terça-feira, 10 de dezembro de 2013

FANTASIA



Harpias pousam ao redor sobre troncos de árvores caídas, pedras grandes se acercam do rio e no rastro de lama do seu caminhar brotam flores que ele jamais houvera visto.
Está nu.
Não ousa perguntar ao ar que lhe arrepia os pelos onde está ou como lá chegou. Recorda-se apenas, num fiapo de nuvem da memória, o som da voz feminina que o guiou; tênue demais para ser ouvida acima do som da água em movimento, ou do cair das folhas no outono vermelho que o tinge.
Cristaliza-se no desconhecido, e por temer os demônios da noite segue o rio que se alarga formando um lago luminoso, onde sentada à beira d'água, uma mulher nua canta.
Ele não entende uma palavra da canção entoada, mas o som suave e doce cria uma atração irresistível, como se uma mão de prata tocasse seu peito e o arrastasse pelo coração para perto dela.

Imagina sonhar, porém ela é o além dos sonhos, a ousadia de um desejo que nem mesmo ele, músico e poeta, impregnado com os segredos da arte, jamais vislumbrara sequer em reflexos. 
Sua pele branca sob o céu noturno é como uma promessa de fogo numa noite fria. Ela se curva e mergulha a mão na água do lago, tão graciosa quanto um pássaro que alça voo, e expõe nesse movimento sem intenção a curva dos seios.
Seus longos cabelos a envolvem como uma sombra e, de alguma maneira que ele não entende, é a rede onde ela o prenderá sem piedade ou retorno.
Mesmo distante pode ver seus olhos curiosos. Um sorriso perigoso atingiu-lhe o coração como uma seta flamejante segundos antes que ela dispare pela floresta como uma corça. Ele salta no seu encalço com uma vaga percepção de terra, espinhos, galhos de árvores a lhe arranhar o rosto, desconhecidos perfumes e texturas.
Ela brilha vegetação adentro, esconde-se, dança, gira e promete. Tal qual criança, espera que ele quase a toque para fugir novamente. No momento escolhido  deixa-se prender. Ele a abraça pela cintura e sente os bicos de seus seios endurecerem ao roçar seu peito. O cheiro dela, o aroma de mistério e frutas maduras, dissipam qualquer hesitação.
As mãos há tanto ansiosas, sem saber se estão despertas ou adormecidas, prendem-se em seus cabelos e deslizam pelas planícies do seu corpo. Demoram-se ao percorrer a extensão macia de suas coxas e flancos, descobrem grutas e rios, e sem mais controle, deitam-na no chão de folhas e restos de floresta.
Ela se amolda e se contorce lânguida sob o peso dele que, vibrante, a encontra. Na luxúria da carne, nos gemidos e gritos, faz-se música.
Os suspiros dela mais o excitam e seu coração galopa por todos os músculos e nervos. Seu frenesi acalma-se, e ele, agarra-a pelos quadris num contraponto delirante. Os corpos atingem o ritmo de uma canção no silêncio do mundo e tudo se aquieta, nenhum movimento ou som é percebido. Cada célula nele arqueja e ele enrijece como uma corda de violino. Trêmulo, sólido, lascivo.
A frequência atinge o agudo das estrelas e ele explode.

"The Nymph Salmacis and Hermaphroditus"
François-Joseph Navez - 1829/1869 - Pintor Belga.


Terê Oliva
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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

IMAGINAÇÃO

Malabarismos na cabeça
Ousados, sem medo, precisos.
Todavia os olhos
Permanecem agarrados ao chão
Fitando os pés que mal saem do lugar.


Terê Oliva
Tela de Paolo Giordano

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

PRECIPÍCIOS SOBRE LUGAR NENHUM


Sobre precipícios
Caminhei entre as nuvens
Para lugar nenhum.

Talvez chegasse
Não fosse breve o meu desejo.

Tela de Habib Srour - 1860/1938 - Pintor Libanês.
Terê Oliva.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

ESPELHO MEU


Espelho, espelho meu ...
Quem um dia já fui eu ?
Não essa, com certeza
Que agora se mira e pouco se vê.

Tela de Pietro Torrini - 1852/1920 - Pintor Italiano.
Terê Oliva
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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

ENQUANTO DESCASCO BATATAS

"A Woman Peeling Vegetables"
William Kay Blacklock - 1872/1922 - Pintor Britânico

O tempo  passeia na paisagem que se desfia ante minha janela.
Do lado de cá, sentada sobre a soma do irrecuperável atraso
A descascar batatas e cebolas para a fome de todos
Busco o lápis de grafite escuro e os papéis que pela casa brotam mais rápido que erva daninha.
Ali mesmo, com os olhos a arder nas retinas da memória, escrevo dentro da cabeça
Minhas histórias e causas.
Os ecos pontiagudos dos efeitos já foram exaustivamente vasculhados por cada um
Julgados e pesados sem a minha assinatura.

