domingo, 13 de maio de 2012

O BARCO DO WILLIAM.

Já contei sobre um tempo de sol, quando água do mar me corria nas veias e  eu nele mergulhava meus sonhos e risos.
Porém, na 'Pedra de Itapuca', me faltou espaço e talento para tanta história. Temi que os textos se embolassem nas areias de Icaraí, e lá perdessem o sabor, como bifes à milanesa sem sal. Também a graça particular se permanecessem juntos, na mesma página dessa contadora de histórias sem maiores dons.
Então, para quem já leu 'Itapuca', emendo agora uma segunda parte. Para quem não leu, que entre agora nesse barco, porque para quem de nada sabe ainda, pouca diferença fará.
Fomos chegando na praia cedinho, um a um nos tornando muitos. A turma que nas férias diariamente ali se reunia não desejava nada além do que estar junto. Conversar, arriscar os primeiros olhares de amor, com sorte ganhar um beijo na boca, reclamar do pai que não deixava namorar, marcar o cinema para o dia seguinte, contar um segredo para o melhor amigo... 

Tanto e nada ali nos mantinha.
Entretanto, aquele sábado de verão logo se tornaria inesquecível para muitos de nós. 
William, um americano alto e bonito, sucesso entre as garotas apesar do seu jeito bobão, já nos esperava no ponto de encontro ao lado de um barco. Barco que seu pai, ante os suplicantes pedidos do filho, resolvera nos emprestar. Isso nos contou com um olhar vaidoso de rico proprietário, que favorece aos humildes quando com eles divide seu mais precioso bem. 
Barco é eufemismo para descrever o bote velho, outrora branco, com seus dois remos rachados.
Mas qual! Para nós, um bando de jovenzinhos eufóricos que o empurraram a duras penas para a água, era o mais lindo veleiro do mundo. Nossa única dúvida era escolher quem ficaria de fora do passeio marítimo, pois era claro que não havia espaço para todos. Um dos remos seria do William, merecedor da honra por ser filho do dono do mesmo. O outro, decidiu-se em meio a muita confusão, caberia aos braços fortes do Pardal, o mais velho do grupo.
Eu, aproveitando-me do quem vai quem fica, subi no barco, sentei no fundo e por lá fiquei, com a máscara dos inocentes. Logo lotou. Mal havia espaço para tantas pernas e gargalhadas.
Lá fomos nós, levados pela correnteza e pelos remos que tentavam  nos direcionar à Praia da Flexas. -Com X mesmo!- Continuamos indo, e indo, e indo... Cada vez mais longe da praia, sem outra direção a não ser o longe.
Nossos fortes remadores mostraram total incompetência para a função, e mais apavorados ficaram quando o bote, pesado de tanta gente, começou a fazer água. E agora? Eu falei que tinha gente demais. Esse barco é uma porcaria. Não fala assim do meu barco. Não é seu, é do seu pai. Bem que eu não queria vir. Se não queria, por que veio? Agora só falta chover. Não fala isso que dá azar. Falar azar é que dá azar. Calma, gente! Tubarão! Quem foi o idiota que falou em tubarão? Em Icaraí não tem tubarão, só tatuí, e na areia. Gritar não adianta, ninguém vai escutar, chorar também não... 
Tal cenário pode parecer exagerado, mas tal qual se deu. Ou um pouco menos ou um pouco mais.
Um achou ser menos arriscado voltar a nado para a praia do que permanecer no barco naufragante e pulou na água. Outro o seguiu. Um casalzinho de namorados voltou nadando lado a lado. Eu, medi a distância e o medo, e também mergulhei. Logo formávamos um grande grupo nadando de volta à segurança da areia.
Tá certo que todos nós éramos ótimos nadadores, criados ali à beira d'água, no mar que era nossa casa. Jovens saudáveis com pernas e braços fortes, mas assim mesmo, hoje penso que a distância não deveria ser tamanha quanto a que me recordo. Tal qual o casarão de infância, que visitado na maturidade parece muito menor.
Os meninos, sem o excessivo peso, conseguiram trazer o barquinho de volta, mesmo com os remos rachados e o fundo com um palmo de mar.
William é que desapareceu. Nunca mais foi visto por ali.
Deve estar de castigo até hoje por ter roubado o barco do pai.






Telas de Fred Calleri - (1964)
Pintor e Ilustrador Americano.


Terê Oliva.






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