quinta-feira, 28 de abril de 2011

ANALGÉSICO.


Quando a dor é grande 
Não dor de amor, essa hoje sei que é fácil de suportar 
Basta o tempo e outras calças bem vincadas...
Falo da dor de verdade
Que eletrifica a carne e gera pânico
Há que se enganá-la com uma boa gargalhada.
Se assim não for, é melhor pedir rendição.

" Não há amor que resista quando um homem toma champanhe no sapato de uma mulher e se engasga
com uma palmilha do Dr.Scholl."

Phyllis Diller - Atriz Americana.
Taça → Nautilus-Shell Cup - Alemanha - Século XVII

ARTESÃ DE PALAVRAS.

     Gosto das palavras, como as pessoas que gostam de selos, de moedas, de caixas de fósforos, e chegam a colecioná-los  aos milhares. Palavras, para sorte desse amor, não ocupam espaço, e se acomodam amigavelmente, ordeiras, no dicionário. 
     Contam histórias nos livros, algumas sábias se unem com talento, outras nem tanto, e mesmo as desperdiçadas pelos escritores medíocres não são culpadas pela presunção de seus senhores.
      Não pretendo escalar as cordilheiras literárias: sou uma pessoinha frágil que não sobe nem no morrete da esquina, não tem cordas e ainda por cima sofre com tornozelos fracos e pulmões manchados de nicotina. Fico por aqui mesmo, no sopé da encosta, lugar seguro, a catar pedrinhas,  palavras que guardo. Vez por outra descubro uma pepita nobre, cujo significado desconheço, mas de tão bonita que é, merece casa e comida enquanto me espera voltar; e eu sempre volto.
    Sou uma artesã de palavras, e as deixo escapar preguiçosamente entre meus dedos e ideias sem cuidados, por preguiça, cansaço, ou por desacreditar no meu minúsculo dom de criá-las irmãs.
     Com palavras se constroem catedrais seculares, e se pintam obras-primas, e se esculpem no mármore verdades que atravessam  a idade do homem. Como um vendaval  que varre as etapas da civilização, desde as pinturas nas cavernas, do grito do homem primitivo ao abater sua presa ou na conclusão do ato do amor, até hoje, ao jorrar de incontáveis fontes de linguagem digital, elas se oferecem dóceis e surpreendentes à nossa sedução.
   O que nos contam ? Tudo e nada. Como em qualquer amor, cabe ao ser amante, como eu, descobrir-lhes a magia.


Obra de Silvana Cimieri - 'O Livro Azul'- Pintora Italiana.
          Óleo sobre tela - 50x70 cm.
Teresinha Oliveira  (Abril/2007)


segunda-feira, 25 de abril de 2011

AMOR II

" À mulher que se ama podem-se perdoar até as traições; àquela que já não se ama mais não se perdoa nem mesmo uma sopa salgada."

Vittorio Buttafava- Escritor Italiano - (1918/1983)
Ilustração - Edmond Kiraz - Playboy's Painter


domingo, 24 de abril de 2011

DEUS NA VARANDA.

Rede bem clara, branca, bem quase...
Prisioneira dos ganchos, a mim também torna 
 No vai e vem sem caminho, balanço de berço, colo de mãe.

Cadeiras de palha, mil nós com arte trançados
Por mãos de artesão lá de longe, que ninguém cá conhece
Tapete de corda repousado de gato, preguiçoso felino
Imóvel aos gestos do dia que chega pulando o portão
Insetos robustos de sangue noturno, arrumam as camas
Onde a ânsia da luz desistiu de brilhar.

O ar, de sol atravessado, vira poeira de dia a espalhar
Minúsculas pétalas que vento de flor desnudou.
Cenário perfeito, amanhecendo varandar
Onde Deus sentadinho sempre me espera.
Pai paciente, em vão tenta explicar, a um grão de areia
Toda abissal profundeza do mar.

Tela de Francis Davis Millet - (1846/1912)
Pintor Americano
. 
      Teresinha Oliveira - 1995.       



BUQUÊ DE JARDIM.

Um buquê de jasmins ou miosótis azuis lá da Ásia
Flores bobas que em canteiro qualquer nascem pródigas
Queria ganhar nessa manhã de Páscoa.
Pedaço de domingo quieto roubado do todo
Onde coelhos logo saltarão.

Manhã com alegria de ovo chocado
Sem morro de terra a subir, já cumprida a promessa.
Pespontar agora a minha, cruz velada, só a mim compete.

