quarta-feira, 29 de outubro de 2014

BRINQUEDO QUEBRADO


A criança que vive em mim crescia mais rápido que hera pelos muros surpreendentes
Sinto ao perdê-la, uma dor de brinquedo quebrado.
Vejo por detrás dos olhos dela tudo o que já vi, mesmo o que nunca vi
E as paisagens se emolduram numa monotonia sem fim.
Fiquei velha de mim.

"Um Retrato de Rapariga"
Alexei Alexeiwicz Harlamoff - 1849/1905 - Pintor Russo.

Terê Oliva
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sábado, 18 de outubro de 2014

O ESCRIBA



Tornar palavra tudo aquilo que o cerca e o emociona
 Ou o mais que finge sentir tal capenga poeta
Não vai além de um talento minúsculo de colecionador de sentimentos indiferentes
Ante o que a vida não deu estofo de verdade, ou antes ainda, o que para si não existiu.

Quisera seguir à frente das próprias mãos e do coração minguado
Que nunca se inchou de amor verdadeiro.
Viver assim talvez seja a sina dos escribas de letra bonita e boa gramática.
Fazer o gesto fora do papel sempre exigiu uma força superior de seus músculos 
Que amoleceram diante do mundo palpável.

A si mesmo convence, dentro da sua clausura de impossibilidades
Que talvez sua intuição o tenha salvado de vulgares desejos
Onde não há razão para tê-los.

Tela de Flora Zeledón - Costa Rica - Arte Contemporânea.
Terê Oliva
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terça-feira, 16 de setembro de 2014

CORAGEM DE GARRA E CANINO



Tem hora queria ser passarinho
Tem hora queria ser gato grande, olho felino
Que não voa porque não tem asa
Mas tem coragem de garra e canino
Para enfrentar as florestas sem medo de homem
Bicho pior e mais carniceiro.

"Symphonie en Vert" - Alfred Stevens - 1823/1906 - Bélgica.
Terê Oliva
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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

ANJOS DE ASAS AZUIS


Os anjos que trazem dos céus o esquecimento no pó das asas
Assim ordenados pelos deuses misericordiosos que sabem além do possível
Os homens viverem com tantos atravancos de emoções, maiores e menores
Deixaram-me aqui, assim...
Sentada no azul dos olhos teus.

Um azul com perfeito matiz de juventude e amor primeiro
Que de tão longe retorna nas escamas dos peixes que refletem
O fundo de um mar escuro.

Se à beira d'água, onde sobre agonizantes ondas caminhávamos
Em mãos e beijos de sal nos corpos virgens
Li nos teus olhos teu triunfo, vaidosa, guardei segredo
Desse amor exilado, que nas sombras do tempo ressurge único de terras que ignoro
Em espirais noturnas, tristeza das coisas para sempre perdidas.

"Time Traveller" - Maria Kreyn
Terê Oliva
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domingo, 20 de julho de 2014

ENTRE PARALELAS DE AREIA

A cabeça se torce e contorce nas paralelas de areia que caem da ampola de vidro
Dessa vida sem frente nem trás.
Enlouquecida ampulheta que guarda em cada grão a rendição dos dias ante o desdém do destino
Que entre suas mãos quebra os dedos do sonhador.

Busca ela um regato manso que murmure a voz da razão das coisas todas
Daquilo que não é mas poderia ser

Daquilo que não foi mas deveria sido.

Há no todo uma inescapável lógica que só tarde se revela nos ventos
Que desfazem as dunas frente ao tempo do mar.

"Andakt" - Carl Axel Printzensköld -1864/1926- Pintor Sueco.

Terê Oliva
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sexta-feira, 27 de junho de 2014

REFÚGIO AZUL


O cobertor ganha tons proféticos na noite fria de outono quando os pés gelam e a pele racha
Suas farpas aquecem a largueza do leito com matizes de azul profundo
Onde orações inconclusas se perdem.
Imagens se deleitam na forma límpida em que surgem inexoráveis
Com requinte de assassinos com suas armas de luxo.
Não desprezo o frio nem o conforto, nem os temores noturnos que diante do sono esvaecem.
Tudo é vida, tudo é percurso.

Saio do azul e do teto olho para aquela que ali se refugia 
Rendendo graças pelo esquecimento que não vem das cinzas
Mas de um vulgar cobertor azul.

Tela de George Lawrence Bulleid - 1858/1933 - Pintor Inglês.
Terê Oliva

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domingo, 18 de maio de 2014

O ESPANTO DO SILÊNCIO

O espanto do meu silêncio fica boquiaberto ante os pensamentos que aos borbotões, caem da minha cabeça pelo chão que piso.
Também espalham-se eles pelas lindas cidades da Itália onde nunca fui
Pelas faces das crianças em preto e branco, já mortas, que alguém eternizou em velhas fotografias.

