domingo, 20 de julho de 2014

ENTRE PARALELAS DE AREIA

A cabeça se torce e contorce entre as paralelas de areia que caem da ampola de vidro
Dessa vida sem frente nem trás.
Enlouquecida ampulheta que guarda em cada grão a rendição dos dias ante o desdém do destino
Que nas suas partículas de rochas degradadas quebra os dedos do sonhador.

Busca a mulher com mãos dessa areia cheias

 Um regato que murmure a voz da razão das coisas todas
Daquilo que não é mas poderia ser

Daquilo que não foi mas deveria sido.

Há no todo uma inescapável lógica que só tarde se revela nos ventos
Que desfazem as dunas frente ao tempo do mar.

"Andakt" - Carl Axel Printzensköld -1864/1926- Pintor Sueco.

Terê Oliva
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sexta-feira, 27 de junho de 2014

REFÚGIO AZUL


O cobertor ganha tons proféticos na noite fria de outono enquanto a pele racha
Suas farpas aquecem a largueza do leito com matizes de azul profundo
Onde orações inconclusas se perdem.
Imagens se deleitam na forma límpida em que surgem sem pé nem cabeça
Com requinte de assassinos e suas armas de luxo
Para assustar a quem de um lado para o outro rola.

O apetite é vão, é lembrança, é medo das sombras
Não despreza o frio essa mulher, nem o conforto, nem os temores noturnos que diante do sono esvaecem.
Tudo é vida, tudo é percurso.

Sai do azul e do teto olha para aquela que ali se refugia 
Rendendo graças pelo esquecimento que não vem das cinzas da noite
Mas de um cobertor azul.

Tela de George Lawrence Bulleid - 1858/1933 - Pintor Inglês.
Terê Oliva

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domingo, 18 de maio de 2014

O ESPANTO DO SILÊNCIO

O espanto do meu silêncio fica boquiaberto ante os pensamentos que aos borbotões caem da minha cabeça pelo chão que piso
Também espalham-se eles pelas cidades da Itália onde nunca fui
Pelas faces das crianças em preto e branco, já mortas, que alguém eternizou em velhas fotografias
Pela ameaça da moderna guerra fria, mísseis, química, nações que se desafiam a ver quem cospe mais longe.

Nessa mirídea de imagens e lembranças que assolam meu espírito, quedo-me e cerro os olhos para melhor ver.
Entremeando fios meus pensamentos vão longe, chegando à beira da sanidade e da lógica
Ante o barulho dos canhões, as cólicas da fome, o tiro que quebra o osso da perna do inocente e impede a fuga
 A sedução do poder que revela o algoz ao atar o nó da doença e da miséria
O escárnio dos fortes ao mirar o fraco que chafurda nos excrementos a céu aberto.

Arrastam-me assim tais ideias para um patíbulo de ódio, onde minha mão treme e se compraz de vingança na alavanca
Que solta a mola e quebra o pescoço de tantos à minha mercê.
Porém a ternura quase palpável de um abraço, uma tela de Bouguereau, riso de criança, afago de cão
A paradoxal beleza de um inseto monstruoso, a violência de um mar de naufrágios
Serenam minha mente que nesse turbilhão se perderia não fosse a vontade de compreender cada reflexo do mundo.

Sentada num canto sem olhar para nada além do espaço vazio, tais emoções solidificam-se e quase posso tocá-las com a ponta do dedo
Enquanto desfilam nessa interminável procissão de santos e demônios que me paralisam com suas perspectivas.
Deveria eu estar imune a tal e tanto, coerente comigo mesma, com meu jeito manso de deixar para o depois entre os livros
Que desde menina contam-me em milhares e milhares de páginas suas histórias
Onde, verdadeiras ou não, o mal e o bem nunca são absolutos e
Degladiam entre si até o ponto final.