Temo que tudo se perca, que tudo se torne pó antes de ser poema.
"Unable to Wait (1867)
Telemaco Signoriri - 1835/1901 - Pintor Francês.

Terê Oliva

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

SOBREVIVÊNCIA


Há sentimentos que, juro sobre a bíblia e na frente do espelho
Encarando a face, límpida como a das crianças
Que nem resvalam em minha alma boa.
Essa ficou velha dentro do corpo velho, e de muito se livrou
Jogando ao lixo, sem apegos ou hesitação aquilo que desbotou
Ficou pequeno e menor que o mínimo.
Nada mais lhe serve ou seduz
Com a febre luzindo na serenidade do desquerer.


Porém, na noite escura lá fora ardem os meus desejos nos porões das naus incendiadas
Pelas tochas das minhas próprias mãos trêmulas no frio da mentira.
Tudo que não quero pertence aos outros, salvo a mágoa de não o ter.


"Clown Making" (1910) - Johnson Sloan - 1871/1951
Pintor Americano - Óleo sobre tela.
Terê Oliva
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sábado, 26 de outubro de 2013

VITRAL DE UÍSQUE


Um raio de lua atravessa a garrafa de uísque e espalha cores de vitral no chão da mesa de mogno.
Sinto as cores e nelas descanso, pensando sem controle no passado esgotado.
Minha cara de bobo, pois todos que assim mergulham nos próprios abismos, ficam com cara de bobo
Desmancha-se quando num piscar volto ao real.
Bebo o uísque do copo num só gole e no guardanapo de linho
Rabisco um poema embriagado.

Tela de Irving R. Wiles - 1861/1948 - Pintor Americano.
Terê Oliva
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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

UM BEIJO NO CÉU


Abrir a portinhola da gaiola e esperar 
O passarinho partir na onda do primeiro vento
Livre, espreguiçando as asas
É dar um beijo no céu.

Tela de Victor Nizovtsev (1965) - Pintor Russo Contemporâneo.

Terê Oliva
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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

FEITICEIRA MORENA

Tela de Henry Wallis - 1830/ 1916 - Pintor Inglês.
 A tristeza é uma feiticeira morena que arrasta pelas pernas os desejos inertes, que sem ela, morreriam de vez sem nem saber de que.
Senta-se à borda da taça da noite e ali permanece
A olhar-me como se esperasse o movimento das minhas mãos a enxotá-la 
Tal qual se faz  com os pombos quando invadem o quintal, em busca das migalhas de pão que voaram da mesa no café da manhã.
Não se vai assim logo 
Porque sua pressa repousa nas asas de um pássaro que canta enquanto seduz o vento.

Esgotaram-se as horas dos livros.
Empapuçaram meus olhos, e doeram em minhas ideias mancas que mal saem do lugar
O teto, onde a paisagem se repete intermitentemente, cais de navios naufragados, ondula nas falhas da tinta
Porém, nem as luzes da madrugada riscam um caminho
Trilhas emaranhadas se cortam e entrecortam como as cicatrizes do acidente de viver.
Há tão pouco ainda a tentar.
Na argila da minha descrença em tudo, moldo meu espírito e levanto da cama
Tentando esquecer aquela que não sou.



Tela de Jean Beraud - 1849/ 1935 - Pintor Francês

Terê Oliva
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domingo, 13 de outubro de 2013

REMORSO VISCOSO


  Ele tinha pés quentes, mas ninguém fica casada porque o sujeito com quem se dorme tem pés quentes. Apesar do inverno mais rigoroso e do bom sexo, almeja-se algo além dessas miudezas.
 Assim sendo, com os pensamentos girando na cabeça há tanto oca, ela ergue os olhos e o dedo, agitando-o despudoradamente na face daqueles que nada sabem mas deduzem às carreadas.
Nesse tempo de guerra com naus lançadas ao céu e mar, uma mulher ávida se pronuncia na sua nudez prisioneira. Nunca imaginara ela que sua pele possuía tantas filigranas de delícias e sabores.
Sozinha no quarto espesso, onde não está sozinha, está muitas, ao concluir ter vivido em vão fragmentos das suas lembranças a espetam como adagas.
Heroína do fracasso de seu próprio destino, que não tem mãos para tecer pontes sobre o abismo de si mesma, porém aniquila com destreza qualquer chance de cruzá-lo, ante seu avesso procura o fio do prazer. O prazer do prazer.
Errara. Errara feio ao abdicar do homem que talvez a pudesse amar.

Bonita em seus longos vestidos de noite trancara-se nos espelhos, e sob a carne guardara a mulher, a outra que era ou poderia ser.
A margem oposta de seu sorriso dissipa-se sob a máscara de boa moça, a que é, a que despreza sob os vestígios do batom cor de boca.
O vermelho não apenas a assustou, a aniquilou.
Para continuar a viver nesse remorso viscoso soltou a outra, uma das muitas trancafiadas, a que escreve o há muito guardado e nunca contado.
Essa não tem pudores porque não tem ossos nem sangue, seus músculos  papel, sua identidade grafite.
É tempestade e fogo. Fogo primal, onde as palavras se queimam sem deixar rastros.