Entremeando fios meus pensamentos vão longe, chegando à beira da sanidade e da lógica
Ante o barulho dos canhões, as cólicas da fome, o tiro que quebra o osso da perna e impede a fuga
 A sedução do poder que revela o algoz ao atar o nó da forca e da miséria.

Arrastam-me assim tais ideias para um patíbulo de ódio onde minha mão treme e se compraz de vingança na alavanca.
Porém, a ternura quase palpável de um beijo, olhar de mãe, afago de cão
A paradoxal beleza de um inseto monstruoso, a violência de um mar de naufrágios
Serenam minha cabeça que nesse turbilhão se perderia não fosse a vontade de compreender cada coisa.

Sentada no canto da vida sem olhar para nada além do espaço vazio, tais emoções solidificam-se e quase posso tocá-las com a ponta do dedo
Enquanto desfilam nessa interminável procissão de santos e demônios que me acariciam com suas perspectivas.
Deveria estar imune a tal e tanto entre os livros, que desde menina contam-me em milhares e milhares de páginas 
Suas histórias, verdadeiras ou não.

"Femme Fatale" 
Andor Novak - 1897- ? - Pintor Simbolista Húngaro.
Terê Oliva
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quinta-feira, 17 de abril de 2014

FANTASMAS ANDARILHOS


A noite corria alta e silenciosa no grande sobrado. 
Sabia-se ser muito tarde quando tudo aconteceu porque a família não tinha prazeres em camas e sonos. Os filmes, livros e conversas, esticavam-se até as ordens frenéticas da mãe que lembrava aos quatro irmãos a escola no dia seguinte, ficando ela mesma e o pai mais um tanto.
O frio imobilizava a todos e induzia ao sono sob forma de cobertor, meias de lã, pijamas de flanela e leite quente com mel antes de subir aos quartos, mesmo que sem vontade.
Nesse silêncio de escuridão a filha foi acordada por passos no corredor que interligava os três quartos. Quase sem se mover, e munindo-se de coragem, baixinho chamou a irmã, que para sua surpresa já havia também acordado e exibia os olhos arregalados em sua direção.
_ Tem gente aí, disse num sussurro. Algum ladrão entrou na casa.
_ Pode ser fantasma, sugeriu a caçula, desde sempre apaixonada por histórias de terror.
_ Que fantasma que nada. Mas no fundo, sua cabeça girou como um dínamo e lembrou-se das mortes recentes ocorridas na família. Um primo jovem tão querido, quase namorado com quem brincara de médico e uma tia velha. Seria mensagem do além? Bobagem!
Pé ante pé levantou-se e foi conferir. Quando olhou o comprido corredor, viu seus dois irmãos também à porta do quarto da frente, e os pais no quarto dos fundos. Todos observando o estranho ser, vestido de branco, que caminhava com ruídos de outro mundo.
Por um minuto ninguém sabia o que fazer, olhando uns para os outros, cada qual dando asas à imaginação sem nada concluir de racional.
O grande mistério se revelou quando o pai, com um simples toque acendeu a luz e a boneca Andinha, vestida de noiva, deu mais um passo.

Artista plástico (Esculturas e Bonecos) - Dustin Poche.
Terê Oliva.




domingo, 2 de fevereiro de 2014

OS PEIXINHOS DA LILI


   Lili, minha neta, adora pescar os minúsculos peixinhos que pululam no lago do restaurante onde sempre vamos, aqui pertinho de casa. Ela os pesca com copos descartáveis, e neles mesmos os conserva.
  Numa dessas madrugadas calorentas, eu que pouco durmo, acordei sedenta e meio sonada. Ao ver o copo com água sobre a mesa da sala, não pestanejei. Glup, glup, glup...
Confesso que achei o gosto meio estranho, mas no momento não dei importância ao fato e voltei aos braços de Morfeu.
   Só quando amanheceu percebi que havia bebido todos os peixinhos da Lili. Ela, furiosa, me deu a maior bronca e fez o inventário completo - "Vó, eu não acredito, você matou meus 6 peixinhos... "
   Fiquei mais preocupada por ter bebido a água do que por ter ingerido os peixes, se é que não houvesse algum girino nesse pacote, mas como sempre faço porque assim dá certo, deixei prá lá e esperei. Como nada aconteceu, nenhuma alergia, nenhuma pipoca pelo corpo, nenhuma dor de barriga, concluí que tudo não passou de uma simples confusão que ainda rendeu uma divertida e inesquecível história de família.

Terê Oliva.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

UM ANO DE AREIA


Um ano correu
Correu célere sem nos dar um recanto de pensar 
Ou água fresca para saciar a sede louca que nos consome em adiamentos.

