sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A MOSCA

O pão guardado no saco endureceu com minha preguiça.
Caminhar para encontrá-lo quente gasta perna e usa tempo.
Café forte com leite e manteiga salgada
Compensam o risco de quebrar dente.
zzzz Vapt! zzzzzzzzzz Vapt! zzzz
Uma mosca surge e pousa, aqui e ali, longe e perto.
Como atravessou oceanos de telas
Riscados em quadradinhos minúsculos, não sei.
Admiro sua persistência e agilidade, mas tal não basta
Para me despir das vestes de verdugo, camisola preta 
E abrir mão de matá-la com o jornal de ontem dobrado.
Afinal, com as notícias que traz, desempenha melhor função
Matando mosca.
zzzz Vapt! zzzzzzzzzz Vapt! zzzz
Circunda o açucareiro e dança ciranda sobre a mesa.
Zune e me enerva, logo de manhãzinha...
O pão fica mais duro, o café esfria.
Pousa no açucareiro e lá faz festa com suas patas
Me enoja o doce futuro e jogo-o fora.
Vapt! Vapt! Vapt!
Eu a persigo, riscando o ar com fúria de café frio.
Acerto a xícara, que cai ao chão e se quebra
Espalhando o líquido restante que ainda continha.
Descalça, piso num caco e me corto.
Agora é questão de honra!
Vapt! Vapt! ZUM...ZUM... zuuuummmm....
Acerto a danada, que cai em espiral dentro da manteiga.
Ainda tenta escapar, na gordura agitando asas.

Limpo a mesa
Jogo meu café da manhã no lixo junto com a mosca
Recolho os cacos, passo pano no chão
Faço um curativo no meu pé
E vou tomar uma média na padaria.



Tela de Antonio Guzman Capel - (1960)
Pintor Espanhol Contemporâneo

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br



  

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