Terna Páscoa, onde chegam cedinho
Beija- flores piando aviso com seu canto esquisito  
Que as flores vermelhas abriram sob as janelas da sala de jantar.

Eu, com lupa a mirar dois séculos atrás, desejo
O mimo, no despertar logo querido.
Sem chocolate, por já haver saboreado no frio tanto.
Só o buquê delicado, como delicada minha alma agora está
Ao sol, em silêncio e vã reflexão, nessa manhã de domingo.

Tela de Ada Breedveld - Pintora Holandesa.
Teresinha Oliveira.





sábado, 23 de abril de 2011

POESIA § EROTISMO § LINGUAGEM - BLOG REMINISCENTIA


   Venho aqui novamente, bater à sua porta e esperar o convite para um café, ou quem sabe num carinho maior, para uma taça desses seus vinhos escolhidos com cuidado de safra e uva, com notas de madeira, de minerais, de frutas, até de samambaia que só maluco enólogo imagina.
   Mas com café ou vinho brindemos às palavras. Às nossas amadas palavras
Tin-Tin.                                                    
   É difícil explicar esse amor à Língua: o encantamento diante de uma metáfora, a reverência que se faz a um poeta, o prazer que se tem ao grifar um texto relevante que não se quer perder de vista, até o gostar simples do pobre trema, que coitadinho, foi considerado inútil e jogado no lixo.
   Esses sentimentos nem todos compreendem. Não possuem eles uma palavra preferida e outra rejeitada que excluem do seu vocabulário e texto. Amor e ódio também resistem no dicionário desses amantes incomuns, e parecem meio loucos escritores e poetas caçadores de palavras, que esperam a borboleta pousar no verso, na página em branco.
   Me contou o Leminski, através de você, que a poesia é a erotização da linguagem, o prazer, e até acordou o titio Freud do seu sono eterno para embasar sua teoria. 
   Talvez seja, como também a prosa  possa ser  vida real.
   No acervo amoroso  das palavras isso não muito importa, pois nem mesmo sabemos ao certo porque as amamos, como todo amor assim se dá.

             Tela de Julius Rolshoven - (1858/1930)
                        Pintor Americano.
                       Teresinha Oliveira.
   



























quinta-feira, 21 de abril de 2011

ÉTICA DO ESPANTO-BLOG REMINISCENTIA.



Leia aqui.


   Estou, num momento espantoso, e eu espantada, vislumbrando setas, direita e esquerda no labirinto montado por Lacan, cruel sábio moderno que nos prendeu, minotauros, entre seus conceitos da mente humana. 
   Esnobe criatura sou, que ao decifrar premissas tão claras que você Cecília  nos escreveu, visto toga de doutora e fico feliz como criança que ganha doce, por tão raso entender e absoluta(mente) tudo continuar sem saber, sem sabê-lo. Mas ainda arrisco, num lampejo de presunção, a concordar com ele que  hábito é ranço azedo- é isso um pleonasmo? Pouco importa.
   Tem o hábito essa composição química de lodo, gosma, talvez até de medo ou desistência.
   Hábito é meio-irmão do tédio, onde nada dá errado, mas também nada dá certo. É sentar numa cadeira de balanço esperando que ela te leve ao encontro do teu grande sonho, ou comer peixe espinhudo da feira semanal desejando lagosta, sem forças para pescá-la, até morrer de espinha engasgado.
   O hábito paralisa, te corta as pernas e te engessa os pés.
   O espanto te move, até porque arregalha olho, deixa queixo cair e muitas vezes faz o corpo pular. Leva a pensar, principal benefício, em pensamento lá  atrás esquecido ou nunca ocorrido.
   Talvez então, esse homem corriqueiro com um pouco de sorte e susto, se revele após espanar as teias e os fungos um homem espantoso.
   Te cabe agora, que com esse assunto e gente esperta convive, me apresentar tal sujeito.
Amor.


   Obra de Anne Bachelier - Pintora Francesa.
        Óleo sobre tela - 25x32 cm.

              Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

MAR DE TUBARÃO.

