segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

JANELA

 Eu sinto a alma pequena, parada
 O amor escorrendo feito massa de pão
 Forno quente, desperdiçado fermento.
 Eu vejo crianças na rua brincando num pote de mel.
 As pretas na beira do rio
 Lavando as roupas sem mãos, sem sabão.
 Os pastéis sendo vendidos
 Enfeitados com a poeira da esquina.
 O remorso na pedra encostado.
 A esperança de pé, cabra-cega fugindo
 Para trás de todo lugar.
 Eu sinto tonteiras, eu sinto vertigem
 Na escada que sobe no torto do olhar.
 Recado de Deus, grafite em pó.
 O sexo nos poros de Deus
 Que se ri das crias como eu
 Que não conseguem decifrar.
 Eu vejo ninfas e ouço línguas brincando canções.
 Peixes e tubarões me levam para o mar.
 Viro concha, viro ostra
 Pérola oculta para ao mergulhador ofertar.
 Pedaços de céu que me brotam dos seios
 Fecundos seios para alimentar multidões.
 Eu sinto a morte caminhando depressa
 Bem mais do que eu.
 Gigantes de vento navegam sem velas no ar
 Arrastam meu tempo
 Amassam o lençol.
 Calafrios de frio no meu coração.
 Sou poeta que cansou de olhar.

Tela de Auguste Toulmouche - (1829/1890)
Pintor Francês

Teresinha Oliveira

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