreitas...
Fujo da vida através de outros caminhos
Gastando minhas mãos e olhos em outro tanto.
Tela de Jules Breton (1827/1906)
Pintor Francês.

Terê Oliva.

domingo, 14 de outubro de 2012

HOSANAS.

Deixa-me acordada a noite inteira
Não descanses de mim
Nem me ouças ao dizer não.
Adoça minha boca com beijos rasantes
Em meu corpo exposto todo percorrido.
Balbucia segredos indecentes, obscenos
A quem ninguém mais confias.
Afaga meus olhos com teu olhar transparente
Sem nada a dizer por ser vão
Mas em brilho tudo dito.
Atiça meus pelos de emoção e frio de língua.
Arrepia-me cada centímetro de pele alva e nua.
Quebra os relógios, enlouquece os ponteiros...
Todas as ampulhetas do mundo destrua
Para que o tempo de mim te seja eterno.
Tranca portas
Em cortinas de veludo azul
Cerra do espaço qualquer pedaço de luz atrevida
Que não seja a que emana de nossos corpos
Pacíficos, suados no gozo
Plenitude domada na morte do desejo
Luto bendito
Em hosanas comemorado
Nos braços um do outro.

Tela de Tom Lovell (1909/1997)
Pintor e Ilustrador Americano.

Terê Oliva.


sábado, 6 de outubro de 2012

♫ MENINA NO MAR ♪

Tela de Charles Lenoir Amable (1860/1926)
Pintor Francês.


♫ MENINA NO MAR ♪

Hoje, a natureza brincou comigo
Me fez menina no mar a nadar
Catando conchinhas na beira d'água
P'rá tecer um colar
Sob um céu de azul tão bonito
Que nenhum gênio ousou já pintar.

Pendurou lá no alto
O sol sorridente
Que cheio de graça e também de desejo
Resolveu bronzear
As peles claras das mulheres na praia
Que a areia não cansou de abraçar.

As ondas serenas qual corpo de amante
Morno e exausto
Me deixou mergulhar
Lá no fundo do sal
No silêncio profundo
Sem me amedrontar.

E a tarde chegando, tingindo escarlate
O azul ameno de um céu satisfeito
De azul ostentar.

Eu repleta de tudo, de todo esse mar
Só penso sedenta na água doce da fonte
P'rá me saciar.

Terê Oliva.


  

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

♫ RABISCOS DE NEON ♪

♫ RABISCOS DE NEON ♪ 

Caminho de luz que me leva a você
Em neon rabiscado na porta de um bar.
Na trilha da noite, perdida de mim
Rasgada de dor, sem você ao meu lado.

O que houve com a gente
Me faça entender...
Ou fui eu ou foi você que os laços soltou
Desse amor tão antigo que o tempo gastou?

Me ensina o caminho
Não desiste ainda não.
Nesse bar de nós dois
Procuro o norte do seu coração.


De neon rabiscada
Procuro o norte do seu coração.

Tela de Brenda Burke
Pintora Inglesa Contemporânea.

Terê Oliva.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

BEIJO NA BOCA.

Tela de Constant Joseph Brochard - (1816/1899)
Pintor Francês.

Da sequidão de meus lábios rachados escorre a gota vã
Ante a lembrança do teu beijo esgotado no fogo que consumiu
A canção dedilhada na harpa em fluídas notas de amor.

O desejo, a essencial malícia para usurpar os contornos
Os cantos, os céus e as línguas no afã dos apaixonados com doentia pressa 
Loucos nesse querer insatisfeito sempre, sempre ...
Evaporou na própria urgência frustrada.

Calou-se o beijo de indiscutível posse 
Na ausência do furor cego que corrompia o tempo e o espaço.
Murchou, nu de ternura no mastro caído
Da bandeira branca desfraldada aos ventos de toda questão além
Das fronteiras da boca amada.
O beijo sem filosofia, sem filtro, só beijo de boca beijado
Folha seca voou.

Terê Oliva.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

CABEÇA OCA.

Minha cabeça não mantém a face
Que compactua com horóscopos diversos.
Tampouco suporta a algazarra 
Dos meus miolos moles, que desde cedo
Dizia minha mãe para pouco serviam.

Tela de Alex Alemany - (1943)
Pintor Espanhol Contemporâneo.

Terê Oliva.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

CAIXAS VINTAGE.

Empilho as dores guardadas
Em suas caixas vintage
Adornadas com poás, rendas, flores, estampilhas...
Mais tudo que minhas mãos de artesã
Com arte intuem.

Uma sobre a outra se equilibram na torre
Que quase ao teto vai.
Ante as lembranças, sorriem com a promessa
De poesia sem rima, pungente e aflita
Que de cada uma transborda.


Terê Oliva.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

MENINAS ♥


Tela de Natasha Milashevic
Pintora Russa Contemporânea.

Menina, Menina, Meninas...
Coçam na minha cabeça
Clareiam a íris do meu olho fundo
Aquecem meu pé frio e marcam o passo.

