sábado, 25 de fevereiro de 2012

SAPATINHOS DE TRICÔ.

Promessa para santo é coisa séria, e depois que a alma profere só há o curso de cumprir.
Se existiu exagero na pena, nenhum joelho sangrando justifica a desistência da escadaria longa.
Jurou, tem que cumprir.
Promessa para santo é tal e qual promessa para criança.
Nada mais insuportável que criança chorosa e pedinte do que afinal tem pleno direito de ganhar.
Como os elefantes, elas também não esquecem; e se frustradas, carregam a dádiva negada vida a fora. Punhal desembainhado contra o ingênuo que a troco de tão pouco se condenou ao queixume perpétuo.
Irene, por tudo isso saber e concordar, mantém os dedos sempre ocupados a tecer, apesar dos olhos gastos nos oitenta e mais anos de vida.
Tricota sapatinhos de bebê para as mães pobres sem tino, que os geram mais rápido do que os dedos de Irene conseguem criar.
Meia, tricô, meia, tricô... Ao infinito as agulhas cruzam e a lã fina volteia. Vez ou outra, numa virtuose de mestre agulheira, tenta pontos novos. 

Meia, meia e volta, tricô, tricô e volta, meia...
Escapa assim do tédio a caridade de Irene.
Quando dezenas lotam a caixa onde com capricho os guarda, lapida a cada um com fitinhas coloridas e buquês de flores minúsculas.
Missão finda ante os olhos piedosos de Nossa Senhora, de São Bento, de São Pedro, ou outro dos tantos que seus amigos se tornaram no viço da fé.
Porém mal pago o ônus, nova angústia logo surge.
Tricô, meia, tricô, meia, tricô...


Tela de Otto Piltz - (1846/1910)
Pintor Alemão.

♥ Para minha Tia Irene.

Teresinha Oliveira.

Um comentário:

Ana Cecília disse...

Já posso me gabar por ter sido contemplada com um dos sapatinhos de Irene. Mais ainda, com este poema, tecitura de lirismo e lã. Tornou minha tarde mais delicada.