     Não  sei em que ano ocorreu, nem sei se esse ano existiu, nem ninguém sabe, mas todo mundo viu, ou conhece alguém que jura que viu. Onde, também não conto para não mentir. Mas de algo sei diante dessa minha infinitude do não saber, foi numa grande cidade, como Rio, Salvador,Niterói; Niterói não, faltam alguns milhões para ser grande como devo contar. México tem demais, Niterói de menos onde o fato se deu.
     Também tem mar, porque onda forte preciso na história. Onda que leva e traz gente, que salga cabelo de branco e corta lábio, que dá paisagem de arrebatar e faz pensar em morte. Só mar.
     Rio é mais calmo, afoga gente eu sei, nesse jeito mentiroso de ser doce. Tem peixe mole, que desmancha em paladar diferente. Tem margem demais que mar não tem, árvore à vista, morrete de terra, tem casa ao olho, até gente quase sempre tem.
    Mar não, mar é aquele estirão d'água sem fim. Bicho traiçoeiro- repete mãe cuidadosa que mete medo em filho sem juízo- que encosta lá no céu numa reta horizontal; já aí foi  professora que ensinou prá ninguém mais confundir com vertical.    
     Gente, só na praia distante, bem longe nesse mar que conto. Mar de verdade, com peixe grande que não se vê, só se imagina no fundo; tubarão, lula gigante, arraia maior ainda. Peixe pequeno também, colorido e bonito que em aquário não vive, morre de saudade do sal.
     Com essa saudade toda, das suas íntimas águas, Valentina tentou morrer no mar. Sozinha remou o barco, braços e coração forte, decidiu numa tarde qualquer. Cansou da gente toda. Gente demais nas avenidas, no elevador, nos pontos de ônibus, no teatro, na filas do banco, na família, na sua cabeça. Formigueiro onde não era rainha. Formigueiro não que formiga não faz barulho, junta exército ou mutirão de comida em silêncio. Igual a colmeia é melhor sentimento porque abelha zune. Faz mel cantando e assusta  pela picada doída  que até a alguns manda para hospital.
     Formiga é inseto como barata, menos nojento mas fácil de esmagar sob pé irritado.
     A gente na cabeça de Valentina fazia barulho como abelha. Opinava e dava conselho certeiro para seus amores, mas erravam o alvo. Sua cesta de palavras transbordava, mas as dele ali não mais cabiam. Tinham se ido, graníticas letras se juntando e formando frase de decisão, que no fundo de sua alma caiu dizendo não. 'Não te amo mais'. Como não mais? Mais? Quando esse mais se tornou menos? Ela não percebera. Sempre acreditou no milagre do renascimento. O feto amoroso saindo do coração dele numa anatomia maluca; mas ele continuava lá dentro, gerado e engordando, esperando outra mulher para ser parido, aquela pela qual ele o arrancaria de dentro, com as próprias mãos.
     Não ela, não mais. O que fora para ele?  O que além de adorno p'rá olho e massa de pão cheirosa, pudim de leite condensado que ele gostava de comer nos sábados à tarde antes do futebol? 
     Isso tudo pensava no cair da nuvem, e correr pelo mar. A cidade ficando p'rá trás, cidade de areia, de abelha, de solidão que ela não mais suportava.
     Foi difícil sair do sonho, pular fora da imagem onírica qual tela de surrealista pintor, como daqueles que ela tanto gostava. E ele também. Musa de Dali, agarrada em seus bigodes, tentou. No óleo ficou muito tempo esperando ser amada como Gala, e  muito ainda mais esperou. Vã espera diante da realidade que a acordara para dançar na fogueira das poucas palavras que ele tatuou: 'Eu não te amo mais'. Como eliminar esse eco dentro de si? 'Eu não te amo mais.' Como esquecer o timbre grave da voz dele? 'Eu não te amo mais.'
     Talvez tenha até mesmo tentado esquecer, mas cansou, como moribundo cansa ao tentar enganar a morte e mais sofre até expiar enfim, no suspiro resignado da inutilidade.
      Ao cair na maré longe, ironicamente só um pensamento restou. O medo dos tubarões. Sorriu na água cálida num resquício de si mesma. Que diferença faria? Mas era melhor morrer com todos os membros, sem mordida do bicho, ir dormindo no sono que o frio traria.
      Nadou para longe do barco, só um pouco porque mais não precisava diante da decisão tomada. As ondas não eram tão fortes ou frias quanto pensara, 'Eu não te amo mais', nem o céu tão escuro, 'Eu não te amo mais', nem o sono chegava, 'Eu não te amo mais', como morrer acordada? Não fora esse seu plano. Se ele não me ama mais, por que o amo tanto?
      Ao perceber um pedaço de madeira vindo em sua direção, flutuando nas águas mornas, imaginou ver a barbatana de um tubarão. Nadou de volta ao barco.