Doem o futuro onde não estarei.

Terê Oliva.

NEGRO PACTO PARTIDO.


Tela de John Singer Sargent - (1856/1925)
Pintor Americano nascido em Florença.


Quem tu és, afinal
Estranho homem que nas névoas do meu desejo
Transita nu e se envolve no turbilhão de rendas
Das minhas camisolas velhas?

Ao consumir meu ser
Jamais sacias tuas veias do meu sangue sedentas.
De minha alma a última gota exiges 
Como se algo de mim restasse que já não te fora oferecido
 E por ti desperdiçado como grãos de pó aos ventos.
Meus dons. Sensíveis dons que não atam nó ou dão liga
Mas armam laços de seda como cachos de uvas a cada novo dia
Para que as saboreie ante a sequidão das tuas escolhas.

Doentio molde gerou teu corpo, e corrompeu teu espírito
O artífice que da vida e dos seres só mal intuiu.
Dentro de ti mora uma insânia que, com sofismas gentis
Só o negro e a dor acolhe como reais.

Findou-se a trégua em meu coração rompido.
A arrogância selou teu cavalo alado que partiu em galope
Pelas diagonais das luas findas.
Eu, derrotada
Ofereço às mãos do tempo, lento senhor da verdade
Os pesos em ouro da cega deusa que através dele tudo mede.

Tela de Manuel Nunez (Nasc.1956)
Pintor Chileno Contemporâneo.

Terê Oliva / 2000



terça-feira, 11 de setembro de 2012

GRITO.

Tela de Jean Beraud - (1849/1935)
Pintor Francês.

Desequilibradas, minhas palavras caem de cara no chão
Quando escorregam da poesia nua.

Ferem os ossos e as células mínimas.

Não as quero dizer por assim sabê-las.

O silêncio me angustia, porém no escrever grito.

Se ninguém na poeira meu verso cata e lê
Só me resta deixá-lo mofar, mudo.

Terê Oliva.


domingo, 9 de setembro de 2012

ALGEMAS.

Tela de Augustus Leopold Egg - (1816/1863)
Pintor Inglês.
Que laço é esse
De nó cego, surdo e mudo
Que nem a mais sofrida dor desenlaça?
Que corda é essa
De resistente fibra de algum vegetal
Que nem a mais solitária noite desembaraça?
Que fita é essa 
De laboriosa seda de tantos bichos
Que nem o mais agressivo gesto desata?
Que linha é essa
De puro algodão das flores colhido
Que nem o mais irônico olhar desalinhava?
Que cordão é esse
De vermelha lã dos pacíficos carneiros
Que nem a mais pungente mágoa desfia?
Que cinto é esse
De couro curtido com adornos de ouro
Que nem o mais frágil sentimento desafivela?
Que corrente é essa
De ferro em fogo e bigorna forjada
Que nem a mais cruel ofensa degenera?
Que mulher é essa
De pele clara e olhos de rio sereno
Que nem o mais vil forasteiro vem despertar?
Tela de Jean Baptiste Greuze - (1725/1805)
Pintor Francês.

Terê Oliva.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

PASSADO ESGOTADO.

Tela de Thomas Benjamin Kennington - (1856/1916)
Pintor Inglês.

Sem grinalda ou véus de noiva
Sem desejo outro além da ira torta  
Com os dedos enrugados a brasa atiço.

Ante a tal destempero 
Obedecendo apenas às deusas loucas 
Sem eira nem beira, escrevo.

Nada tenho a contar, novidade não há.
As palavras que sempre perto me seduzem
Em fuligem se transformam cada vez que as toco.

O espaço permanece inóspito
 As mágoas me despem e
Se no garrote sufocam, não morrem.

Se excisar tento os malbaratados dias
Não cabe a ti segurar o punhal
Barqueiro errante das minhas águas secas.

Te envio a carta que nunca escrevi 
Para expurgar de mim outro naco de ti.
A cada punhado teu que lá de dentro arranco
Me refaz raiz.
Tela de Delphin Enjolras - (1857/1945)
Pintor Francês.

Terê Oliva.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O LADO DO AVESSO.

Tenho pressas, muitas pressas
Angústia prenha
Motivo entrelaçado nos erros.
Talvez intuição de destino
Talvez delirante busca de viver outro lado.
O lado do avesso, bordado
Aquele que não ultrajei.

Tela de Boleslaw von Szankowski - (1873/1953)
Pintor Polonês.

Terê Oliva.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O DESTINO NO LOMBO DO TREM.

Tela de Aime Marie Constant Cap - (1842/1915)
Pintora Belga.

Nem para frente, nem para trás.
Nada se deixou e para o nada se vai.
Inércia e vazio se condensam na paisagem esgotada
Que as mãos sem talento de uma vida pintou.

As tristezas transbordam no sal dos olhos estradeiros
Que em alhures, tão distante que os pés não levam, buscam
Um motivo, mínimo fiapo, para chegar.

