sábado, 24 de dezembro de 2011

O GRÃO ESSENCIAL.


Quando o fim do ano chega arrastando sua estrela de luz quase finda
Traz com ele tudo aquilo que permaneceu quebrado e incompleto dentro de cada um de nós.

Porém, esse momento de reflexão risca no céu novos caminhos
Clareados por cores que nos oferecem outra chance.
Sem perceber, embrulhamos os problemas no papel de presente
Atamos laços de seda, fritamos rabanadas, cozinhamos castanhas
Servimos a ceia na mesa grande, com cadeiras vagas para quem mais chegar.
  
 Guirlandas são trançadas, e nas portas refletem sorrisos de boas-vindas. 
Enfeitamos a árvore, mesmo torta e mambembe 
Como desejaríamos enfeitar nossa vida. 
O amor perde a pose e se torna vagabundo...
Assim também passamos a amar.

Uma nova estrela à réstia opaca dessa que parte nasce, e cintilando na juventude dos tempos novos 
Traz como oferenda uma caixinha antiga 
Tão antiga e gasta que quase desmancha ao toque 
Onde, desde sempre, repousa o grão essencial
 A esperança.


Tela de Tom Browning
Pintor Americano.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

  


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O BEIJO QUE NÃO SE DEU...

O beijo inesquecível é aquele que não foi dado.
Bailou na face e por rubores ou medo
Não chegou à boca.

Se perdeu no frescor do momento
Na oportunidade de mais um quase
Entre os muitos que a vida compõe.

Uniu-se aos tantos arrependimentos
Nas asas de uma borboleta que foge
E se esgota no céu sem curvas.

Como a borboleta, nunca mais retorna
Somente a memória guarda a emoção
Da qual os lábios, tolamente fugiram.


Tela de Jean-Auguste Dominique Ingres - (1780/1867)
Pintor Francês.

Teresinha Oliveira. 




terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A ARTE DA SEDUÇÃO.

Carl Schweninger - (1818/1887) - Pintor Austríaco.
              Pensei em escrever. 
              Porém, sobre a arte da sedução pouco, quase nada, restou para contar ante essas pinturas.
              Cada uma tem sua própria história de amor, feliz ou não.
              Sacia nossa emoção a beleza de cada obra, sem necessidade das palavras, que em tinta se escreveram.

                                                                  

Daniel Ridgway Knight - (1839/1924) - Pintor Americano.

Egisto Lancerotto - (1847/1916) - Pintor Italiano.
" She Loves Me"

Charles Edouard Edmond  Delort - (1841/1895)
Pintor Britânico - " A Toast To Love "


Ferdinand Roybet - (1840/1920) - Pintor Francês
" The Present "


Frederico Andreotti - (1847/1930) - Pintor Italiano.
" The Persistent Suitor "


Francesco Hayez - (1791/1882) - Pintor Italiano.

Francesco Beda - (1840/1900) - Pintor Italiano.
" The Suitor "

François Boucher - (1703/1770) - Pintor Francês.


John Everett Millais - (1829/1896) - Pintor Inglês.
" Yes "


John William Godward - ( 1861/1922 )- Pintor Inglês.
" Yes or No "


Pietro Torrini - ( 1852/1920) - Pintor Italiano.

Teresinha Oliveira.
 


BOM-DIA DIA! LINDO DIA!


Aquarela de John Gannam - (1907/1965)
Pintor e Ilustrador Americano.

....Ahaaaa....
Hoje será um lindo, um lindo
Um lindo dia !
Bocejo longo, irracional otimismo.

Bom-dia dia, bom-dia sol
Bom-dia vida. Bom-dia flor do dia.
Hoje será um lindo, um lindo dia!
Dia de boa notícia, de surpresa feliz.

Os que perto de mim acordam com café e pão à mesa 
Se irritam e se divertem, num paradoxo amoroso
Sempre que a mim analisam e das manias riem entre si.

Quando o meu exuberante bom-dia for lembrança
Terá cor de gargalhada, ímpeto de ira
  Melhor saudade...

Bom-dia, meu Senhor amado
Bom-dia, meus anjos e santos
Bom-dia meu São Francisquinho.

