terça-feira, 3 de abril de 2012

LABAREDAS NO CIRCO.

Não gosto dos circos, desde criança parei de gostar.
Muito medo conservo até hoje ao ver a frágil estrutura que montam para apresentar o grande, sempre é grande, espetáculo.
Se há, e inegavelmente há, poesia e fantasia no rés do chão, nas cores, luzes, palhaços, equilibristas e artistas outros, também persiste a preocupante insegurança a que se expõe o respeitável público.
Isso tudo conto, pelas memórias que carrego do grande incêndio no circo em Niterói, no ano exato que não lembro, mas pela década dos 60 acontecido.
Menina, escapei por pouco. Por sorte, destino ou dádiva divina. 
Por um triz me safei.
 Já com os ingressos comprados na carteira de meu pai, desistiu o velho de nos levar ao perceber a febrícula que esquentava meu irmão caçula.
Creio que nunca odiei tanto a outro ser humano, aos dois na verdade. Pai e filho. Chorei, bati pé, fiz promessa de muito estudar, aprendi a ver a coluna de mercúrio no termômetro que a cada 5 minutos colocava sob o braço magrelo do Filipe, mas qual... Nem a febre cedia, nem meu pai mudava de ideia, nem eu parava de chorar.
Amuada, vi meus coleguinhas de escola passando saltitantes sob a janela do meu apartamento em Icaraí, a chamar meu nome:
- " Tere, Tere, já estamos indo para o Circo. Você não vai?" 
- "Meu pai não deixou. Meu irmão está com febre."
" Que  #+/@*& !" O palavrão creio estar inventando, porque naquele tempo não o dizíamos, não assim abertamente numa janela alta para quem quisesse ouvir, pois era cascudo na certa. Cascudo doía e lembrava sempre do que não fazer.
Algum tempo depois, uma hora ou duas, a desgraça tomou conta da cidade, do bairro, da rua. 
O Circo pegou fogo! O Circo pegou fogo!
Pessoas passavam correndo, num vai e vem histérico, gritando.
O Circo pegou fogo! O Circo pegou fogo!
Do centro da cidade, os raios das labaredas atingiram a todos.
Lençóis...Precisamos de lençóis, colchonetes, travesseiros!
Gelo... Façam gelo. Mais gelo! Mais gelo! Mais Gelo!
Os carros não paravam de circular com pessoas pedindo doações.
Do gelo nunca esqueci, até porque não entendia sua necessidade tão fremente. O rosto da moça que o recolheu no edifício inteiro ainda conservo na memória. -"Faz mais, faz mais"! Como se nossa geladeira disso fosse capaz nesse tempo urgente.
O telefone começou a tocar sem parar ..."Pergunta a Tere se ela viu a Verinha"... Não, não viu. Não! Nós não fomos ao Circo... "O Renato?"... Também não viu.
Vi sim. Renato foi um dos que passaram sob minha janela me chamando. Meu namorado. Aquele namorado que eu sempre nomeava quando alguma velhinha chata perguntava: -"Tão bonita...Já tem namorado?" Já. O Renato.
Hoje, sou eu a velhinha chata que a mesma pergunta faz às meninas.
Renato nunca mais vi. Morreu. Uns disseram que queimado, outros que pisoteado pelo elefante que escapou enlouquecido e a muitos matou, mas a tantos outros salvou ao romper um pedaço da lona por onde fugiram do inferno.
Histórias e mais histórias. Boatos. Dramas reais nas carteiras vazias da escola. Na ausência dos homenageados no Dia dos Pais e das Mães. Nas enrugadas cicatrizes dos colegas para as quais as professoras pediam silêncio e logo explicavam. "Psiu...Foi no circo."
Nós, crianças, respeitávamos a simples menção à palavra circo, como se seus sobreviventes fossem os nossos heróis. Nada lhes era perguntado, embora a curiosidade roesse nossa infância. 
É verdade que os grandes animais que fugiram, inclusive tigres e leões, atacaram as pessoas? O domador morreu mesmo ao tentar contê-los? Onde você estava sentado quando a lona em chamas caiu sobre o picadeiro? E o elefante?
O Circo, do qual numa rasante da sorte escapamos, eu e minha família, se tornou para mim um símbolo paradoxal de tristeza e benção.




Tela de Liana Moiseeva
Pintora Russa Contemporânea.


Teresinha Oliveira.

Um comentário:

Maria José Speglich disse...

Teresinha, bem bonito seu espaço.
Eu gosto muito de circo, mas faz muito, muito mesmo, tempo que não vou.


* De quem é essa imagem???

linda.