Tela de Erik Olson - Pintor Canadense Contemporâneo.

Terê Oliva
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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

FINGIRES



Como na poesia
Nem sei mais se sinto o que finjo sentir
Tampouco enrubesço ante a gargalhada que escapa
Entre meus lábios murchos.
Esse prazer quase irracional de não pensar verdadeiramente em nada
Deixa-me livre da própria vida.
A felicidade da inconsciência é leve
Como a luz indefinida nos olhos de um cão.
Esse torpor não me desvencilha dos fantasmas
Mas me deixa gozar de rosto lavado.

Tela de John White Alexander -1856/1915
Pintor e Ilustrador Americano.

Terê Oliva
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

BORBOLETA RECÉM-NASCIDA



Em seu ócio requintado, sobre as colunas clássicas que sustentavam sua cela
Ela chorava rente à loucura.
Não com as lágrimas dóceis dos débeis, mas com uivos de animais feridos.
No silêncio escuro, a mulher parasita em seu tempo
Quando esquece seus versos preferidos, e dos poetas fogem-lhe os nomes
Quando todas as ideias brilhantes se revelam líquidas

Quando as pessoas arrogantes, que são inúteis, sentam-se nas cadeiras de vime que sua memória conserva.
O vazio que a circunda não tem asas, mas tem sons e ecos no bater das asas de uma recém-nascida borboleta
Que no cio do ar frio se esmaga contra o vidro da janela e rompe a manhã.
Um sentimento de naufrágio inunda de vez sua ansiedade pelo dia
A palidez do futuro para ela não tem mistérios.


Lynn Ann Sanguedolce - Pintora Americana Contemporânea.
Terê Oliva

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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

AS ESTRELAS NO CASCO DA TARTARUGA


No íntimo da tarde fria as estrelas surgem lentamente
Sobre o casco de uma tartaruga velha , que por sábia, arrasta-se em seus vagares
Trazendo a noite que se assim não fosse, em hordas de solidão logo despencaria.
No jardim, entre as margaridas que desprezam os ruídos de sua existência
Ela para e me olha em suas pupilas opacas como se houvesse algo a dizer.
Talvez haja, talvez não.

As profundezas vazias do olhar dos bichos 
Contém enigmas de paz que a alma humana não decifra 
Muito menos a minha, perdida dentro do meu corpo findo
Que mal vê as agulhas do norte na ponta do próprio nariz.
Sentada em vime, na varanda permaneço a observá-la
Medindo seu passo e o tempo que ela sobreviverá a mim.

Tela de Jean Michel Bénier - 1949 - Pintor Francês.
Terê Oliva
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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

CINZAS DA FOLIA



Deixei as horas arranharem as pontas dos meus dedos
Enquanto as recolhia do livro, na celeridade das areias de um tempo morto.
No silêncio, a mulher que escreve ri, um riso escandaloso diante das cinzas da folia.
Ela me olha de fora e, uma a uma, retira suas máscaras do último carnaval.
Abrigo-me no longo cansaço de fazer e refazer sem nunca pronto, mas ela, tal qual criança, arrasta a cadeira e caio ao chão.
Seu olhar me ergue.
Não gosto de admitir toda a minha esterilidade 
Todo em vão que adensa em minha pele e carne, que fura meus ossos.
Desconhecendo o querer, a frouxidão me faz o tato áspero ao deslizar na imaginação que se apaga.
Ela, cortesã das emoções soterradas, nesse estagnar também esvaece e me esquece no papel em branco.

Tela de Ivan Vladmirov - 1869/1947- Pintor Lituano.
Terê Oliva
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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

OLHOS ALHEIOS

 Tela de Ulisse Caputo - 1872/1948
Pintor Italiano.


Os olhos me devolvem do espelho os olhos que não são meus
Na verdade são olhos alheios
Meus olhos, olhos alheios.
Não vejo a mulher com cabelos de nimbos e pele de lamparina
Sou a outra que o mundo não vê.


Só eu a vejo, com os olhos de dentro
Mas sou possuída pelo outro.

Tela de Evgeniy Kuznetsov - Nasc. 1960
Pintor Abstrato Russo.


Terê Oliva

TORRE DE PARÁGRAFOS


Eu sou a que escreve, a inventada através do grafite e das ideias desmoronadas
Entre altas e tortas torres de parágrafos sem setas 
No terreno improdutivo da minha imaginação.
Não sou aquela que cozinha, que toca o cloro até a vermelhidão das mãos na limpeza dos azulejos
Não sou a que pariu e educou os filhos entre limites de erros e  exasperação
Nem aquela que se veste de mim com saias de condescendência e consentimento.
Sou uma personagem de mim mesma, criada para atrás dela me esconder
Porque se assim não, a mulher que escreve explodiria, e fragmentada
se perderia para sempre.

