domingo, 30 de junho de 2013

FÁCIL COMO RIMAR AMOR COM CÉUS AZUIS


Eu desisto.
Abandono na ardência do meu íntimo as questões que não posso adoçar
Com poesia de rimas e palavras de láudano.
Versos azuis de céu que não me cobre.
Não mais escrevo
Nem divido poemas com quem falta a cáustica arrogância para perceber
Que amor é tema pobre que na juventude morre, por sem força para além  sobreviver.

Esse amor que nas sombras da tinta se mostra um titã
Ao percorrer páginas e mais páginas que deleitam aos incautos
Com a fragrância das flores moribundas e a eternidade de horas findas
Não convence a ninguém que nos teares da poesia
Engolfa-se nos gestos inúteis da sua dor descabida.

Tentei as rimas pobres, os vocábulos mansos que tanto agradam a gregos e troianos
A cremosidade desse mingau que é servido com sabor inalterado a cada estrofe
Variado apenas no pó da canela ou nas colheradas de açúcar.
Fracassei, perdida nesse mar brando que não me desafia os músculos
Não me lava nem me apoquenta o espírito.

Sem tal, meus grafites se quebram como gravetos no vendaval e os papéis nele voam como aves assustadas.
Perco o sólido da matéria e a fímbria do motivo. 
A mão murcha e se esconde no meu bolso furado.

Tela de Julius Viktor Berger - 1850/1902 - Pintor Austríaco.

Terê Oliva

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domingo, 23 de junho de 2013

O SILÊNCIO DE ANA

Psiu...
Ana Maria está dormindo.
Não acordará mais entre nós.
Partiu sem alardes, sem despedidas, sem nada a dizer
Porque tudo já fora dito na alegria de sua palavra e gesto.
Saiu de mansinho da nossa vida para despertar nos vales do céu
Onde tantos a esperam com abraços de saudade.

Voe, Ana.
Siga etérea por esse novo caminho de luz sem olhar para trás.
Leve nosso beijo e o guarde na alma
Até o tempo do nosso reencontro.


Terê Oliva.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O VENDEDOR

Uma beleza de estampilha amolda o rosto do jovem que dobra camisas
Na loja decadente da rua de baixo.
Ele dissolve-se nas velhas prateleiras abarrotadas de roupas masculinas de mau gosto.
Sua face de esculturais traços é desumana.
O humano é imperfeito, não comporta o êxtase que esse olhar azul instiga
Nem os pelos da sombra de barba que definem seu maxilar quadrado.
Pobre moço pobre que incrusta sua virilidade entre as paredes mortas que o cercam e dizimam.

Viro-me e saio da loja como quem abandona um amigo à própria sorte.
.
Tela de Pablo Picasso - 1881/1973 - Pintor Espanhol.
Terê Oliva

PONTO ZERO

Recolho-me ao meu quarto de poucos metros e muitas histórias.
Nessa quietude azul de cortina fechada
Imagino se meus pensamentos não contém
A cerne de milhares de pensamentos daqueles que
No alvoroço das rotinas escapam dessa angústia de viver
Curvando-se à monotonia do destino, aos sonhos improváveis.
Nessas horas vivo minha humanidade em plenitude.
Cada célula pulsa como se Deus se aproximasse
Arrastando seus mistérios.
Pouco dura esse frenesi religioso que mais parece uma oração sem palavras.
A razão do olho aberto logo recompõe essa fluidez corpórea
Tudo de novo se materializa e amplia o sólido palpável e incompreensível.
Fico de pé e tonta, recomeço do ponto zero.

"An Evening Home"
Tela de Edward John Poynter - 1836/1919

Pintor Inglês.

Terê Oliva

sexta-feira, 24 de maio de 2013

MITOLOGIA ÍNTIMA


Minha mitologia íntima contém muitos deuses.
Nem em todos creio, porém não alijo a nenhum
Por medo da geometria do abismo.
A alma me é cara e meu corpo frágil, afeito às chibatas.
Nas minhas valsas entre absurdos credos perco-me
Escuridão de cego que tateia mas não define o que os dedos alisam.
Em meus próprios calcanhares tropeço e não ouso afiançar uma fé que não convence
Minhas personas que embaralham-se nos céus desabitados 
Sobre continente e cores, Áfricas negras de tambores
Gordos amarelos, monocórdios mantras.