São Francisco, mais querido, cercado dos pombos que espanto 
Me perdoa a implicância, mas para bicho de chatice empenado
Não se deseja bom-dia!

Tela de Stanley Spencer - (1891/1959)
Pintor Inglês.

Teresinha Oliveira.





segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

MANDALA.

Há dias melhores, há dias piores...
Há dias que nem há
Perdidos dentro de uma vida estéril
 Que não se pariu.
Há dias benfazejos que evaporam
Como se o canto de um galo fosse
Seu alfa e seu ômega.

Há dias para amar.

Quando o amor dilata e abre os braços
Envolvendo o sol que assim não brilha.
A noite que já não é, facilmente se engana
Presa nos corpos que não cansam.
À luz além de si mesmos cegam
Pastores errantes na escuridão de cortinas
Que ocultam o tempo dos amantes findo.

Há dias para morrer.

Quando urdidos os últimos fios de ar no tudo feito
No tanto mais que na incompletude restou como seu por fazer.
A primeira sombra tolda os desejos que se esgotam
Nas naus partindo nessas horas cruas
Sem retorno aos grãos de areia que escoaram
Nas reviravoltas da ampulheta
Que suas mãos, sem nem pensar, girou.   
 

Mandala de Ryan Kerrigan.
Ilustrador Americano Contemporâneo.

Teresinha Oliveira.

domingo, 18 de dezembro de 2011

ATRÁS DO ESPELHO.

Todos já leram
Porque mesmo o pior dos poeta já contou
Com seus versos de rimas pobres, sem ritmo
-Na profundidade da gota d'água-
Que dentro de cada um de nós
Existe a criança que um dia se foi.

Se desapareceu na sucessão das estações  
Se ninguém dela sabe, nem mesmo de relance viu
Talvez esteja embaçada no espelho
Do outro lado, buliçosa rindo
Das marcas que o tempo deixou no rosto
Daquele que a festa da vida perdeu.


Tela de Yuri Krotov
Pintor Russo.

Teresinha Oliveira.


sábado, 17 de dezembro de 2011

OS GATOS E OS SIGNOS.


ÁRIES











Um talentoso ilustrador, amante de gatos, provavelmente ao ler o seu horóscopo do dia, viu nascer em sua cabeça a ideia e as cores para desenhá-los.
Associou cada um ao seu respectivo signo do Zodíaco.
Infelizmente não consegui o nome do autor, ou autora, de tão lindas obras.
Quem souber, me conta...

Teresinha Oliveira.

NOMES FLORIDOS.

 
Lygia perdeu a vogal e suavizou em Lyli.
Esticando como elástico e rápida demais até para um grito, logo se economizou sílaba e garganta, e sobrou a Ly.
Essa menina fez das palavras aliadas, e na profusão de suas idéias originais, com uma lógica que só a si mesma convém, diverte e muitas vezes, assusta a todos. 
Talvez, essa irônica-filósofa-mirim tenha herdado o talento da sua madrinha nominal, a outra Lygia, famosa escritora de quem sua mãe, dos muitos livros lidos copiou o nome e até o Y .
Diz que quer ser escritora também, e sei que histórias não lhe faltam, mas nenhuma página será capaz de contar o que seu olhar enviezado nos revela quando a voz finalmente se cala.

Manuela quase foi Eduarda, com Maria na frente para tirar a robustez do nome do pai que ela tanto ama.
Mas trocar o O pelo A, mesmo rebocando o Maria, não bastou  para substituir a originalidade de Manuela, fator da escolha depois de tanta análise sobre a questão.
Logo porém, muitos o descobriram e assim batizaram. A originalidade foi perdida mas ganhamos nossa Manu, com grandes olhos que ela insiste serem verdes, cachos e mais cachos que só molhados se aquietam, e uma deliciosa mania de usar uma palavra que quase ninguém usa - sim.
Num determinado momento deixou de ser Manu, e por semanas se tornou Kiara, a leoazinha neta do Rei Leão.
 Papai Simba e mamãe Nala incorporaram seus devidos personagens com bom-humor e esperaram a fase felina passar.
Demorou, mas passou.
Porém, Manu ainda não é Manu, agora é Aurora, a Bela princesa Adormecida.
Estranha escolha para uma menininha que não gosta de dormir.