Meu corpo e minhas memórias dissolvem-se numa consistência de gelatina
Entretanto, a caligrafia dela me compõe e recompõe, e nesse arcabouço de traços e pontos
Ela me sustenta e salva.
"Dansle Bleu" (1894) - Amélie Beaury Saurel - 1849/1924
Pintora Francesa.

Terê Oliva

terça-feira, 20 de agosto de 2013

OS DETALHES DO SILÊNCIO


Nosso sonho caminhava à nossa frente, sem freios, e sorríamos dele no abstrato planejado de nossas almas
Sem nos medirmos, sem percebermos um no outro, mais do que a fraca convulsão que satisfazia.
Nem quando éramos felizes o éramos, mas isso não sabíamos
Porque nosso dentro era lá fora, e nem a nós mesmos enchíamos com o pouco que restara das andanças de braços dados
O tempo esgotou-nos e nossa atenção minguava ao olhar para o interior de nossas próprias janelas.
Nossos desejos imperfeitos não valiam a pena ao serem desejados, por irreais
A esse nada valer juntou-se as coisas todas, do mínimo ao máximo.
Com essa descoberta, veio a tristeza longínqua do alheamento que nos apartava
Horas de tédio, de paisagens perdidas, de sentimentos esgotados.
Sabíamos, sem a consciência dos fortes, que nossa vida não mais existia além do hábito das formas
Porém, mesmo assim a gozávamos, acarinhando a monotonia como a um bicho de estimação, que não se ama, mas também não se odeia.
No exílio espesso em que nos refugiamos, cada qual em seu torrão, não construímos navios, e nem os desejávamos
Nossa inércia não carecia de bandeiras, a si mesma bastava nas sombras da alcova, onde o pé gelado
Revelava a ilusão do outro, até do próprio ser que nada mais era do que um eco distorcido de si mesmo.
De repente, sem mais motivos do que a própria angústia ardente, a despedida se consumou entre fotografias rasgadas
Cartas sem mais sentido e palavras de açoite.

Os ruídos da ausência repercutiam através dos cômodos, como se os cacos de uma xícara caída ao chão
Ricocheteassem os sons de louça nas paredes de uma guerra perdida.
Pouco restou além disso na vida de então.

"L'Homme Endormi" (1861)
Charles Auguste Émile Caroles Duran - 1837/1917
Pintor Francês.

Terê Oliva
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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

POBRE DE MARRE DECI


   A velha senhora da tela de Anker, bem poderia ser irmã da minha avó Leonor, portuguesa bonita de olhos tão azuis e transparentes que nem pareciam de verdade. Eram gotas de céu no rosto claro com rugas de indeterminado tempo.
   Culta de muitos livros e Chopin ao piano, também tocava harpa, uma linda harpa que fascinava aos netos que nela não podiam encostar, com risco de ter um chinelo arremessado em sua direção. E que pontaria tinham aquelas frágeis mãos...
   A bela moça, rica de pais prósperos, acabou envelhecendo pobre de marré deci, e por muito pouco, quase nada, não morreu à míngua entre música e velhos livros.
   
               Tela de Albert Samuel Anker - 1831/1910  
                                      Pintor Suíço.

                                      Terê Oliva
                           

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

ACONCHEGO DE LAR


Hoje cedo, ao olhar de manso, percebi a confusa beleza desse canto da minha casa. Nada foi medido. As maçãs esperam seu momento de torta, e o pano de pó aí esquecido uma hora menos preguiçosa para entrar em ação .
Os livros também pacientemente esperam... Há 900 páginas antes de cada um deles. Os bombons de açaí, presente que algum amigo grego me deu no aniversário, mofam. Bombom de açaí ? A originalidade muitas vezes conduz ao erro.
Meu velho São Francisquinho descansa no seu lugar de todo sempre, e de tão sereno, passa despercebido através dos anos em que me acompanha. Os gatos idem. Muitos mais havia na minha coleção, mas as crianças da casa trataram com maestria da super-população felina, quebrando-os pouco a pouco.
De tudo, sem mais pensar, fica uma sensação reconfortante de lar.

Terê Oliva

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

MULHERES CARIOCAS ♀ MARIA DOS GATOS



Tela de Francisco Sanchis Cortés - Nasc.1969
Pintor Espanhol Contemporâneo.