A banalidade de tais questões me enjoa e a cada pé que beijo, duvido.
Nessas horas invejo os ateus convictos.

Telas de Adolphe William Bouguereau - 1825/1905
Pintor Francês.

Terê Oliva

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domingo, 12 de maio de 2013

DIA DAS MÃES

"Louisa Hammond"
Tela de Maria Anna Catharina Angelika Kauffmann - 1741/1807
Pintora Suíça.

Meus pensamentos se espalham sobre a mesa.
Em cada veio do mogno, em cada reentrância de nó coagulam.
São tentáculos de um polvo demente que escapa do meu domínio para abissais profundezas sem retorno.
Não se ligam a mim, não são mais substância da mulher que tateia a invisibilidade das palavras.

Perco as chaves do portão do jardim onde desejava descansar nesse domingo
O banco, as flores involuntárias, o cheiro de jasmim, o abacateiro
Desaparecem nessa névoa que cinge as boas intenções do recado que escreveria.

Hoje as mães se regozijam.
Dia escolhido para homenagens, perdoáveis exageros, auréolas, bulas de santidade.
A minha, sábia, escondeu-se arrastando a minha infância para debaixo da grande mesa
Onde a poesia me deixou falando sozinha.
Tela de Hans Buchmann - 1852/1917
Terê Oliva

sábado, 11 de maio de 2013

PAISAGENS

Tela de Viktor Vasnetsov - 1848/1926
Pintor Russo.


Só a ideia de viajar me entedia
Nada há a ver lá fora que cá dentro já não tenha visto
Ou desejado ver.
Minha Rosa nunca se abriu e meus cardeais não ultrapassam uma folha de papel
Tal me basta como trilho e navio, como céu de passarinho sem fôlego.
Lugares longínquos não me seduzem por serem anônimos  
Nada existe de interessante onde faltam paisagens
As minhas são perto, cada qual a contar uma história
 A memória nelas se deleita, num quebrar pueril de esquina
Na persistência do calcanhar que racha nas ruas já mortas
Lugares perdidos no tempo concreto, pulsantes e vívidos no abstrato.
Quando atravessa vielas de contemplação, minhas ânsias de movimento se esgotam
Levadas pelo vento que arde no silêncio da noite que cai.

Ao longe um barulho de mar, cães ladram na espuma
Paris adquire um sabor íntimo de irrealidade.

Tela de James Sant - 1820/1916
Pintor Britânico.

Terê Oliva

quinta-feira, 9 de maio de 2013

MULHERES CARIOCAS ♀ MARIA TERESA

Tela de Charles Dwyer ( Nasc.1961)
Pintor Americano Contemporâneo.

Maria Teresa se foi. 

Foi para perto, casa de mãe onde sempre cabe filho e quem mais ele gerou.
Demorou anos exilando os motivos, porém numa ousadia que não era de seus feitios, descerrou os olhos verdes que tudo viam, mas que atrás de si mesmos ocultavam as paredes carcomidas do que julgava lar e há muito não era.
Como é próprio de toda mulher ao perceber amor minguado, exibiu-se na transparência da camisola, espargiu fragrância onde queria beijo, enfeitou quarto e seios com flor e renda, estourou o champanhe preferido, abriu janelas para a noite e para o amor entrar.
Depois de tanto feito e perfeito, esperou. E esperou...
Seu homem distraído nem percebeu as amorosas minúcias, preso nas esquinas da fuga que diante da paixão perdida, nem a ele mesmo se revelava.
Quando chegou, bebeu o vinho, mal falou e nada escutou.
Maria Teresa partiu com mala e cuia, arrastando criança pela mão; porém, como amor é bicho matreiro que onde perde perna cria outra, voltou depressa com promessa de vida nova e amor antigo.
Mirar o fim, face a face, Maria Teresa não queria. 