"Femme Fatale" 
Andor Novak - 1897/ ? - Pintor Simbolista Húngaro.
Terê Oliva
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quinta-feira, 17 de abril de 2014

FANTASMAS ANDARILHOS

A noite corria alta e silenciosa no grande sobrado. 
Sabia-se ser muito tarde quando tudo aconteceu porque a família não tinha prazeres em camas e sonos. Os filmes, livros e conversas, esticavam-se até as ordens frenéticas da mãe que lembrava aos quatro irmãos a escola no dia seguinte, ficando ela mesma e o pai mais um tanto.
O frio imobilizava a todos e induzia ao sono sob forma de cobertor, meias de lã, pijamas de flanela e leite quente com mel antes de subir aos quartos, mesmo que sem vontade.
Nesse silêncio de escuridão a filha foi acordada por passos no corredor que interligava os três quartos. Quase sem se mover, e munindo-se de coragem, baixinho chamou a irmã, que para sua surpresa já havia também acordado e exibia os olhos arregalados em sua direção.
_ Tem gente aí, disse num sussurro. Algum ladrão entrou na casa.
_ Pode ser fantasma, sugeriu a caçula, desde sempre apaixonada por histórias de terror.
_ Que fantasma que nada. Mas no fundo, sua cabeça girou como um dínamo e lembrou-se das mortes recentes ocorridas na família. Um primo jovem tão querido, quase namorado com quem brincara de médico e uma tia velha. Seria mensagem do além? Bobagem!
Pé ante pé levantou-se e foi conferir. Quando olhou o comprido corredor, viu seus dois irmãos também à porta do quarto da frente, e os pais no quarto dos fundos. Todos observando o estranho ser, vestido de branco, que caminhava com ruídos de outro mundo.
Por um minuto ninguém sabia o que fazer, olhando uns para os outros, cada qual dando asas à imaginação sem nada concluir de racional.
O grande mistério se revelou quando o pai, com um simples toque acendeu a luz e a boneca Andinha, vestida de noiva, deu mais um passo.

Artista plástico (Esculturas e Bonecos) - Dustin Poche.
Terê Oliva.
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domingo, 2 de fevereiro de 2014

OS PEIXINHOS DA LILI


   Lili, minha neta, adora 'pescar' os minúsculos peixinhos que pululam no lago do restaurante onde sempre vamos, aqui pertinho de casa. Ela os pesca com copos descartáveis, e neles mesmos os conserva com esperança de que cresçam e tornem-se dourados.
  Numa dessas madrugadas calorentas, eu que pouco durmo, acordei sedenta e meio sem rumo. Ao ver o copo com água sobre a mesa da sala, não pestanejei. Glup, glup, glup...
Confesso que achei o gosto meio estranho, mas no momento não dei importância ao fato e voltei aos braços de Morfeu. Se desperdiçasse o sono, ele não mais me alcançaria.
   Só quando amanheceu percebi que havia bebido os peixinhos da Lili.  Furiosa, ela me deu a maior bronca e fez o inventário completo - "Vó, eu não acredito, você matou 6 peixinhos, só sobrou um... "
   Fiquei mais preocupada por ter bebido a água do que por ter ingerido os peixes, proteína, se é que não houvesse algum girino nesse pacote; mas como sempre faço porque assim dá certo, deixei prá lá e esperei. 

Como nada aconteceu, nenhuma alergia, nenhuma pipoca pelo corpo, nenhuma dor de cabeça ou em qualquer outro ponto, concluí que apesar da tristeza da neta-sereia, tudo não passou de uma simples confusão que rendeu uma divertida e inesquecível história de família.

Terê Oliva

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

UM ANO DE AREIA


Um ano correu
Correu célere sem nos dar um recanto de pensar 
Ou água fresca para saciar a sede louca que nos consome em adiamentos.

Um ano correu
Com o tempo a galope, agarrado à crina de cavalos selvagens que mal sabem onde vão
Nesse chão lamacento de fraca vontade.

Um ano correu
E deixou escoando na areia fina entre os dedos
A presteza do movimento.

