domingo, 17 de junho de 2018

NEM SEMPRE É JOÃO E MARIA



O amor, ave sem rumo marcado
Gaivota que atravessa o ar sobre o mar dos destinos
Voa livre em busca de pouso, areia ou pedra
Barco de pescador, vela de caravela
Leito de espuma.
Com sorte desse território se apodera
Nele é bem-vindo.

Na alma do outro repousa 
Abraça e dela não arreda pé
Porque pés amor de verdade não precisa
Basta olho no silêncio do encontro
Sem face, sem gênero, sem cor.
Se a muitos estranheza causa
A outros tantos mais amor suscita.

Nem sempre é João e Maria
Nem sempre é Maria e José
Às vezes é José e João
Às vezes é Maria e Maria.

Minúcias que no todo amoroso se perde
Dissolvem-se como gotas de chuva ligeira
Entre as tiras de um arco-íris
Para que o amor seja realmente o que parece ser 
E não haja nada a compreender.

Tela de Ramón Gutiérrez (1966) - Pintor espanhol contemporâneo.
Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

quinta-feira, 3 de maio de 2018

NOS MOSTEIROS DO FUTURO


Imagino, nesse voar por aí que me dá, sempre ao virar a última página de um livro e fechá-lo com essa sensação de adeus numa estação de trem, se daqui a vinte anos alguém o comprará em um sebo no centro da cidade.
Não há onde, ou como, ou quem guardar tantos livros meus nos modernos poucos metros quadrados do lar doce lar de cada um. Às vezes nem eu.
Quando me for sem volta, meus livros surrados sairão do caminho da minha gente. Creio que serão encaixotados com carinho para o destino futuro, mas mesmo assim terão que partir. Talvez sejam doados para uma biblioteca pública, distribuídos para quem os quiser ler.
Não sei bem explicar minhas visões, mas sempre os imagino através da poeira  num sebo das históricas ruas da cidade. Loja de pai para filho para neto, com piso de azulejos rachados, estantes de madeira empenada, cheiros, fungos, espirros, sem água onde lavar as mãos imundas de pega esse, lê um trecho daquele, esse não porque tem dedicatória do escritor e deve ser caro, poesia ou ficção?
O avesso das modernas livrarias com direito a poltrona, ar condicionado e cafezinho. Conforto sem romantismo ou prazer de garimpo.
Nisso tudo penso ao olhar a capa do "Um Cântico para Leibowitz" - Walter Miller Jr. Coloco-o numa pilha de ofertas do meu sebo ilusório. Leve três pague dois.
Livro velho, bem baratinho, cultura de tostão.
Sabedoria de autor pensativo que se angustia e questiona o caminho da humanidade que se perdeu de si mesma, e sem ter mais para onde ir, escondeu-se na biblioteca de um mosteiro dos séculos futuros.
Bom livro. Pode comprar pois vale a pena ser lido. Aliás, ler sempre é uma boa decisão. Até as tolices, se nada ensinam, distraem, e se por nada disso, servem para discordar do escritor, se arrepender de tê-lo comprado, odiar o final, reclamar do preço e do tempo gasto.
Que mais direi a esse amigo desconhecido que correrá os olhos e as ideias pelas páginas que já percorri? 
É tarde, noite quase madrugada no calor de outono. Estou cansada.
Compra o livro que conto o resto amanhã.

Tela de Caspar David Friedrich - 1774/1840 - Pintor Alemão
"Mosteiro Ruína Eldena" - Óleo sobre tela.
Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com



quarta-feira, 18 de abril de 2018

FRIDA & VINCENT & LYLI


Todo amante, seja qual for o objeto de seu amor, tem no fundo o desejo de justificar sua escolha. 
Por isso muitas vezes, ouço com paciência de Jó algum amigo discursar por horas sobre os filmes do Bergman, e omito que assisti 'Gritos e Sussurros' quatro vezes por teimosia, e saí do cinema sem descobrir o porquê de tanto. Também não confesso, rubra de vergonha, que até a pouco tempo imaginava Truffaut como um doce francês.
Picasso é outra história. É difícil se indispor com uma unanimidade mundial,  mas para mim não tem fase rosa, azul, cubos, quadrados, trapézios...Nada. Nenhuma geometria vale tanto ufanismo. Além do mais, era inimigo do Modigliani e o ridicularizava sempre que possível. Se é inimigo do Modigliani é inimigo meu.
Comecei tudo isso para contar como a sensibilidade da Lyli, uma menininha que gosta de arte e suas histórias, facilmente resolve tais questões.
Se já chorou muito com a morte dos peixinhos que a Clarice Lispector esqueceu de alimentar em um de seus contos para crianças, imaginem a tristeza ao ler os livros ilustrados com a biografia da Frida e do Van Gogh.
Pois é, mãe que deseja cercar a educação por todos os lados faz dessas tolices.  Não poderia ser um pintor bem sucedido, feliz no amor e fora dele? Alto, rico, bonito, inteligente, bem humorado...
Logo a Frida Kahlo e o Van Gogh ? Não há como ficar incólume ante às aflições de ambos .
O estranhamento começou logo nas primeiras páginas.
- "Mas ela nunca mais ficou boa? Sentia muita dor?" 
As telas da Frida não comportam nossos padrões de alívio para as dores infantis, 'vou dar um beijinho que passa'. O sofrimento está estampado em cada pincelada.
Van Gogh foi um drama ainda maior. -"Não vendeu nem um quadro? Nem unzinho? Cortou a orelha?"
Inconformada com tudo isso e após muito pensar, surgiu uma bela manhã quando mais ninguém mais lembrava da sua tristeza, com a solução mágica. 
"Mãe, podemos mudar o final?"
"Claro, você pode imaginar o que quiser. Que final você gostaria que eles tivessem?"
"Em primeiro lugar o Van Gogh. Ele pintou muitos quadros,  vendeu todos eles e ficou rico. Nunca cortou a orelha nem foi parar no hospício."
"Ok, e a Frida?"
"Ela foi para o hospital e fez uma operação, usou muletas por um tempo e  depois ficou boa."
"Está esquecendo dos peixinhos que morreram de fome?"
"Não, mãe. Mas eles não morreram de fome..."
-"Não?"
"Não. Morreram porque comeram demais..."
Com uma gargalhada encerrou a conversa e saiu a correr pela casa.