Tela de Edward Cucuel - Pintor Americano - (1875/1954)
Teresinha de Oliveira.
     

♫ TÁ TODO MUNDO LOUCO...OBA ♪

" Um psiquiatra é um camarada que te faz, por um preço absurdo, as mesmas perguntas que a tua mulher te faz de graça."
Joey Adams.

PARAÍSO.

 
" De dia buscamos a originalidade.
À noite somos forçados ao plágio."
James Joyce -  Escritor Irlandês - (1882/1941)

"Todos se preocupam com a explosão populacional,
mas não se preocupam com ela no momento correto."
Arthur Hoppe

" Explicar a  Relatividade é como tentar convencer uma criança de oito anos que uma relação sexual é mais divertida que chocolate com creme."
Howard Gossage.

Tela de William Blake - Pintor e Escritor Inglês - (1757/1827)


























segunda-feira, 18 de abril de 2011

AMOR I

" As aventuras amorosas começam no champanhe e terminam na camomila."

Valery-Nicolas Larbaud - Escritor Francês - (1881/1957)

Tela de Frederic Soulacroix - Pintor Italiano (1858/1933)

CINEMA.

Tarde monótona,quase triste como passarinho de asa cortada.
Feriado de dia santo.
Cristo morreu hoje e eu por aqui, sem luto ou angústia
Na sessão do cinema poeira.
Vazio.
.
Um gato pingado aqui, outro acolá.
Na maré escura, enfeito com as cores da tela
A solidão que me escapa pelos dedos das mãos
Unhas pintadas, caprichado vermelho
Como o sangue Dele que há milênios tentou.
.
Estou única . 
Sem amigo, sem amante, sem irmão.
Vivendo no retângulo mágico de luz e sombra
Que a nada arremete 
Ao contrário, arremata no feixe raptor.

Estar só 
Capturada pelos grãos de pó que dançam livres
É um jeito especial de estar, sentir e pulsar.
Ar mais fundo e percepção do que junto não se revela.
.
Eu, por aqui esquecida 
Espero que o filme, afinal termine
Antes que a tarde engalfinhe a noite
E me faça voltar para onde não há. 
.

Obra de Robert Doesburg - Pintor Holandês
Óleo sobre tela  (100x120 cm)
Teresinha Oliveira   (Abril/1998)




domingo, 17 de abril de 2011

CANDELABRO ITALIANO (1962)

PAIXÃO POR UM TRIZ.

Meu pobre amor de triz
Quão tolo te mostras
Nos atos que te articulam.

A caneta não retém a melancolia
Que sinto ao desmontar-te.

Eras só isto?
Pensei-te tanto mais...

Obra de Michael Triegel - Artista Alemão.
Teresinha de Oliveira.

sábado, 16 de abril de 2011

DEVANEIO.

Há em mim inesgotável energia para sonhar.
O que me consome
E me acrescenta
E vale a chama.

Ilustração de Di Vogo - Artista Sérvio.
Teresinha de Oliveira.

CANTIGA ♪

Na voz tenta destino
  Romã rosada, madura de caroços cheia.
Nas fímbrias da alma deseja
Além de tudo mais e apenas
Cantar.
Quando ninguém há em volta
Sossego de gente distante, girada chave
Brotam melodias nas suas cordas de renda e ela canta.
Pássara...
Canta pelo inato prazer de cantar.
Como se as notas fossem par, coquetes dançarinas
Que à revelia de sua vontade conduzem
No passo agudo ângulo e rastejante grave
Para o esconderijo
Lugar seu, só de música habitado.
Ela, intui na cantiga a solução de si mesma
E vasculha no verso, no tom, o vibrato perfeito
Que rasgue as mordaças que a vida impõe
Angustiada garganta muda.
Teimosa contralto vasculha na noite
O palco, Terra Prometida
Onde o néctar seja abundante em gotas de som
E canções de amor.

Tela de Irene Sheri - Pintora Ucraniana
Teresinha Oliveira.





sexta-feira, 15 de abril de 2011

DIA DO QUE? DO BEIJO.