Há tanto era Maria dos Gatos que se lhe chamassem de  Clotilde, nome  que  ao seu Maria arrematava há quase sessenta anos, talvez nem respondesse.
Os gatos lhe batizaram pela vizinhança inteira com seus abandonos e machucados.
Por ser só, ou quase isso, Maria levou o primeiro para casa a lhe fazer companhia, sem imaginar que ele, o Tristão, logo apareceria de barriga cheia com outros tantos. Sorriu, emocionada com a possibilidade da numerosa prole. Tristão virou Isolda num piscar de olhos, sem complicações. Assim mais gostou. Uma menina... Que bom!
Saiu às compras orgulhosa da filhota bonita e voltou carregada de roupinhas , tralhas e apetrechos. Afinal, a nova mamãe carecia de muita coisa para viver com conforto a doce espera dos rebentos.
Maria esperou junto, em plantões de ansiedade. Voltou até a fumar após quinze anos de abstinência total.
Belo dia, seis bichanos chegaram no bico de uma cegonha, que malvada, espetou os olhinhos de um e o cegou.  Tristão, agora macho comprovado pelo veterinário da esquina, passou logo a ser o preferido, da mãe gata e da mãe gente. Com os olhos vazios carecia de cuidados que os outros dispensavam ao crescerem fortes e independentes.
Pelos muros e ruas, as filhas de Isolda descobriram o amor e suas consequências, enchendo a casa de Maria de miados e cios. Tristão, o ceguinho que tanta compaixão despertara no início dessa história, tornou-se quase imediatamente o sultão desse harém familiar. Como não saía de casa por medo do escuro, estava sempre por perto, a satisfazer as necessidades amorosas das bichanas salientes que não se faziam de rogadas aos seus chamegos.
De repente, sem que o tempo se revelasse corrido, a casa de Maria  antes silenciosa e vazia, ficou pequena para seus inumeráveis gatos. Ela, uma solteirona romântica sem mais esperanças de encontrar amante, batizou-os enquanto possível foi, com os célebres dos clássicos: Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, Lancelot e Guinevere ... Depois de esgotada sua cultura e acrescida sua necessidade de nomear a tantos, se tornaram simplesmente Branquinha, Esperto, Molenga, Guloso e tantos outros, devidamente adjetivados com sua característica principal.
Como a felicidade sempre cobra seu preço e tem o seu reverso, Maria logo viu-se num mar de problemas para os quais, cercada por dezenas de gatos, não atinava solução. A verba da ração, que não era pública nem superfaturada, escoava de seus bolsos numa honestidade de arrancar cabelos. Os vizinhos reclamavam do cheiro e do barulho, abaixo-assinado, Saúde Pública, super-população, o sumiço da faxineira e tanto mais, tanto mais.
Ela acarinhava seus gatos com o desalento da despedida próxima, apesar de viver sem eles não saber como. A rala família que restara, tia-avó e alguns primos de graus perdidos, se preocupou e se meteu, como toda família de verdade faz quando a coisa fica preta, mas pouco adiantou os trocados coletados e o nome do psiquiatra indicado.
Meio maluca de solidão e saudade pressentida, trancou portas, janelas, e jogou álcool sobre tudo e todos na casa dentro, inclusive na própria cabeça que, refém das tragédias dos livros, incendiou sua história com um glorioso final.
Tela de Antonio Guzman Capel - Nasc.1960
Pintor Espanhol Contemporâneo.


Terê Oliva

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O PALADAR

Tela de Nina Reznichenko
Pintora Ucraniana Contemporânea.
O paladar do dia entrou-me pelos olhos como se fosse calda doce
Das peras do meu quintal
Na infância perdida onde um verde sonho morava ao lado.
Há muito não havia uma manhã como essa, clara e bem nutrida de sol.
As pessoas na rua passeiam, os cães sorriem e os pássaros cantam bons-dias aos que tem ouvidos para escutá-los.
Tanta harmonia cansa.
Tais imagens carregam em seu estofo o tédio dos anseios sobre quais me debruço.
O futuro não existe ainda, esconde-se sob as rochas do desconhecido e por tal não ouso desejá-lo
Nos afãs da esperança trancada em sua caixa de ouro.
O passado já escapou dos meus dedos e não volta, porque como as águas de um rio
Quando voltam depois da curva, são novas.
O presente enrijece meu passo e desfaz meu querer possível por sabê-lo outro.
Canto salmos e a Deus, talvez inexistente, desfio meu rosário de remendados pedidos :
Que no vulgo viés do meu caminho eu encontre a razão de tudo isso.
Tela de August Staff Gillé - 1892/1989
Pintor Belga.


Terê Oliva


domingo, 21 de julho de 2013

O ACENTO DO PORQUE



   A Língua é ser vivo e por assim o ser, sai saracoteando por ai, de braços dados com qualquer um. Não escolhe par, nem tem cuidados com quem a conduz, é vadia e meretriz. Levanta as saias pelos becos e só se faz de difícil com quem por ela tem paixão.Despreza àqueles que a amam e deles se esconde atrás dos paredões da gramática.
   Nisso tudo penso enquanto escorrego no chão do texto.

