terça-feira, 6 de dezembro de 2011

JORNAL VELHO.

Domingo! Sento-me à mesa da cozinha e tomo meu café sozinha. Forte, bem quente para acordar de verdade e começar o dia, que nem tem por onde começar, porque domingo é dia mole, sem objetivo de ser além do que realmente é: um dia de domingo.
Pego uma folha de jornal perdida e a princípio nem olho a data, pois só quero companhia para o pão com manteiga.
Essa mania de ficar atualizada com as coisas do mundo há muito me abandonou. Já sei mais do que devo e quero através dos retalhos de notícias que ouço aqui e ali, ou nos comentários com os amigos.
Crimes então nem se fala... Ou se fala, e muito. Todos advogam, condenam e inocentam como se juízes fossem. A tragédia alheia nos seduz; e tamanha morbidez age como antídoto contra o medo dela nos pegar na próxima esquina.
Começo a ler o jornal no mesmo ritmo em que mordo o pão.
Jornal é palavra escrita, e palavra escrita é coisa séria, que gruda e vai para dentro da nossa cabeça. O cérebro,ansioso, a agarra com suas duas mãozinhas e guarda para analisar depois.
O jornal é de sábado, dia 6, agosto. Dane-se! Ainda resta metade do pão para ser comido. Muitos dias não farão diferença nas poucas mordidas.
O frio vai continuar. Efeito estufa e mais blá-blá-blá. Nada disso me interessa, pois quero mesmo é sol. Cadê o sol?
Meu pensamento voa além do papel para outros caminhos. Me calçou, vestiu e arrumou malas para seguir. Se não tiver trava e eu determinação, sigo com ele, lendo o que não leio. Mas quero ficar por aqui, com meu derradeiro naco de pão e o café, já frio.
Na página 41 as mulheres chinesas choram. Nas montanhas de Longhui os bebes desaparecem depois que são levados por funcionários do governo. Especula-se que são vendidos para adoção por casais estrangeiros.
Atravessando fronteiras e goles de café vou para a Somália, onde criancinhas não desaparecem no ar, mas onde nos últimos três meses, segundo a Unicef, 29 mil delas morreram desnutridas.
Em Badbaado, lugar que só agora, num sábado velho soube existir, soldados do governo roubam os alimentos e atiram nos refugiados, que tentam escapar da pior seca dos últimos sessenta anos. E da guerra civil, sei lá de onde, que se arrasta desde 1991.
Eu me pergunto: guerrear pelo quê? Que herança maldita ainda seduz essas bestas irracionais?
Bebo outro café e acendo um cigarro.
Jogo o jornal no lixo para me livrar das suas tristezas, sem ainda perceber que as palavras escritas grudaram e foram para dentro de mim.
Meu cérebro, com suas duas mãozinhas as agarraram.
É tarde demais para ter um domingo feliz.


Tela de Helen M. Turner - (1858/1958)
Pintora Americana.

Teresinha Oliveira.
  
 



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