"Frida & Vincent" - Art Print by Jermaine Rogers
Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com 



terça-feira, 17 de abril de 2018

O ÚLTIMO COMPRIMIDO



Eleições chegando e os filhos de uma amiga, rapagões que nada mais fazem na vida além de quase estudar, decidem engrossar a mesada com alguns trocados. Nada mais justo e louvável.
Logo o pai, que com assuntos políticos sempre esteve envolvido, conectou um colega de trabalho que buscava jovens para distribuir seus 'santinhos'. 
O sonho de ser vereador não lhe poupava despesas. No retângulo de papel  figurava seu rosto, nome e número. A sigla do partido permanecia oculta, isso evitava perguntas constrangedoras.
Convencer os eleitores, milhões de cariocas depauperados, que era o mais indicado para ocupar o cargo não era difícil, bastava prometer com dedos cruzados, saúde, educação e segurança. Sua boa aparência e baba demagógica fariam o resto. Se houvesse sobra da verba de campanha, pensava em transformá-la em feijão dos pobres do morro vizinho à casa da sogra, talvez até em alguns brinquedos da Rua da Alfândega para as criancinhas. Um novo papai noel do subúrbio. 
Quando o colega ligou perguntando se havia vaga para os filhos não petanejou. 
Contratou os guris a preço de banana e indicou o local da propaganda enganosa. Os irmãos, felizes com o dinheiro extra por um trabalho tão fácil, saíram de manhãzinha com a pressa do entusiasmo e o café mal tomado.
Saíram e não voltaram. Três horas, quatro, cinco... Cadê esses moleques?
O pai, responsável sentindo-se pelo que pudesse ter acontecido, ligava sem parar. Como jovem não atende celular quando não interessa, mais preocupado ficava a cada minuto de silêncio. Será que haviam sido assaltados e perdido os mesmos?
Nesse estado de angústia pegou o carro e partiu para Vila Isabel atrás da dupla. A mãe, não menos confusa, de carona foi junto. 
Lá chegando, cisca daqui, cisca dali, entrou numa comunidade por engano. Quando tentou voltar aos caminhos conhecidos, teve o carro interceptado por um bandido armado com fuzil que se postou bem no meio da rua impedindo a passagem. 
Olhando de forma intimidadora para o pai, que tremia mais que vara verde, ordenou : 'Dá ré' ! 
O pai: - 'Calma, vou explicar para o Senhor' ...
- 'Dá ré' !!! Repete o dono do fuzil mais alto e irritadiço.
O Senhor bandido não quis conversa.
Sem opção outra a não ser obedecer, o pai engata marcha à ré e novamente entra na comunidade. A mãe ante os acontecimentos, sabe-se lá por que razão imagina o fim, queimada num 'forno microondas' no alto do morro, e só não deságua em lágrimas por medo de mais aborrecer o marginal.
Nesse estado de coisas o pai começa a decisiva negociação, questão de vida ou morte- "O Senhor me desculpe, entrei na rua errada." - "Vim buscar meus filhos, blá-blá-blá..."
Após alguns minutos onde o casal viu a própria vida pipocar em flashes de trás para frente, de frente para trás, receberam nova ordem - "Vãobora" !
Ao chegarem na avenida principal do bairro logo encontraram os garotos, tomando sorvete tranquilamente numa lanchonete de esquina. Os panfletos ainda transbordavam das mochilas. Não tiveram forças nem para brigar.
O pai, corado e respirando com dificuldade, vira-se para a mulher e pede :- "Dê-me um dos seus comprimidos para pressão, acho que a minha subiu."
- "Meu querido, acabei de tomar o último." 

Tela de Candido Portinari - 1903/1962 - Pintor Brasileiro (São Paulo)

Terê Oliva
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quarta-feira, 4 de abril de 2018

QUANDO O IMPOSSÍVEL NÃO ACONTECE

O impossível caminha à frente como castigo aos enganos
Da mulher que repousa à beira d'água onde pé não alcança fundo
Agora sem anseios outros além do próprio abandono, que pouco traz mas nada exige.

