quarta-feira, 8 de maio de 2013

O HOMEM DO BOTEQUIM

Tela de Bronnikov Fedor Andreevich - 1827/1902
Pintor Russo.


Tomava café no botequim da esquina o homem de educação elegante.
Parecia pertencer a uma geração que herdou os rapapés de antepassados
Enricados numa vida luvas e polainas.
No redemoinho de olhares que sua presença provocava
Havia um espanto silencioso ante sua inadequada figura
Naquele salão de café com leite e pão com manteiga.
A manhã indiferente que, antes que comece o dia, começa em nós o inverno
Mantém a todos num mortiço calor de curiosidade.
Tinha ele uma tristeza no gesto que chamava atenção.
Não dessas tristezas comuns que carregamos às costas
Todos nós, meio corcundas nas árias negras de nossos enganos.
Era um desconsolo de pormenores, filtrado pela ternura da solidão.
Em mim, a imaginação que em seus relâmpagos ultrapassa

Os limites do provável, até mesmo do meramente possível
Logo se pôs a pensar nos solavancos da vida de tão belo homem.
Nesse carrossel de hipóteses fiquei tonta, absorvida por uma dor que não era minha.
À minha, dei um requintado excesso para que assim, tão funda
Parecesse irreal e menos doesse no exagero.
Nesses irrequietos pensamentos de compreender o que na verdade não poderia
Surge uma dúvida entre o último gole de café e o cigarro:
Éramos dois sujeitos, ou simplesmente duas formas distintas de um?

Tela de George Dmitriev - Nasc. 1957
Pintor Russo.


Terê Oliva

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