Tela de Johnny Palacios Hidalgo (1970) 
Pintor Peruano Contemporâneo.

Terê Oliva
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domingo, 19 de janeiro de 2014

PEGADAS DE ESPUMA


Falei baixo seu nome, na solidez de um sussurro, com medo de ser uma intrusa no silêncio que o cercava sob a lua, tão gorda e próxima que quase era possível tocar.
Sentei-me ao redor de seus pés no chão de rochas e esperei.

Meu vestido de linho bordado com flores e sementes fez-se jardim de onde minúsculas fadas escaparam, tão frágeis quanto meus nervos naquele momento único.
Ele olhou-me com o azul agudo de seus olhos e sorriu. 
Nada disse porque a magia das fadas havia consumido suas palavras, e atado seus braços entre as tintas e pincéis da marina que ele pintava há horas, com as cores inexistentes de um oceano que só ele via.
Senti seu amor me dissolver em espuma e fervi com ele, mas era impossível movermos um músculo, perdidos como estávamos na proximidade um do outro.
Nessa imensidão vazia permanecemos durante o cio que nos atrelava às estrelas e às vagas noturnas, transpirando de desejo nesse perigeu de romance e sal. 
Tal delírio porém, nos arrastava perigosamente pelos cabelos de nossos medos para o abismo da realidade.
Antes que nele caíssemos, arrancamos nossas roupas e corremos, deixando pegadas no destino .

"What Freedom!" (1903) - Ilya Yefimovich Repin - 1844/1930 - Pintor Russo.


Terê Oliva - http://tereoliva.blogspot.com.br

sábado, 11 de janeiro de 2014

DÚVIDAS DE QUEM RABISCA


 Parece loucura, e provavelmente há uma pitada da mesma, grudada na cabeça dessa gente que passa a vida arrastando seu saco de livros e papel por cada passo que dá. São tantos e de tamanho peso, que aquele que muito lê e rabisca, após o fechar de décadas vai abandonando-os pelo caminho; não por descaso, mas por absoluta fraqueza dos braços e dos bolsos que não comportam o necessário para mantê-los.

Tolice de quem lhes conta, mas cada livro e cada folha de papel rabiscada é um bicho de estimação que precisa de cuidados. Há que alimentá-los com os olhos e novas ideias, acarinhá-los, dar-lhes banho para livrá-los da poeira e do esquecimento.
Gostar dos livros gera sentimentos maníacos e inexplicáveis para quem assim não os compreende. Livro é meio gente, e mesmo aqueles de que pouco se gosta merecem respeito. Outros são tão bonitos, tão enfeitados de letras e capas que apesar de nada a contar vão ficando, porque beleza por mais que se negue, tem valor intrínseco.
Os não lidos esperam com paciência de Jó. Como o próprio, veem os anos correrem através da quietude do abandono ao pó. O porquê dessa incompatibilidade entre escritor e leitor não se explica e a lógica filosófica tão cheia de meandros, dessa relação escapa. Talvez um dia...
Porém, o pior que acontece, pelo menos a mim que vivo suja de escuros grafites, é encontrar textos de não sei quem. Serão meus ou não? Escrevi-os  num momento em que apenas uma palavra provocou tal enxurrada, ou copiei-os por serem belos sem destiná-los ao seu senhor?
Há tanto de tantos, de parecença tal que bem poderiam ser meus frente à angústia de viver, à meia garrafa de uísque, à penumbra de uma música triste...
Na dúvida que mais irrita do que compraz por serem bons, relego-os aos lugares do anonimato e finjo nunca tê-los lido.

"Girl Reading" (1878) - Charles Edward Perugini - 1839/1918
Pintor inglês nascido italiano.

