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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

ÁRDUA TAREFA

" A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova."
Fernando Pessoa - O Livro do Desassossego.

Ora, pois pois... Meu caro e amadíssimo Fernando  
Que tanto da vida me conta e muito de mim escreve sem nem o saber
Onde encontro material para enchê-la?
Tijolos, amores...
Porque a minha, pobrezinha
Anda rota e vazia como um balão sem ar.


"Soap Bubles" - Ferdinand du Puigaudeau - (1864/1930)
Pintor Francês

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

FRONTEIRAS À ALMA

" Conhece alguém as fronteiras à sua alma para que possa dizer- eu sou eu?"
Fernando Pessoa - O Livro do Desassossego.

Fronteiras, garras, neblinas, desejos...
Enigmas que a alma abraçam e tolhem.
Muitos a dissipam, porém com eles bem convivo
No hábito da companhia.

As cercanias que a limitam são fortes e intransponíveis
Prendem lá dentro bocados de mim
Mas de que substância são  feitos
Lá isso não sei.

Tela de Max Nonnenbruch - 1857/1922
Pintor Alemão.

Terê Oliva

sexta-feira, 15 de abril de 2011

CANSAÇO DOS SONHOS-Livro do Desassossego 182

          "Antefalhei a vida, porque nem sonhando-a ela me pareceu deleitosa.
           Chegou até mim o cansaço dos sonhos...Transbordei de mim não sei para onde, e aí fiquei estagnado e inútil.
            Aborreço-me de mim em tudo...Não aspiro a nada...Dói-me a vida. Estou mal onde estou e já mal onde penso em poder estar."

Fernando Pessoa - 'O Livro do Desassossego'.

           Abençoem-me Anjos do Céu! Nem tão fundo se mergulha no poço, por mais próximo ele esteja e por mais convidativas sejam suas águas frescas ou a relva circundante.
           Também a nada aspiro. Nada grande que faça suar meus braços ou coração, a não ser ter olhos sãos para ler os livros que me caírem às mãos. 
 Um cérebro vivaz igualmente anseio, a devanear e pensar sem nada concluir, porque conclusão é prisão, e eu anseio a liberdade de ir... Para lugar algum,  onde descanso.
E onde te encontro, meu caro Fernando.

     Tela de Bessie Ellen Davidson - (1879/1965)
                     Pintora Australiana
                     Teresinha Oliveira.



sexta-feira, 8 de abril de 2011

AFEIÇÕES SUPERFICIAIS-Fernando Pessoa

" Em mim todas as afeições se passam à superfície, mas sinceramente. Tenho sido actor sempre, e a valer. Sempre que amei fingi que amei e, para eu mesmo finjo."

Fernando Pessoa - Livro do Desassossego►261

   Também me constrange esse lago parado, cujas águas refletem o rosto que não vejo no espelho.
  A afeição é hábito adquirido, personalidade dos bem-humorados, nada mais.
Na borda sobrevive, mas aí se basta. Em larga extensão não permite profundidade maior.
   As profundezas são para poucos, bem poucos na verdade. 
Gente que  num  barco perto navega e sabe que a linha do horizonte é além do que se vê.
   Mas meu amor, mesmo parco é real, e misterioso como uma gargalhada de criança ou o olhar de um cão. 
  Querido amigo, o teu desassossego não tem fim, e o afeto fingido nem a ti mesmo convence. 
Lamento este estranho jeito de não sentir, próprio dos que  são dóceis diante da vida. 
Febril sonâmbulo que nada mais  desperta.
   

Tela: Carl Spitzweg (1808/1885) - Pintor Romântico Alemão.

                 Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br


terça-feira, 5 de abril de 2011

UM BOCADO DE PÃO-Fernando Pessoa

  
"Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros  e nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco."

      Fernando Pessoa -  'O Livro do Desassossego'  - Texto VI.

   Eu também sempre pouco quis, querido amigo. Creio por não querer de verdade, ou por querer o tudo que não se quer por sabê-lo longe ao roçar dos dedos.
   Assim, compreendi com esses quereres de pouca valia que é melhor saciar-se com o mínimo, pois logo  se torna rotina a seca de desejos, e desejar aniquila o espírito quando a causa é perdida.
   Aos outros que estão sempre por perto, parece covardia tal inércia, mas os meus desejos são comuns como os seus e não preciso correr; eles me alcançam na simplicidade da vida querida. 
   Basta o pão, a água quente, o amor quase suficiente, o cobertor, o dia sem anseio do algo além de. Tal querer preguiçoso não causa feridas.
   Porém a vida trapaceia e às vezes, lhe dá muito de algo quando se queria tão pouco de outro tanto.
   Assim seja...

      Tela de Ramon Aguilar Mora - Pintor Espanhol.

             Terê Oliva

domingo, 20 de março de 2011

LIVRO DO DESASSOSSEGO - À BEIRA DO MAR.

 " Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos (...)
E o que as almas foram e ninguém disse e o que os amantes estranharam um no outro, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que teve forma só num sorriso, ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que nos falta. (...)
Somos quem não somos. Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram.
Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção! Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se queria, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amávamos e perdemos, e depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que não o havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos, o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo ..."
        Bernardo Soares-Fernando Pessoa
             'O Livro do Desassossego'.
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   É assustador como certos autores e sentimentos rimam conosco; como alguns dos nossos velhos fantasmas que há muito são ossos e pó e só existam em tinta e papel, (ou aí realmente vivam), possam comungar nesse frenesi com as emoções alheias.
  Também durei horas incógnitas, na beira do mar e longe dele, muito longe às vezes, em alto de serras; e minha alma insensata teve o que queria e se satisfez no erro, erro crasso que paguei caro ao perder, não por ter perdido, mas por ter querido em princípio, antes por não saber.
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Tela de Henry Edward Detmold - (1854/1924)
                   Pintor Britânico.

                 Teresinha Oliveira.

CONSTRUINDO CASTELOS .

" O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito.
Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?"
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Fernando Pessoa - 'O Livro do Desassossego'.
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Ora, pois, pois, meu queridíssimo Fernando, ou Bernardo, ou Álvaro...Ou seja lá quem for no momento, qualquer um mas sempre um, único embora não uno.
O palácio continua sonhado e construído etéreo na alma do pobre palaciano, sem mãos e posses para a obra; e mesmo inexistindo existe, e tem telhado de vidro molhado com gotas de sangue da impossibilidade.
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                            Tela de Bernardo Bellotto - (1720/1780).
                                           Pintor Italiano

                                        Teresinha Oliveira.