Telas de Catherine Klein - (1861/1929)
Pintora Prussiana

Teresinha Oliveira.
- Tere ou Terê ou simplesmente Tê - 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O OVO DOS CÉUS.


A vida era um enigma que
 Perplexo diante de si mesmo
Se ocultava na miríade dos astros.
Por lá perdido, entre gases e pó
Na beleza das manchas do céu
Sentiu-se só e sem razão.
Por tão pouco, talvez muito
Cedeu às lisonjas da carne
 Virou fruto e gotejou 
No corpo de uma mulher.


Tela de Adam Miller - (1979)
Pintor e Grafiteiro Britânico.

Teresinha Oliveira.



CABEÇA VIAJANTE.

Acordar às quatro da madrugada
Sem sono ou precisão
Passeando dentro da própria cabeça
Sem colher fruto
Sem definir palavra
Sem planejar ação
Até o dia clarear inequívoco
É ganhar tempo extra para pensar
No desnecessário pensar
Que nas horas ensolaradas não se pensa. 


Tela de Frederick Childe Hassam -(1859/1935)
Pintor Americano.

Teresinha Oliveira.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

JARDINS PÚBLICOS.


Tela de Jasek Yerba - (1952)
Pintor Polonês

Perambulo minha solidão
Pelos jardins públicos do Rio
Entre mendigos, gente feia, gente bonita
Grama seca, flor quase nenhuma.

Estátua de soldado sem espada, 
Triste me olha.
Vendedores ambulantes oferecem bugigangas
Sob o sol, quarenta graus de verão.

Passarinho corre e logo se vai.
Sentar no banco para pensar não arrisco
Com medo de ladrão que atrás de árvore brota
Geração espontânea nessa cidade tão linda.

Guardo minha solidão
Para em sonhos, perambular por Paris.


Tela de Giuseppe Mariotti
Pintor Italiano



Teresinha Oliveira.




BILHETES PARA O DEPOIS.

O que faço aqui nessa vida
É pergunta que deixo para depois.
Alva ou negra, talvez gris, gris quase certo
Porque nem a cor que me tinge com força defino.
Responderei entre névoas de um lugar novo
Desconhecido, sem curvas de retorno.

Se nesse azul cinzento tateio e pouco
De mim mesma conheço, boa ou má
-Ah! Como quisera que essa escolha fácil assim o fosse-
O que posso ler no olhar do outro
Ao me encarar gasta, já com tanto decidido?

Deixo bilhetes, flagrantes e outros sinais
Disfarçados nas árvores que plantei.
Nelas guardados, orquídeas, bromélias
Jardins onde quebrei unha e sorri com flor
Muito revelam enquanto murcho.

Escrevo poesias onde minha emoção
Usa o eu que em mim serpenteia.
Cobra da qual não consigo cortar a cabeça
 Extirpar as entranhas e ali, oráculo
Desvendar os mistérios do verso.

Os livros, muitos, sujos de café, gordura
Das cinzas dos cigarros que fumo
Em seus grifos que sem cuidado
Das páginas transbordam
Contam de mim muito mais do que
Qualquer palavra dita.

Meus cadernos até a última página escritos
Com minha letra bonita, em grafite desenhada
Para marcar presença e lembrança
Deixa em toda dúvida com que a vida me cerca
Uma fonte inesgotável de amor para a resposta final.


Tela de George Baxter - (1804/1867)
Pintor Inglês.

Teresinha Oliveira.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

RESQUÍCIOS.

Resquícios, somente resquícios empoeiram
O espelho e as asas do pássaro que finalmente
Atravessa a janela do meu quarto
Com os grãos do que um dia foi amor.

Voa, pequena criatura, voa...
Levando a imagem do que fomos.
A sombra do que tentamos
Desesperadamente, ser.

Voa, mesmo torto
Pelo peso dos desejos insepultos
Esperança trancada em cofre de prata
Angústia do impossível.

A verdade, em destino camuflada
No íntimo lateja, sem disfarces.
Falta coragem para rasgar os céus
Seguir tua rota, peregrina da tua aventura.

O grito se encolhe mudo, nó que estrangula
O olhar se desvia e o corpo se veste. As mãos
Lindas mãos que tanto amavas, estáticas hesitam
No bronze do adeus final. 