Esse porque tem acento? Pergunto a um e outro
Gente íntima do Sr. Português, cafezinhos e longas conversas.
- Eu acho que tem, eu acho que não.
- Ora, Dona Moça, tem acento por isso e por aquilo.
- Mas que coisa, Terê. Que construção maluca é essa que inventaste?
- Esse porque, sob tanta tralha, não mostra a cara.
Calma, amigo. Calma amiga.
Culpa não tenho se ele assim insurgiu. Se colocou máscara de bandido, não fui eu quem lhe deu o nó às costas.
Ele apareceu de supetão e não pode sair, se não a ideia desmorona.
- Escreve de outro jeito.
Não quero. Não posso. Não devo.
Quero o meu porque, com circunflexo ou não.
- Deixa de ser chata. Acentua e pronto. Você gosta tanto dos acentos... Ficou até deprimida quando mataram o trema.
Mas e se não for acentuado?
- Então não acentua.
Mas e se for acentuado?


"Johan Joachim Winckemann"
Tela de Maria Anna C. Angelika Kaufmann - 1741/1807
Pintora Suíça.

Terê Oliva
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segunda-feira, 8 de julho de 2013

PALHAS DA MEMÓRIA

"The Soirée" (1880)
Jean-Georges Béraud - 1849/1936

A música de uma festa distante que atravessa o ar quase frio de outono
Recrudesce a solidão de meu silêncio.

Nela descanso e me deixo levar
Pelo relento libidinoso de uma paixão perdida.
 No torcicolo do espaço corrido de um futuro rejeitado 
Lerdos desejos sem tempo de se tornarem ação desfalecem de vez.

Na dissonância de um blues melancólico vejo
Canhestra amante que por medo, que por sem cobiça
Fez das promessas pássaros mancos e os soltou aos ventos sem curva.
"Moonlight Night"
Tela de Ivan Kramskoy
Pintor Russo Contemporâneo

Terê Oliva



quarta-feira, 3 de julho de 2013

A AMANTE

Tela de Pierre Puvis de Chavannes - 1824/1898
Pintor Francês.

Comeram um pedaço da lua
O que restou da engolida treme num céu de meia-noite.

Na perseverança dessa escuridão uma sombra de vestido longo soluça.
A amante, personagem de um triângulo escaleno, onde lhe cabe a menor quina

Chora uma tristeza comprida que não tem mais por onde se espalhar
A não ser nesses campos de breu onde a verdade se desnuda e mostra as unhas
No brilho das estrelas mortas, anos-luz distantes.


Tão humilde que chega a ser casta
Tal mulher nessas estranhas horas caminha
Alucinada pelas visões das lâminas da guilhotina
Que ameaçam seu pescoço roxo de beijos proibidos.


Num cansaço absoluto desiste do amor indivisível.
Que a outra o consuma e lamba
Dentro da circunferência de ouro que um sacerdote traçou entre bençãos e promessas eternas
Por Deus in loco sacramentadas correntes.


Que sejam dela os dias festivos, as hordas de olhares de repúdio e aconchego
A saúde e a doença, a riqueza e a pobreza
Os gemidos do sexo, os braços dados na velhice

O para sempre que se desfaz no tempo da primeira esquina.

Um fiapo de luar rascante lhe basta
Para sob ele, leve de remorsos, caminhar sozinha.
Tela de William Powell Frith - 1819/1909
Pintor Inglês.

Terê Oliva

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PÉS DE AR

Nem as vagas da Criação
Explodiram mais violentas que meus pensamentos
Nessa poesia d'água.
Tal força consome-se, porém, na própria espuma
Antes de chegar à areia.
Assim crespa, cai nos abismos que cercam a terra
Toda terra que piso com meus pés de ar.

Tela de Lu Cong - Pintor americano Contemporâneo.

Terê Oliva

domingo, 30 de junho de 2013

FÁCIL COMO RIMAR AMOR COM CÉUS AZUIS


Eu desisto.
Abandono na ardência do meu íntimo as questões que não posso adoçar
Com poesia de rimas e palavras de láudano.
Versos azuis de céu que não me cobre.
Não mais escrevo
Nem divido poemas com quem falta a cáustica arrogância para perceber
Que amor é tema pobre que na juventude morre, por sem força para além  sobreviver.

Esse amor que nas sombras da tinta se mostra um titã
Ao percorrer páginas e mais páginas que deleitam aos incautos
Com a fragrância das flores moribundas e a eternidade de horas findas
Não convence a ninguém que nos teares da poesia
Engolfa-se nos gestos inúteis da sua dor descabida.

Tentei as rimas pobres, os vocábulos mansos que tanto agradam a gregos e troianos
A cremosidade desse mingau que é servido com sabor inalterado a cada estrofe
Variado apenas no pó da canela ou nas colheradas de açúcar.
Fracassei, perdida nesse mar brando que não me desafia os músculos
Não me lava nem me apoquenta o espírito.

Sem tal, meus grafites se quebram como gravetos no vendaval e os papéis nele voam como aves assustadas.
Perco o sólido da matéria e a fímbria do motivo. 
A mão murcha e se esconde no meu bolso furado.

