sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Nova obra-prima de @dinovalls. Luctus, óleo sobre madeira, 45 x 35 cm. 

A vida rasgou os véus da sofreguidão de viver...
Num acidente inexplicável revelou sua verdadeira face sem cuidados maiores, esgarniçando suas vísceras. 
Nada me sacia, quer o que haja feito quer não. Sou uma reta de pontos errôneos entre o não possuo e o que não desejo.
Jamais tive paciência com o amor. Algumas vezes transformei-o em afeto e isso bastou
Até o momento em que, ao passear pelas ruas observando suas velhas janelas  e plantas mortas
Percebi a inutilidade dessa arquitetura.
Agora com mãos dormentes, não há como voltar e refazer as estruturas
As unhas quebram-se ao contato com a menor das pedras, e o tédio impede qualquer movimento.
Se me desminto a cada manhã ao levantar e coar o café, admito
Que ante tanto sobrevive um porém.

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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

BRINQUEDO QUEBRADO


A criança que vive em mim cresce mais rápido que hera pelos muros surpreendentes
Sinto ao perdê-la, uma dor de brinquedos quebrados.
Vejo por detrás dos olhos dela tudo o que já vi, mesmo o que nunca vi
E as paisagens se emolduram numa monotonia sem fim.
Fiquei velha de mim.

"Um Retrato de Rapariga"
Alexei Alexeiwicz Harlamoff - 1849/1905 - Pintor Russo.

Terê Oliva
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sábado, 18 de outubro de 2014

O ESCRIBA



Tornar palavra tudo aquilo que o cerca e o emociona
 Ou o mais que finge sentir tal capenga poeta
Não vai além de um talento minúsculo de colecionador de sentimentos indiferentes
Ante o que a vida não deu estofo de verdade, ou antes ainda, o que para si não existiu.

Quisera seguir à frente das próprias mãos e do coração minguado
Que nunca se inchou de amor verdadeiro.
Viver assim talvez seja a sina dos escribas de letra bonita e boa gramática.
Fazer o gesto fora do papel sempre exigiu uma força superior de seus músculos 
Que amoleceram diante do mundo palpável.

A si mesmo convence, dentro da sua clausura de impossibilidades
Que talvez sua intuição o tenha salvado de vulgares desejos
Onde não há razão para tê-los.

Tela de Flora Zeledón - Costa Rica - Arte Contemporânea.
Terê Oliva
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terça-feira, 16 de setembro de 2014

CORAGEM DE GARRA E CANINO



Tem hora queria ser passarinho
Tem hora queria ser gato grande, olho felino
Que não voa porque não tem asa
Mas tem coragem de garra e canino
Para enfrentar as florestas sem medo de homem
Bicho pior e mais carniceiro.

"Symphonie en Vert" - Alfred Stevens - 1823/1906 - Bélgica.
Terê Oliva
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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

ANJOS DE ASAS AZUIS


Os anjos que trazem dos céus o esquecimento no pó das asas
Assim ordenados pelos deuses misericordiosos que sabem além do possível
Os homens viverem com tantos atravancos de emoções, maiores e menores
Deixaram-me aqui, assim...
Sentada no azul dos olhos teus.

Um azul com perfeito matiz de juventude e amor primeiro
Que de tão longe retorna nas escamas dos peixes que refletem
O fundo de um mar escuro.

Se à beira d'água, onde sobre agonizantes ondas caminhávamos
Em mãos e beijos de sal nos corpos virgens
Li nos teus olhos teu triunfo, vaidosa, guardei segredo
Desse amor exilado, que nas sombras do tempo ressurge único de terras que ignoro
Em espirais noturnas, tristeza das coisas para sempre perdidas.

"Time Traveller" - Maria Kreyn
Terê Oliva
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domingo, 20 de julho de 2014

ENTRE PARALELAS DE AREIA

A cabeça se torce e contorce nas paralelas de areia que caem da ampola de vidro
Dessa vida sem frente nem trás.
Enlouquecida ampulheta que guarda em cada grão a rendição dos dias ante o desdém do destino
Que entre suas mãos quebra os dedos do sonhador.

Busca ela um regato manso que murmure a voz da razão das coisas todas
Daquilo que não é mas poderia ser

Daquilo que não foi mas deveria sido.

Há no todo uma inescapável lógica que só tarde se revela nos ventos
Que desfazem as dunas frente ao tempo do mar.

"Andakt" - Carl Axel Printzensköld -1864/1926- Pintor Sueco.

Terê Oliva
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sexta-feira, 27 de junho de 2014

REFÚGIO AZUL


O cobertor ganha tons proféticos na noite fria de outono quando os pés gelam e a pele racha
Suas farpas aquecem a largueza do leito com matizes de azul profundo
Onde orações inconclusas se perdem.
Imagens se deleitam na forma límpida em que surgem inexoráveis
Com requinte de assassinos com suas armas de luxo.
Não desprezo o frio nem o conforto, nem os temores noturnos que diante do sono esvaecem.
Tudo é vida, tudo é percurso.

