terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A ARTE DO NÃO

Mesmo nessa vida louca que vivemos hoje, sem tempo e cuidados, nossa atitude frente ao ser rejeitado pelo nosso amor deveria ser pontilhada com toques de elegância, como era usual em dias de barroco e rococó.
A grande maioria de nós já atravessou as turbulentas águas do término de um amor, ou mesmo e mais comumente, à inexistência dele, apesar dos longos olhares que nos acariciam, e incomodam por partirem dos olhos errados. 

Os certos andam por aí e quase sempre miram outras íris.
Raríssimos são aqueles que, agraciados com gotas divinas, encontram sua alma gêmea e vivem felizes no sempre. Sempre que para os míseros mortais não dura mais que um curto espaço de tempo, do engano ao seu fim inequívoco..

A eternidade amorosa  é um átimo entre o azedume de um beijo e o não consumado.
 Constrangedor porém é pronunciar o não diante da face esmoleira do pobre apaixonado que finge, até para si mesmo, desconhecer a decisão no simples monossílabo.
Não! O problema não é seu, é meu. Não! Alguns dias não vão demover meu desejo de ficar só. Não! Não há outra pessoa. Não! Nem o Zé da esquina, nem o João da infância. Não! Último beijo só emociona em cena de filme, e assim mesmo quando o diretor é talentoso. Não! Não insista por favor, sua saliva não é poção mágica. Não! Claro que o amor surgirá novamente, só por isso ele mantém essa fama de eterno. Não! É tarde, preciso ir. Não! Tenho certeza que não mudarei de ideia. Não! Não telefone nem marquemos encontros. Amigos, bons amigos. Não! Nada de beijos de despedida. Amigos não se beijam na boca. Solta minha mão, por favor, preciso mesmo ir. Ora,para casa, dormir.
Como são inconvenientes as emoções daquele a quem deixamos de amar...
Aceno um até logo com as mãos dormentes e babadas pelos muitos beijinhos de adeus.
Até logo. Até amanhã. Até nunca mais !
Limpo-as com o gel antibacteriano que sempre carrego na bolsa, e o telefone quase delas escorrega na pressa do atender.
Alô...Oi Ricardo. Onde você está? A ligação está péssima...


Tela de John Callcott Horsley  -  (1817/1903)
Pintor Inglês.


Teresinha Oliveira
Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br


Nenhum comentário: