sexta-feira, 12 de agosto de 2011

ARQUEIRO


Não roubem as flechas.
Não quebrem o arco.
Não escondam o alvo.
Eu só preciso de uma chance.


Tela de Konstantin Somov - (1869/1939)
Pintor e Ilustrador Russo.

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com.br

LYGIA ♥

Lygia.
Será que terei a benção da vida para te seguir pelo tempo até o abandono das bonecas?
Até a doação dos brinquedos, sem lágrimas, que transbordam dos baús?
Até a escolha da profissão, que agora oscila como a gangorra da pracinha: quando sobe, bailarina; quando desce, médica de bichinhos; quando sobe, cantora... E sempre mais e mais alguma, que no momento da brincadeira descobres?
Até pisares firme, sem estremecimentos na corda bamba do futuro, onde na imaginação do circo, tropeças e rolas pelo chão diante da amorosa platéia que aplaude e pede bis?
Até pulares vitoriosa sobre os inevitáveis obstáculos, mestre em saltos desde o pula-pula da infância?
Até falares inglês, francês, quiçá mandarim, sem o blá-blá-blá maluco que finges ser outra língua, e tanto nos diverte?
Até dirigires teu próprio carro, sem medo dos guardas fictícios que te convencem a sentar no banco de trás?
Até comeres espinafre, carne-moída e agrião?
Até beberes vinho à vontade, na bojuda e alta taça que preferes, sem o roubo dos golinhos nos copos alheios?
Até usares salto-alto e roupas elegantes que te deixem bonita de verdade; não essa mambembe figurinha que desfila pela casa após devastar o guarda-roupa da avó?
Até as bolinhas coloridas da piscina enfeitarem teu encontro, linda Barbie-Princesa, com o Príncipe matador de dragões que te acordará para o amor como tantas e tantas vezes te acordei, com um beijo na face?


Tela de John Callcott Horsley - (1817/1903)
Pintor Inglês.

Terê Oliva
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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

MÁGOAS MOFADAS

Também amadurece a dor.
Com um pouco de sorte, cai do pé como manga madura e perde
A juventude e a rebeldia dos tempos primeiros
Onde gritava aos quatro ventos, despudorada, sua extensão e motivo.

Sem que ninguém perceba por ser tímido esse contentamento ligeiro
Senta-se o ser sofrido onde possível for, numa cadeira de balanço
Talvez num pedaço quebrado de muro do quintal e
Ali tece as mágoas mofadas.

Ou, dependendo do gosto e desgosto 
Casa retalhos de tecido, trabalhando as mãos
Com essa angústia grudenta que ali
 Nem tanto se sabe mais.

Emenda pedaços de uma nova vida
Com fios de linha que se cruzam no destino que a agulha risca
Ao desenhar novas imagens que levam para longe
A dor que de tão usada, definhou.


Tela de Theodore Robinson - (1852/1896) - Pintor Americano

Terê Oliva
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ÁRDUA TAREFA

" A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova."
Fernando Pessoa - O Livro do Desassossego.

Ora, pois pois... Meu caro e amadíssimo Fernando  
Que tanto da vida me conta e muito de mim escreve sem nem o saber
Onde encontro material para enchê-la?
Tijolos, amores...
Porque a minha, pobrezinha
Anda rota e vazia como um balão sem ar.


"Soap Bubles" - Ferdinand du Puigaudeau - (1864/1930)
Pintor Francês

Terê Oliva
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FRONTEIRAS À ALMA

" Conhece alguém as fronteiras à sua alma para que possa dizer- eu sou eu?"
Fernando Pessoa - O Livro do Desassossego.

Fronteiras, garras, neblinas, desejos...
Enigmas que a alma abraçam e tolhem.
Muitos a dissipam, porém com eles bem convivo
No hábito da companhia.

As cercanias que a limitam são fortes e intransponíveis
Prendem lá dentro bocados de mim
Mas de que substância são  feitos
Lá isso não sei.

Tela de Max Nonnenbruch - 1857/1922
Pintor Alemão.

Terê Oliva

terça-feira, 9 de agosto de 2011

VÍRGULA

"Quando completei 15 anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto e vírgula! Nunca fiquei tão impressionado em minha vida." - Mário Quintana - (1906/1994)

Eu também, meu doce Mário, tenho uma vírgula inesquecível em minha vida. Sem ponto, mas tal detalhe não a despe de significado nas recordações que dela carrego.
Lá ía a garotinha com a mãe pelas ruas corriqueiras, sem entender bem o porquê e o para que, mas a mão na sua lhe dava confiança, e a voz que grunhia missões e conselhos não calava. 
-Fazer a primeira prova de sua vida e entrar na sua primeira escola-.
Sabe ler e escrever? Sim! Sim não basta. Tem que provar! Tal qual digital em carteira de identidade ou assinatura em cartório. Palavra de honra ou juramento de mãe não convence, nem mesmo chamando Deus como testemunha ocular.
Assim, sem nada a temer por pouco compreender, e por ter pressa em voltar para casa, viu-se a menininha frente a frente à sua inimiga, uma folha em branco.
Armada apenas com seu lápis de ponta fininha, uma borracha e o que guardava na cachola das aulas maternas, ouviu a professora feiosa começar quase a cantar, irritantemente lerda: "Ditado!"  É para escrever ditado? "Sim, escreva." Respondeu num muxoxo.  A menininha escreveu. E seguiu escrevendo, sem indecisão ou pausa ou pensamento outro além do escrever.
"Vírgula!" Vírgula? Que palavra é essa? O que é isso?
Estava tudo tão fácil, tão certinho...
Na dúvida, e sem atrevimento de perguntar, escreveu a palavra vírgula no cantinho da margem,e até acento coloca, pois percebera o grito em cima do i.
   A professora, antes só feiosa mas agora também chata, repete todo o ditado, arrastando cada palavra como se fosse um pesado saco de areia. Lá continua a tal vírgula, encostadinha na margem.
      Cem no ditado! Naquele tempo ainda não existia o Dez, nota Dez! Era cem mesmo. Apesar de muito maior e rico de zero, não causa tanto impacto e emoção quanto os dez de hoje. Mas era o máximo que se podia alcançar. 
Como matemática e gramática nunca foram grandes amigas mesmo, essa dicotomia não é de se estranhar.
Assim entrou a menininha na escola, ainda faltando um aniversário para entrar. O orgulho da família pouco durou, e esse ano de vantagem logo se diluiu na repetência futura, quando já era íntima da vírgula, e não podia acusá-la de nada.
Até hoje não gosta dela, intrometida demais que trava o pensamento e a frase. Tanta pausa é para quem precisa de tempo para pensar e entender. Para àqueles que seguem as corredeiras da história, a danada é como pedra no caminho.
Hoje a menininha somente a usa quando dela não consegue escapar. Se alguém na trama se perdeu, espere o desenlace chegar sentado num cantinho.



Tela de Johann Georg Meyer Von Bremen - (1831/1886)
Pintor Alemão

Teresinha Oliveira
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BARALHO

Posso ou não posso?
Devo ou não devo?
Se quero ou não é outro problema
O crucial deles todos.
Ser ou não ser nem Shakespeare escolheu.

Logo então, meus amigos
Nada por ora me perguntem
Sobre amor antigo ou novo.

Porque não eu
Que nem de mim nada sei
Decidirei tal questão.

Deixo à sorte tal tarefa
Da qual, covarde e trêmula
Me esquivo.


Tela de Clude Verlinde - Contemporâneo
'La Marchande d'Ilusions'
Pintor Francês

Terê Oliva


SEDUÇÃO

Vem.
Caminha comigo
Nas brumas do vale
De paz todo claro
Com mãos em laços
De fitas azuis, rosas, pálidas.
Cores imaginárias
A nos enredar
Em fios benditos
Natureza viva.

Dos bichos a seda
Lençol do primeiro amor.
Plantação de algodão
Nossa alma colhe
Flores, sementes
Fiapos, em dedos urdidos 
Tecida nudez.
Lã de carneiro tosada
Borda tapete  
Onde um mais um somam um.

Motivos de amar
Ocultos
Nas brumas do vale.


Tela de Mary Ellen Staples - (1846/1928)
Pintora Americana.

Terê Oliva
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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

VENTOS FEBRIS

Ver criança doente dói mais no peito que amor enlutado.
Dele se escapa, mesmo náufrago que nadar não sabe
Na esperteza dos anos somados, no casco forte das costas e do barco
Com braço firme e remo longo para outros portos se desvia.

A criança, anjo passarinho de olhos tristes e asa quebrada
Sem barco, sem remo, ao nosso amor confiada e nele confiante
Lânguida no leito sossega, momento raro que assusta
Ao gemer dor aqui e dor ali, dor de injeção, dor de medo do que virá.

O cheiro dos remédios é mais um caco no mosaico de angústias
Que se espalha no ar pelo quarto
Pela casa, fechada com temor dos ventos febris.

Nada a fazer, além do tudo já feito.
Calor medido, oração recitada com fé que nem se sabia tamanha
Oculta na rotina e na língua, mesmo assim guardada para tal precisão.

Carinho desdobrado em levíssimos lençóis e fronhas
Brancos, para recender saúde. Histórias contadas sem fim.
Banho, nem frio nem morno, jamais correto. Difícil acertar graus alheios.

Depois da espera que a vida ensina, mas ninguém aprende
Porque paciência não tem ensinamento que grude
O sol aparece e amaina a dor, e aquece o sorriso e traz a fome.

A avezinha, com algumas penas perdidas, estica as asas e as pernas bambas
E com intenção de vôo  nas faces coradas
Diz que quer brincar.

Tela de Charles Burton Barber - (1845/1894) - Pintor Inglês.

Terê Oliva
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domingo, 7 de agosto de 2011

VIOLETAS


As violetas, da mesma cor da cortina floridas
Permanecem  quietas no vaso de barro rachado
Sem exuberância ou beleza que a sala enfeite.

Fazem parte da música
Que minha alma em melancolia esqueceu
No silêncio que agora a casa cerca.

Tela de Grigory Chainikov - (1960/2008)
Pintor Russo

Terê Oliva
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