quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

UM ANO DE AREIA


Um ano correu
Correu célere sem nos dar um recanto de pensar 
Ou água fresca para saciar a sede louca que nos consome em adiamentos.

Um ano correu
Com o tempo a galope, agarrado à crina de cavalos selvagens que mal sabem onde vão
Nesse chão lamacento de fraca vontade.

Um ano correu
E deixou escoando na areia fina entre os dedos
A presteza do movimento.

Tela de Johnny Palacios Hidalgo (1970) 
Pintor Peruano Contemporâneo.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

domingo, 19 de janeiro de 2014

PEGADAS DE ESPUMA


Falei baixo seu nome, na solidez de um sussurro, com medo de ser uma intrusa no silêncio que o cercava sob a lua, tão fina que quase não dispersava seu brilho.
Sentei-me próximo a seus pés no chão de pedras, e meu vestido de linho branco bordado com flores e sementes fez-se jardim de onde minúsculas fadas escaparam, tão frágeis quanto meus nervos naquele momento único.

Ele olhou-me com o azul de seus olhos mornos e sorriu. Nada disse porque a magia das fadas havia consumido suas palavras e atado seus membros dispersos entre as tintas e pincéis, da marina que ele pintava há horas com as cores inexistentes desse mar que só ele via.
Senti seu amor me dissolver em espuma e fervi para ele, mas era impossível movermos um músculo, perdidos como estávamos na proximidade um do outro.
Na imensidão vazia permanecemos durante o cio que nos atrelava às estrelas e às vagas noturnas, salivando de desejo nesse perigeu de amor e arte. 
Tal delírio porém, como todos eles, nos arrastava perigosamente pelos cabelos de nossos medos para o abismo da realidade.
Antes que nele caíssemos, arrancamos nossas roupas e deixamos pegadas na areia.

"What Freedom!" (1903) - Ilya Yefimovich Repin - 1844/1930 - Pintor Russo.


Terê Oliva - http://tereoliva.blogspot.com.br

sábado, 11 de janeiro de 2014

DÚVIDAS DE QUEM RABISCA


 Parece loucura, e provavelmente há uma pitada da mesma, grudada na cabeça dessa gente que passa a vida arrastando seu saco de livros e papel por cada passo que dá. São tantos e de tamanho peso, que aquele que muito lê e rabisca, após o fechar de décadas vai abandonando-os pelo caminho; não por descaso, mas por absoluta fraqueza dos braços e dos bolsos que não comportam o necessário para mantê-los.
Parece tolice de quem lhes conta, mas cada livro e cada folha de papel rabiscada é um bicho de estimação que precisa de cuidados. Há que alimentá-los com os olhos e novas ideias, acarinhá-los, dar-lhes banho para livrá-los da poeira e do esquecimento.
Gostar dos livros gera sentimentos maníacos e inexplicáveis para quem assim não os compreende. Livro é meio gente, e mesmo aqueles de que pouco se gosta merecem respeito. Outros são tão bonitos, tão enfeitados de letras e capas que apesar de nada a contar vão ficando, porque beleza por mais que se negue, tem valor intrínseco.
Os não lidos esperam com paciência de Jó. Como o próprio, veem os anos correrem através da quietude do abandono ao pó. O porquê dessa incompatibilidade entre escritor e leitor não se explica, e a lógica filosófica tão cheia de meandros, dessa relação escapa.
Porém, o pior que acontece, pelo menos a mim que vivo suja de escuros grafites, é encontrar textos de não sei quem. Serão meus ou não? Escrevi-os  num momento em que apenas uma palavra provocou tal enxurrada, ou copiei-os por serem belos sem destiná-los ao seu senhor?
Há tanto de tantos que bem poderiam ser meus frente à angústia de viver...
Na dúvida que mais irrita do que compraz, relego-os aos lugares do anonimato e finjo nunca tê-los lido.

"Girl Reading" (1878) - Charles Edward Perugini - 1839/1918
Pintor inglês nascido italiano.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

NEVRALGIA


A dor esconde-se em cada fresta da parede, pelos cantos esquecidos da casa
No passo, no toque na face, na pressa ao correr do sangue.
Como uma aranha, tece sua teia no silêncio da intenção.
Na inércia dos nervos, controla-os.
Montada em uma biga que dispara entre as ruelas do pânico mantém as rédeas curtas 
Porém sua esquerda é frágil.
Qualquer pedregulho, buraco no caminho, a leva do chão para os confins de um céu nunca imaginado.
Não há como voltar ou interromper o infausto cortejo
Nenhuma ação a dissipa
Nenhuma foice tem em seu gume o corte para tal cabeça.
A fúria da dor queima e destrói cada célula nervosa que encontra em seu percurso
E ao chegar no cérebro explode, pura como uma estrela que morre.

Tela de Yuriy Ibragimov - (1961) - Uzbequistão.
Sleepless - Óleo sobre tela.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br