Tela de Thomas Wilmer Dewing - (1851/1938)
Pintor Americano.

Teresinha Oliveira.




domingo, 11 de dezembro de 2011

A HERANÇA.

Recebi uma herança.
Todos riram e ninguém acreditou. Afinal nunca tive nenhum parente rico, nenhuma tia velha e sem filhos, sem herdeiros diretos ou indiretos, tal qual sujeito sem predicado ou objeto. Melhor ainda seria classificar como sujeito inexistente, porque se não há herdeiros, muito menos a tia.
Família pobre só herda dívida e problema. O coitado do defunto ainda permanece insepulto enquanto se coleta donativos para caixão e cova. Flores? Para que? Isso é ostentação para quem não tem chão.
Se a rima é pobre, também pobre é a vida de quem nasceu sem os gens da fortuna.
Assim, no país onde o jogo é proibido, até mesmo o chatíssimo bingo que é a alegria das velhinhas, todos arriscam a sorte numa das incontáveis casas lotéricas que pipocam a cada esquina.
Jogamos na loteria, e quando o prêmio se acumula em milhões e milhões, nos assustamos com tamanho volume e a chance de ganhá-los. Nem os queremos tantos.
Apesar de remota possibilidade começamos logo a distribuí-los entre a família e os amigos. Lembramos do primo que viu a casa naufragar nas águas da serra, do irmão que mesmo com laureado diploma vive desempregado, da irmã que casou com o bonitão do bairro que lhe deu quatro filhos mas nenhum tostão, do pai aposentado, da mãe que precisa operar as varizes mas não tem plano de saúde, dos filhos.
Esses então...Com eles e para eles nunca há o suficiente.
Incorporamos a personagem do "Bilhete Premiado" de Tchekhov, que sem conferir todos os números sorteados, julga-se um sheik da Arábia e cria o caos na sua, antes pacata, vida.
Mas não é somente na jogatina que repousa a sorte do dinheiro fácil, sem suor e labuta. Na herança também cai ele do céu, dando susto até na esperança que por ele nunca esperou.
Comigo assim se deu, através de um telefonema que pensei brincadeira, dessa minha gente que em tudo descobre, nem que seja no mais ínfimo pedaço, motivo para riso e ironia.
Pediram número de documento... Quem morreu? Quem?... Tia Noca? Ah, lembro...Já sei quem é... Banco, agência, número da conta corrente... Dividiram por quantos? Tantos assim?... CPF... Quanto receberei?... Fala logo! Qual o valor da Herança?... R$1.531, 08... Quanto !?
Pareço ouvir a gargalhada do Papai Noel que enfeita minha porta.


Tela de Jean Bailly - (1940)
Pintor Argelino Contemporâneo.

Teresinha Oliveira.
  

A FORTUNA.


O sonho da fortuna persegue a humanidade e a agarra pelo pé; como o da beleza, o do amor eterno, o da felicidade sem nódoa.
Logo se vê ela presa na utopia sonhada e jamais cumprida.
Nessa armadilha enredados, nós, pobres e caricatos mortais, procuramos o Olimpo, a Fonte da Juventude, o Pote do Tesouro no fim do arco-íris. 
O Espelho Mágico que repete incessantemente sermos os mais belos, a Poção Alquímica que tudo transforma em ouro, mesmo ao pão, que no metal forjado nos matará de fome.
Admiramos e invejamos àqueles que se destacam entre bilhões, seja lá por qual motivo for; só a cada um de nós compete conhecer a frustração de sua vontade.
Que me perdoem os demagogos e mentirosos que nem a si mesmos contam a verdade... Inveja é inveja! Não possui cor nem extensão.
Difícil escapar dela, quando nosso desejo desfila ante nossos olhos em posse do outro, mas esse selo que nos aprisiona devemos romper, para não azedar a boca e corromper a prece. 
Se a juventude escorreu entre os dedos das horas, e deixou os sonhos lá trás sem tijolos e argamassa, a vida permanece na palma das mãos.
Nela podemos pintar telas com navios partindo, bailarinos dançando tango, amantes se beijando às margens do Sena, meninas correndo com cabelos soltos ao vento, e bancos, muitos bancos num jardim para sentar, e soltar aos céus 
pássaros de amor.