Tela de Julius Viktor Berger - 1850/1902 - Pintor Austríaco.

Terê Oliva

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domingo, 23 de junho de 2013

O SILÊNCIO DE ANA

Psiu...
Ana Maria está dormindo.
Não acordará mais entre nós.
Partiu sem alardes, sem despedidas, sem nada a dizer
Porque tudo já fora dito na alegria de sua palavra e gesto.
Saiu de mansinho da nossa vida para despertar nos vales do céu
Onde tantos a esperam com abraços de saudade.

Voe, Ana.
Siga etérea por esse novo caminho de luz sem olhar para trás.
Leve nosso beijo e o guarde na alma
Até o tempo do nosso reencontro.


Terê Oliva.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O VENDEDOR

Uma beleza de estampilha antiga amolda o rosto do jovem que dobra as camisas
Na loja decadente da rua de baixo.
Não combina ele com as velhas prateleiras abarrotadas de roupas masculinas de mau gosto.
Sua face de esculturais traços é desumana.
O humano é imperfeito, não comporta o êxtase que esse olhar azul instiga
Nem os pelos da sombra de barba que definem o maxilar quadrado.
Pobre moço pobre que incrusta sua masculinidade entre as paredes mortas que o cercam e dizimam.

Viro-me e saio da loja como quem abandona um amigo à própria sorte.
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Tela de Pablo Picasso - 1881/1973 - Pintor Espanhol.
Terê Oliva.

PONTO ZERO

Recolho-me ao meu quarto de poucos metros e muitas histórias.
Nessa quietude azul de cortina fechada
Imagino se meus pensamentos não contém
A cerne de milhares de pensamentos daqueles que
No alvoroço das rotinas escapam dessa angústia de viver
Curvando-se à monotonia do destino, aos sonhos improváveis.
Nessas horas vivo minha humanidade em plenitude.
Cada célula pulsa como se Deus se aproximasse
Arrastando seus mistérios.
Pouco dura esse frenesi religioso que mais parece uma oração sem palavras.
A razão do olho aberto logo recompõe essa fluidez corpórea
Tudo de novo se materializa e amplia o sólido palpável e incompreensível.
Fico de pé e tonta, recomeço do ponto zero.

"An Evening Home"
Tela de Edward John Poynter - 1836/1919

Pintor Inglês.

Terê Oliva

sexta-feira, 24 de maio de 2013

MITOLOGIA ÍNTIMA


Minha mitologia íntima contém muitos deuses.
Nem em todos creio, porém não alijo a nenhum
Por medo da geometria do abismo.
A alma me é cara e meu corpo frágil, afeito às chibatas.
Nas minhas valsas entre absurdos credos perco-me
Escuridão de cego que tateia mas não define o que os dedos alisam.
Em meus próprios calcanhares tropeço e não ouso afiançar uma fé que não convence
Minhas personas que embaralham-se nos céus desabitados 
Sobre continente e cores, Áfricas negras de tambores
Gordos amarelos, monocórdios mantras.

A banalidade de tais questões me enjoa e a cada pé que beijo, duvido.
Nessas horas invejo os ateus convictos.

Telas de Adolphe William Bouguereau - 1825/1905
Pintor Francês.

Terê Oliva

http://tereoliva.blogspot.com.br 

domingo, 12 de maio de 2013

DIA DAS MÃES

"Louisa Hammond"
Tela de Maria Anna Catharina Angelika Kauffmann - 1741/1807
Pintora Suíça.

Meus pensamentos se espalham sobre a mesa.
Em cada veio do mogno, em cada reentrância de nó coagulam.
São tentáculos de um polvo demente que escapa do meu domínio para abissais profundezas sem retorno.
Não se ligam a mim, não são mais substância da mulher que tateia a invisibilidade das palavras.

Perco as chaves do portão do jardim onde desejava descansar nesse domingo
O banco, as flores involuntárias, o cheiro de jasmim, o abacateiro
Desaparecem nessa névoa que cinge as boas intenções do recado que escreveria.

Hoje as mães se regozijam.
Dia escolhido para homenagens, perdoáveis exageros, auréolas, bulas de santidade.
A minha, sábia, escondeu-se arrastando a minha infância para debaixo da grande mesa
Onde a poesia me deixou falando sozinha.
Tela de Hans Buchmann - 1852/1917
Terê Oliva

sábado, 11 de maio de 2013

PAISAGENS

Tela de Viktor Vasnetsov - 1848/1926
Pintor Russo.


