sábado, 11 de janeiro de 2014

DÚVIDAS DE QUEM RABISCA


 Parece loucura, e provavelmente há uma pitada da mesma, grudada na cabeça dessa gente que passa a vida arrastando seu saco de livros e papel por cada passo que dá. São tantos e de tamanho peso, que aquele que muito lê e rabisca, após o fechar de décadas vai abandonando-os pelo caminho; não por descaso, mas por absoluta fraqueza dos braços e dos bolsos que não comportam o necessário para mantê-los.
Parece tolice de quem lhes conta, mas cada livro e cada folha de papel rabiscada é um bicho de estimação que precisa de cuidados. Há que alimentá-los com os olhos e novas ideias, acarinhá-los, dar-lhes banho para livrá-los da poeira e do esquecimento.
Gostar dos livros gera sentimentos maníacos e inexplicáveis para quem assim não os compreende. Livro é meio gente, e mesmo aqueles de que pouco se gosta merecem respeito. Outros são tão bonitos, tão enfeitados de letras e capas que apesar de nada a contar vão ficando, porque beleza por mais que se negue, tem valor intrínseco.
Os não lidos esperam com paciência de Jó. Como o próprio, veem os anos correrem através da quietude do abandono ao pó. O porquê dessa incompatibilidade entre escritor e leitor não se explica, e a lógica filosófica tão cheia de meandros, dessa relação escapa.
Porém, o pior que acontece, pelo menos a mim que vivo suja de escuros grafites, é encontrar textos de não sei quem. Serão meus ou não? Escrevi-os  num momento em que apenas uma palavra provocou tal enxurrada, ou copiei-os por serem belos sem destiná-los ao seu senhor?
Há tanto de tantos que bem poderiam ser meus frente à angústia de viver...
Na dúvida que mais irrita do que compraz, relego-os aos lugares do anonimato e finjo nunca tê-los lido.

"Girl Reading" (1878) - Charles Edward Perugini - 1839/1918
Pintor inglês nascido italiano.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

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