terça-feira, 2 de agosto de 2011

SAUDADE

Eu sofro com a saudade
Do que não vivi
Do que jamais viverei.

Tela de Rogelio de Egusquiza - (1845/1915)
Pintor Espanhol

Terê Oliva

NARCISO


Narciso paga com a vida o ver a própria face.

Se devo consumir-me de amor
Que não seja por mim mesma.

Se meu destino for flor
Que não seja por tão boba.

Quero os escândalos
A alegre ciranda de um girassol.

Tela de Dmitry Podsolnuhi Ljovin - Pintor Russo.

Terê Oliva
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O MAGO DOS DESEJOS


Desconheço a arma usada ou o artifício que tão pronto me rendeu
Os cabelos agarrados por essas mãos do amor sem escape.
Poção qualquer me cegou com os pós de sua voluptuosa alquimia
Me rasgou o calcanhar, calando o passo.

Tua boca salgou minha saliva e nossos lábios
Selou com o lacre rubro de beijo e silêncio
No meu corpo o pergaminho de nossa história escreveu
Com idiogramas de uma língua já morta.

Tuas mãos, sem onde mais estar, nossas células e membros
Engalfinhou em nova etnia, gens que gozam na torção da escada
Degraus que se cruzam e descruzam sobre chão de pedra
Entre o meu corpo que em líquido se desfaz.

As teias bordadas em cegos nós por cegos dedos
Pelo Mago da Aranha, das águas, dos lençóis, das febres
Tolhem o movimento e a razão ao aprisionar a amante
Com seu poder de exímio tecelão.

Guerreiro que domina o território da minha vontade e espírito
Camuflada armadilha de armadura e espada em riste
Que detém o ímpeto de escapar.

Tela de Joanna Chrobac
Pintora Polonesa
Óleo sobre tela - 100 x 120 cm

Terê Oliva - 1996
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FLORESTA VIRGEM

Não sei quem sou
Como não sei quem é ninguém.
Sou uma floresta virgem
Onde não se adentra
Labirinto sem escape.

Nublada figura
Que pouco a pouco perde a nitidez 
Entre os troncos emaranhados.
Seios gravetos que nada compõem
Além do próprio ninho.

Tela de Jean Basile Perrault - (1832/1908)
Pintor Francês

Teresinha Oliveira.
Terê Oliva

ESCULTURA

Não existes.
Te criei na solidão
Na poça amarga de me saber só.

Gerei teu ser
Em minhas entranhas estéreis
Te ungi com dons
Te esculpi em mármore e carne
Dos mestres perfeito corpo
Músculos e perfil.

Com o frenesi de minhas saias
Te dei vida
Te soprei na boca
Segredos do fogo
Leoa, penteei tua juba
E fera te desejei.

Vendaval de horas inúteis
Em cinzel trabalhadas.

 Michelangio di Ludovico Buonarroti Simoni
(1475/1564)
Escultor e Pintor Italiano

Davi - 1501/1504 - Exposta em Florença.

Terê Oliva
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COBRAS

Abraça-me
Cobra, se enrosca
No corpo meu
Em convulsões de anseio
Pelo seu.

Escorrega comigo
Na cama tão grande
Da vida lençol
Sedas e linhos
Gomas e cheiros.

Nada ora interessa
Nada mais faz barulho
Além de nós dois
Cobras crianças
Brincando na cama.

"Paradise Lost" (1827) → Claude-Marie Dubufe - 1790/1864
Pintor Francês.

Terê Oliva


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

CURTOS MOMENTOS


Em raros, curtos momentos
Paro e sou feliz
Quase sem perceber.

Surpresa da felicidade
Que surge de repente
Sorrateira, atrás dos cantos
Em barcos aportando nas bicas do quintal
Nas gargalhadas das crianças
Na ponta do meu nariz.

Quase acredito
Na visita inesperada
Que logo desvanece no ar.

Tela de Johaan Heinrich Füssli - (1741/1825)
Pintor Suíço

Terê Oliva
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NATAL

Água salgada...
Tanto mar atravessado
Em meu peito rebuliço.

Barco com mil almas navegantes.

Eu menina, das ondas recolho lembranças
Em busca de antigos Natais
Tão lindos quanto luz
Na casa de avó preparados
Do outro lado da baía.

Tela de Antoine Garcia Mencia - (1853/1915)
Pintor Italiano.

'Memories of Christmas.'

Terê Oliva

VERSOS DE MIM


Não consigo mais falar
Nada de mim lá de dentro
De dentro de onde moro
Lá dentro
Dentro de mim
Onde moro.

Só no verso habito
Nele me mostro inteira
Nua de medo, de pejo
De réplica.
Nua em espantos
Diante do espelho do verso.

Nele sou eu mais ninguém
Que aqui fora exibe-se
Camuflada no que sou
Ou no que jamais serei.

Transpiro em meus versos
Sem métrica, sem rimas
Sem desejo de ser mais do que são
Apenas versos...
Lá de dentro
De onde moro.

Tela de Elisabeth Louise Vigée Le Brun - 1755/1842
Pintora Francesa
* Considerada por muitos a maior pintora do século *

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com

SENHORA DOS DEGRAUS

Sonho estranho, agarrado nas franjas do pesadelo
Sem cabeça, sem pé, oráculo vazio.
Escadas em tantas e tantas noites sonhadas
Imagens no sono que acordada durmo.

Lembradas somente no pulo da cama, de susto, de horário, de suor
Na vitória da escada descendente, impossível de descer.
Sem corrimão, ou se há, mais louco que ela
Serpente, caracol, escorregadia nas lamas
Infindas que se encravam nas rochas de montanhas
Que se quebram nos edifícios de terremotos.

Tal incógnita há anos  desafia
O inconsciente que as constrói e reconstrói.
Obra do excêntrico arquiteto que no meu cérebro se aloja e
Testemunha, impassível, os t(r)emores do meu corpo
Que nela se enrosca.

A Senhora dos Degraus torta se perde
No cume do fosso sem fundo, a lugar nenhum conduzindo
A não ser para dentro de mim
Para os noturnos becos do onde não sei.

Tela de Manuel Garcia y Rodriguez
Pintor Espanhol

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br