quinta-feira, 17 de março de 2011

PORÇÃO DE QUINQUILHARIAS.


Gosto da coisa sem função, sem objetivo claro ou obscuro
Que para nada serve, e sem motivo permanece guardada
Por anos sem memória, a desafiar o lixeiro
Com seu jeito coquete de mulher fácil, que todo homem espana
E nenhum casa, tampouco dela abdica.
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Como o livro velho que nunca lerei pois já um novo li.
A alergia aos fungos o mantém aos meus pulmões fechado
E guardado num lugar seguro, distante do nariz, mas posse minha
Egoísta, que em flertes o acarinha e imagina
Mãos e olhos que íntimos dele se tornaram
Ao gastar suas páginas e ler, sentir e pensar o bocado que fiz
No mesmo outro, sem igual idade e cheiro.
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Há também o anjo com meia asa quebrada
Que aqui reside desde um ano de já esquecido número
Como esquecida permanece a causa da exposta fratura.
Anjinho de vestes plissadas que chegou nas mãos
De clara criança com olhos azuis, tal qual querubim
Gêmeo dos que vivem nos quadros da Média Idade.
Ele agradece aos anjos maiores a asa e meia herdada
E sem rubores ousa rasantes pelo meu quarto num zoom de mosquito.
Mas mesmo torto, pendendo para a esquerda da asa boa
Minhas orações carrega aos céus.
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A escultura de pedra abstrata que desvendar não consigo
Passeia pisando duro pelos cômodos sem achar lugar.
Parece me desafiar com seus cortes.
Granítico mistério de abscissas loucas
Criando um pássaro do paraíso.
Numa ponta aguda uma perna de mulher.
Às vezes, em estremecimento erótico
Transformo a rocha toda
No falo ereto de um deus fauno que sangra
No meio do bosque as virgens ninfas que dele fogem.
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Não existe sensibilidade no útil
Nele a imaginação fenece.
Inútil conclusão que a lugar nenhum conduz
Nem minha casa esvazia.
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Tela de John Watkins Chapman - (1832/1903)
'Old Curiousity'
Pintor Inglês 
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Teresinha Oliveira. (2000)

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