quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A RAINHA DAS CARAMBOLAS.

Tela Hans Heyerdahl - (1857/1913)
Pintor Norueguês.


Uma abelha me cercou na sala onde eu, distraída da vida além do livro que  leio, de nada mais dou conta. 
Com seus volteios e zunidos despertou a ira da viajante que ao pular de um veleiro em festa nos mares ingleses, nadou até a margem da realidade e, com um remo de pano de prato desfere golpes inócuos pelo ar.
O estrupício pousa na carambola de vidro que encima a fruteira de outras tantas cheia, como se delas fosse rainha, e ali descansa e coça as patas e espreguiça as asas. 
Porque cargas d'água não sei, e essas coisas ninguém explica, nem mesmo Freud que queimou as pestanas ao tentar, vejo-me  comendo as carambolas que pegava nos galhos baixos das casas pelo caminho do Grupo Escolar.
A abelha voa e o tempo, meio século real, se ajusta na sua trilha de fuga e na minha perseguição de ira insana.
Depois de muito, ela sai pela janela com a graça de um passarinho, e me deixa com cara de tonta a olhar a carambola estilhaçada no chão.

 Tela de Stuart G. Davis - (1893/1904)
Pintor Britânico.

Terê Oliva.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

VENTO. VENTANIA. VENDAVAL....

     Josefine ama o vento. Desde sempre.
Amor antigo, de todos estranhado, principalmente por sua aparência delgada que seduz o amante a levá-la em seus braços de ar ao alto das nuvens.
Vento é malvado. Quando se encrespa de raiva destrói tudo à frente, espalha fogo, arranca árvore e vira barco no mar.
Mas paixão não se explica, nem mesmo para o próprio umbigo, quiçá para gente intrometida que na vida dos outros se mete e pede explicação de assunto inexplicável.
Dele criança ela aceita travessuras, não ralha nem fica de mal quando brinca de roda em seus cabelos ou lhe levanta as saias só para contar a todos a cor que a guarda entre as coxas.
Namorado briga, fica com ciúme, maldiz a natureza que expõe suas pernas bonitas e a cor íntima que só a ele pertence saber. Ela sorri e perdoa, ao vento e ao namorado.
O amor inteiro dessa moça fina explode no galope da tormenta, que arranha seu coração no furor e na pressa de caminho. Sem medo ela encara o perigo em campo aberto, e só não arranca as roupas e fica nua para saborear seus beijos porque lugar para luxuriante entrega não há no seu cercado de vida.
Para muitos é difícil compreender a agudeza de cio que a corrompe ante o vento invisível, porém Josefine o olha nos olhos e o deixa abraçá-la, sentindo o viril senhor, deus de alguma mitologia antiga, que por não existir,   seu corpo sacia.

Tela de Sheree Valentine Daine - 1956
Pintora Britânica Contemporânea.

Terê Oliva.

TECENDO O TEMPO.

Tela de Heinrich Maria Von Hess (1798/1863)
Pintor Alemão.
 Nunca mais fiz tricô -ou teci- como dizem as verdadeiras tricoteiras
Que amam mais que tudo essa arte, miríade de nós 
Em que cada ponto é um passo para o todo
 No balanço dos fios e das cores.

Dei as lãs e joguei fora as agulhas.
Meu tempo é curto e minhas asas estreitas...
Fujo da vida através de outros caminhos
Gastando minhas mãos e olhos em outro tanto.
Tela de Jules Breton (1827/1906)
Pintor Francês.

Terê Oliva.

domingo, 14 de outubro de 2012

HOSANAS.

Deixa-me acordada a noite inteira
Não descanses de mim
Nem me ouças ao dizer não.
Adoça minha boca com beijos rasantes
Em meu corpo exposto todo percorrido.
Balbucia segredos indecentes, obscenos
A quem ninguém mais confias.
Afaga meus olhos com teu olhar transparente
Sem nada a dizer por ser vão
Mas em brilho tudo dito.
Atiça meus pelos de emoção e frio de língua.
Arrepia-me cada centímetro de pele alva e nua.
Quebra os relógios, enlouquece os ponteiros...
Todas as ampulhetas do mundo destrua
Para que o tempo de mim te seja eterno.
Tranca portas
Em cortinas de veludo azul
Cerra do espaço qualquer pedaço de luz atrevida
Que não seja a que emana de nossos corpos
Pacíficos, suados no gozo
Plenitude domada na morte do desejo
Luto bendito
Em hosanas comemorado
Nos braços um do outro.

Tela de Tom Lovell (1909/1997)
Pintor e Ilustrador Americano.

Terê Oliva.


sábado, 6 de outubro de 2012

♫ MENINA NO MAR ♪

Tela de Charles Lenoir Amable (1860/1926)
Pintor Francês.


♫ MENINA NO MAR ♪

Hoje, a natureza brincou comigo
Me fez menina no mar a nadar
Catando conchinhas na beira d'água
P'rá tecer um colar
Sob um céu de azul tão bonito
Que nenhum gênio ousou já pintar.

Pendurou lá no alto
O sol sorridente
Que cheio de graça e também de desejo
Resolveu bronzear
As peles claras das mulheres na praia
Que a areia não cansou de abraçar.

As ondas serenas qual corpo de amante
Morno e exausto
Me deixou mergulhar
Lá no fundo do sal
No silêncio profundo
Sem me amedrontar.

E a tarde chegando, tingindo escarlate
O azul ameno de um céu satisfeito
De azul ostentar.

Eu repleta de tudo, de todo esse mar
Só penso sedenta na água doce da fonte
P'rá me saciar.

Terê Oliva.


  

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

♫ RABISCOS DE NEON ♪

♫ RABISCOS DE NEON ♪ 

Caminho de luz que me leva a você
Em neon rabiscado na porta de um bar.
Na trilha da noite, perdida de mim
Rasgada de dor, sem você ao meu lado.

O que houve com a gente
Me faça entender...
Ou fui eu ou foi você que os laços soltou
Desse amor tão antigo que o tempo gastou?

Me ensina o caminho
Não desiste ainda não.
Nesse bar de nós dois
Procuro o norte do seu coração.


De neon rabiscada
Procuro o norte do seu coração.

Tela de Brenda Burke
Pintora Inglesa Contemporânea.

Terê Oliva.