Saio do azul e do teto olho para aquela que ali se refugia 
Rendendo graças pelo esquecimento que não vem das cinzas
Mas de um vulgar cobertor azul.

Tela de George Lawrence Bulleid - 1858/1933 - Pintor Inglês.
Terê Oliva

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domingo, 18 de maio de 2014

O ESPANTO DO SILÊNCIO

O espanto do meu silêncio fica boquiaberto ante os pensamentos que aos borbotões, caem da minha cabeça pelo chão que piso.
Também espalham-se eles pelas lindas cidades da Itália onde nunca fui
Pelas faces das crianças em preto e branco, já mortas, que alguém eternizou em velhas fotografias.

Entremeando fios meus pensamentos vão longe, chegando à beira da sanidade e da lógica
Ante o barulho dos canhões, as cólicas da fome, o tiro que quebra o osso da perna e impede a fuga
 A sedução do poder que revela o algoz ao atar o nó da forca e da miséria.

Arrastam-me assim tais ideias para um patíbulo de ódio onde minha mão treme e se compraz de vingança na alavanca.
Porém, a ternura quase palpável de um beijo, olhar de mãe, afago de cão
A paradoxal beleza de um inseto monstruoso, a violência de um mar de naufrágios
Serenam minha cabeça que nesse turbilhão se perderia não fosse a vontade de compreender cada coisa.

Sentada no canto da vida sem olhar para nada além do espaço vazio, tais emoções solidificam-se e quase posso tocá-las com a ponta do dedo
Enquanto desfilam nessa interminável procissão de santos e demônios que me acariciam com suas perspectivas.
Deveria estar imune a tal e tanto entre os livros, que desde menina contam-me em milhares e milhares de páginas 
Suas histórias, verdadeiras ou não.

"Femme Fatale" 
Andor Novak - 1897- ? - Pintor Simbolista Húngaro.
Terê Oliva
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quinta-feira, 17 de abril de 2014

FANTASMAS ANDARILHOS


A noite corria alta e silenciosa no grande sobrado. 
Sabia-se ser muito tarde quando tudo aconteceu porque a família não tinha prazeres em camas e sonos. Os filmes, livros e conversas, esticavam-se até as ordens frenéticas da mãe que lembrava aos quatro irmãos a escola no dia seguinte, ficando ela mesma e o pai mais um tanto.
O frio imobilizava a todos e induzia ao sono sob forma de cobertor, meias de lã, pijamas de flanela e leite quente com mel antes de subir aos quartos, mesmo que sem vontade.
Nesse silêncio de escuridão a filha foi acordada por passos no corredor que interligava os três quartos. Quase sem se mover, e munindo-se de coragem, baixinho chamou a irmã, que para sua surpresa já havia também acordado e exibia os olhos arregalados em sua direção.
_ Tem gente aí, disse num sussurro. Algum ladrão entrou na casa.
_ Pode ser fantasma, sugeriu a caçula, desde sempre apaixonada por histórias de terror.
_ Que fantasma que nada. Mas no fundo, sua cabeça girou como um dínamo e lembrou-se das mortes recentes ocorridas na família. Um primo jovem tão querido, quase namorado com quem brincara de médico e uma tia velha. Seria mensagem do além? Bobagem!
Pé ante pé levantou-se e foi conferir. Quando olhou o comprido corredor, viu seus dois irmãos também à porta do quarto da frente, e os pais no quarto dos fundos. Todos observando o estranho ser, vestido de branco, que caminhava com ruídos de outro mundo.
Por um minuto ninguém sabia o que fazer, olhando uns para os outros, cada qual dando asas à imaginação sem nada concluir de racional.
O grande mistério se revelou quando o pai, com um simples toque acendeu a luz e a boneca Andinha, vestida de noiva, deu mais um passo.

Artista plástico (Esculturas e Bonecos) - Dustin Poche.
Terê Oliva.




domingo, 2 de fevereiro de 2014

OS PEIXINHOS DA LILI


   Lili, minha neta, adora pescar os minúsculos peixinhos que pululam no lago do restaurante onde sempre vamos, aqui pertinho de casa. Ela os pesca com copos descartáveis, e neles mesmos os conserva.
  Numa dessas madrugadas calorentas, eu que pouco durmo, acordei sedenta e meio sonada. Ao ver o copo com água sobre a mesa da sala, não pestanejei. Glup, glup, glup...
Confesso que achei o gosto meio estranho, mas no momento não dei importância ao fato e voltei aos braços de Morfeu.
   Só quando amanheceu percebi que havia bebido todos os peixinhos da Lili. Ela, furiosa, me deu a maior bronca e fez o inventário completo - "Vó, eu não acredito, você matou meus 6 peixinhos... "
   Fiquei mais preocupada por ter bebido a água do que por ter ingerido os peixes, se é que não houvesse algum girino nesse pacote, mas como sempre faço porque assim dá certo, deixei prá lá e esperei. Como nada aconteceu, nenhuma alergia, nenhuma pipoca pelo corpo, nenhuma dor de barriga, concluí que tudo não passou de uma simples confusão que ainda rendeu uma divertida e inesquecível história de família.

Terê Oliva.