quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O LACRE VERMELHO


Ela ganhou um presente lá da Itália, mais especificamente da papelaria  numa travessa estreita da velha Roma.
A etiqueta com o nome da loja -Papiro- já sugeria bom-gosto e acerto.
Qualquer objeto de uma loja com esse nome é seta no alvo.
Adora papéis, lápis, cadernos e todas as miudezas que compõem o mundo das papelarias. Ainda mais de uma papelaria romana.
Da mesma amiga que vive passeando pelas cidades do mundo, já ganhara uma caixa com lápis de grafites variados, de outra vez foram os envelopes, elegantíssimos, que realmente fechavam ao serem lambidos, coisa que nunca crera possível. Lá de Florença vieram papéis de carta e cartões, bordados com a padronagem florida da cidade. Jamais soubera que Florença era uma cidade estampada.
Mas o que realmente fez sucesso estrondoso foram os cilindros de cera vermelha para serem usados como lacre. Num arroubo de sorte, o estojo continha também um elegante carimbo com a inicial de seu nome para ao lacre derretido dar veracidade.
Guardou com carinho para correspondências especiais, mas não tão bem guardado foi porque sua neta que também ama os papéis e afins, logo o descobriu, e como toda criança inteligente, encontrou utilidade para ele.
Primeiro foram as inofensivas cartinhas declarando amor para a mãe e o pai, porém quando sua imaginação voou para outros reinos e tempos, onde monarcas lacravam suas mensagens, a confusão se formou.
Mesmo sem saber escrever direito, duas cartas rabiscou e lacrou, queimando as pontas dos dedos apesar de todo aviso, e as colocou nas caixas de correios das duas melhores amiguinhas que na vizinhança moravam. 
Uma como o príncipe Jean de França, chamando a Mariazinha para um baile de máscaras. Outra, do príncipe Xu-Liu, agora imaginando-se na China, convidando  Aninha para um passeio pela pracinha do bairro.
Cartas devidamente lacradas com o borrão de cera vermelha, a inicial do nome autenticando o lacre e a majestosa procedência.
Com a Mariazinha e o príncipe Jean não houve problema. Aliás, qualquer um perceberia pela letra infantil e os erros grosseiros de português, tratar-se de uma brincadeira de criança. Criança esperta, ouvinte e leitora de muitos livrinhos, pois sozinha criou tal enredo e personagens.
Porém o príncipe Xu-Liu foi levado a sério e confundido com um sequestrador pela mãe da Aninha, espectadora costumaz dos programas de TV que sugam a miséria humana até a última gota de sangue. Assaltos, assassinatos, latrocínios...
O lacre garantia a possibilidade do criminoso existir de verdade, e motivo de atração para ingênuas criancinhas.
Assustada, dividiu o susto com a vizinhança e outras mães do condomínio. Foi um fuzuê generalizado. Alguém disse que era bobagem, outro, exagero, mais um que era inteligente, caiu na gargalhada e saiu de fininho dessa surreal tagarelice.
A mãe da Xu-Liu ao se dar conta de tamanha confusão ficou rubra de vergonha e nada aclarou. Isso logo passa, daqui a pouco nem se lembrarão mais disso, essa mulher maluca vai esquecer o assunto... Mas não esqueceu.  
Até o príncipe Xu-Liu se apresentar a todos e mostrar os dedinhos queimados, parte da rua permaneceu em polvorosa.



Tela de Jean Carolus - (1814/1897)
Pintor Belga

Terê Oliva
http://tereoliva.blogspot.com
  


  



Um comentário:

Liliane disse...

Ha, ha, ha! Bela história! E não é que é tudo verdade mesmo? Até senti o cheiro da loja romana ... Preciso compartlhar isto com uma certa viajante ...