quinta-feira, 24 de maio de 2012

AS FADAS DO SEU RENATO 2

Já contei a todos.
Se ainda não sabes, ouças com olho bem aberto
Porque história assim, embrulhada em presente
Não se imprime em livro
Embora bem se pudesse, para as crianças
E sonhadores, que no impossível não creem.

Meu vizinho, da florida casa na esquina
Morreu sozinho sem se saber de quê.
Foi-se embora, com uma paz tão larga no rosto
Que suscitou versões das mais variadas entre aqueles
Que vivem atrás das cortinas zelando pela vida alheia.
Talvez porque as suas pouco existam, e os fragmentos
Da rotina encardida não mereçam cuidados.


Sob as rochas que despencaram agridoces da morte
 Morreu o velho Renato, sorrindo leite e mel
Por escárnio aos descrentes e testemunho de pés juntos
Das fadas que a cada nova primavera
Surgiam em seu jardim e com ele conversavam.


Assim ficou ele sabendo, ouvinte de orelhas bem lavadas 
Sentado na terra úmida, em onírica manhã 
Os mistérios dessa aparição.
Vinham aos bandos com função de agulha e linha
Costurar vestidos novos com as pétalas das flores recém-nascidas.
Se sobrasse tempo, e capricho em dedos mais hábeis
Debruavam golas, punhos, bainhas, decotes
Com fitas verdes, tricotadas com finíssimas lãs de grama.
Só depois de prontas partiam, deixando beijos no até breve.
Para onde iam todas belas de roupa nova
Mantinham em segredo.
Só revelaram, em seus murmúrios de amêndoa doce
Que carregavam para o céu dos destinos
Os sonhos e desejos de todos nós.




Telas de Franz Dvorak - (1862/1927)
Pintor Húngaro.


Terê Oliva.








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