sexta-feira, 24 de maio de 2013

MITOLOGIA ÍNTIMA


Minha mitologia íntima contém muitos deuses.
Nem em todos creio, porém não alijo a nenhum
Por medo da geometria do abismo.
A alma me é cara e meu corpo frágil, afeito às chibatas.
Nas minhas valsas entre absurdos credos perco-me
Escuridão de cego que tateia mas não define o que os dedos alisam.
Em meus próprios calcanhares tropeço e não ouso afiançar uma fé que não convence
Minhas personas que embaralham-se nos céus desabitados 
Sobre continente e cores, Áfricas negras de tambores
Gordos amarelos, monocórdios mantras.

A banalidade de tais questões me enjoa e a cada pé que beijo, duvido.
Nessas horas invejo os ateus convictos.

Telas de Adolphe William Bouguereau - 1825/1905
Pintor Francês.

Terê Oliva

http://tereoliva.blogspot.com.br 

domingo, 12 de maio de 2013

DIA DAS MÃES

"Louisa Hammond"
Tela de Maria Anna Catharina Angelika Kauffmann - 1741/1807
Pintora Suíça.

Meus pensamentos se espalham sobre a mesa.
Em cada veio do mogno, em cada reentrância de nó coagulam.
São tentáculos de um polvo demente que escapa do meu domínio para abissais profundezas sem retorno.
Não se ligam a mim, não são mais substância da mulher que tateia a invisibilidade das palavras.

Perco as chaves do portão do jardim onde desejava descansar nesse domingo
O banco, as flores involuntárias, o cheiro de jasmim, o abacateiro
Desaparecem nessa névoa que cinge as boas intenções do recado que escreveria.

Hoje as mães se regozijam.
Dia escolhido para homenagens, perdoáveis exageros, auréolas, bulas de santidade.
A minha, sábia, escondeu-se arrastando a minha infância para debaixo da grande mesa
Onde a poesia me deixou falando sozinha.
Tela de Hans Buchmann - 1852/1917
Terê Oliva

sábado, 11 de maio de 2013

PAISAGENS

Tela de Viktor Vasnetsov - 1848/1926
Pintor Russo.


Só a ideia de viajar me entedia.
Nada há a ver lá fora que cá dentro já não tenha visto
Ou desejado ver.
Minha Rosa nunca se abriu e meus cardeais não ultrapassam uma folha de papel.
Tal me basta como trilho e navio, como céu de passarinho sem fôlego.
Lugares longínquos não me seduzem por serem anônimos  
Nada existe de interessante onde faltam paisagens.
As minhas são perto, cada qual a contar uma história.
 A memória nelas se deleita, num quebrar pueril de esquina
Na persistência do calcanhar que racha nas ruas já mortas
Lugares perdidos no tempo concreto, pulsantes e vívidos no abstrato.
Quando atravessa vielas de contemplação, minhas ânsias de movimento se esgotam
Levadas pelo vento que arde no silêncio da noite que cai.

Ao longe um barulho de mar, cães ladram na espuma.
Paris adquire um sabor íntimo de irrealidade.

Tela de James Sant - 1820/1916
Pintor Britânico.

Terê Oliva

quinta-feira, 9 de maio de 2013

MULHERES CARIOCAS ♀ MARIA TERESA

Tela de Charles Dwyer ( Nasc.1961)
Pintor Americano Contemporâneo.

Maria Teresa se foi. 

Foi para perto, casa de mãe onde sempre cabe filho e quem mais ele gerou.
Demorou anos exilando os motivos, porém numa ousadia que não era de seus feitios, descerrou os olhos verdes que tudo viam, mas que atrás de si mesmos ocultavam as paredes carcomidas do que julgava lar e há muito não era.
Como é próprio de toda mulher ao perceber amor minguado, exibiu-se na transparência da camisola, espargiu fragrância onde queria beijo, enfeitou quarto e seios com flor e renda, estourou o champanhe preferido, abriu janelas para a noite e para o amor entrar.
Depois de tanto feito e perfeito, esperou. E esperou...
Seu homem distraído nem percebeu as amorosas minúcias, preso nas esquinas da fuga que diante da paixão perdida, nem a ele mesmo se revelava.
Quando chegou, bebeu o vinho, mal falou e nada escutou.
Maria Tereza partiu com mala e cuia, arrastando criança pela mão; porém, como amor é bicho matreiro que onde perde perna cria outra, voltou depressa com promessa de vida nova e amor antigo.
Mirar o fim, face a face, Maria Tereza não queria. 