As malas no lombo de um trem incerto carregam
 Os desejos que em revoada delas escapam 
E na espiral do apito de um tempo findo 
Quebram o silêncio das horas.

A memória vocifera na cabeça do viajor que vê
Num pequeno espelho, à distância 
Seu destino perdido correr. 

Tela de Adolph Friedrich Erdmann von Menzel - (1815/1905)
Pintor Alemão.

Terê Oliva. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O TORPOR DE MORFEU.

Tela de Alfred Émile Stevens - (1823/1906)
Pintor Belga.


Um despertar indeciso no céu gris
Traz o torpor onde os pensamentos perambulam.
 Como pombos de asas quebradas 
  Voam ilógicos nos ventos da rosa sem norte.

Sem o filtro da razão para as coar
As loucuras de Morfeu, só aqui sob os lençóis admitidas
Entre os grãos de areia da ampulheta se chocam
No dia novo que ainda não se decidiu viver.

Nublada mente, atordoada memória
Se encostam no sonho que se deseja lembrar
E que escapou entre as filigranas do sol de domingo
Nessas horas rasas que deveriam ainda ser fundas.
A dádiva do esquecimento não mais se desfruta
Porque a carne saciada expulsa o cérebro dos porões escuros.
O espírito, sem domínio, vagueia no interlúdio dos sonos
Enquanto os galos não cantam.
Tela de Frederick Leighton - (1830/1896)
Pintor Inglês.


Terê Oliva.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

GUMES DE SEXO.

Tela de Leon Jean Basile Perrault - (1832-1908)
'La Baigneuse' 
Quero a carne crua dos amantes 
Com gumes de sexo afiados.
O sangue fervente dos homens apátridas
Párias, hereges, asseclas, lascivos
Para servir à cama de noites úmidas
Quando a água da concha transborda
 Sem taças para conte-la.

Tela de Frield Pal - ( 1893/1976)
Pintor Húngaro.


Terê Oliva.

domingo, 19 de agosto de 2012

ESCULTOR DE JARDIM.


O jardineiro quebrou as costas cortando grama ao rés do chão
Sangrou dedo nos espinhos da roseira que
 Apesar da beleza não queria admirador por perto.
Aturou xingamento da mulher que o dizia sujo de terra
Nas unhas e nas roupas em que enrugava mão p'rá lavar.
Ganhava pouco e suava muito.
Um dia cansou.
Vestiu asas na poesia que dentro dele sempre morara
Fez da tesoura cinzel e virou escultor de jardim.

Terê Oliva.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

CANTEIRO DE MINÚCIAS.

Tela de John William Waterhouse (1849/1917)
Pintor Inglês.

A jovem com vestido de retalhos, pedaços de amor perdidos
Plantou rosas e tulipas em seu canteiro de minúcias
Para montar o buquê de casamento pelo qual há muito bocejava.

O tempo secou flor, o vento trouxe praga
A jovem, nem mais tanto, quase em farrapos desistiu.
Voltou para casa e foi ler um soneto sem rimas.

Tela de Dante Gabriel Rossetti - (1828/1882)
Pintor Inglês.

Terê Oliva.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O CARTEIRO.

Walter Dendy Sadler - (1854/1923)
Pintor Britânico.
 O carteiro caminhou por léguas.
Ruas velhas, ruas novas, ruas sem abscissas.
Por serem tantas que há pouco não havia 
Se perdeu nos graus sem medida
Do mundo quase caiu.

A carta fervia em suas mãos. 
Sua imaginação no perfume 
Na letra em fio de nanquim bordada  
Com finíssimas retas e curvas também fervia.

-Flor de Lis-

O vapor do sol pintou a imagem da moça bonita
De seios redondos com passarinho nos bicos 
Azul no olho e romã no hálito.

Um coração de poeta nasceu assim no peito do carteiro.
Quedou-se ele de amores pela flor desconhecida
Que apesar de tanto espanto jamais encontrou.

 Carl Spitzweg - (1818/1885)
Pintor Alemão.


Terê Oliva. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A OLHAR NAVIOS...

Tela de Frank Weston Benson - (1862/1951)
Pintor Americano.


Para o além olhava, e no além do mais além sonhava
Com seus cabelos ao léu dos ventos 
Trazidos pelas correntes do mar sem navios
Não havia mais a esperar, e ela o sabia.

Tudo o que restara, do afinal pouco havido
Só existia dentro do cântaro de sua memória
Que esgotava suas águas ao lembrar
 Um amor há muito perdido.

Nos porões do barco naufragado jazia o cadáver do navegante
 Que nas escaramuças de uma luxúria infausta
Morreu sem remos, sem bússola. Sem o sal da lágrima da mulher
Que prendeu os cabelos e no dialeto do mar cantou um adeus. 

Tela de Charles Courtney Curran - (1861/1942)
Pintor Americano.


Terê Oliva.