Tela de Marinus Van Reymerswaele - (1490/1546)
Pintor Holandês.

Teresinha Oliveira.   

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A MOSCA

O pão guardado no saco endureceu com minha preguiça.
Caminhar para encontrá-lo quente gasta perna e usa tempo.
Café forte com leite e manteiga salgada
Compensam o risco de quebrar dente.
zzzz Vapt! zzzzzzzzzz Vapt! zzzz
Uma mosca surge e pousa, aqui e ali, longe e perto.
Como atravessou oceanos de telas
Riscados em quadradinhos minúsculos, não sei.
Admiro sua persistência e agilidade, mas tal não basta
Para me despir das vestes de verdugo, camisola preta 
E abrir mão de matá-la com o jornal de ontem dobrado.
Afinal, com as notícias que traz, desempenha melhor função
Matando mosca.
zzzz Vapt! zzzzzzzzzz Vapt! zzzz
Circunda o açucareiro e dança ciranda sobre a mesa.
Zune e me enerva, logo de manhãzinha...
O pão fica mais duro, o café esfria.
Pousa no açucareiro e lá faz festa com suas patas
Me enoja o doce futuro e jogo-o fora.
Vapt! Vapt! Vapt!
Eu a persigo, riscando o ar com fúria de café frio.
Acerto a xícara, que cai ao chão e se quebra
Espalhando o líquido restante que ainda continha.
Descalça, piso num caco e me corto.
Agora é questão de honra!
Vapt! Vapt! ZUM...ZUM... zuuuummmm....
Acerto a danada, que cai em espiral dentro da manteiga.
Ainda tenta escapar, na gordura agitando asas.

Limpo a mesa
Jogo meu café da manhã no lixo junto com a mosca
Recolho os cacos, passo pano no chão
Faço um curativo no meu pé
E vou tomar uma média na padaria.



Tela de Antonio Guzman Capel - (1960)
Pintor Espanhol Contemporâneo

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br



  

ÓPERA-BUFA.

Releio-me. Ao me reler, enrubesço
Porque já escrevi além do que deveria escrever um dia.

E revelo segredos e desvendo enigmas 
 Que lá no fundo deveriam dormir sem romper a linha censora

Que o velho sábio de barba, sagaz chaveiro
Do seu divã esticou.
   
Talvez por isso esse oco solene na minha alma...
Espírito sem medula de desejos novos.

Pois a ópera-bufa que tentei
Com risadas sarcásticas foi aclamada.

Logo a cortina de veludo vermelho caiu
E a luz se apagou.


Tela de Giovanni Paolo Pannini - (1691/1765)
Pintor e Arquiteto Italiano.

Teresinha Oliveira.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

MAGO NOEL.

Nadar nua entre peixes
Nua de véus, nua da  vida
Meio índia, meio fada
Silente princesa das águas.
Moléculas e células mutantes
Ora terra, ora vento, ora ser que não há.

Andar nua por aí
Qualquer aí ou acolá.
Mágica nudez entrelaçada
Nos quarenta graus de dezembro
Era tudo o que eu queria
De presente de Natal.


Tela de  James C. Christensen - (1942)
Pintor Americano.

Teresinha Oliveira.

CARTAS.

Tela de William Maw Egley - (1826/1916)
Pintor Britânico.


Todas as cartas que não escrevi
E as que escrevi e rasguei
E as que não enviei apesar de escritas
E outras que joguei fora sem pestanejar
Por preguiça de caminhar aos Correios
Por inexistência de pombos
Ou por terem se esgotado no tempo...

Todas elas
Guardo comigo.
Se não na memória
Na emoção.

Tela de Georgios Iakovidis - (1853/1932)
Pintor Grego.

Teresinha Oliveira.

CADÊ MEUS ÓCULOS ?