Reconstruir demora, dá calo na mão e dor nas costas, e empilhar tijolos no fio exige paciência que ela sabia esgotada. Melhor perambular estática nos caminhos conhecidos do que dar passo em falso e quebrar tornozelo no buraco fundo que se abria à frente. Mascarar o fracasso é menos sofrido que revirar emoções com lupa e olhar de agulha.
Não sabia onde começara o fim porque fim é assim mesmo, espera agachado na treva que resta e bem se esconde até o raio do impossível lhe iluminar o esconderijo. 

Ela o percebera nas miudezas da rotina fria, nos beijos mortos e no sexo corrompido, porém tanto lhe doía tocar-lhe a face que preferia cruzar os braços e abrir as pernas.
Num romper de dia afinal, quitou o passado com moedas de ouro e desistiu.
Entregou os pontos, cada um que cosera à beira das lágimas, nessa colcha de promessas que puíram nos desacertos da esperança. 
Partiu sem eira nem beira, agarrada nas coragens das próprias saias. 
Foi atrás de uma manhã de dia seguinte, ansiando que a mulher que fora, enjaulada numa sensação de asfixia, de cansaço dormisse nos afagos do sempre.
Assim quem sabe a outra, ela agora, pudesse escrever poesia.
Tela de Malcolm Lipke - Nasc.1953
Pintor Americano Contemporâneo.

Terê Oliva

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O HOMEM DO BOTEQUIM

Tela de Bronnikov Fedor Andreevich - 1827/1902
Pintor Russo.


Tomava café no botequim da esquina o homem de educação elegante.
Parecia pertencer a uma geração que herdou os rapapés de antepassados
Enricados numa vida luvas e polainas.
No redemoinho de olhares que sua presença provocava
Havia um espanto silencioso ante sua inadequada figura
Naquele salão de café com leite e pão com manteiga.
A manhã indiferente que, antes que comece o dia, começa em nós o inverno
Mantém a todos num mortiço calor de curiosidade.
Tinha ele uma tristeza no gesto que chamava atenção.
Não dessas tristezas comuns que carregamos às costas
Todos nós, meio corcundas nas árias negras de nossos enganos.
Era um desconsolo de pormenores, filtrado pela ternura da solidão.
Em mim, a imaginação que em seus relâmpagos ultrapassa

Os limites do provável, até mesmo do meramente possível
Logo se pôs a pensar nos solavancos da vida de tão belo homem.
Nesse carrossel de hipóteses fiquei tonta, absorvida por uma dor que não era minha.
À minha, dei um requintado excesso para que assim, tão funda
Parecesse irreal e menos doesse no exagero.
Nesses irrequietos pensamentos de compreender o que na verdade não poderia
Surge uma dúvida entre o último gole de café e o cigarro:
Éramos dois sujeitos, ou simplesmente duas formas distintas de um?

Tela de George Dmitriev - Nasc. 1957
Pintor Russo.


Terê Oliva

domingo, 5 de maio de 2013

O FASCÍNIO DO NÃO SABIDO


Minha ignorância me fascina.
A angústia que tal me causa é de menor importância
Entretanto, se pavoneia no meu espírito com a cauda da sabedoria.
Se tal me castiga, também me elucida.
Meus sentidos plebeus me bastam para o que não sei, intuir.

Aquilo que não intuo permanece no escuro e mais não posso fazer.
Reconheço em mim mesma um fosso de causas perdidas.

Humilde, desfiro um golpe oblíquo nos meus pensares.
Como imaginar não exige saber
Ponho-me a vagar por outras províncias.

"Artist's Studio - The Critic" (1840)
Alfred Jacob Miller - 1810/1874

Pintor Americano.

Terê Oliva

sexta-feira, 3 de maio de 2013

OLHOS ESTAGNADOS

A cidade acorda sob meus pés.
Da minha janela alta vejo seu despertar com meus olhos estagnados
Numa insônia de quase dias.
Há telhados e gentes, rotinas e meu cansaço
Num longínquo sono onde me desconheço.
O chumbo de minhas pálpebras não se derrete nos cílios.
Sinto a respiração no sangue que atravessa minhas veias
Penso no que não penso e deixo-me ir, inerte
Nos barcos que ao longe cortam a baía.
A carícia da paisagem onde não me incluo
Revela a fragilidade das horas inúteis do meu desassossego.
Uma brisa de sol se espalha pelo quarto.
Quisera ser o fantasma de um pássaro...
Não sei se durmo ou se desço as escadas.

Tela de Robert Alott - 1850/1910
Pintor Austríaco.

Terê Oliva