Esse povo inventa cada coisa...Tem Dia das Mães, para desencalhar o estoque do Natal. Dia dos Pais, eles também merecem e as lojas de produtos masculinos idem. Dia do Zumbi, quem foi mesmo? Dia de São Pedro, São João... Aí tudo bem, porque todo mundo gosta de festa junina, única temporada do ano onde se bebe quentão e a comilança típica corre farta e variada. Cocada e paçoca tem por todo lado, mas bolo de aipim? Bem feitinho, saboroso, só de encontra por lá. Sem falar nas crianças, lindas como  caipiras ricaças a dançar quadrilha para os pais e avós, que registram os desengonçados rebentos com o que há de mais moderno na eletrônica mundial.
Tem Dia dos Avós lá pelo meio do ano, Dia da Mulher, do Homem acho que ainda não inventaram. Dia da Criança, esse é legal porque a casa vira uma festa quase Natal. 
Dia do Médico, da Secretária, se tem do Médico deve ter o do Dentista, do Enfermeiro e outros afins.
Dia do Professor! Desse quase esqueci. Erro imperdoável, porque é feriado nas escolas e a meninada adora. Se as mães não gostam e se descabelam é outra conversa que aqui não cabe.
Dia do Amigo, esse está estalando de novo e só descobri ao receber alguns telefonemas dos mesmos me felicitando. O porquê, ainda não descobri, mas já eliminei alguns da minha lista: os que ligaram justamente no momento da primeira garfada do almoço, na hora do banho ou na última cena do filme - o
bonitão se declara à dona da doceria ou parte da cidade sozinho?
O pior é que se alongavam no carinho:
-Tá,muito obrigada. Você também é um amigão. E blá-blá-blá. E toca o celular. E mais blá-blá-blá...
Pensei se não era o momento certo para pedir as 500 pratas emprestadas que estou precisando para cobrir o cartão de crédito, mas amarelei.
Agora surgiu esse nova invencionice, o Dia do Beijo! Como funciona isso? Saindo por aí beijando todo mundo ou só os mais próximos? O sujeito a ser beijado pode recusar a homenagem ou tem que aceitá-la passivamente? Se assim o for, empenho  meu total apoio.
Dá licença, estou indo...Onde? Ora, vou comemorar com o Orlando Bloom, com o Johnny Depp, com o Santoro ...
Sapinho tem cura?

Teresinha Oliveira.





CONSTELAÇÃO.

  Se estas estrelas de julho me regem, por que não me criaram assim: forte, imponente, segura a exibir presas e garras como minha constelação determina ?
  Por que não persigo meus algozes sem descanso? Àqueles que me traíram, mentiram e desmoronaram minha casa, pedra a pedra, só me deixando o chão cru e o corpo magro.
  Não desejo a vingança na carne alheia? A chama do paradoxal fogo que no prazer do rancor tudo destrói, inclusive o ser andejo, que pela vizinhança também arde e mesmo assim se compraz.
  Pobre de mim, felino manso, que prefere o conforto das almofadas e o píres de leite, e após o sono volatiliza o ódio no ar que não mais se respira.
  Que vive e goza sozinho na maciez da solidão, ronrona e não ruge por não gostar do barulho das lutas, e se assusta com qualquer faísca de fúria. Prefere ser estrela desgarrada, imóvel ante a andança do seu pedaço de céu, que lhe desenha bicho.
  Que se paralisa na violência, e estanca o sangue nessas quinquilharias predatórias do viver.
  Melhor assim...

Teresinha Oliveira  (Março/1998)

CANSAÇO DOS SONHOS-Livro do Desassossego 182

          "Antefalhei a vida, porque nem sonhando-a ela me pareceu deleitosa.
           Chegou até mim o cansaço dos sonhos...Transbordei de mim não sei para onde, e aí fiquei estagnado e inútil.
            Aborreço-me de mim em tudo...Não aspiro a nada...Dói-me a vida. Estou mal onde estou e já mal onde penso em poder estar."

Fernando Pessoa - 'O Livro do Desassossego'.

           Abençoem-me Anjos do Céu! Nem tão fundo se mergulha no poço, por mais próximo ele esteja e por mais convidativas sejam suas águas frescas ou a relva circundante.
           Também a nada aspiro. Nada grande que faça suar meus braços ou coração, a não ser ter olhos sãos para ler os livros que me caírem às mãos. 
 Um cérebro vivaz igualmente anseio, a devanear e pensar sem nada concluir, porque conclusão é prisão, e eu anseio a liberdade de ir... Para lugar algum,  onde descanso.
E onde te encontro, meu caro Fernando.

     Tela de Bessie Ellen Davidson - (1879/1965)
                     Pintora Australiana
                     Teresinha Oliveira.



quinta-feira, 14 de abril de 2011

RETALHOS.


