domingo, 19 de janeiro de 2014

PEGADAS DE ESPUMA


Falei baixo seu nome, na solidez de um sussurro, com medo de ser uma intrusa no silêncio que o cercava sob a lua, tão fina que quase não dispersava seu brilho.
Sentei-me próximo a seus pés no chão de pedras, e meu vestido de linho branco bordado com flores e sementes fez-se jardim de onde minúsculas fadas escaparam, tão frágeis quanto meus nervos naquele momento único.

Ele olhou-me com o azul de seus olhos mornos e sorriu. Nada disse porque a magia das fadas havia consumido suas palavras e atado seus membros dispersos entre as tintas e pincéis, da marina que ele pintava há horas com as cores inexistentes desse mar que só ele via.
Senti seu amor me dissolver em espuma e fervi para ele, mas era impossível movermos um músculo, perdidos como estávamos na proximidade um do outro.
Na imensidão vazia permanecemos durante o cio que nos atrelava às estrelas e às vagas noturnas, salivando de desejo nesse perigeu de amor e arte. 
Tal delírio porém, como todos eles, nos arrastava perigosamente pelos cabelos de nossos medos para o abismo da realidade.
Antes que nele caíssemos, arrancamos nossas roupas e deixamos pegadas na areia.

"What Freedom!" (1903) - Ilya Yefimovich Repin - 1844/1930 - Pintor Russo.


Terê Oliva - http://tereoliva.blogspot.com.br

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