Reconstruir demora, dá calo na mão e dor nas costas, e empilhar tijolos no fio exige paciência que ela sabia esgotada. Melhor perambular estática nos caminhos conhecidos do que dar passo em falso e quebrar tornozelo no buraco fundo que se abria à frente. Mascarar o fracasso é menos sofrido que revirar emoções com lupa e olhar de agulha.
Não sabia onde começara o fim porque fim é assim mesmo, espera agachado na treva que resta e bem se esconde até o raio do impossível lhe iluminar o esconderijo. 

Ela o percebera nas miudezas da rotina fria, nos beijos mortos e no sexo corrompido, porém tanto lhe doía tocar-lhe a face que preferia cruzar os braços e abrir as pernas.
Num romper de dia afinal, quitou o passado com moedas de ouro e desistiu.
Entregou os pontos, cada um que cosera à beira das lágrimas nessa colcha de promessas que puíram nos desacertos da esperança. 
Partiu sem eira nem beira, agarrada nas coragens das próprias saias. 
Foi atrás da manhã de dia seguinte ansiando pela mulher que fora, antes de enjaulada na sensação de asfixia, de cansaço dormindo nos afagos do sempre.
Assim quem sabe a outra, ela agora, pudesse escrever poesia.
Tela de Malcolm Lipke - Nasc.1953
Pintor Americano Contemporâneo.

Terê Oliva

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quarta-feira, 8 de maio de 2013

O HOMEM DO BOTEQUIM

Tela de Bronnikov Fedor Andreevich - 1827/1902
Pintor Russo.


Tomava café no botequim da esquina o homem de educação elegante.
Parecia pertencer a uma geração que herdou os rapapés de antepassados
Enricados numa vida de luvas e polainas.
No redemoinho de olhares que sua presença provocava
Havia um espanto silencioso ante sua inadequada figura
Naquele salão de café com leite e pão com manteiga.
A manhã fria que, antes que comece o dia, começa em nós o inverno
Mantém a todos num mortiço calor de curiosidade.
Tinha ele uma tristeza no gesto que chamava atenção.
Não dessas tristezas comuns que carregamos às costas
Todos nós, meio corcundas nas árias negras de nossos enganos.
Era um desconsolo de pormenores, filtrado pela ternura da solidão.
Em mim, a imaginação que em seus relâmpagos ultrapassa

Os limites do provável, até mesmo do meramente possível
Logo se pôs a pensar nos solavancos da vida de tão belo homem.
Nesse carrossel de hipóteses fiquei tonta, absorvida por uma dor que não era minha.
À minha, dei um requintado excesso para que assim, tão funda
Parecesse irreal e menos doesse no exagero.
Nesses irrequietos pensamentos de compreender o que na verdade não poderia
Surge uma dúvida entre o último gole de café e o cigarro:
Éramos dois sujeitos, ou simplesmente duas formas distintas de um?

Tela de George Dmitriev - Nasc. 1957
Pintor Russo.


Terê Oliva

domingo, 5 de maio de 2013

O FASCÍNIO DO NÃO SABIDO


Minha ignorância me fascina e de mim acerca-se
A cada passo novo no que dou.
A angústia que tal me causaria se dela tentasse fugir é de menor importância
Entretanto, se pavoneia no meu espírito com a cauda da sabedoria

Essa verdade que não posso negar.
Se tal me castiga, também me elucida.
Meus sentidos plebeus me bastam para o que não sei, intuir

Aquilo que não intuo permanece no escuro e mais não posso fazer.
Reconheço em mim mesma um fosso de causas perdidas.

Humilde, desfiro um golpe oblíquo nos meus pensares.
Como imaginar não exige saber
Ponho-me a vagar por outras províncias.

"Artist's Studio - The Critic" (1840)
Alfred Jacob Miller - 1810/1874

Pintor Americano.

Terê Oliva