   Encontrei a bela poltrona no folhear de minhas revistas velhas. 
As que compro nos sebos das ruas decadentes no centro da cidade onde reis e nobres passearam.
 Agora estão puídas de sobrados estreitos que ameaçam desabar, cuspindo sem olhar a quem atingem  suas sacadas centenárias.
   É lá que sempre cato e empilho o tanto que há para ler depois, sempre depois,  até que um dia hora sobra.
   No sem melhor a fazer, mais senti do que vi, a poltrona perfeita para um canto aconchegante onde sobre luz e inexista barulho. 
   Bonita, me seduziu com seu cose, recorta, corta, mede, emenda, costura, certo, errado, de novo... 
Seus retalhos de paciência tornariam mais doce o pensar em nada
E no tudo, que no mesmo dá.
    Uma mesinha ao lado com um bom romance ao alcance das mãos e um  uísque sem gelo completariam meu confortável desejo.
   Seria demais anexar uma banqueta para os pés inchados?

Teresinha Oliveira.

terça-feira, 12 de abril de 2011

MODERNA AURORA.

Se eu pudesse dormiria anos sem sóis e luas.
 Noiva de Morfeu em núpcias de silêncio e escuridão
Sem sonhos ou pesadelos. 
Qual Bela Aurora
Que na sorte do fuso encontrado
Ao seu destino cegou.
Ficaria adormecida como estático adorno
No castelo de bosques e espinhos cercado
Sempre jovem, sempre linda
Imune à toda tristeza
À decadência
Do nosso amor.

Tela de Chelin Sanjuan - Pintora Espanhola 
Acrílico sobre tela ( 81x100 cm)
Teresinha Oliveira. 

FELICIDADE - LACAN - BLOG REMINISCENTIA

   Você, Dona Ana, sempre me surpreende. Lê muito, sábia um pouquinho mais se torna a cada dia e capítulo, cita autores de quem jamais ouvi falar, desconhece os meus, não gosta dos meus filmes, me enlouquece com palavras moderninhas que nem ao dicionário chegaram ainda, e que tento guardar na memória para que, quando repeti-las eu saber do que está falando, joga meu Deus para escanteio e no fim de tudo ainda se apaixona por Lacan.
Já engoli o Schopenhaer e seu mau humor nas minhas juvenis aulas de filosofia, discuti com quem conferia genialidade ao Nelson Rodrigues e seus amores sem cabresto e até, assisti ao Tropa de Elite. Não gostei, mas fui conferir. 
Então só me resta lhe convidar para um almoço. Quem sabe entre a entrada e a sobremesa você me leve a entender que raio de felicidade é essa?
Ou ser feliz é não desejar sê-lo?

Tela de Oxana Yambykh - Pintora Russa.

Teresinha de Oliveira


sexta-feira, 8 de abril de 2011

AFEIÇÕES SUPERFICIAIS-Fernando Pessoa.

" Em mim todas as afeições se passam à superfície, mas sinceramente. Tenho sido actor sempre, e a valer. Sempre que amei fingi que amei e, para eu mesmo finjo."

Fernando Pessoa - Livro do Desassossego►261

   Também me constrange esse lago parado, límpido porém. 
  A afeição é hábito, é fácil e comum. Na borda sobrevive, mas aí se basta. Em larga extensão não permite profundidade maior.
   As profundezas reservo para poucos, bem poucos na verdade. Gente que  num  barco perto vivem.
   Mas meu amor, mesmo parco é real, e misterioso como uma gargalhada de criança ou o olhar de um cão. 
  Querido amigo, o teu desassossego não tem fim, e o afeto fingido nem a ti mesmo convence. Lamento este estranho jeito de não sentir, próprio dos que  são dóceis diante da vida. Febril sonâmbulo que nada mais  desperta.
   

Tela: Carl Spitzweg (1808/1885) - Pintor Romântico Alemão.

                 Teresinha Oliveira.


O AVESSO DO SILÊNCIO.

" Se pudéssemos ter não só a visão, mas o sentimento profundo da vida humana, seria como ouvir a grama crescer e o coração do esquilo pulsar, e morreríamos do estrondo que jaz do outro lado do silêncio. "

George Eliot - (Mary Anne Evans Cross)
                    (1819/1880)
               Escritora Inglesa.
             Ilustração - Elena Nelson Reed.

AMIZADE.