Existem coisas irritantes nessa vida.
Pessoas, manias, barulhos, cheiros, bichos, densidades e proporções. 
Pequenas e grandes iras das quais não se escapa, por mais que delas fujamos. Estranhamos dentro de nós mesmos o ímpeto de assassinar a vizinha que coloca um rock metálico para tocar às 7 da manhã, e se crendo a personificação tropical da Madona, ainda esgarniça a voz ao cantá-lo com suas cordas granuladas.
Das pessoas que falam cuspindo é fácil se livrar, basta conservar segura distância; desde que a cuspideira não una à sua nuvem de saliva o jeito de falar pertinho, mais pertinho... E você se afastando, mais pertinho...
Tem gente que cutuca, que está sempre doendo, que conta mentiras deslavadas, que é megalomaníaca, que dá conselhos que você nunca pediu ou vai seguir, que fala alto ou baixo demais, que conversa com os olhos fechados, que come com a boca aberta, que conta segredos alheios, que fala da novela como se fosse notícia da primeira página de jornal, que revela o final, do livro que você está lendo ou do filme que pretendia assistir no dia seguinte, que tem chulé, mau-hálito e caspa, que fala mal de Deus e do mundo, que vive infeliz, que nunca ri da sua piada, que usa perfume da Avon... E tanto mais...
Porém nós, numa auto-análise sincera devemos confessar as nossas mazelas, porque ninguém nessa vida vadia é perfeito; e com certeza incomodamos os outros tanto quanto nos incomodam. Damos o troco para que a convivência social seja harmoniosa e possível.
Sei que meu despertar cantante, e psicanaliticamente analisável pelo tamanho do bom-humor, agride àqueles que acordam na mesma casa, já atrasados e com a cabeça cheia de tarefas e funções.
Para quem não fuma, a fumaça dos meus cigarros deve ser um fator de irritação quase incontrolável. Mas mantenho os cinzeiros limpos e as janelas abertas como a pedir desculpas.
Acredito que o pior, o mais enervante, até porque o é para mim mesma, seja a caça pelos óculos.
Já tentei de tudo para solucionar o problema, até numa ótica popular com preços inacreditavelmente baixos, comprei cinco iguais. Com minha metódica personalidade defini os cantos para cada um. Mas qual... Continuam desaparecendo como par de meia e brinco.
Alguém viu meu óculos? Alguém viu? Alguém viu?
Vi sim, estão na sua cabeça.


Tela de Paul Albert Guillaume - (1873/1942)
Pintor Francês.

Teresinha Oliveira.      


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

É MUITO BOM SER FEIA.

Lanço agora, na frente do espelho do quarto e com o álbum de fotografias sobre a cama, uma nova e estranha filosofia: é muito bom ser feia.
As bonitas assim o nascem, em tez, cabelos e olhos. Disso estão certas desde que a consciência desperta. Crescem tendo a confirmação do fato. Nos encontros familiares sempre escutam, desde o doloroso apertão nas bochechas até a entrega do diploma final: - "Nossa! Cada vez mais bonita". Outra tia velha arremata: - "Desde pequenininha foi muito bonita."
Os pais e avós, caso tenham sobrevivido ao amadurecimento da belezura, agradecem aos elogios, como se fossem seus gens os diretamente responsáveis pelo fato.
O tempo, cruel servidor da natureza, corre mais rápido que as passadas da beleza, e ela lá atrás vai ficando. Em alguns momentos mágicos quase o alcança, e revive seu carisma num brilho de olhar, num longo vestido de festa, numa alegria que a todos cerca e contagia.
Porém, o ilusório não sustenta o real. O reflexo no espelho conta a verdade, embora dentro da sua cabeça sempre seja a outra que existe. Ninguém envelhece dentro de si mesma, ou tem rugas ou dor nas juntas ou dentes fora do prumo ou cabelos sem viço...
A tristeza, é que quando tão bonitas e jovens, não acreditam que o são. E desperdiçam esse dom, ou dele não usufruem como bem poderiam.
As feias, são as engraçadinhas da família. Todos mantêm a esperança de que, a cada aniversário ela enfeite a si mesma. Mas qual...
Existem algumas para quem, nem mesmo as mais piedosas almas conseguem mentir. Se eram engraçadinhas, agora são bonitinhas.
Como a vida é mestre em ironias, as feiosa, muitas e muitas vezes, são as mais felizes dentre tantas.
Casam-se com sujeitos bonitões que flagrantemente as amam, ficam ricas, constroem uma carreira de sucesso, viajam pelo mundo todo, dirigem carros importados e, nas festas de reencontro da escola, exibem os filhos lindos, educados, sem aparelho nos dentes e que nem de psicóloga precisam.
Tenho ímpetos de matar novamente o Vinícius, ao recordar do poetinha dizendo: "Beleza é Fundamental".


