terça-feira, 12 de março de 2013

MULHERES CARIOCAS ♀ MARIA JOSÉ


      A mãe gastou as mãos e suou todas as bicas que tinha no corpo ao lavar e passar roupa de madame. O pai, as mãos não tinha melhores, mas gastava de outro jeito, nos tijolos e cimento que as paredes não devolviam em sustento.    Apesar de tanta lida nesse destino estropiado, alegria não faltou quando, das páginas do Evangelho onde oravam a cada sábado sem faltar a nem unzinho, caiu depois de tanto ano esperado, uma menina com olhos d'água de rio, rio de águas verdes que nenhum dos dois sabia onde corria.
Tal milagre aconteceu num dia especial p'rá toda gente, um Dia de Natal.
Diante de tamanha graça, pensaram logo, mãe e família palpiteira, em dar-lhe o nome de Natalina. Já houvera uma, parente do interior que ninguém mais sabia paradeiro, se viva ou morta.
Tal distância e desprezo apagou a ideia mas fez outra brotar - Maria José! Disse o pai, com arrogância de chefe do clã que agora fundava. -Presépio também é Natal, muito mais que Papai Noel, que árvore, que neve... Quem aqui já viu neve? Quem?
Assim batizou-se a menina tão querida e esperada, a que tinha olhos d'água de rio e caíra do Evangelho num Dia de Natal.
Roupas eram lavadas e passadas, paredes se erguiam e os Natais, permaneciam magros. Somente Zezinha florescia forte e bonita, em meio a toda necessidade.   
 Cresceu sozinha porque irmão nunca chegara, cercada de miséria e sonho de grandeza. Cheia de primores, merecia outro destino. Pelo menos, nisso acreditava em seu coraçãozinho jovem e pé-rapado. 
Contra conselho de pai e mãe, andava pelas ruas bicando os paralelepípedos com salto alto de sandália nua, cabelos dançando ao gingado de seus quadris mulatos, boca com batom de puro sangue e unhas azuis que combinavam com a roupa justa de gosto duvidoso.
     -Cismou de ser moderna essa menina. Reclamava a mãe nas conversas com as amigas de tanque e igreja. 
-Nem ao pai, tão bom, obedece mais.- 
       Quer ser rica! Como, ainda não sabe. Desejo recém descoberto depois que tantos outros morreram sem chance ao menos de brotar. O jaleco
   branco, uniforme da escola, com nome no bolso bordado pela avó carinhosa, virou saia curta e salto de partir tornozelo em qualquer pedrinha de mau jeito pisada. Agora,sacolejante, mais parece borboleta sem ter onde pousar.
     Pega ônibus, quase todo fim de tarde, e ruma para o calçadão da praia em busca de estrangeiro que por ela se apaixone e, com aliança no dedo e passaporte carimbado, a leve para longe.
    Tudo isso sonha ao desfilar com Quinzinho, seu amigo de infância, por ela desde lá apaixonado. O diminutivo bem lhe cabe, pois mal lhe chega ao nariz. É ele companhia constante nos bailes e onde mais for, pagando as contas sem penar no bolso ou no coração.
     Maria José é algo mais, muito mais do que Quinzinho julga possível. Até no vestir lhe espanta para maior bem querer. Suas pernas expõe, mas proíbe o toque, para seu desespero que não se contenta com o prazer do olho.
 -Como serão seus mamilos?- Dorme ele toda noite a pensar... Prefere os seios pequenos, com pérolas rosadas a cintilar no cume, mas se os de Maria José forem fartos e enfeitados com castanhas do Natal que lhe inspirou o nome, nenhuma diferença faria. 
Passa horas filosofando sobre o amor, na quantidade do tanto que o enlouquecia. Assim apalermado, vive das graças que ela espalha, do brilho que dela vem.
     Quando ela sai a dançar, girando sorridente, seu peito dói de bem-querer, dor de verdade, dessas que só os grandes amantes e poetas no sofrer conhecem. Como deusa a venera, como mulher a deseja. O sagrado e o profano dentro dele se completam e torcem sua língua de beijo negado numa  oração diária.
  Ela, sem nada disso saber de tão profundo, com Quinzinho a tiracolo, nas larguezas do calçadão do mar caminha à espera do destino que a cubra de ouro e outras sortes.
Como maré e lua, o tempo também enche e esvazia em seu inexorável correr; só Quinzinho não corre, porque amor de verdade não tem pressa e nas esquinas dos seus anseios vê o futuro que ninguém mais vê. Sentado, para de esperança não cansar, espera.
Espera o dia de radioso nascer em que a moça dos seus quereres crie juízo, escape das areias movediças e pródiga, volte ao lar em seus abraços para gastar as mãos nas águas enquanto ele ergue paredes no real.

Tela de Sarah Bishop - Acrílico em tela.
Pintora Australiana Contemporânea.

Terê Oliva


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