Terê Oliva
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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

NEVRALGIA


A dor esconde-se em cada fresta da parede, pelos cantos esquecidos da casa
No passo, no toque na face, na pressa ao correr do sangue.
Como uma aranha, tece sua teia no silêncio da intenção.
Na inércia dos nervos, controla-os.
Montada em uma biga que dispara entre as ruelas do pânico mantém as rédeas curtas 
Porém sua esquerda é frágil.
Qualquer pedregulho, buraco no caminho, a leva do chão para os confins de um céu nunca imaginado.
Não há como voltar ou interromper o infausto cortejo
Nenhuma ação a dissipa
Nenhuma foice tem em seu gume o corte para tal cabeça.
A fúria da dor queima e destrói cada célula nervosa que encontra em seu percurso
E ao chegar no cérebro explode, pura como uma estrela que morre.

Tela de Yuriy Ibragimov - (1961) - Uzbequistão.
Sleepless - Óleo sobre tela.

Terê Oliva
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

FANTASIA



Harpias pousam ao redor sobre troncos de árvores caídas, pedras se acercam do rio e no rastro de lama do seu caminhar brotam flores que ele jamais houvera visto.
Está nu.
Não ousa perguntar ao ar que lhe arrepia os pelos onde está ou como lá chegou. Recorda-se apenas, num fiapo de nuvem da memória, o som da voz feminina que o guiou; tênue demais para ser ouvida acima do som da água em movimento ou do cair das folhas de outono .
Cristaliza-se no desconhecido, e por temer os demônios da noite segue o rio que se alarga formando um lago onde sentada à beira d'água, uma mulher em véus diáfanos canta.
Ele não entende uma palavra da canção entoada, mas a melodia cria uma atração irresistível, como se uma mão de prata tocasse seu peito e o arrastasse pelo coração para perto dela.

Imagina sonhar, porém ela é além dos sonhos. Cede à ousadia de um desejo que nem mesmo ele, músico e poeta, impregnado com os segredos da arte jamais vislumbrara sequer em delírios. 
Sua pele sob o céu noturno é uma promessa de fogo na noite fria. 
Ela se curva e mergulha a mão na água do lago, tal qual um pássaro ao pousar o voo, e expõe nesse movimento sem intenção a curva dos seios.
Seus cabelos a envolvem, castanho manto, e de alguma maneira ele percebe a armadilha, a rede onde ela o prenderá sem piedade ou retorno.
Mesmo distante pode ver seus olhos desafiadores. Um sorriso atinge-o como uma seta flamejante segundos antes que ela dispare pela floresta, arisca corça. Ele salta ao seu encalço nesse círculo de encantamento com uma vaga percepção da terra, espinhos, galhos de árvores a lhe arranhar o rosto, desconhecidos perfumes e texturas.
Ela brilha vegetação adentro, esconde-se, dança, gira e promete. Tal qual criança, espera que ele quase a toque para fugir novamente. No momento escolhido  deixa-se prender. Ele a abraça pela cintura e sente os bicos de seus seios endurecerem ao roçar seu peito. O cheiro dela, o mistério entre as árvores e bichos dissipa qualquer hesitação.
As mãos há tanto ansiosas, prendem-se em seus cabelos e deslizam pelas planícies do seu corpo. Demoram-se ao percorrer a extensão de suas coxas e flancos, descobrem grutas e rios, e sem mais controle, deitam-na no chão de folhas e restos de floresta.
Ela se amolda sob o peso dele que, vibrante, a encontra. Na luxúria da carne faz-se música.
Os murmúrios dos amantes galopam entre os desejos insatisfeitos do amor a retesar músculos e nervos. 
Seu frenesi acalma-se ante a posse consentida, e ele assim domado, dócil ao feitiço por ela irradiado, agarra-a pelos quadris num contraponto alucinante. 
Os corpos atingem o ritmo de uma canção no silêncio do mundo e tudo se aquieta, nenhum movimento ou som é percebido. 
Cada célula nele arqueja e ele enrijece como uma corda de violino. Trêmulo, sólido, lascivo.
A frequência atinge o agudo das estrelas e ele explode.

"The Nymph Salmacis and Hermaphroditus"
François-Joseph Navez - 1829/1869 - Pintor Belga.


Terê Oliva
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