quarta-feira, 24 de julho de 2013

O PALADAR

Tela de Nina Reznichenko
Pintora Ucraniana Contemporânea.
O paladar do dia entrou-me pelos olhos como se fosse calda doce
Das peras do meu quintal
Na infância perdida onde um verde sonho morava ao lado.
Há muito não havia uma manhã como essa, clara e bem nutrida de sol.
As pessoas na rua passeiam, os cães sorriem e os pássaros cantam bons-dias aos que tem ouvidos para escutá-los.
Tanta harmonia cansa.
Tais imagens carregam em seu estofo o tédio dos anseios sobre quais me debruço.
O futuro não existe ainda, esconde-se sob as rochas do desconhecido e por tal não ouso desejá-lo
Nos afãs da esperança trancada em sua caixa de ouro.
O passado já escapou dos meus dedos e não volta, porque como as águas de um rio
Quando voltam depois da curva, são novas.
O presente enrijece meu passo e desfaz meu querer possível por sabê-lo outro.
Canto salmos e a Deus, talvez inexistente, desfio meu rosário de remendados pedidos :
Que no vulgo viés do meu caminho eu encontre a razão de tudo isso.
Tela de August Staff Gillé - 1892/1989
Pintor Belga.


Terê Oliva


domingo, 21 de julho de 2013

O ACENTO DO PORQUE



   A Língua é ser vivo e por assim o ser, sai saracoteando por ai, de braços dados com qualquer um. Não escolhe par, nem tem cuidados com quem a conduz, é vadia e meretriz. Levanta as saias pelos becos e só se faz de difícil com quem por ela tem paixão.Despreza àqueles que a amam e deles se esconde atrás dos paredões da gramática.
   Nisso tudo penso enquanto escorrego no chão do texto.

Esse porque tem acento? Pergunto a um e outro
Gente íntima do Sr. Português, cafezinhos e longas conversas.
- Eu acho que tem, eu acho que não.
- Ora, Dona Moça, tem acento por isso e por aquilo.
- Mas que coisa, Terê. Que construção maluca é essa que inventaste?
- Esse porque, sob tanta tralha, não mostra a cara.
Calma, amigo. Calma amiga.
Culpa não tenho se ele assim insurgiu. Se colocou máscara de bandido, não fui eu quem lhe deu o nó às costas.
Ele apareceu de supetão e não pode sair, se não a ideia desmorona.
- Escreve de outro jeito.
Não quero. Não posso. Não devo.
Quero o meu porque, com circunflexo ou não.
- Deixa de ser chata. Acentua e pronto. Você gosta tanto dos acentos... Ficou até deprimida quando mataram o trema.
Mas e se não for acentuado?
- Então não acentua.
Mas e se for acentuado?


"Johan Joachim Winckemann"
Tela de Maria Anna C. Angelika Kaufmann - 1741/1807
Pintora Suíça.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

segunda-feira, 8 de julho de 2013

PALHAS DA MEMÓRIA

"The Soirée" (1880)
Jean-Georges Béraud - 1849/1936

A música de uma festa distante que atravessa o ar quase frio de outono
Recrudesce a solidão de meu silêncio.

Nela descanso e me deixo levar
Pelo relento libidinoso de uma paixão perdida.
 No torcicolo do espaço corrido de um futuro rejeitado 
Lerdos desejos sem tempo de se tornarem ação desfalecem de vez.

Na dissonância de um blues melancólico vejo
Canhestra amante que por medo, que por sem cobiça
Fez das promessas pássaros mancos e os soltou aos ventos sem curva.
"Moonlight Night"
Tela de Ivan Kramskoy
Pintor Russo Contemporâneo

Terê Oliva



quarta-feira, 3 de julho de 2013

A AMANTE

Tela de Pierre Puvis de Chavannes - 1824/1898
Pintor Francês.

Comeram um pedaço da lua
O que restou da engolida treme num céu de meia-noite.

Na perseverança dessa escuridão uma sombra de vestido longo soluça.
A amante, personagem de um triângulo escaleno, onde lhe cabe a menor quina

Chora uma tristeza comprida que não tem mais por onde se espalhar
A não ser nesses campos de breu onde a verdade se desnuda e mostra as unhas
No brilho das estrelas mortas, anos-luz distantes.


Tão humilde que chega a ser casta
Tal mulher nessas estranhas horas caminha
Alucinada pelas visões das lâminas da guilhotina
Que ameaçam seu pescoço roxo de beijos proibidos.


Num cansaço absoluto desiste do amor indivisível.
Que a outra o consuma e lamba
Dentro da circunferência de ouro que um sacerdote traçou entre bençãos e promessas eternas
Por Deus in loco sacramentadas correntes.


Que sejam dela os dias festivos, as hordas de olhares de repúdio e aconchego
A saúde e a doença, a riqueza e a pobreza
Os gemidos do sexo, os braços dados na velhice

O para sempre que se desfaz no tempo da primeira esquina.

Um fiapo de luar rascante lhe basta
Para sob ele, leve de remorsos, caminhar sozinha.
Tela de William Powell Frith - 1819/1909
Pintor Inglês.

Terê Oliva

http://tereoliva.blogspot.com.br

PÉS DE AR

Nem as vagas da Criação
Explodiram mais violentas que meus pensamentos
Nessa poesia d'água.
Tal força consome-se, porém, na própria espuma
Antes de chegar à areia.
Assim crespa, cai nos abismos que cercam a terra
Toda terra que piso com meus pés de ar.

Tela de Lu Cong - Pintor americano Contemporâneo.

Terê Oliva