Desenho de Evgenia Sarkisian Saré - (1959)
Pintora e Desenhista Armenia 
"Ballerine"

Teresinha Oliveira.
   
  

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

QUEM JÁ LEU GANHA UM DOCE...

Um jovem casal, Jesse e Madeleine, parecem destinados à felicidade na aristocrática mansão em que vão morar na Quinta Avenida.
Mas durante as décadas mais tumultuadas deste século, o casamento dos Slayter sofre um abalo irreversível.

"O Anel que tu me deste" - Leona Blair - Editora Record.
Título Original- "With this Ring" - (1984) 

Pela introdução pode-se perceber o tipo de literatura que o livro promete.
Isso me faz pensar muito, inclusive no que vou classificar de: -Memórias Literárias-.
Pretensão minha, bem sei. Mas se não sou uma leitora tão voraz quanto o famoso lavrador que saiu nos jornais, por viver numa cidadezinha sem luz elétrica e já ter lido quatro mil livros à luz de velas, minhas leituras me dão, pelo menos, experiência para analisar os livros que carrego na memória.
"O Anel que tu me deste"- (♫ Era vidro  e se quebrou ♪) ... Pertence a uma enorme gama de livros esquecíveis.
Após dois anos você jamais lembrar-se-á de tê-lo lido, e mesmo vendo sua capa e relendo sua orelha nada lhe piscará na memória.
Culpava e condenava sem piedade a pequenez do meu cérebro de formiga por esquecer de tantos, mas agora concluí que o problema não é meu, é deles.
O valor de cada livro se mede na mesma proporção em que se amaga ao espírito do leitor.
Se, com meio século de vida, sou capaz de recordar-me dos livros que li aos 14, 15 anos, citando inclusive nomes de personagens e suas respectivas sagas, como explicar o esquecimento de outros em apenas setecentos dias?
Simplesmente porque nada restou das páginas lidas.
A sensação emocional e memorial é a mesma dos que assistem novelas na televisão. Desafio qualquer um a citar , em sequência, as últimas cinco que foram transmitidas.
"O Anel", propriamente, até faria juz a um relâmpago de lembrança devido ao ridículo do título, mas nem isso... Só após uma folheada no mesmo e a releitura de alguns parágrafos esparsos, foi-me possível reconhecê-lo, e assim mesmo, lá nos cantos da memória.
Mas devo reconhecer que, se não há densidade como nos grandes romances, ou valor literário como dos competentes escritores, sempre resta o prazer de ler.
Este "Anel", apesar de vidro quebrável, é ótima distração para um dia de chuva ou noite insône.
Há um contraponto nesse raciocínio -o reverso da medalha-. Muitas das grandes obras não são prazerosas. Como "Os Trabalhadores do Mar" do Victor Hugo, ou "O Vermelho e o Negro" do Stendhal.
Mas cada página de Victor Hugo, apesar do dicionário à mão, é uma lição de arte literária. Seu mar uma pintura, e o amor um sentimento, que mesmo ilógico, tem força para dominar a longa história.
Stendhal, com a complexidade psicológica de seus personagens nos arrasta para uma trama magnífica.
Porém, ler "Quo Vadis" é o mesmo que ter aula de filosofia com uma professora em plena crise de TPM.
Logo, cada obra tem o valor em si mesma. Algumas, nos despertam um prazer leve de ler, vontade de se jogar na cama com seu companheiro de seiscentas páginas e saboreá-lo como um doce.
Outras, em estilo diverso nos agradam. Nos roubam o doce da boca, mas agitam nossas ideias e nos deliciam a pensar.


Tela de Edmund Charles Tarbell - (1862/1938)
Pintor Americano.






JORNAL VELHO.