Um ano correu
Com o tempo a galope, agarrado à crina de cavalos selvagens que mal sabem onde vão
Nesse chão lamacento de fraca vontade.

Um ano correu
E deixou escoando na areia fina entre os dedos
A presteza do movimento.

Tela de Johnny Palacios Hidalgo (1970) 
Pintor Peruano Contemporâneo.

Terê Oliva
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domingo, 19 de janeiro de 2014

PEGADAS DE ESPUMA


Falei baixo seu nome, na solidez de um sussurro, com medo de ser uma intrusa no silêncio que o cercava sob a lua, tão fina que quase não dispersava seu brilho.
Sentei-me próximo a seus pés no chão de pedras, e meu vestido de linho branco bordado com flores e sementes fez-se jardim de onde minúsculas fadas escaparam, tão frágeis quanto meus nervos naquele momento único.

Ele olhou-me com o azul de seus olhos mornos e sorriu. Nada disse porque a magia das fadas havia consumido suas palavras e atado seus membros dispersos entre as tintas e pincéis, da marina que ele pintava há horas com as cores inexistentes desse mar que só ele via.
Senti seu amor me dissolver em espuma e fervi para ele, mas era impossível movermos um músculo, perdidos como estávamos na proximidade um do outro.
Na imensidão vazia permanecemos durante o cio que nos atrelava às estrelas e às vagas noturnas, salivando de desejo nesse perigeu de amor e arte. 
Tal delírio porém, como todos eles, nos arrastava perigosamente pelos cabelos de nossos medos para o abismo da realidade.
Antes que nele caíssemos, arrancamos nossas roupas e deixamos pegadas na areia.

"What Freedom!" (1903) - Ilya Yefimovich Repin - 1844/1930 - Pintor Russo.


Terê Oliva - http://tereoliva.blogspot.com.br

sábado, 11 de janeiro de 2014

DÚVIDAS DE QUEM RABISCA


 Parece loucura, e provavelmente há uma pitada da mesma, grudada na cabeça dessa gente que passa a vida arrastando seu saco de livros e papel por cada passo que dá. São tantos e de tamanho peso, que aquele que muito lê e rabisca, após o fechar de décadas vai abandonando-os pelo caminho; não por descaso, mas por absoluta fraqueza dos braços e dos bolsos que não comportam o necessário para mantê-los.
Parece tolice de quem lhes conta, mas cada livro e cada folha de papel rabiscada é um bicho de estimação que precisa de cuidados. Há que alimentá-los com os olhos e novas ideias, acarinhá-los, dar-lhes banho para livrá-los da poeira e do esquecimento.
Gostar dos livros gera sentimentos maníacos e inexplicáveis para quem assim não os compreende. Livro é meio gente, e mesmo aqueles de que pouco se gosta merecem respeito. Outros são tão bonitos, tão enfeitados de letras e capas que apesar de nada a contar vão ficando, porque beleza por mais que se negue, tem valor intrínseco.
Os não lidos esperam com paciência de Jó. Como o próprio, veem os anos correrem através da quietude do abandono ao pó. O porquê dessa incompatibilidade entre escritor e leitor não se explica, e a lógica filosófica tão cheia de meandros, dessa relação escapa.
Porém, o pior que acontece, pelo menos a mim que vivo suja de escuros grafites, é encontrar textos de não sei quem. Serão meus ou não? Escrevi-os  num momento em que apenas uma palavra provocou tal enxurrada, ou copiei-os por serem belos sem destiná-los ao seu senhor?
Há tanto de tantos que bem poderiam ser meus frente à angústia de viver...
Na dúvida que mais irrita do que compraz, relego-os aos lugares do anonimato e finjo nunca tê-los lido.

"Girl Reading" (1878) - Charles Edward Perugini - 1839/1918
Pintor inglês nascido italiano.

Terê Oliva
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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

NEVRALGIA


A dor esconde-se em cada fresta da parede, pelos cantos esquecidos da casa
No passo, no toque na face, na pressa ao correr do sangue.
Como uma aranha, tece sua teia no silêncio da intenção.
Na inércia dos nervos, controla-os.
Montada em uma biga que dispara entre as ruelas do pânico mantém as rédeas curtas 
Porém sua esquerda é frágil.
Qualquer pedregulho, buraco no caminho, a leva do chão para os confins de um céu nunca imaginado.
Não há como voltar ou interromper o infausto cortejo
Nenhuma ação a dissipa
Nenhuma foice tem em seu gume o corte para tal cabeça.
A fúria da dor queima e destrói cada célula nervosa que encontra em seu percurso
E ao chegar no cérebro explode, pura como uma estrela que morre.

Tela de Yuriy Ibragimov - (1961) - Uzbequistão.
Sleepless - Óleo sobre tela.

Terê Oliva
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