quinta-feira, 8 de novembro de 2012

NEURÓTICO DE GUERRA.

Tela de Corneliu Baba (1906/1997)
Pintor Romeno.

ZZZZZZ...... O sono dos justos.
Embora sem pretensões de sê-lo eu o dormia, aconchegada nos braços do marido com quem dividia o leito e a vida de então. O amor resistia há muito, e um sabor de bonança atravessava nossos dias onde o destino com tanto mais para fazer, esquecera de espalhar pedras pelo nosso caminho.
Elas surgiriam depois, muito depois, e talvez por tanto demorarem, só delas nos apercebemos quando rochedos de granito.
Um susto acorda a madrugada.
" Miserável! Canalha! Pensa que me engana? Você não presta e mais blá, blá, blá..." 
Evitei escrever os palavrões porque deles não gosto. Palavrão escrito tem peso maior que falado, e assim sendo empobrecem meu texto e história; mas eles lá estavam, nos gritos alucinados do vizinho velho que todos diagnosticavam como neurótico de guerra.
Os minutos passam e viram hora. Ele xinga a tudo e a todos às três da manhã com um poder na garganta que desmente a idade.
Eu, já acordada para o dia mal nascido digo adeus a Morfeu e, meio assustada meio zonza vou atrás dos berros dementes que me conduzem à área de serviço, onde vejo a silhueta corcunda do velho iluminado pela luz de sua cozinha, andando de um lado para o outro na área em frente à minha. Somente o vão do edifício e uma cortina de plástico, grades de sua loucura, nos separam.
Uma luz acende-se lá no alto do prédio e uma voz masculina ressoa poderosa na acústica do tubo de concreto. -"Cala a boca velho, vai dormir!"
Álvaro acorda irritado e logo me propõe mudança para casa nova. 
Porém, fofoca é um gérmen que contamina e nos deixa sequiosos para saber dos outros, tudo aquilo que não nos diz respeito. Logo, quando o velhote em urros revelou traições e indiscrições da vizinhança, fui fazer um café para melhor saborearmos as tragédias alheias.
No meio de tamanha confusão, Álvaro com um olhar malicioso sai em busca de uma colher de pau. Na volta, empunhando-a como uma arma me pede: "Grita!" 
O que!? Você ficou doido igual ao velho? 
"Vai, Terê, grita! Me xinga, chora..." 
Imediatamente começa a dar fortes pancadas na lateral do fogão.
"Eu já descobri tudo! Pensa que sou idiota?" 
As batidas no fogão ressoam tão alto que logo outras luzes se acendem prédio afora.
-Para Álvaro! Você está me machucando! 
"Mentirosa, você não vale nada! Está me enganando com meu melhor amigo." 
-Para, para! 
O velho calou-se. 
Nós, em gargalhadas acalmamos a raiva. Sentamos no chão da área e bebendo café fresquinho, aplaudimos nossa própria encenação.
Mas qual, logo o velho doido recomeça, ofendendo suas recentes vítimas - Nós!
"Esses dois pensam que enganam alguém? De dia é meu amor para cá, meu amor para lá, de noite é tapa p'rá todo lado!"
Álvaro olhou-me e, vencido foi procurar os classificados do jornal.

Terê Oliva.
Baseado em um caso real :) 



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