Domingo! Sento-me à mesa da cozinha e tomo meu café sozinha. Forte, bem quente para acordar de verdade e começar o dia, que nem tem por onde começar, porque domingo é dia mole, sem objetivo de ser além do que realmente é: um dia de domingo.
Pego uma folha de jornal perdida e a princípio nem olho a data, pois só quero companhia para o pão com manteiga.
Essa mania de ficar atualizada com as coisas do mundo há muito me abandonou. Já sei mais do que devo e quero através dos retalhos de notícias que ouço aqui e ali, ou nos comentários com os amigos.
Crimes então nem se fala... Ou se fala, e muito. Todos advogam, condenam e inocentam como se juízes fossem. A tragédia alheia nos seduz; e tamanha morbidez age como antídoto contra o medo dela nos pegar na próxima esquina.
Começo a ler o jornal no mesmo ritmo em que mordo o pão.
Jornal é palavra escrita, e palavra escrita é coisa séria, que gruda e vai para dentro da nossa cabeça. O cérebro,ansioso, a agarra com suas duas mãozinhas e guarda para analisar depois.
O jornal é de sábado, dia 6, agosto. Dane-se! Ainda resta metade do pão para ser comido. Muitos dias não farão diferença nas poucas mordidas.
O frio vai continuar. Efeito estufa e mais blá-blá-blá. Nada disso me interessa, pois quero mesmo é sol. Cadê o sol?
Meu pensamento voa além do papel para outros caminhos. Me calçou, vestiu e arrumou malas para seguir. Se não tiver trava e eu determinação, sigo com ele, lendo o que não leio. Mas quero ficar por aqui, com meu derradeiro naco de pão e o café, já frio.
Na página 41 as mulheres chinesas choram. Nas montanhas de Longhui os bebes desaparecem depois que são levados por funcionários do governo. Especula-se que são vendidos para adoção por casais estrangeiros.
Atravessando fronteiras e goles de café vou para a Somália, onde criancinhas não desaparecem no ar, mas onde nos últimos três meses, segundo a Unicef, 29 mil delas morreram desnutridas.
Em Badbaado, lugar que só agora, num sábado velho soube existir, soldados do governo roubam os alimentos e atiram nos refugiados, que tentam escapar da pior seca dos últimos sessenta anos. E da guerra civil, sei lá de onde, que se arrasta desde 1991.
Eu me pergunto: guerrear pelo quê? Que herança maldita ainda seduz essas bestas irracionais?
Bebo outro café e acendo um cigarro.
Jogo o jornal no lixo para me livrar das suas tristezas, sem ainda perceber que as palavras escritas grudaram e foram para dentro de mim.
Meu cérebro, com suas duas mãozinhas as agarraram.
É tarde demais para ter um domingo feliz.


Tela de Helen M. Turner - (1858/1958)
Pintora Americana.

Teresinha Oliveira.
  
 



sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

FÍSICA QUÂNTICA.

Acordo passeando por ruelas medievais, velhas e obscuras, como algumas heroicas que ainda hoje sobrevivem.
As que nunca pisei.
Sem bandeiras e com as línguas trocando consoantes, aventuro-me entre elas. 
Na ampulheta onde escoam algarismos romanos, passado e futuro ardem.
Nesse caos de percepção me perco de mim, e porque mim não conjuga verbo, preciso ser eu para mover ação devida.
Mesmo sem rastro, caminho encantada nos vãos dessa onírica jornada. 
Sinto na carne o sol e na alma o espanto.
Como sempre me foi fecunda a imaginação, num fiapo de lembrança  
Encontro o alquimista louco que se embriagou com ouro. 
Triste e dourado, abandonou esse sábio suas poções para se agarrar nos menores grãos da vida.
Tal pequenez, tão tamanha que ninguém compreende, afirma em suas espirais que o tempo e o espaço não existem.
Ao se ver nesses giros enlaçado, o mago renasceu cientista 
Não menos louco ou menos sábio, porém descabelado com sua lupa cega
Criando hipóteses, mas sem desvendar o novo enigma.
Eu, que prossigo minha andança, em tudo penso e analiso.
Perco-me nos séculos dentro do meu próprio cérebro
 Já nem sei o que é real, ou se o real de verdade existe.
Sento-me na cama como despertando de um sonho... 
Prendo meus cabelos longos, os que jamais tive, e sacudo o pó de minhas saias irrelevantes
Dentro dessa nuvem de ideias, beijo na boca o profeta dos axiomas impossíveis.


Tela de Alfred Augustus Glendening - (1861/1907)
Pintor Britânico.

Teresinha Oliveira.