Ilha de solidão, rabisca na areia as perguntas engasgadas
 Entre as pedras da inutilidade de respostas que nem explicam nem convencem.
O possível, que antes satisfazia, ri com escárnio enquanto desfia seu novelo de equívocos.

Febrilmente, ideias de lupa, intenta o sentido oculto das coisas
Das metáforas misteriosas que em poesia rimam sua busca.
Anseia, diante da indiferença cósmica, refugiar-se na lucidez da própria síntese.

Porém, antes tarde do que nunca
Esbarra nos limites da paixão sem discernir causa e efeito.
Logo faz do indefinido seu remanso.

Assim fendida, assim íntegra, sendo sem ao menos ser
Teoria perfeita de si mesma
Recolhe as unhas de suas dúvidas nesse vale de enigmas que é o amor.

Na penumbra de um sorriso íntimo
Que se espalha na face ao perceber sua fragmentada filosofia
Deita nas águas e deixa-se levar.

Tela de Anders Zom - 1860/1920 - Suécia.
Teresinha Oliveira
Terê Oliva
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

RETA DE ERROS




A vida  
Num vento acidental revelou sua nudez sem cuidados maiores. 
Mesmo confundida ao vê-la pele e osso 
Percebo com a fração de sensatez que me resta
 A saciedade quer no que haja feito quer não. 
Sento-me na reta de pontos entre o que não possuo e o que não desejo.
Tanto faz como tanto fez...
Jamais tive paciência em querer, nem mesmo ao amor. 
Algumas vezes transformei-o em afeto e isso bastou
Até o momento em que, ao passear pela cidade Observando suas portas e jardins mortos
Percebi a inutilidade dessas complicações.

Não há como voltar e refazer tal arquitetura
O tédio impede qualquer movimento.
Se me desminto a cada manhã ao levantar e coar o café, confesso
Que ante tanto sobrevive um porém.

Tela de deinovalls. Luc @dtus -óleo sobre madeira- 45 x 35cm 
Teresinha Oliveira
Terê Oliva
 http://tereoliva.blogspot.com
  

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

BRINQUEDO QUEBRADO


A criança que vive em mim crescia mais rápido que hera pelos muros surpreendentes
Sinto ao perdê-la, uma dor de brinquedo quebrado.
Vejo por detrás dos olhos dela tudo o que já vi, mesmo o que nunca vi
E as paisagens se emolduram numa monotonia sem fim.
Fiquei velha de mim.

"Um Retrato de Rapariga"
Alexei Alexeiwicz Harlamoff - 1849/1905 - Pintor Russo.

Terê Oliva
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sábado, 18 de outubro de 2014

O ESCRIBA



Tornar palavra tudo aquilo que o cerca e o emociona
 Ou o mais que finge sentir tal capenga poeta
Não vai além de um talento minúsculo de colecionador de sentimentos indiferentes
Ante o que a vida não deu estofo de verdade, ou antes ainda, o que para si não existiu.

Quisera seguir à frente das próprias mãos e do coração minguado
Que nunca se inchou de amor verdadeiro.
Viver assim talvez seja a sina dos escribas de letra bonita e boa gramática.
Fazer o gesto fora do papel sempre exigiu uma força superior de seus músculos 
Que amoleceram diante do mundo palpável.

A si mesmo convence, dentro da sua clausura de impossibilidades
Que talvez sua intuição o tenha salvado de ordinários desejos
Onde não havia razão para tê-los.

Tela de Flora Zeledón - Costa Rica - Arte Contemporânea.
Terê Oliva
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terça-feira, 16 de setembro de 2014

CORAGEM DE GARRA E CANINO



Tem hora queria ser passarinho
Tem hora queria ser gato grande, olho felino
Que não voa porque não tem asa
Mas tem coragem de garra e canino
Para enfrentar as florestas sem medo de homem
Bicho pior e mais carniceiro.

"Symphonie en Vert" - Alfred Stevens - 1823/1906 - Bélgica.
Terê Oliva
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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

ANJOS DE ASAS AZUIS


Os anjos que trazem dos céus o esquecimento no pó das asas
Assim ordenados pelos deuses misericordiosos que sabem além do possível
Os homens viverem com tantos atravancos de emoções, maiores e menores
Deixaram-me aqui, assim...
Sentada no azul dos olhos teus.

Um azul com perfeito matiz de juventude e amor primeiro
Que de tão longe retorna nas escamas dos peixes que refletem
O fundo de um mar escuro.

Se à beira d'água, onde sobre agonizantes ondas caminhávamos
Em mãos e beijos de sal nos corpos virgens
Li nos teus olhos teu triunfo, vaidosa, guardei segredo
Desse amor exilado, que nas sombras do tempo ressurge único de terras que ignoro
Em espirais noturnas, tristeza das coisas para sempre perdidas.

"Time Traveller" - Maria Kreyn
Terê Oliva
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