" A amizade nos foi dada pela natureza como auxiliar de nossas virtudes e não como cúmplice dos nossos vícios, para que a virtude, não sendo capaz de alcançar sozinha o supremo bem, o alcance apoiada na virtude do outro."

            Cícero - (106/43 ac) - Pensador Romano.

          Tela de Charles Burton Barber - (1845/1894)
                                Pintor Inglês.

DIAGNÓSTICO.

" Se você conversa com Deus está orando.
Se Deus lhe fala, você é esquizofrênico. "

Thomas S. Szasz - Psiquiatra húngaro-americano.

Ilustração de Sarah Jane Sziroka.

CLAIRE.

" Sou impossível de esquecer
Mas difícil de lembrar."

No filme: 'Tudo acontece em Elizabethtown' (2005)
Direção - Cameron Crowe.

SÃO JORGE GUERREIRO

   
Oh, meu São Jorge querido
Meu amado e santo guerreiro
Que ninguém sabe nem mesmo se um dia existiu 
Mas que bem longe, nas terras e luas do Senhor vive.
Enfrenta os dragões que meus caminhos cercam
Derrota sem piedade os mais ferozes 
Esses que dentro de mim habitam
A corromper minhas fibras.

          Tela de Pedro Paulo Rubens - (1577/1640)
                    Pintor Flamenco.

                Terê Oliva

quinta-feira, 7 de abril de 2011

BOA VIDA...

"Felicidade: uma polpuda conta bancária, um bom cozinheiro e uma excelente digestão."

"Os prazeres são para o homem o que o sal e o vinagre são para a salada. E não se ingere sal aos punhados, nem vinagre aos copos."

"A espécie de felicidade que preciso não é tanto a de fazer o que quero, mas a de não fazer o que não quero.

Jean Jacques Rosseau - (1712/1778) - Filósofo Francês.

Ilustração - Jennifer Garant.

PINÓQUIO.

Gosto muito do Pinóquio. Sempre o escolho como personagem infantil preferido nas conversas bobas entre amigos, quando qualquer outro assunto morre e se quer ficar junto. Ou quando as meninas discutem em defesa de suas amadas princesas da Disney, modelo minúsculo e sem linhagem que restou do rico mundo das histórias de Andersen ou dos Grimm.
Analisando hoje, talvez gostasse dele por suas imperfeições, e agradecê-lo devo por não abusar da mentira. Permaneço nas irrisórias: como dor de garganta para fugir do dentista ou trânsito insuportável no atraso da festa. Das grandes, permaneço inocente. Tenho medo que meu nariz cresça e me revele a todos.
Ao meu primeiro cachorro batizei com seu nome.
Estava eu no meu quarto de criança, seis ou sete anos, brincando com coisas de menina quando escuto meu pai gritar meu nome com sua voz de surpresas. Ao pular na cama e abrir as lâminas da janela, deparo-me com aquela coisinha preta enroscada em seu colo. -É seu! 
Abandonei os brinquedos e o livro "Pinóquio"  que estava lendo, e nem me dei ao trabalho de cruzar cômodos para chegar ao quintal. Transpus a janela com um salto e agarrei meu cachorro, sem raça, sem pedigree, sem nome. Um vira-lata como tantos, abandonado pelas ruas da cidade. Mas não precisava ser mais para eu amá-lo com esse inexplicável amor da infância pelos bichos.
Bastavam suas orelhas pontudas e seus olhos assustadiços que não sossegavam ao mirar os meus. Fez xixi em mim, disso nunca esqueci, mas otimista desde então, encarei aquilo como sinal de sorte.
Até hoje tenho desses sortilégios: quebrar taça é sinal de sorte, derramar açúcar é coisa boa anunciada. Só me livrem do sal, que é briga na certa, e para aniquilar a mandinga só jogando três punhados para trás sobre o ombro esquerdo. Sobre o direito não vale, apenas o esquerdo corta o mal.
Assim, mesmo molhada e ouvindo discurso de mãe sobre banho, higiene, pulgas, micoses e carrapatos,  só  dava atenção ao meu pai herói que, paladino dos cães estropiados, suportava o ralho sozinho. 
-"Você tem que escolher um nome para ele." -Pinóquio! Gritei sem um segundo de hesitação. Ele combinava com o livro sobre a cama, com o quintal, com meu pai, comigo.
Querido Pinóquio, que morreu velhinho, quase gente, sem nunca ter me contado uma mentira.