Só a ideia de viajar me entedia.
Nada há a ver lá fora que cá dentro já não tenha visto
Ou desejado ver.
Minha Rosa nunca se abriu e meus cardeais não ultrapassam uma folha de papel.
Tal me basta como trilho e navio, como céu de passarinho sem fôlego.
Lugares longínquos não me seduzem por serem anônimos  
Nada existe de interessante onde faltam paisagens.
As minhas são perto, cada qual a contar uma história.
 A memória nelas se deleita, num quebrar pueril de esquina
Na persistência do calcanhar que racha nas ruas já mortas
Lugares perdidos no tempo concreto, pulsantes e vívidos no abstrato.
Quando atravessa vielas de contemplação, minhas ânsias de movimento se esgotam
Levadas pelo vento que arde no silêncio da noite que cai.

Ao longe um barulho de mar, cães ladram na espuma.
Paris adquire um sabor íntimo de irrealidade.

Tela de James Sant - 1820/1916
Pintor Britânico.

Terê Oliva

quinta-feira, 9 de maio de 2013

MULHERES CARIOCAS ♀ MARIA TERESA

Tela de Charles Dwyer ( Nasc.1961)
Pintor Americano Contemporâneo.

Maria Teresa se foi. 

Foi para perto, casa de mãe onde sempre cabe filho e quem mais ele gerou.
Demorou anos exilando os motivos, porém numa ousadia que não era de seus feitios, descerrou os olhos verdes que tudo viam, mas que atrás de si mesmos ocultavam as paredes carcomidas do que julgava lar e há muito não era.
Como é próprio de toda mulher ao perceber amor minguado, exibiu-se na transparência da camisola, espargiu fragrância onde queria beijo, enfeitou quarto e seios com flor e renda, estourou o champanhe preferido, abriu janelas para a noite e para o amor entrar.
Depois de tanto feito e perfeito, esperou. E esperou...
Seu homem distraído nem percebeu as amorosas minúcias, preso nas esquinas da fuga que diante da paixão perdida, nem a ele mesmo se revelava.
Quando chegou, bebeu o vinho, mal falou e nada escutou.
Maria Tereza partiu com mala e cuia, arrastando criança pela mão; porém, como amor é bicho matreiro que onde perde perna cria outra, voltou depressa com promessa de vida nova e amor antigo.
Mirar o fim, face a face, Maria Tereza não queria. 

Reconstruir demora, dá calo na mão e dor nas costas, e empilhar tijolos no fio exige paciência que ela sabia esgotada. Melhor perambular estática nos caminhos conhecidos do que dar passo em falso e quebrar tornozelo no buraco fundo que se abria à frente. Mascarar o fracasso é menos sofrido que revirar emoções com lupa e olhar de agulha.
Não sabia onde começara o fim porque fim é assim mesmo, espera agachado na treva que resta e bem se esconde até o raio do impossível lhe iluminar o esconderijo. 

Ela o percebera nas miudezas da rotina fria, nos beijos mortos e no sexo corrompido, porém tanto lhe doía tocar-lhe a face que preferia cruzar os braços e abrir as pernas.
Num romper de dia afinal, quitou o passado com moedas de ouro e desistiu.
Entregou os pontos, cada um que cosera à beira das lágimas, nessa colcha de promessas que puíram nos desacertos da esperança. 
Partiu sem eira nem beira, agarrada nas coragens das próprias saias. 
Foi atrás de uma manhã de dia seguinte, ansiando que a mulher que fora, enjaulada numa sensação de asfixia, de cansaço dormisse nos afagos do sempre.
Assim quem sabe a outra, ela agora, pudesse escrever poesia.
Tela de Malcolm Lipke - Nasc.1953
Pintor Americano Contemporâneo.

Terê Oliva

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O HOMEM DO BOTEQUIM

Tela de Bronnikov Fedor Andreevich - 1827/1902
Pintor Russo.


Tomava café no botequim da esquina o homem de educação elegante.
Parecia pertencer a uma geração que herdou os rapapés de antepassados
Enricados numa vida luvas e polainas.
No redemoinho de olhares que sua presença provocava
Havia um espanto silencioso ante sua inadequada figura
Naquele salão de café com leite e pão com manteiga.
A manhã indiferente que, antes que comece o dia, começa em nós o inverno
Mantém a todos num mortiço calor de curiosidade.
Tinha ele uma tristeza no gesto que chamava atenção.
Não dessas tristezas comuns que carregamos às costas
Todos nós, meio corcundas nas árias negras de nossos enganos.
Era um desconsolo de pormenores, filtrado pela ternura da solidão.
Em mim, a imaginação que em seus relâmpagos ultrapassa

Os limites do provável, até mesmo do meramente possível
Logo se pôs a pensar nos solavancos da vida de tão belo homem.
Nesse carrossel de hipóteses fiquei tonta, absorvida por uma dor que não era minha.
À minha, dei um requintado excesso para que assim, tão funda
Parecesse irreal e menos doesse no exagero.
Nesses irrequietos pensamentos de compreender o que na verdade não poderia
Surge uma dúvida entre o último gole de café e o cigarro:
Éramos dois sujeitos, ou simplesmente duas formas distintas de um?

Tela de George Dmitriev - Nasc. 1957
Pintor Russo.


Terê Oliva