quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

CARTA PARA ELIZABETH.


                                            Rio de janeiro, outono de 1999.
                                                Domingo de sol em abril.
                                                          Elizabeth.
     Conselhos? Evito dá-los, a qualquer um ...Nem a mim mesma, pois quando o faço não os sigo. A sabedoria grita, a criança insiste e cometo todas as tolices que a emoção impõe.
     Mas para você, que gosta de citações, escrevo esse fragmento de um poema do Mário Quintana, é algo assim : "e esses que estão por aí, atravancando meu caminho... eles passarão. Eu...passarinho."
     Passarinhe pelos seus caminhos.
     Não vá, com suas próprias mãos, procurar pedras e tralhas. Aja ao inverso. Pulverize as pedras para que se tornem grãos de areia e crie sua praia particular onde tudo é permitido, até o nu. E se desnude. Por que não? Já passaste da idade dos rubores e explicações. Mostre sua alma, seus pecados e seus dons, o melhor que há dentro de você. E espere. Tudo dará certo,afinal.
     Faça da alegria sua comparsa e desvie-se das pessoas e dos caminhos que possam fazê-la desanimar. Acreditar num jeito melhor de viver não é tolice ou utopia, é simplesmente colocar em prática certos atos e ações; como fugir da mesmice, das caras emburradas, dos chatos, daqueles que vivem com dor de cabeça, que não gostam nem do azul nem do amarelo, e se comprazem em odiar o mundo.




     Concordo que essa atitude pode parecer pretensiosa, mas assume-se a pretensão e acredita-se, e tenta-se e sofre-se, (é inevitável). Mas também se ri e se tem esperança.
     Dramas? Claro. Quem não os tem? Os de verdade e os de mentirinha...aqueles que criamos para nós mesmos, talvez para sermos amados além desse amor cotidiano que nos escapa e não satisfaz.
     Mas felicidade vira hábito, vicia. E nos torna exigentes e senhores do nosso desejo. Basta não querer o impossível, e sapo só se transforma em príncipe nos contos da Carochinha, ou quando se casa com um de verdade, um lá da Inglaterra, de Mônaco ...Mesmo assim ninguém garante que permanecerá um galante cavalheiro após as fotos para a imprensa internacional.
     Não está conseguindo se resolver sozinha? Apela! Arranja um analista, liga para um amigo e chora, diz todas as bobagens das quais se arrependerá depois, planeja vinganças infantis que nunca colocará em prática, como aquela de sumir sem deixar vestígio, (essa é clássica).
     Mas depois de lavar a alma, ponha-a no varal para secar ao sol e ao luar. Espere a tristeza evaporar e comece de novo; a vida traçará seus próprios rumos e os porá nos eixos.
                    Um beijo.
                      Tere.


                
           Tela de Albert Edelfelt - (1854/1905)
                          Pintor Finlandês.

                      
      Carta para Elizabeth Motta- Rio de Janeiro.


                                                             








                          

2 comentários:

Ana Cecília disse...

A felicidade que descreves, quase penso ser possível alcançar.
Ainda espero o príncipe de Mônaco, pago o analista e vezenquando ligo para os amigos.
Passarinhando, um dia chego lá.

Maria Marluce disse...

A felicidade é um pássaro que buscamos dentro de nós mesmos. LINDO escrito.