Tela de Vécu (Valéry Quitard) - Pintora Francesa
Óleo - 35x25 cm

Teresinha Oliveira.         



quarta-feira, 6 de abril de 2011

A TERRA DOS PAPÉIS PERDIDOS.




Existe por aí, uma oculta vivenda
Ostra, que para onde, num soluço de tempo
Os papéis voam e se acomodam hóspedes quietos.
Não mais se movem, ou exalam cheiro
Nem mesmo a maresia da ostra onde estão.
O gentil escritor, que cada palavra escolheu e ali guardou
Roga aos seus fantasmas e pássaros
Auxílio nessa espalhafatosa saga de revirar gavetas e chãos.
Teme, e quase intui, que suas folhas de grafite borradas
Viajaram ao encontro das meias solitárias e dos brincos sem par.
Se acreditasse nesses seres invisíveis que dizem existir
Pensaria ser deles tal obra; entes mágicos
Que riem e brincam ante a confusão alheia.
Porém há muito abandonou os sacis e as mulas de cabeças decepadas
Lá na infância, madrugadas sem luz, sítio longínquo.
Também desistiu de dar pulos para São Longuinho.
Sua fé anda fraca, e sem fé nenhuma montanha se move
Nem se abre, como milagre, a ostra onde os papéis se esconderam.


           Tela de Anne- Bochelier.

            Teresinha de Oliveira.

terça-feira, 5 de abril de 2011

PIRATA.


" O homem comum, que fica furioso se lhe disserem que o pai era desonesto, se envaidece se descobrir que o avô era um pirata."

Bernard Williams  (1929/2003)  Filósofo Inglês.

Tela de Jirayr Zorthian (1911/2004) Pintor Americano

CARTAS.


"Nós colocamos as cartas na caixa do correio com certa inveja das viagens que farão."

Eno Teodoro Wanke - (1929/2001) - Escritor paranaense.
Ilustração - 'Hilda' - Duane Bryers.

CAMA.


"Eu nunca iria para a cama com um perfeito desconhecido. A menos que esse desconhecido fosse perfeito."

Mae West - (1892/1980) - Atriz norte-americana.
Ilustração - 'Hilda' - Duane Bryers.

LITERATURA.


"Fiz um curso de leitura dinâmica e li "Guerra e Paz" em vinte minutos. Tem algo a ver com a Rússia.."

Woody Allen - Cineasta Americano.
Ilustração - 'Hilda' - Duane Bryers.

BANHO.


"Separei-me de minha esposa porque ela era terrivelmente infantil. Uma vez, eu estava a tomar banho na banheira e ela afundou todos os meus barquinhos, sem nenhum motivo aparente."

Woody Allen - Cineasta Americano.
Ilustração - 'Hilda' - Duane Bryers.

PUDIM

"O pudim é uma substância detestável, produzida pela conspiração malévola entre a galinha, a vaca e o cozinheiro."

Ambrose Bierce -(1842/1914) - Escritor Americano.
Ilustração - 'Hilda' - Duane Bryers

UM BOCADO DE PÃO-Fernando Pessoa.

   "Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros  e nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco."

      Fernando Pessoa -  'O Livro do Desassossego'  - Texto VI.

   Eu também sempre pouco quis, querido amigo. Creio por não querer de verdade, ou por querer o tudo que não se quer por sabê-lo impossível até ao roçar da ponta dos dedos.
   Assim, aprendi com esses quereres de pouca valia que é melhor saciar-se com mínimo, pois logo  se torna rotina a seca de desejos, e desejar aniquila o espírito quando a causa é perdida.
   Aos outros pode parecer covardia imobilizar os membros e deixar escapar os sonhos, mas os meus são comuns como os seus e não preciso correr; eles me alcançam na simplicidade da vida querida.
   Basta o pão, a água quente, o amor quase suficiente, a saúde do filho, o cobertor, o dia sem anseio do algo além de.
   Porém, a vida trapaceia e, às vezes, lhe dá muito quando se queria tão pouco de outro tanto.
   Assim seja...

      Tela de Ramon Aguilar Mora - Pintor Espanhol.

             Teresinha de Oliveira.

TEUS OLHOS.

Teus olhos refletem uma explosão de cores
Onde me diluo para descansar.

Ilustração de Peter Mitchev.
Teresinha Oliveira.

ESCURECENDO...


Quando Deus me escapa, eu escureço
Cinza, perco meus amarelos
Cor preferida.

Tela de Paul Albert Besnard

Teresinha Oliveira.