terça-feira, 31 de maio de 2011

sábado, 28 de maio de 2011

IRMÃS SIAMESAS

   Atenção poetas e escritores! 
Os de verdade e aqueles que o julgam ser, os que apenas brincam, os que tentam, os que simplesmente rabiscam versos por dentro de si não contê-los...
   Não façam isso com as indefesas palavras; elas não tem pernas para fugir do papel e se esconderem até essa febre, esse modismo passar. 
   Deve ser estilo psicanalítico esse jeito moderno de pegar a pobre coitada e vesti-la com parênteses, tornando-a outra, novo vocábulo a revelar um conceito até então não existente. 
Já me contaram que Lacan assim muito escrevia, mas Lacan era genial e aos gênios tudo se permite. Idêntica liberdade e beleza se admira em Guimarães Rosa, que trançava suas palavas em uma originalidade que só a ele pertencia.
   Não passa de imitação ver destino e desatino se mesclando em des(a)tino. Significativas palavras que  grudam, irmãs siamesas para sempre no texto, ou esquizofrenicas em surto se tornam, gritando uma com a outra no espelho da página.
   Isso mais parece um Jogo de Palavras, e realmente não passa de um jogo, como esses que se imprimem nos jornais, onde com algumas letras, sem pular nem repetir, temos que formar o maior número possível de palavras. Divertida brincadeira com a qual já brinquei, mas desisti ao descobrir que nunca sairia vencedora, já que a solução com as inumeráveis palavras do jornal era obra de  computador.            
Covardia contra minha cabeça que consumia tempo e neurônios revirando do avesso meu vocabulário. Só quem vence computador é mestre enxadrista russo, e dos bons.
Como moda é questão de gosto e melancia no pescoço usa quem quer, permaneço alheia a esses modernismos sabendo que tudo vai passar, e logo ficará tão ultrapassado quanto rimar amor com dor.

                 Tela de Georgios  Iakovidis - (1853/1932)
                                               Pintor grego
                         'Girl Reading'  (1882)  Óleo  (60x45 cm)
                       
                                    Teresinha Oliveira
                                         Terê Oliva
                                              


quinta-feira, 26 de maio de 2011

AZUL

Despertei na maciez de um sonho lindo
Um sonho azul
Como azul era a paisagem que o inundava.

Eu era jovem ainda, com vestido de seda.
Envolvida em um abraço tão manso
Como o próprio sonho que sonhava.

Você era você.
Também jovem como o amor
No azul dos seus olhos que nunca esqueci.

Tela de James Jebusa Shannon - (1862/1923)
Pintor Ingês
In the Springtime - 1886 - Óleo ( 127x 101.6 cm)
Teresinha Oliveira

segunda-feira, 23 de maio de 2011

PARA CIÇA♥FRIEDRICH VON AMERLING

Friedrich Von Amerling (1803/1887) Pintor Austríaco.


JOANNA CHROBAK - TALENTO E FANTASIA.


Encantei-me com essa nova amiga, a pintora polonesa- Joanna Chrobak- por isso desejo apresentá-la a vocês.
Meu conhecimento sobre arte é ínfimo, e o valor de uma pintura para mim é determinado pelo simples gostar ou desgostar. Como pelas suas obras me apaixonei,  e por não podê-las pendurar em minhas paredes, penduro-as aqui, onde posso admirá-las quando desejar.

VASSOURA DE PIAÇAVA.


Nasceu bonito, não há como abandonar as penas de coruja. Parecia querubim, tal qual pintores famosos sem ideias novas copiavam uns dos outros, e assim, de tanto gastar tinta criaram o esteriótipo: louro, gorducho, rosado.
Faltavam as asas por ser gente de verdade, e sem poder voar, caiu. Caiu lá em casa de surpresa, sem ninguém mais olhar para o céu esperando, pois lá já moravam dois, par perfeito que tinha perdido as asas nesse vai -e- vem de dias que esticam as crianças e enlouquecem a mãe.
Mas se houve o susto do berço ocupado também logo recrudesceu o amor, porque qualquer bebê é um ser facilmente amável; sábia armadilha da natureza que zela por suas criaturas. Não há como escapar dessa emoção. Até com bicho é assim .
Para andar foi um passo, a engatinhar logo se pôs e aí os problemas realmente começaram. A saudável criança, entre papinhas e frutas, elegeu como prato favorito as vassouras de piaçava. Não se podia esquecer nenhuma ao leu, pela casa ou quintal, que ele a descobria e lá ia chupá-la até sangrar os lábios.
Pode parecer aos incautos que tal problema é fácil de resolver, mas a realidade assim não se mostrou, porque vassoura é coisa diária e passeia por todo lado. Além disso, não se contentava o pequeno com os sabores domésticos, as piaçavas das casas alheias, de parentes e amigos eram igualmente apreciadas. Parecia ter radar esse menino, pois captava seu movimento e cheiro ao longe e para ela partia à menor distração de quem estivesse por perto a contê-lo.
Custou a passar a mania, mas para algo de bom creio que serviu. Cresceu forte e alto o moleque, como as piaçabeiras, palmeiras de onde se extraem as fibras para fazer as piaçabas das vassouras.
De tanto comer lixo, desenvolveu o paladar para vinhos e requintada culinária, onde arroz e feijão não integram seu cardápio.


Tela de Friedrich Von Amerling - (1803/1887)
Pintor Austríaco.
Teresinha Oliveira.




ALLEGRO.

Num descuido do Senhor do tempo
Átimo de segundo
Os olhares se desencontram.
Se esvai no peso das horas o toque
O abraço.
Se rompe o lacre da promessa carnal
A conjunção perfeita dos corpos
Onde a penetração seria
Como o allegro de uma sinfonia.

Glórias
Juras de amor ante deuses pagãos
Na volúpia dos sentidos nus
Desperdiçadas pelos corpos dos duelistas cegos.

Tela de Henri Lebasque  (1851/1933)
Pintor Francês
Teresinha Oliveira.


domingo, 22 de maio de 2011

ESPERTA MEMÓRIA.


Escrevo tantas tolices...
Nem todas que penso entretanto
Se não espantaria até a mim mesma
Tola pensante, tamanho manancial.
Muitas na memória esquecidas
Me salvam, esperta memória
De muitas mais escrever.


Tela de Rafal Olbinski
Teresinha Oliveira

VIDA DESAFINADA.

Tudo está bem !
Conforme sempre esteve...
Como nunca esteve bem de verdade.

Ainda no mesmo ritmo
Os dias desfilam
Sua banda desafinada

Com esperança do destino
De repente, encontrar um jeito
Da canção harmonizar.

Tela de Alex Lashkevich - Pintor Russo
Teresinha Oliveira.

FLORA.



Desejo, louca de mente sã, ou quase assim tanto
Num cataclismo de células, lampejo de emoção crua
Criar em mim floresta, ou uma ter só para mim.
O silêncio das plantas, das imóveis árvores caladas
Sequoias dos abraços imensos, de botânica eterna vida
Cedros, baobás, gordos de musgo e ninhos
Mulungus com galhos no chão, pesados de flores.

Sentadas todas elas a me cercar vegetal irmã
Valetes da dama que inveja majestosa existência.
Consciência apagada, vestal núpcias com o solo negro
Só bruta seiva em prol da vida circulando.
Talvez exótica orquídea, samambaia
Simples erva em chão disseminada, sem som, estática
Química essência de sol e água e terra.

Nesse domínio de harmonioso langor
Crio raízes numa nesga qualquer de verde
E ali permaneço, alheia a tudo do reino além.

Ilustração de Helena Nelson Reed.
Teresinha Oliveira - 1995.