terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

NA MANHÃ DA NOITE.

Tela de Julius Leblanc Stewart - (1855/1919).
Pintor Francês.

Eu vejo as crianças correndo através do sorriso das horas, na manhã da noite.
Um anjo caminha escondido, na sombra que cada uma projeta.
Eu vejo o sereno da noite nas pistas de dança lá no além do céu.
Eu vejo pintos, galinhas, gansos, cantando nos ninhos, no chão de lama de beira de rio.
Ovos alimento, futuro, quebrados.
Eu vejo piolhos nos pentes escuros, nos dentes, nos fios finos da aurora prorrogada.
Eu vejo que não vejo a verdade escarrada do mais puro cristão.
Eu penso na tristeza que me corrompe ante tudo que não pensei direito e não compreendo
No meu estupor, ao sair pelas ruas atrás de mim mesma e não me alcançar.


Eu penso nas pistas de batons de corrida que só desastres prometem.
Eu penso na peste chegando, no buraco negro, fim.
No mundo, planeta entupido de estúpidos, gente sem fé além da vendida em gotas e tostões.
Eu penso no ronco dos poderosos, na vergonha do meu país que me encabula mas não posso negar.
Eu penso que em tanto não deveria pensar.


Eu sinto, apesar, a paz de procurar escadas no teto que desaba sobre nós.
Eu sinto que lavo a alma com pó de grafite e a estendo, sem o pudor devido
   Nas cercas baixas da vizinhança.


Por sorte, a poesia é uma deusa encabulada e seu pulsar
Muitas vezes se oculta atrás do que palavra dita.

O enigma, o que não foi dito apenas soprado, guarda sua beleza.
Cabe ao outro, passante distraído, a emoção de sorvê-la

Se a encontrar.

Tela de Robert James Gordon - (1845/1932)
Pintor Inglês.

Teresinha Oliveira.

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